SER, AGIR E VIVER LIVRO DE ANÚNCIO JOÃO CALDANA

 ANÚNCIO JOÃO CALDANA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SER, AGIR E VIVER

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porto Alegre

2011


introdução GERAL

 

A finalidade na elaboração deste trabalho foi de pensar a pessoa humana em primeiro lugar como objeto de reflexão metafisica, através do método da síntese a priori, usada por diversos autores contemporâneos. Este método nos fornece o ser de todas as realidades como objeto formal do conhecimento intelectivo. Com o ser também são entendidas as propriedades transcendentais tendo prioridade, a unidade, a verdade e a bondade.

O ser, sujeito destas propriedades é a substancia que constituída por diversas essências, subsiste como suposto natural de todas as predicações.

A essência mais perfeita do ser substancial é a humana, que constitui a pessoa, com suas múltiplas formas de expressão. A pessoa é um pequeno universo como ser em si e para si na sua compreensão ontológica.

Pela capacidade de reflexão, a pessoa tem consciência de si para conhecer a verdade e dispor de si para querer o bem. Assim a pessoa dinamicamente se identifica com seus atos de conhecer e querer.

O agir consequente a esta constituição da pessoa, importa em responsabilidade com dever de responder pelo que conhece e quer, nas decisões que livremente toma.

Assim o “ser pessoa” por sua constituição ontológica e expressão psicológica de conhecer e querer livre, desenvolve sua existência, sua situação no mundo.

Obstáculos, vicissitudes e transtornos afetam a existência do ser humano, interferindo no conhecimento e na responsabilidade de seu agir.

Nestas situações de anormalidade, de modo especial no comportamento psicológico, a existência do homem merece especial atenção e ajuda.

Como ser de grandeza original, manifesta em sua forma peculiar de conhecer e sua consequente capacidade de poder escolher livremente, o ser humano realiza na hierarquia dos valores o mais elevado bem, que é o valor moral.

Este valor é consequência das condições de normalidade psicológica para agir, criadas pelo cuidado permanente sobre as funções donde procede a responsabilidade moral.

Assim nos propomos entender a pessoa como ser original, de agir responsável, necessitado de cuidados para realizar sua racionalidade.

Sem a pretensão de escrever um livro, apresentamos um manual de reflexão sobre dados que constituem e acompanham a existência humana.

Pensamos que as reflexões deste trabalho possam ser úteis a quem tem gosto pela filosofia e com sua ajuda possa viver e conviver bem.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ser

 

 

 

 

METAFÍSICA


INTRODUÇÃO

 

1. A operação própria da razão, que possibilita ao ser humano o conhecimento, é a afirmação, o juízo, que afirma ou nega a realidade. Refletindo nesta operação, chega-se a entender o que se conhece e como se conhece. O conhecimento na afirmação, é conhecimento da realidade singular existente. Este conhecimento é feito através de noções objetivas universais, que determinam a natureza essencial da realidade singular ou de suas qualificações acidentais.

A razão forma noções objetivas, abstraindo-as dos elementos singularizantes, para nelas entender somente a natureza essencial da realidade singular. No primeiro grau de abstração, as noções universais objetivas, conservam ainda características sensíveis da realidade singular. Neste caso trata-se da matéria sensível comum do singular próprio. A noção de "pedra", por exemplo, significa todas pedras singulares, no aspecto sensível comum a todas as pedras.

Num segundo grau de abstração ainda mais universal, as realidades materiais podem ser representadas, simplesmente pela noção objetiva de quantidade (extensão), princípio inteligível comum de todas as realidades materiais. Por si, a quantidade é somente inteligível, e se for sensível, se-lo-á através das qualidades. Quantidade é a dimensão interna própria'de qualquer realidade material extensa. É a expansão da realidade corpórea em si mesma.

A capacidade de conhecimento da razão humana, atinge ainda um grau superior de inteligibilidade do real singular existente. Conhece-o, enquanto é simplesmente afirmável, como ser.

O ser é o princípio último de inteligibilidade do real na afirmação, e é o princípio fundamental do existente singular. Neste grau mais elevado do conhecimento racional, diretamente a afirmação atinge o ser, como aquilo pelo qual a coisa sensível é inteligível. Fazendo-se uma reflexão ulterior sobre o objeto da afirmação, chega-se ao ser, como objeto próprio do intelecto. O ser, é aquilo que o intelecto propriamente conhece. É seu objeto formal, objeto próprio da Ontologia.

2. No correr do tempo, diversos nomes foram atribuídos à parte da filosofia, que trata do ser, como fundamento da realidade e do conhecimento.

Aristóteles chamou-a de "Filosofia Primeira", "enquanto todas as ciências dela recebem os princípios".

Andrônico de Rodes, publicando por volta do ano 70 a.C. o tratado da "Filosofia Primeira" de Aristóteles, deu-lhe o nome de Metafísica.

A Filosofía Primeira ou a Metafísica, a partir do século 17 passou a denominar-se Ontologia (Du Hamel, 1681) e de Filosofía do ser (Maignan, 1673).

A Ontologia constitui o tratado que explica o ser, ou melhor, que explica os entes existentes, enquanto fundados no ser.

O objeto material da Ontologia são todos os entes, todas as realidades existentes. O objeto formal é o ser, enquanto fundamento dos entes. Ontologicamente, os entes existentes reais singulares, existem e são inteligíveis pelo ser. O ser, como principio dos entes, transcende os limites da singularidade, do tempo e do espaço.

O ser significa o ato de posição e de intelecção última do real. O termo "logos" no vocábulo "ontologia", significa a mente em sua função de conhecer. A expressão própria do "logos", dá-se no ato de conhecer o ser. Por isso, a Ontologia apresenta a manifestação do ser real à mente, por meio da reflexão no ato de conhecer, que é a afirmação.

A Ontologia pertence à ordem do conhecer metafísico, enquanto seu objeto formal, que é o ser, transcende sem prescindir da realidade física. Tal ser, ou é imanente à realidade física, ou, como causa primeira metafísica, ultrapassa esta mesma ordem.

A tarefa da Ontologia, é verificar a inteligibilidade fundamental do ser dos entes. É metafísica geral.

3. O ponto fundamental de partida da reflexão filosófica, encontra-se na manifestação do ser ao intelecto, no ato de conhecer. Neste ato, conhecimento e ser revelam-se unidos numa realidade só. Esta unidade, é pois constituída do ato de conhecer e do ser conhecido.

A Teoria do Conhecimento interpreta o ato de conhecer do intelecto, e a Ontologia explica o ser conhecido por este ato. A Teoria do Conhecimento está intimamente vinculada à ordem do ser, como a Ontologia vincula-se ao ato de conhecer do intelecto. A Teoria do Conhecimento, é disciplina de natureza metafísica e funda a possibilidade da metafísica pela explicação do conhecimento intelectual do ser. Considera o modo de conhecer da mente humana. A Ontologia propõe-se explicar o ser real, conhecido pela mente.

4. O método na Ontologia para a explicação do ser, possui duas etapas. A primeira, busca o conhecimento do ser pela reflexão metafísica. A segunda, desenvolve a explicação do ser pela síntese a priori.

A reflexão metafísica tem como objetivo atingir o ser do real, contido no ato de conhecer da afirmação. O inteligível está no sensível, mas é necessário captá-lo pela reflexão. Na afirmação atingem-se duas modalidades do real. que são a coisa sensível e seu fundamento, que é o ser.

A intenção primeira ou direta da afirmação, dirige-se à coisa sensível. Isto faz com que o ser, só implicitamente seja atingido e como aquilo pelo qual a coisa sensível se manifesta ao intelecto. Assim o sensível se manifesta ao intelecto pelo ser.

A intenção segunda ou reflexa se dirige ao íntimo do real. É uma reflexão explícita, que atinge o ser, como aquilo que o intelecto entende. Já não se atinge o sensível pelo ser, mas entende-se o próprio ser, como fundamento do sensível.

Se o ser fosse entendido na intenção direta ou primeira, existiria uma intuição intelectual. A reflexão metafísica, procura explicitamente entender o ser, como objeto formal do intelecto.

Além da reflexão metafísica, cujo objetivo é chegar ao ser, existem ainda a reflexão psicológica e a reflexão lógica. A psicológica, considera o processo do conhecimento, como realidade psíquica. Por sua vez, a reflexão lógica está voltada para o modo lógico do conhecimento do real, através de conceitos, juízos e raciocínios. As segundas intenções lógicas, consideram estas formas humanas de pensar, isto é, são pensamentos sobre o ato de pensar.

A síntese a priori, é a segunda parte do método usado pela Ontologia, e tenta uma explicação do ser, atingido pela reflexão metafísica. A explicação discursiva de qualquer realidade, é feita pelo intelecto, através de juízos e raciocínios, fundados na realidade e na capacidade de conhecer.

Os juízos e raciocínios são de natureza diferente, conforme a realidade e o modo pelo qual pretendem explicá-la.

Há três espécies de juízos, sendo um analítico e dois sintéticos. No juízo analítico, a nota do predicado está contida formal e implicitamente no sujeito. Analisado o sujeito, encontra-se o seu predicado. O homem é um animal racional, por exemplo, é um juízo analítico. Para se fazer tal juízo, não é necessário recorrer sempre à experiência, mas basta considerar as notas constitutivas, que constituem o sujeito. Neste juízo, não há aumento de conhecimento por parte de quem afirma.

Nos juízos sintéticos, aumenta o conhecimento, pois os predicados acrescentam algo novo, que não existe na forma constitutiva do sujeito. Há duas espécies de juízos sintéticos:

O juízo sintético “a posteriori”, acrescenta ao sujeito um predicado, que simplesmente lhe convém como um fato, mas que não pertence nem a seus elementos constitutivos e nem consecutivos. Tal predicado, é conhecido somente pela experiência a posteriori, como por exemplo, na afirmação: "A mesa é branca".

O juízo sintético a priori, acrescenta ao sujeito um predicado que a ele está unido por um nexo necessário, e por isso virtual e implicitamente, já é pensado no sujeito. Ao se dizer que o homem é risível (pode rir), ou que o açúcar é doce. tem-se juízos sintéticos a priori. Neste juízo, o predicado não é nota constitutiva do sujeito, mas é conseqüência da natureza do sujeito. O sujeito inclui o predicado, não segundo seu principio formal próprio, mas como conseqüência do modo de ser da essência.

Nos juízos sintéticos a priori, para se entender o nexo entre o sujeito e o predicado basta considerar os termos, sem a necessidade de recorrer sempre à experiência.

Há duas formas de raciocínios, a saber: o indutivo e o dedutivo.

O raciocínio indutivo é formado por juízos sintéticos a posteriori, que enunciam um fato singular. A partir do fato singular, através do princípio de razão suficiente, chega-se à verdade universal, por necessidade física. Se um predicado convém constantemente e nas mesmas condições a um sujeito, será próprio a tal sujeito. Assim são todas as leis físicas, próprias de tais sujeitos.

O raciocínio dedutivo parte da certeza de um juízo universal, para outra certeza universal ou particular. Assim, por exemplo, se há certeza de que todas as realidades espirituais são imortais, conclui-se que se alma humana for espiritual, será imortal.

5. O método da síntese a priori, nega o puro apriorismo da metafísica analítica (Leibniz), que estabelece a mente humana, como única fonte de conhecimento, independentemente da experiência. Na metafísica analítica, através da análise das idéias inatas, tenta-se explicar a problemática do ser.

De outra parte, o método da síntese a priori exclui igualmente a metafísica indutiva, cujas conclusões, sem o a priori do intelecto, não ultrapassam o conhecimento dos princípios físicos da realidade.

O intelecto (intus-légit) afirmando o real, parte dele, para conhecê-lo nos elementos inteligíveis que possui, desvendados e atribuídos ao objeto pelo próprio intelecto. São elementos reais, puramente inteligíveis, sem conotações de natureza sensível.

O inteligível para Platão, por exemplo, não está na coisa sensível, mas de certa forma possui seu ponto de partida para conhecê-lo, na coisa sensível, enquanto esta lhe serve de ocasião para despertar o a priori, que consiste no conhecimento anterior do inteligível.

No método da síntese a priori, este anterior do conhecimento do inteligível, não é um conhecimento já possuído do inteligível, mas uma capacidade de desvendar o inteligível existente no real. O intelecto desvela para si o ser inteligível, no ente afirmado.

O método da síntese a priori usa a síntese, enquanto esta exige como ponto de partida a experiência dos entes. Pela capacidade a priori do intelecto, são explicados os elementos inteligíveis, implicitamente contidos na realidade singular afirmada.

No cotidiano, são formulados continuamente juízos sintéticos a priori com raciocínios indutivos e dedutivos. Ao se julgar, que da fumaça se conhece o fogo, tem-se um juízo sintético a priori de elementos físicos.

Pelo método da síntese a priori, procede-se da afirmação do ser, a explicação de seus componentes inteligíveis.

6. O conhecimento intelectivo se processa pela afirmação. Pela reflexão na afirmação começa-se a filosofar. A afirmação, que envolve o sujeito que afirma e o objeto afirmado, possui um aspecto absoluto e outro relativo.

O aspecto relativo diz respeito ao sujeito, que julga em situação concreta e histórica de tempo e espaço.

O aspecto absoluto da afirmação, transcende os limites do tempo e espaço, e atinge a realidade, não somente como aparece, mas como é em si mesma. Em seu próprio ser real inteligível.

No aspecto relativo estão o sujeito e as realidades afirmadas, todos ligados ao tempo e ao espaço. São históricos. Nesta situação, o conhecimento operado pelos sentidos, é considerado infra-histórico.

O conhecimento histórico da parte do intelecto, é o das coisas situadas na duração que passa. O conhecimento supra-histórico, é o da realidade enquanto inteligível, em seu aspecto absoluto, conquistado pela reflexão metafísica.

O intelecto humano, conhecendo discursivamente e não intuitivamente, passa, através da reflexão, do histórico ao supra-histórico. O conhecimento humano discursivo, se processa em três modos sucessivos de operação, que são: a simples apreensão, o juízo e o raciocínio. A simples apreensão capta somente a essência do real, representada pelo conceito. Por si não diz nada da existência de tal realidade, nem de seu ser. Pode-se falar somente de juízo implícito na simples apreensão.

O ser, propriamente se manifesta no juízo, na afirmação, ato que afirma algo de alguma coisa de modo absoluto. Há juízos existenciais e juízos essenciais. Os primeiros acentuam o “estar aí” da coisa, e os juízos essenciais, indicam mais o modo de estar aí da realidade. São exemplos destes juízos: "Pedro existe" e "Pedro é homem". Em ambos implícita ou explicitamente, afirma-se o ser inteligível do sujeito, que é afirmado, e igualmente a sua essência ou natureza.

A redução da afirmação ao ser, somente é perfeita pela reflexão do eu afirmante, sobre si mesmo ou sobre a realidade afirmada, externa ao próprio eu. Na intenção direta, atinge-se somente a realidade sensível pelo ser, mas na intenção reflexa, atinge-se o próprio ser na realidade sensível, como sendo o objeto próprio do intelecto.

Na afirmação constata-se, que aos entes compete o ser, como ao homem compete a alma, para poder existir. O ente não é o ser, mas é pelo ser. Assim podemos dizer, que Pedro existe como homem, pelo seu ser humano.

A síntese de sujeito e predicado feita na afirmação, fundamenta-se na realidade, e corresponde à síntese real do ser e da essência. A síntese real nos entes, manifesta-se mais no aspecto sensível da matéria no tempo e no espaço. A síntese da afirmação, indica mais os princípios de inteligibilidade do real, que são o ser singular do sujeito e a essência do predicado. No juízo, exprime-se o ser dos entes não contido na simples apreensão do intelecto.

Para o desenvolvimento deste trabalho, quanto à terminologia, método e conteúdos, tentamos harmonizar e seguir, na medida do possível o pensamento e o procedimento de alguns autores citados na bibliografia deste texto.

Dentre estes autores destacamos os seguintes: André Marc, Émerich Coreth, João Batista Lotz e Joseph de Finance.


i parte: o ser e suas propriedades

 

CAPÍTULO I

 

A AFIRMAÇÃO DO SER

 

1. Trata-se neste capítulo de determinar o objeto próprio da Ontologia, que será colhido no ato de afirmação do intelecto. Como no ato de ver se atinge o visível no objeto existente visto, assim no ato de entender, colhe-se o inteligível, no entendido pela afirmação.

Na afirmação está contida a idéia de ente, que em seu significado, contém os elementos inteligíveis da realidade singular. Mediante esta idéia chega-se ao próprio ato de ser, ao próprio ser do ente. A idéia de ente, portanto, funda-se objetivamente na realidade.

O ente como conceito da afirmação, não admite uma definição essencial, que signifique somente a essência. Dele pode-se fazer uma descrição, como algo ao qual compete o ser. Nesta descrição, o termo "algo", significa essência capaz de existir pelo ser singular das realidades singulares.

Na afirmação não se manifesta imediatamente o ser, mas o ente constituído pelo ser, determinado e limitado por uma essência. O ato de afirmação portanto, contém dois elementos fundamentais: a essência, que indica possibilidade do ser existir e o ser, que é a realização desta possibilidade.

O algo ao qual compete o ser, pode não possuir ser real atual, no caso de ser puramente de razão ou possível futuro. A competência de existir do ser, não inclui, nem exclui sua existência real atual. Realmente no ato de afirmação do concreto, está incluído o ser como atualmente existente, mas na descrição do ente, em seu sentido genérico, abstrai-se da existência atual.

2. A noção de ente, colhida na afirmação, como algo ao qual compete o ser, pode ser considerada em sentido nominal e em sentido verbal. Como nome, em sentido nominal, significa algo que pode existir, possua ou não ser atual. Em sentido verbal, como participando do ser, o ente significa aquilo que atualmente existe.

Evidentemente, em seu sentido nominal, o ente possui significação mais ampla e encerra o ente tomado em sentido verbal. Nominalmente, o ente significa a realidade atual, a possível futura e a puramente de razão.

O ente, como algo ao qual compete o ser, contido no ato de afirmação, significa mais o ser singular do sujeito do que a essência universal do predicado.

Propriamente, o objeto material e formal da Ontologia é o ente verbalmente considerado. Do ente real, atualmente existente, chega-se ao ente possível, que é a condição ideal para a existência do real atual. A condição ideal é sempre pensada, quando se pensa o real atualmente existente. Na ordem ideal, o possível precede ao atualmente existente, mas na ordem real, do existente chega-se ao possível.

3. A noção de ente, não pode significar somente essência, contida no conceito do predicado da afirmação. O ser que compete ao ente e que o faz existir, não está contido no predicado da afirmação, mas é próprio do sujeito real afirmado. Como ato de ser afirmado, o ente ultrapassa a possibilidade essencial, para se constituir em algo ao qual compete o ser real atual.

A noção de ente é universalíssima, de extensão máxima, enquanto significa as possibilidades todas de ser, quer existam, quer não. E uma noção transcendental, pois não se limita a nenhuma ordem particular de realidades. A transcendentalidade é propriedade lógica da idéia de ente, e significa o modo universal de predicar-se de tudo o que existe. A transcendência é propriedade real. E própria do ser real metafísico, que não se prende a situações de tempo e espaço, mas ultrapassa-as, transcende-as. É algo semelhante à transcendência dos valores morais, que estão no ser humano, mas não se circunscrevem às situações do tempo e do espaço.

A transcendentalidade da idéia de ente, como conceito afirmado, revela a transcendência do ser, não preso à historicidade espaço-temporal. Assim, a transcendentalidade como propriedade lógica, compete à idéia de ente como universal reflexo, que se predica de tudo. Esta propriedade por sua vez, ordena-se ao universal direto, que é o ente metafísico contido em todas as afirmações e que, analogamente, é predicado de todo o real existente.

4. Da reflexão no ato de afirmação surge a noção de ente, como conceito afirmado, realmente objetivo e não como pura ficção da mente. Pela reflexão metafísica, chega-se à conclusão, de que o ente transcendental está sempre incluído em nosso intelecto, como condição suprema da possibilidade de qualquer operação racional.

Qualquer afirmação encerra a noção de ente, pois tudo o que se conhece por afirmação, é ente. A afirmação não seria possível e perderia seu valor absoluto, se o ente também em si objetivamente não fosse transcendente, (isto é, se tudo não fosse ente) independentemente das circunstâncias de sua existência.

O conhecimento humano não é completo na simples apreensão. A simples apreensão representa a essência da realidade, que não se define como existente, mas, como possuindo ser. A essência por si, é um modo possível do ser existir, e como tal não significa a existência deste modo pelo ser. O conhecimento intelectivo somente é completo na afirmação, que diz existir o que é, e não existir o que não é.

Em cada afirmação, o que varia é o conteúdo e o que permanece sempre, é a forma de afirmar algo ao qual compete o ser. A afirmação verdadeira, é o ato pelo qual se afirma algo de alguma coisa de modo absoluto. É o firme consentimento da mente (intelecto), dado à síntese objetiva dos termos, síntese objetiva na própria realidade, independentemente do sujeito que afirma.

O valor da afirmação verdadeira é absoluto, pois vale não somente para o sujeito que afirma, mas para qualquer intelecto, enquanto afirma o ente. A síntese lógica do sujeito e predicado na afirmação origina-se da apreensão pelos sentidos e pelo intelecto, do objeto afirmado.

Quando, por exemplo, se diz na afirmação que "Pedro é homem", o sujeito "Pedro" é a realidade concreta sensível, o predicado "homem", é o mesmo objeto, tomado em sua significação essencial, específica e universal. O "é", exprime a objetivização do conhecimento, isto é, que aquilo que se conhece é objeto real. A afirmação identifica o conhecimento do intelecto com a coisa conhecida na realidade. O "é", diz que o conhecido, como está no intelecto, está também na realidade.

Refletindo-se portanto na afirmação, chega-se à conclusão, que aquilo que o intelecto entende, é o ser real, com essência determinada, representado no intelecto pela idéia objetiva de ente, que significa algo ao qual compete o ser.

5. À mesma conclusão chega-se, considerando o modo de se conhecer o objeto no ato de afirmação. Neste ato, o objeto manifesta-se à mente, como unido e ao mesmo tempo distinto do sujeito que conhece. O sujeito tem consciência de sua unidade, distinta da unidade do objeto.

Há pois no ato de afirmação, consciência da existência do sujeito em si mesmo e do objeto em si mesmo, como independentes, como existentes em si, com próprio ato de ser.

O ato de intelecto, portanto, atinge o sujeito e o objeto, segundo a razão comum de ser algo, segundo a idéia comum de ente. Assim, toda a realidade é afirmável pelo intelecto sob a razão de ente, enquanto objetivamente se apresenta como ente, isto é, como ser e essência correspondente.

6. O intelecto é uma faculdade, e conhece afirmando a realidade existente. No conhecimento unifica tudo, como algo existente pelo ser, como ente. A razão portanto, pela qual todas as coisas reais são objeto do intelecto, é a razão de ente. Assim, a idéia de ente está contida em cada afirmação, e por isso é o objeto formal, a forma objetiva do intelecto. É o ente, como ser com essência própria.

Quando o intelecto reflete no ato de afirmação, tem consciência, que seu objeto é a razão de ente, abstraída da realidade sensível. Esta idéia de ente, enquanto significa o real existente, é o objeto da Ontologia.

A idéia de ente, é a forma inteligível do real, e dá-se no ato de conhecer pela afirmação. O intelecto na presença da idéia de ente, está em ato na presença de si, e investigando tal idéia entendida, investiga a si mesmo como intelecto, que entende. Assim, os princípios de inteligibilidade do ente, são os princípios da mente que entende. O entendido e o entendedor possuem princípios comuns. Descobrindo-se os princípios pelos quais o intelecto assimila a realidade, isto é, torna a realidade inteligível, descobrem-se os princípios da própria realidade enquanto inteligível.

Os princípios do intelecto, são os princípios do ente inteligível, princípios ontológicos.

Se o ser humano fosse intelecto puro, todo o seu conhecimento seria metafísico e intuitivo. Por estar condicionado pelos sentidos, o intelecto conhece por abstração e discursivamente, com possibilidade de erro.

7. A filosofia positivista exclui qualquer possibilidade de conhecimento metafísico da realidade. Somente admite a existência dos fenômenos positivos do mundo sensível. Aceita somente a ciência positiva, cujas leis explicam os fenômenos empíricos. A realidade, que transcende o mundo empírico, não é objetiva.

O kantismo e o neo-kantismo, excluindo a possibilidade de se atingir a realidade metafísica em si, consideram os entes não sob o aspecto de ser. Limita-se sua reflexão aos entes como aparecem, e sob o aspecto desta aparência, relacionada essencialmente ao sujeito humano, explicam os entes. O ser é reduzido à consciência, sem objetividade real. Em lugar do ser, põe-se o sujeito humano, como último fundamento da realidade, que tudo inclui em si e do qual se deriva o ser. Isto se refere ao ser, enquanto se manifesta ao homem e não enquanto existe em si.

Para M. Heidegger, o ser revela-se no ser do homem. Por isso, em primeiro lugar, deve-se considerar o ser humano, para daí partir para o ser simplesmente, relacionado à existência. E consistindo o ser humano na temporalidade, o tempo torna-se o âmbito, no qual a questão do ser deve ser posta. Daí por si, o ser como ser, está sujeito à temporalidade e à fínitude.

 

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CAPÍTULO II

 

A ESSÊNCIA DO SER

 

1. A idéia de ente formada no ato de afirmação, foi descrita como, algo ao qual compete o ser. Algo, significa a possibilidade real, que uma natureza tem para ser existencializada pelo ser. Nada existe ou poderá existir, que não seja uma natureza, uma essência, como possibilidade de existir.

A composição de sujeito (ser) e de predicado (essência) na afirmação, importa em composição também no ente realmente existente, não de princípios separáveis, mas proporcionais entre si. Começando a existir, o ente finito não começa como ser simplesmente, mas como ser de determinada essência. José começa a existir como ser humano, e não sendo simplesmente ser.

O ente diz proporção do ser para a essência. O conteúdo da idéia de ente, deve corresponder às exigências do intelecto que conhece, e das realidades conhecidas. O intelecto exige, que a idéia de ente seja uma, enquanto objeto de uma faculdade. Exige também, que seja uma idéia comum a todos os existentes diversificados, pois tudo o que existe, é afirmável, como singular próprio. Deve ser uma idéia, que se diversifica em cada realidade singular. Como afirmável de tudo, deve conter em si todos os existentes finitos.

A essência da idéia de ente, significa o modo de existir do ser de todas as coisas. E o ser, significa o princípio da existência do modo de ser de cada coisa.

A idéia explícita de ente deve corresponder às exigências do intelecto, que conhece e de seus objetos, afim de exprimir a unidade do conhecimento e da realidade. Esta idéia é formada, ao pensar-se o real como real, no ato da afirmação.

2. A simples apreensão é o elemento básico da afirmação, mas somente esta nos dá o conhecimento da realidade. Na afirmação, a realidade é possuída como verdade, com consciência da oposição entre sujeito e objeto. Há na afirmação um princípio, que não existe na simples apreensão. A simples apreensão representa a idéia universal da realidade. Na simples apreensão, a mente não aplica a essência à realidade existente. Esta aplicação é feita pelo juízo, que afirma o conceito da realidade, e diz que tal conceito realmente existe.

No juízo, o conceito afirmado põe-se objetivamente na realidade, pelo ser do sujeito na afirmação.

Na afirmação, o intelecto vive o ato da presença da realidade existente pelo ser. O conceito é afirmado, conforme o ato de existir da própria coisa. Assim, tem-se na afirmação, o sujeito com ser próprio e proporcional ao predicado. O predicado representa a essência do sujeito. A força da afirmação é proporciona] a seu conceito.

O ser, portanto, é proporcional à essência que realiza, como a afirmação é proporcional ao conceito. Desta forma, a relação do conceito para a afirmação, exprime a relação da essência para o ser. O real existente é afirmável, que existe firme na realidade, com proporção entre ser e essência.

Portanto, seja qual for a diversidade dos conceitos, e conseqüentemente a diversidade dos atos de afirmação destes conceitos, o ato de afirmação é sempre proporcional ao conceito, como a coisa possui sempre essência proporcional ao ser e ser proporcional à essência. O aspecto comum a todos os conceitos, seja qual for sua constituição própria, consiste na proporcionalidade do conceito à afirmação e da essência ao ser.

A última unidade de nosso conhecimento e de todas as coisas reais, está no fato, de que todos os conceitos e todas as essências, significam proporcional unidade em ordem ao ser. A idéia de ente é análoga ou proporcional a todos os entes, enquanto todos possuem ser, proporcional à diversidade das essências. Esta idéia, que representa toda a realidade, significa todas as afirmações do real, proporcionais às essências correspondentes.

As exigências do intelecto e de seus objetos estão assim satisfeitas, enquanto a idéia e a realidade dos entes contém uma unidade proporcional. O ser unifica proporcionalmente a diversidade das essências.

3. Tudo pois, se manifesta ao intelecto como ente, no ato de afirmação e como ente determinado. O ente finito é algo, que existe pelo ser, isto é, o ser existe não simplesmente como ser, mas com determinada natureza. A natureza ou a essência é a capacidade, a potência subjetiva do ser e determina o modo de existir do ser. O ser por si, diz plenitude de perfeição. É limitado pelo modo da essência que realiza. É a atualidade de ente, isto é, o que faz da essência possível um existente atual. Essência e ser são dois princípios metafísicos, duas causas internas, que constituem o ente finito e possibilitam sua existência atual.

A existência não é princípio, mas é um fato, um acontecimento, um aspecto da realidade, e significa o “estar aí” atual dos entes. A existência é resultancia da presença do ser da essência.

A quididade é a manifestação da essência do ente finito. E o modo, como o ser finito se revela.

4. A idéia universal de ente, se predica de todas as realidades, distintas entre si, segundo suas essências. Sendo predicado de tudo, a idéia de ente encerra em si mesma todas as realidades, enquanto tudo é ente determinado.

Pergunta-se como estão contidas na idéia de ente as realidades. Estão simplesmente como entes ou como entes determinados, segundo seus próprios modos de ser? Se não estão segundo seus modos de ser, a diferença que os determina não está contida na noção de ente. O que porém, está fora da noção de ente, é nada e o nada não causa determinação alguma.

A idéia de ente, contém todas as realidades com suas diferenças singulares próprias em ato, mas de modo confuso. A razão, é que a idéia de ente significa a essência em sentido genérico, ordenada ao ser, e com isso, refere de modo geral as essências todas ao ser. Sendo as essências diferentes em si mesmas, não pode ser entendida a idéia de ente, sem nela se entender as diferenças das essências.

O ente contém a diversidade das essências, não de modo explicito, mas confuso e implícito, e refere de modo geral as essências ao ser e não de modo determinado.

5. Como a noção de ente comum a todos os entes, pode significar este ou aquele determinado modo de ser, próprio a um ente particular ou a uma classe de entes?

Trata-se da passagem da idéia confusa de ente, para uma idéia clara, determinada e indicativa de uma noção específica ou de uma realidade singular. Para exemplificar, vejamos como comumente se determina uma noção genérica. A noção de animal, por exemplo, se determina para significar a noção específica de homem, acrescentando-lhe a noção racional, por si alheia à noção de animal. Neste caso há uma composição perfeita de dois elementos, onde um não inclui em ato o outro. Inversamente, através da abstração perfeita, chega-se à noção de animalidade, prescindindo da racionalidade. No exemplo citado, faz-se a abstração e a composição de conceitos abstratos, onde um pode existir separado do outro.

A noção de ente entretanto, não pode ser determinada por composição, porque não é uma noção abstrata, visto se formar por afirmação do singular. Conseqüentemente, a noção de ente, não se obtém por abstração perfeita da realidade, enquanto ela inclui tudo o que existe, por isso é própria a tudo o que existe.

Assim, a determinação da noção de ente em seus modos singulares de existir, é feita através de um conceito mais claro, explicitado em cada afirmação do real. Na afirmação, a noção de ente se determina para significar o singular afirmado. Por exemplo, para significar o ser humano, a noção genérica de ente se determina na afirmação do sujeito singular. Por semelhança, poder-se-ia exemplificar com a explicitação do sentido da letra A, feita com diversas grafias. A letra A possui o sentido de A, mas pode ser escrita de diversos modos, conforme a determinação que se pretende.

Diferem portanto, o conceito confuso e universal de ente, de seu conceito mais claro, determinado por uma explicitação no ato de afirmação.

Deve-se notar que a noção genérica de ente, não significa uma noção, que representa um gênero fora da espécie, mas o termo "genérico'" na noção de ente, significa "universal".

6. A extensão da idéia de ente é máxima, visto predicar-se de tudo o que existe. A compreensão implícita também é máxima, enquanto encerra todas as realidades, significadas em seu sentido nominal. A compreensão explicita é mínima, enquanto significa simplesmente o ato de ser de algo.

A idéia de ente, forma-se ao ordenar-se um conceito universal (essência), para uma realidade existente pelo ser. Assim, o intelecto entende a última inteligibilidade de todas as idéias no ato de ser, pelo qual as idéias são postas na realidade. E a última inteligibilidade da realidade, também é o ser, pelo qual ela existe.

Forma-se assim na idéia de ente, a síntese da ordem do conhecimento com a ordem da realidade.

7. E o nada é uma realidade afirmável? Ao ser, propriamente não é possível opor realidade alguma, pois tudo é ser.

Ao ser nominalmente considerado, opõe-se o nada absoluto, da essência e da existência. Ao ser verbalmente considerado, isto é, ao ser atualmente existente, opõe-se o nada da existência atual, conservando-se a essência possível. Assim, o nada é um juízo de negação ou um relacionamento mental entre uma coisa e sua negação. O nada é o não ser. É a negação da posição do ser.

Para Hegel, há no ser um juízo de negação, isto é, não é um juízo de negação que gera o nada, mas o nada no ser origina um juízo de negação. Assim, o não ser e o nada, constituem entidades reais no ser. Para Hegel, no próprio ser existe sua negação.

O ser puramente de razão, opõe-se ao ser real atual ou possível. O ser puramente de razão existe somente quando é pensado. É o conteúdo do pensar. É o pensado do pensamento, enquanto pensado.

Os seres puramente de razão, são as privações, as negações e as relações lógicas, como a cegueira, o nada, e o gênero e espécie nas afirmações lógicas. Os entes puramente de razão, fundamentam-se na ordem real, enquanto existem fatos reais, que dão origem a este modo de pensar. A cegueira, por exemplo, existe como falta de visão.

 

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CAPÍTULO III

 

A UNIDADE DO SER

 

1. A propriedade lógica da idéia de ente, como universal reflexo, já se disse, é a transcendentalidade. Por esta propriedade a idéia de ente é predicado de todas as realidades atuais ou possíveis.

O ente, como universal direto ou metafísico, possui propriedades transcendentes, que determinam mais a qualificação de sua natureza. Estas propriedades transcendentes, são modos de ser, que resultam para os entes, enquanto são, e exprimem mais claramente o que são. São características, que acompanham necessariamente o ser dos entes.

Estas propriedades significam o ser dos entes, expresso de um modo mais claro. São transcendentes, como propriedades reais, próprias de cada ser. Possuem a mesma extensão que a idéia de ente, e não se distinguem realmente do ser. A distinção, que as propriedades possuem do ser, é a distinção de razão raciocinada menor, na qual o ser inclui implicitamente sua propriedade. As propriedades expressam diversas modalidades, que o ser em ato, só implicitamente exprime.

Estas propriedades portanto, dizem-se materialmente convertíveis com o ser. Formalmente, porem, cada uma possui seu significado próprio. A propriedade metafísica, não é como a propriedade física, um atributo acrescentado ao ser, fazendo com ele composição, pois nada se pode acrescentar ao ser, que não seja ser.

As propriedades não acrescentam nada de novo ao que o ser já é, mas através de um conceito mais claro, exprimem melhor sua significação. Nenhuma separação é possível entre o ser e suas propriedades.

A unidade, a verdade e a bondade são consideradas como propriedades do ser.

2. A razão pela qual o ente é ente pelo ser, é a mesma razão pela qual o ente é uno. Uno, é o que é indiviso em si e diviso dos outros. A indivisão em si, é o elemento fundamental da unidade interna do ser. Indiviso, é o que é idêntico consigo mesmo, em si não é outro, e não pode não ser.

A unidade diz também divisão dos outros, isto é, o ser uno em si, não pode ser outro ser. A divisão dos outros, significa a unidade em oposição à multiplicidade dos outros.

Enquanto indiviso em si e idêntico consigo mesmo, o uno opõe-se ao nada, e enquanto diviso dos outros, opõe-se ao múltiplo. Se o uno for composto, será indiviso, mas divisível. Se for simples, será indiviso e indivisível.

A unidade transcendente é própria do ser enquanto ser e. convém a todos os seres em seus vários modos essenciais de existir. Transcende a quantidade. É própria do ser, com ou sem quantidade.

A unidade predicamental é categorial. Pertence à categoria da quantidade. É a unidade própria dos corpos materiais, possuidores de quantidade.

A multiplicidade transcendente, transcende a quantidade, para abranger todos os seres. A multiplicidade predicamental é própria dos seres materiais e abrange somente os seres quantificados. A multiplicidade transcendental possui a universalidade da idéia de ente, enquanto abrange todas as realidades.

Na idéia de ente, está incluída a unidade, enquanto a idéia formada por afirmação do singular, diz indivisão em si do ser. Ao mesmo tempo porém, enquanto a idéia de ente é a afirmação de todas as realidades, inclui em si a multiplicidade dos entes, e por isso é múltipla. Afirmando-se o singular, afirma-se o indiviso em si, isto é, o uno com ser próprio. Entretanto, a idéia de ente contém todas as afirmações de todos os seres, e por isso, ela contém a totalidade dos seres, com suas essências. Assim, a idéia de ente é una e múltipla, e diz unidade diversificada e diversidade unificada.

3. Qualquer afirmação objetiva, afirma a necessidade de existir do ser, indiviso em si, idêntico consigo mesmo e não idêntico ao nada.

É possível opor à afirmação do ser sua negação? Em outras palavras, pergunta-se, se é possível negar o ser.

Deve-se notar, que a afirmação do princípio "ser" num ente, é a afirmação de uma realidade singular, e implicitamente a afirmação do mesmo princípio, em todos os entes particulares. Afirmando-se ou negando-se o princípio formal ser, afirma-se ou nega-se o princípio formal de todos os entes.

Deve-se observar ainda, que a idéia de ente, enquanto forma objetiva de nossa afirmação, é de tal natureza, que por ela julga-se a realidade e por ela a realidade existe. Assim, o afirmável é tal, enquanto é real, e o real é tal, enquanto é afirmável. Afirma-se portanto, a inteligibilidade no existente real, e a ordem à existência na idéia inteligível.

Negando-se nos entes o princípio ser, que é a forma da inteligibilidade, negar-se-ia qualquer inteligibilidade no existente, e na essência inteligível, negar-se-ia a ordem do ser. Em outras palavras, afirmar-se-ia a ininteligibilidade da realidade e a irrealidade das idéias, ou do ser, como idéia inteligível.

É pois, possível negar o princípio formal "ser" nos entes?

Evidentemente, existe a possibilidade de negação de alguns entes particulares, no sentido de que poderiam não existir. Mas, pode-se negar o princípio ser nos entes e estabelecer o nada absoluto? A negação do ser é impossível.

Em primeiro lugar, quem está negando o ser, afirma-se a si mesmo, como ser existente, de outra forma, não poderia estar propondo a negação do ser.

Em segundo lugar, deve-se distinguir na negação duas realidades, que são a coisa negada e o ato de negar.

A ato de negar, é considerado como um juízo objetivo inteligível, afirmado de modo absoluto, enquanto se refere à realidade independentemente do intelecto. O intelecto neste ato de negação, afirma a ininteligibilidade da realidade, e ao mesmo tempo a inteligibilidade, pois propõe um juízo objetivo inteligível, que é o da negação do ser. Assim, o ato de negação do ser, afirma o que nega.

A negação do ser, não parece impossível na ordem puramente conceitual, que somente diz a essência da coisa. Mas é impossível na ordem do ato de afirmação. Na negação do ser, existe contradição entre a coisa dita e o ato de dizer, pois o negado é afirmado na negação.

Há portanto no ente real, algo que resiste à sua negação e que o afirma como necessidade absoluta. Em todos os entes, o ser diz necessidade, e negando-se o ser como ser, tornar-se-ia possível a negação de toda a realidade. O que é impossível. E o ser como ser, é o princípio da indivisão, da identidade do ser consigo mesmo, da unidade. A unidade pois, diz a posição do ser como idêntico consigo mesmo e não passível de negação.

Afirmando-se o ser, implicitamente afirmam-se todos os entes, enquanto existentes pelo ser. O que é indiviso em si, é diviso dos outros, distinto dos outros. Logo, a afirmação do ser de um ente particular, implicitamente é a afirmação dos outros entes, dos quais é distinto.

A indivisão em si, que propriamente define a unidade, supõe a divisão dos outros, que diz multiplicidade, e assim o uno parece posterior ao múltiplo. De outra parte a multiplicidade, é multiplicidade de unidades. Com isso, a idéia de ente parece incoerente e contraditória.

Considerando a segunda parte da definição de unidade, intervém a multiplicidade, mas na indivisão do ser, não aparece a idéia de multiplicidade. Propriamente, o primeiro aspecto, que define a unidade, por si não requer o segundo, que significa multiplicidade. Por isso, a unidade da idéia de ente, é independente da multiplicidade, ainda que não a exclua. Assim, o uno é anterior ao múltiplo, pois a multiplicidade se compõe de unidades.

Deve-se notar, que a idéia de ente possui unidade imperfeita, pois contém as diferenças todas, que determinam todos os entes.

4. A unidade, como propriedade transcendente, distingue-se do ente somente por distinção de razão raciocinada menor, enquanto uma razão em ato, inclui a outra, ainda que só implícita e confusamente. Todo o uno é ser, e todo o ser é uno.

A unidade, enquanto indivisão em si, manifesta no ser a negação de divisão. A unidade, portanto, não significa uma formalidade, uma realidade estranha ao ser, mas somente negação de divisão. A unidade nega a imperfeição, que destruiria o ser, pois a divisão (negação) que se nega, destruiria o ser. Seria negação do ser.

Ainda que diga do ser uma negação, a unidade é algo positivo, porque exprime o ser, enquanto se afirma a si mesmo, como idêntico consigo mesmo. Negando a divisão, a unidade diz afirmação, diz ser. Logo, o ser e o uno são convertíveis, ainda que a unidade e o ser sejam formalidades distintas na estrutura existente. Há identidade real entre o ser e o uno, porém, há distinção nocional (conceitos distintos), enquanto o ser significa o que existe e o uno, o que é indiviso.

 

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CAPÍTULO IV

 

A INTELIGIBILIDADE DO SER

 

1. Opondo-se o ser ao não ser, prevalece a posição do ser, como idêntico consigo mesmo, como uno. Opondo-se o ser à atividade intelectual e volitiva da mente humana, deduzem-se outras duas propriedades, que são, a verdade ou inteligibilidade do ser e a bondade.

A verdade pode ser deduzida da oposição contrária entre o ser afirmado e o intelecto que o afirma. A verdade é a conveniência, que a realidade possui para com o intelecto. O que é, pode ser entendido como ser pelo intelecto. Esta inteligibilidade do ser, oposta à ininteligibilidade do não ser e do absurdo, é a verdade. Quanto mais algo for ser, mais se conformará ao intelecto, e mais verdadeiro será.

A verdade, no entanto, pode ser considerada sob quatro aspectos:

A verdade ôntica ou a verdade da coisa, é a verdade do ser, enquanto existente na realidade. É fundamento do conhecimento. Supõe-se a existência de um ser inteligente, que possibilite a existência e a inteligibilidade da realidade. A verdade ôntica, portanto, encontra-se no ente existente, afirmável pelo intelecto.

A verdade lógica, revela-se como perfeição do intelecto, pois está no intelecto, como conhecimento da verdade ôntica. Consiste na adequação consciente do intelecto com a coisa. Na verdade lógica, o ser precede o intelecto e o determina, adequando-se a ele. O ser é ato, que informa, como objeto formal, o intelecto como potência.

Esta é a verdade do conhecimento humano. Nela o intelecto assemelha-se ao ser. Assimila-o.

A verdade ontológica, é a propriedade objetiva do ser, pela qual se conforma ao intelecto. Pode ser definida como a adequação, que o ser possui para com o intelecto.

Sob dois aspectos o ser é ontologicamente verdadeiro: Enquanto está essencialmente relacionado ao intelecto, do qual depende em seu existir e enquanto o ser está em simples relação acidental com o intelecto humano, que o conhece.

A verdade, ontologicamente, se define como a capacidade do existente ser conhecido pelo intelecto humano. O ser torna-se entendido em ato, quando a verdade ôntica é atuada pelo "logos", manifestando-se como ontológica.

Por fim, a verdade moral, é a conformidade da manifestação por sinais, daquilo que o sujeito conhece e sente, conforme conhece e sente.

2. A razão formal da verdade, é o ser. O que existe, é inteligível pelo ser. O ser sempre diz conformidade com o intelecto, que lhe dá origem, ou que o conhece, porque é originário do intelecto. Daí ser inteligível e não absurdo.

O entendido é a forma da mente. É aquilo, que a mente expressa por afirmação, e que sempre significa o ser. O ser adequado ao intelecto, é o ser realmente existente. A adequação é entendida como relação de conformidade ou semelhança da coisa com o intelecto.

Verdadeira, diz-se a coisa, enquanto inteligível e o princípio de inteligibilidade da afirmação, é o ser. Esta inteligibilidade, materialmente identifica-se com o próprio ser e, explicitamente, diz relação de conveniência do ser com o intelecto.

A idéia de ente significa a afirmação da realidade, enquanto existe pelo ser. Na afirmação estão implicados, o sujeito que afirma e o objeto afirmado. O sujeito que afirma, pela afirmação forma em si mesmo uma idéia, que contém todas as realidades. Por isso, o ato de afirmação, diz no sujeito a compreensão de toda a realidade numa idéia, que representa toda a realidade em si mesma diversificada.

O sujeito pela afirmação, unifica tudo em sua consciência, em sua mente. Por isso, a mente e o ente são correlativos e possuem a mesma extensão. Todo o inteligível é ser, e todo o ser é inteligível.

O ser é princípio de inteligibilidade dos entes. Manifesta-se esta inteligibilidade no ato de afirmação, que é o ato próprio de conhecer do intelecto. E o conhecimento, é a adequação, a conformidade, a conveniência de princípios, entre a faculdade que conhece, e o objeto conhecido. A conformidade do ser com o intelecto é a verdade.

A verdade portanto, expressa o ser de um modo mais claro, enquanto revela-o como inteligível e não como absurdo. Todo o existente é ordenado, é inteligível em si e para o intelecto humano. Esta inteligibilidade, é a verdade dos entes, enquanto existem pelo ser. A verdade, diz o ser e sua relação ao intelecto.

Onticamente verdadeiro, é o que possui conteúdo inteligível, que é o ser. Pelo ser, o ente existe e é inteligível, enquanto somente pelo ser, é afirmável, isto é, forma objetiva do intelecto.

Como conclusão, note-se, que o ente particular somente é inteligível, se relacionado aos demais entes, dos quais de alguma forma dependerá em sua razão de ser. O próprio intelecto recebe seu complemento do ser, e o ser sua inteligibilidade formal do intelecto. Na ordem intencional, pelo conhecimento do ser, a mente torna-se toda a realidade, enquanto a possui pela afirmação.

3. Diz-se, que tudo o que existe, possui em si ou em outro, razão suficiente para ser tal. Se algo não possuísse razão suficiente para existir, que é o ser, não existiria e seria ininteligível. Se existe, é inteligível e verdadeiro, com verdadeira razão suficiente de sua existência.

Somente o ininteligível, o não afirmável, o absurdo não possui razão suficiente de existir, porque não possui ser, que é a razão fundamental da inteligibilidade e da afirmação dos entes.

Como se explica o erro, a falsidade, oposta ao ser, à verdade? O erro não pode existir na realidade, como ser, pois o não verdadeiro, seria o não ser. O erro, é o não ser verdade, é falta de verdade no intelecto. Apresenta-se como conhecimento conforme à realidade, quando, de fato, tal conformidade não existe. Portanto, somente existe na afirmação.

O erro pode existir na afirmação, quando há falta de conhecimento e falta de razão suficiente. É privação de conhecimento e de verdade lógica. O erro é possível, enquanto o processo de conhecimento está sujeito aos sentidos e à contingência da multiplicidade das coisas, que são conhecidas por seus aspectos extrínsecos.

 

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CAPÍTULO V

 

A BONDADE DO SER

 

1. A vontade é faculdade da mente humana, e sua atividade consiste em querer o bem, conhecido pelo intelecto, sob o aspecto de verdade. A realidade assumida pelo intelecto, através da afirmação, funda a ordem do conhecimento da verdade. A verdade relacionada à vontade, que quer o bem, funda a ordem da ação. Age-se motivado pelo bem.

Descreve-se a bondade, como aquilo que convém a alguém, ou à alguma coisa. Enquanto convém, confere perfeição. A perfeição fundamental e de maior conveniência, e da qual todas as outras conveniências participam, é o ser. Assim, o ser manifesta-se como o bem fundamental dos entes.

A vontade humana, é a faculdade voltada por natureza ao bem, que lhe convém. Ora, o bem que mais lhe convém, é o bem que mais convém à realidade, que é o ser. Bom, é aquilo que desperta inclinação para si, que desperta apetite. Assim, a vontade, como apetite consciente, consiste na inclinação racional para o bem. A posse racional da realidade, feita pelo intelecto, é a posse do ser, seu objeto formal inteligível no aspecto de verdade. A vontade, como apetite intelectivo, voltado para o bem racional, é atraída pelo ser real, que mais convém aos entes.

2. A ação do intelecto, é de assimilar a realidade a si, de interiorizar o ser, de apresentá-lo a si pela afirmação. É o conhecimento do ser. E o conhecimento é completo, quando a realidade se torna objetivamente imanente à forma da mente, pelas duas faculdades, que são o intelecto e a vontade.

A forma da mente na ordem intencional, identifica-se com a realidade que representa. A mente inclinando-se para esta representação intencional, inclina-se para a própria realidade na ordem natural.

Para que a mente seja perfeita, completa em sua atividade, não basta o ato do intelecto. Da idéia da realidade, conhecida por assimilação intencional na afirmação, origina-se a inclinação da mente para a coisa, pela qual a mente é atraída, é assimilada. É o ato da vontade da mente, que se inclina para a própria realidade. Desta forma, a ação do intelecto consiste em atrair para si o objeto, representado por meio da idéia na afirmação. O ato da vontade, consiste na ação do objeto entendido de atrair a mente para sua própria realidade. A mente assim, se dá à realidade que a atrai, originando o agir. Há, portanto, dois tipos de ações imanentes da mente, que são o entender e o querer.

O intelecto no ato de entender, é o objeto no ato de ser entendido. O intelecto é causa eficiente do ato de conhecer, e o objeto é a causa formal do conhecimento. De modo semelhante, vontade que quer e que ama, é a causa eficiente do querer e o objeto querido, é a causa formal e final da ação.

O objeto na ação, transforma a própria faculdade operativa, e de certa forma, como objeto formal, transforma o próprio sujeito. Por isso, quem ama o bem, torna-se bom.

As ações imanentes, são dois modos de ser, pelos quais a mente finita, toma-se intencionalmente toda a realidade. A verdade fundamentalmente encontra-se na realidade, mas formalmente, é própria do ato de conhecer. Está no intelecto pela idéia da realidade. A bondade está formalmente na realidade e o ato de querer termina na realidade, como é em si, fora da mente, segundo seu ser natural. O ato de querer é conseqüente ao ato de conhecer pelo intelecto.

3. O querer não existe, a não ser pela atração proveniente do objeto conhecido. Ser atraída pelo bem, é a finalidade própria da vontade. O bem é a causa final do querer da vontade. No momento em que se dá a apreensão do bem pelo intelecto, faz-se a aplicação da atração do bem à vontade. O objeto apreendido pelo intelecto, sob o aspecto de verdade, atrai o querer da vontade, sob o aspecto de bem. Sem ser conhecido, o bem não pode exercer sua causalidade final.

A vontade é a inclinação do intelecto para o bem real. Esta inclinação segue a apreensão do intelecto, cujo objeto formal é o ser dos entes. A vontade pois, possuirá o ser dos entes, enquanto perfeição sua, como objeto formal. Logo, todo o ente pelo ser, é termo do ato de querer. É bom.

Assim, pois como o intelecto está ordenado a toda a realidade, segundo a idéia que dela possui, da mesma forma a vontade, está ordenada a toda a realidade, segundo seu ser natural em si bom, como perfeição fundamental dos entes.

4. A natureza do bem consiste naquilo, que o torna atraente. A atração vem de sua conveniência com às necessidades do sujeito, que vai aperfeiçoar. Quando segue a atração do bem, deseja a si mesma, como objeto, que será perfeito pelo bem, que satisfaz suas necessidades.

O bem, a própria perfeição, é o fim, o termo da inclinação do sujeito. Em sua espécie, todas as coisas são perfeitas, enquanto constituídas pelo ser. A perfeição pelo ser não é definitiva para os entes, que estão ordenados à sua operação fundamental. A perfeição final, é conseqüência da operação, com objeto adequado para o fim. O fim proposto, é o complemento do modo de existir do ser. Bom e perfeito será o ente, por sua ordenação a seu fim próprio, que deve ser alcançado pelo agir.

A primeira perfeição dos entes, consiste no ser que possuem. A perfeição definitiva, é conseqüência do princípio da operação, correspondente ao princípio formal de sua natureza.

5. Pelo ser, o ente é bom, pois o ser é sua perfeição fundamental. Ao bem opõe-se o mal, que parece não existir, já que todo o ser, como perfeição, é bom. E fora do ser nada existe.

Entretanto, o fato do mal é tão evidente, que parece prevalecer sobre o bem. O mal não é a simples negação do bem. E no entanto a negação de algum modo próprio de ser do ente. Se o mal fosse a negação do bem , tudo o que não é, seria mau. Assim, seriam más todas as pessoas, que não fossem sábias.

O mal consiste na privação do bem, isto é, na falta de uma perfeição de um modo de ser, devido ao sujeito. Mal, por exemplo, é ignorar alguma coisa que se deveria saber.

A privação possui dois elementos: o elemento positivo, que é o sujeito ao qual falta um modo próprio de ser, é o elemento negativo, que é quase uma forma privativa, que atinge o sujeito. Assim, o sujeito do mal é o bem, e todo o mal existe no bem. O sujeito está em potência para o bem e para o mal. O mal absoluto, que totalmente destruísse o sujeito, não pode existir, pois seria a negação do ser.

O mal físico, é a privação de um bem físico, e o mal moral, é a privação de um bem moral, pela violação de uma lei de ordem ética. Formalmente, o mal moral consiste na oposição ao bem, que é mais do que simples privação de bem. É um ser da razão corrompida.

6. O que a vontade deseja, pode ser um meio para alcançar um fim ulterior, ou pode ser o próprio fim. No primeiro caso, o bem como meio, é bem útil, nunca desejado em si mesmo, mas sempre em função de um ulterior. No segundo caso, o bem pode ser o termo objetivo da inclinação da vontade, e então será o bem honesto, num sentido mais amplo que o de bem moral; ou será a posse subjetiva do bem honesto, como satisfação do bem desejado e possuído. O bem honesto, é o bem ôntico. E o valor tomado objetivamente. O bem, como prazer e felicidade, representa o valor subjetivamente considerado.

 

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CAPÍTULO VI

 

O BELO ONTOLÓGICO

 

1. Há dois caminhos para se definir o belo, que são: a experiência que dele se possui, e os elementos que o compõem.

A experiência diz-nos ser belo aquilo que, quando é percebido, agrada, desperta prazer. Desta experiência resultam dois requisitos do belo: a percepção e a complacência.

A percepção na experiência do belo, possui características de. intuição, de contemplação e não simplesmente de conhecimento abstrato.

A complacência provocada pela percepção do belo, significa satisfação e prazer. Para o homem, na experiência do belo, há uma intuição e uma contemplação da mente, com um sentimento de prazer.

Pelos elementos que o constituem, o belo pode ser definido com o esplendor da forma. Esplendor significa o modo maravilhoso, deslumbrante, fulgurante de ser de alguma coisa em suas formas, para um sujeito determinado. As formas que aqui devem ser consideradas, são a forma sensível externa, cujo esplendor consiste em sua integridade, proporção e harmonia para os sentidos, e a forma inteligível interna, que consiste na plenitude de ser da essência.

O esplendor se manifesta na expressão perfeita da forma interna. Pelo esplendor da forma, quase espontaneamente, como resposta natural, surge a intuição e a complacência. Atinge-se assim o belo pelo conhecimento estético, que consiste na conveniência, ao menos implícita, da unidade harmônica (sintonia) dos sentidos e do intelecto, com o objeto conhecido.

No conhecimento estético, a idéia se encarna e se concretiza na intuição dos sentidos, da forma que o intelecto atinge a idéia sensibilizada, e os sentidos atingem o sensível idealizado. Para tanto, o objeto deve agradar aos sentidos e ao intelecto.

2. O homem atinge o esplendor da forma principalmente nos seres sensíveis, que lhe proporcionam uma intuição sensível bastante perfeita e uma experiência estética intensa. O prazer humano, pelo vigor da perfeição sensível, atinge certa plenitude.

O esplendor da forma no sensível, é sempre imperfeita, pela dificuldade que os sinais sensíveis possuem de manifestar a plenitude da forma inteligível. Por isso, em si, a forma puramente inteligível, como ideal, com seu esplendor, supera o esplendor da forma sensível.

Assim, a experiência humana estética, não se limita somente à ordem sensível, mas realiza-se de modo perfeito na ordem racional. Em relação às demais propriedades transcendentes, o belo não é uma propriedade nova. mas é a síntese delas.

No belo existe unidade perfeita, pela harmonia entre a forma sensível e a inteligível, com os sentidos e o intelecto que conhece. Existe também a verdade perfeita, pela inteligibilidade da forma, manifestada na forma sensível. Por fim a bondade perfeita, como algo que convém aos sentidos, ao intelecto e à vontade, e produz complacência e prazer.

Estas três propriedades estão harmonicamente unidas.

No conhecimento estético, se experimenta a unidade perfeita entre o ato de sentir e de entender. O conhecimento e o gosto constituem uma experiência. Experimenta-se a bondade perfeita, enquanto se produz a tranqüilidade e a complacência dos sentidos e da vontade. A verdade perfeita é atingida por intuição da forma inteligível.

O ôntico é o belo da arte, quando independe da consideração humana. Será ontológico o belo, quando sujeito à relação da capacidade apreciativa do homem. O belo proporcional ao homem, é o belo sensível, chamado de belo humano. Esta limitação não provém da natureza do belo, mas da imperfeição da mente humana, que não pode atingir as formas, a não ser pelos sentidos. O homem não possui a capacidade simplesmente intuitiva das formas inteligíveis. Necessita do recurso dos sentidos. Em si, o belo é próprio do ser, enquanto o ser inteligível possui unidade, verdade e bondade, ainda que essas propriedades não possam ser intuídas, nem conhecidas, sem o auxilio dos sentidos, por abstração.

Pela unidade, verdade e bondade, o ser possui os requisitos para ser atingido por intuição e ser objeto do conhecimento estético. Pelo ser, o ente é belo em si, ainda que não o seja para o sujeito humano. O ser é princípio de beleza e termo da contemplação da mente. A beleza transcendental do ser, somente pode ser atingida por intuição. A beleza estética é uma determinação particular da beleza transcendental, enquanto relacionada não somente ao intelecto, mas também aos sentidos. É a beleza atingida pelo intelecto a partir dos sentidos. O belo para o homem deve satisfazer ao mesmo tempo os sentidos e o intelecto. Deve ser sensível e racional. É uma necessidade do próprio ser humano. Para satisfazer esta necessidade do ser humano, cabe estabelecer as normas para criar obras belas para o homem em relação ao ser da cor, ao ser da figura, ao ser do som.

A obra artística, com o objetivo de agradar unicamente aos sentidos, pode provocar emoções fortes, mas não o prazer estético, totalmente humano.

O belo como tal, não se define pelo bem moral, que é procedimento racional no agir. A moralidade não entra propriamente na definição da obra de arte. A obra de arte, para ser verdadeiramente bela, deve satisfazer ao mesmo tempo os sentidos e o intelecto. A obra imoral, contrariando a razão, não pode ser uma obra de arte. Impede o prazer puro, que é o prazer estético. Pode ser uma obra perfeita no aspecto técnico, mas carente de beleza estética.


II PARTE: A DIVISÃO DO ENTE

 

 

CAPÍTULO VII

 

A ANALOGIA DO SER

 

1. A idéia genérica de ser na afirmação, é predicado de toda a realidade. Tudo é ser. Como se predica, com propriedade esta idéia universal nos modos singulares e próprios de existir dos entes? O ser, predicado de todos os entes, possui em cada realidade singular, um modo peculiar de ser.

Na predicação do ser, constata-se que ele possui uma unidade de semelhança em todos os entes, mas também uma diferença, enquanto em cada ente, o ser é singular, isto é, próprio de um sujeito.

A predicação por semelhança e diferença, chama-se predicação por analogia. Análogo pois, é o termo, que em diversos sujeitos, significa ao mesmo tempo semelhança e diferença.

A idéia de ente, encerra em si mesma uma significação universal da realidade, e ao mesmo tempo é significativa das características singulares de cada coisa. As outras idéias universais abstratas, possuem somente significação universal.

2. A analogia possibilita a compreensão da unidade universal e da diversidade singular, contidas na mesma idéia. Na idéia de ente, existe esta oposição contrária, enquanto na predicação, ela possui ao mesmo tempo uma unidade diversificada. Esta oposição impede a univocidade da idéia de ente. Ao se falar de univocidade ou de analogia de alguma noção, supõe-se sempre a comparação desta noção, com as realidades, às quais é atribuída.

Na predicação da idéia de ente, o ser deve ser considerado em relação a todas as realidades, das quais se predica.

Analogia é o modo de atribuir um predicado, uma noção a diversos sujeitos, com uma significação comum a todos, e ao mesmo tempo própria em cada sujeito.

O predicado "saúde", por exemplo, é atribuído ao homem, ao alimento, ao remédio, com o significado comum de saudável, mas no homem significa posse, no alimento conservação e no remédio, recuperação.

O conceito análogo, diz-se pois de muitos sujeitos, segundo uma razão, ao mesmo tempo igual em todos e diferente em cada um. Razão significa o conceito objetivo, o conteúdo inteligível, que o intelecto forma das coisas.

Entende-se o que seja noção análoga, por comparação à noção unívoca e ao termo equivoco. A noção unívoca, contém unidade no termo e no conceito, e unidade perfeita, pois a significação é a mesma em todos os significados. Por exemplo, a noção unívoca de "homem" significa sempre unicamente a espécie humana em todos os homens.

O termo equívoco, contém unidade somente no termo, na palavra, mas no conceito há pluralidade. É um termo, que significa diversos conceitos. Por exemplo, o termo "macaco", serve para significar dois conceitos diferentes, o de animal e o de instrumento para erguer o automóvel.

A noção análoga, contém unidade no termo e no conceito, mas unidade imperfeita, enquanto possui significação comum (universal) e própria (singular), como a noção "saúde".

Análoga é a noção do ser afirmado, que possui uma significação comum, enquanto, tudo é ser, e significação própria, enquanto em cada ente, o ser se realiza de modo singular.

3. Analogia propriamente significa relação, semelhança, proporção entre diversas realidades. A razão que se atribui a estas realidades chama-se de razão analogante. A analogia, enquanto importa ordem entre as realidades, denomina estas realidades de analogados, unificados pela mente numa noção. Na ordem dos analogados, existe um termo principal, chamado de analogado primário, no qual a razão analogante se realiza de um modo perfeito. Nos analogados secundários, a razão analogante realiza-se de modo menos perfeito. A razão analogante "ser", realiza-se de modo perfeito no ser infinito, e de modo imperfeito nos entes finitos.

Dá-se o conhecimento análogo, quando o que se quer conhecer, é menos conhecido do que aquilo, mediante o qual se vai conhecer, havendo entre ambos alguma forma de semelhança e dessemelhança, para um poder significar algo do outro. Pode-se, por exemplo, chegar ao conhecimento do fogo, através da fumaça, ou conhecer um animal, através de duas pegadas.

Fala-se de analogia na ordem do ser, quando algo existe em dependência de outro, havendo entre ambos semelhança e dessemelhança. Os seres finitos, insuficientes em si mesmos, existem em dependência do que é simplesmente ser. Todos são seres, mas não do mesmo modo.

4. A analogia do ser, como noção e como realidade, é um fato. Vejamos como isso se constata. A noção unívoca significa algo universal, e prescinde das determinações individuais e do aspecto singular da realidade. Por causa da abstração feita, a idéia unívoca possui a mesma significação em cada indivíduo, de que é predicado. Por isso, ela significa nos indivíduos, somente um determinado aspecto, genérico ou especifico. Assim são as idéias de animal e de homem.

As características singularizantes não estão contidas na noção unívoca. As características singulares, por exemplo, de Pedro, não estão contidas na noção de homem, senão todos os homens seriam Pedro.

A noção de ser entretanto, como afirmação, está contida em todas as realidades singulares, enquanto todas possuem ser, do contrário não existiriam. Assim, a idéia de ser (ou ente), é universal, porque se aplica a tudo, e é formalmente também singular, porque significa totalmente o singular. A noção de ser não é unívoca, porque não se forma por abstração perfeita, mas diretamente pelo ato de afirmação. Este ato refere a noção universal à realidade singular, segundo o ser.

O ser é ato de posição absoluta do singular, segundo as determinações próprias do singular. A noção de ser pois, significa formalmente todas as realidades singulares e totalmente, isto é, tudo e sob todos os aspectos singulares e não segundo determinado aspecto universal, como acontece na noção unívoca.

A noção de ser se predica formalmente de todas as realidades, conforme as determinações singulares de cada uma. A significação da noção de ser, varia segundo as diversas determinações das quais se predica, que são os modos singulares de ser de cada coisa. A noção de ser, portanto, não é unívoca, pois não se afirma dos singulares de existir segundo a mesma significação, mas segundo o ser em seus diversos modos singulares de existir. É pois a noção de ser, uma noção análoga, enquanto é predicado de tudo o que existe, por uma significação comum, mas também pela significação própria de cada realidade singular.

5. Vimos acima, que o ser é o princípio da existência de todos os entes, e por isso é sua perfeição fundamental. Não é uma determinação da coisa, mas é o ato de posição, de realização das coisas e de todas as suas qualificações. Por isso, todas as perfeições significadas pela essência de uma realidade, voltam-se para o ser como a sua última perfeição existencial. As perfeições são perfeitas, enquanto são. É o ser que possibilita a existência de uma essência perfeita. Do que foi dito, pode-se chegar às seguintes conclusões:

a) As perfeições das essências são os diversos modos possíveis de existir do ser. Em Pedro, por exemplo, o ser existe no modo humano.

b) O ser por si, diz plenitude de perfeição, perfeição infinita, sem limitação a modo algum.

c) O ser da coisa, pode ser considerado como próprio do modo essencial de existir da coisa, ou como simplesmente ser, princípio da realidade. Neste segundo aspecto, o ser é comum a todos os entes, enquanto todos são pelo ser.

O ser realiza-se em diversos graus de perfeição, segundo as perfeições das essências, das quais é ato existencial. Assim é o ser do mineral, do vegetal, do animal e do homem.

Em relação à perfeição absoluta do ser, cada perfeição essencial realiza o ser de modo limitado, finito. Portanto, ainda que o ser seja o que de mais perfeito existe em cada ente particular, é imperfeito se comparado ao ser, enquanto simplesmente ser. Por isso, o termo último, o analogado principal na ordem do ser, sem nenhuma limitação, será o ser, cuja essência é o próprio ser. Neste ser, a perfeição da essência coincide com a perfeição do ser. Nos outros entes, o ser realiza-se de modo imperfeito, conforme a perfeição das essências.

6. A analogia possui dois elementos, chamados de analogia de atribuição e de analogia de proporcionalidade.

A analogia de atribuição diz dependência. Nesta analogia, existe o analogado primário, do qual os analogados secundários dependem. Ao analogado primário convém propriamente a razão analogante, enquanto aos analogados secundários atribui-se a razão analogante, em dependência do primário. Isso pode acontecer de dois modos:

Na atribuição externa, o analogado secundário depende do primário, somente no que se refere ao nome, pois a razão analogante é realmente interna só ao analogado primário e externa no secundário. Por exemplo, a razão analogante "saúde", como realidade propriamente dita, é interna somente ao corpo humano, que é o analogado primário, e é externa ao alimento, ao remédio..., que são os analogados secundários, que se dizem possuir saúde, enquanto relacionados ao corpo humano, do qual conservam ou restituem a saúde.

Neste exemplo, deve-se observar, que o termo "saúde" no alimento e no remédio, dependem da saúde do corpo humano, somente quanto ao nome "saúde", pois não é a saúde do corpo, que dá saúde ao alimento e ao remédio; ao contrário, são eles que dão saúde ao corpo. Entretanto, o termo saúde é dado ao alimento e ao remédio, em dependência do corpo onde a saúde propriamente existe.

Na atribuição interna, o analogado secundário depende do primário quanto à própria razão analogante e também quanto ao nome. Neste caso, a razão analogante procede do analogado primário para o secundário e é interna a ambos. Por causa da dependência, que o secundário possui do primário, a razão analogante existe em ambos, mas de um modo essencialmente diferente.

Na atribuição interna, o secundário depende do primário, não somente quanto à atribuição do nome, mas também quanto ao influxo real, que o primário exerce no secundário.

7. A analogia do ser é de atribuição interna, isto é, a razão de ser dos entes, é interna a todos, segundo o modo de ser de cada um, em dependência do simplesmente ser, razão fundamental de ser de todos os entes.

Afirmar a índole íntima dos analogados secundários, que é o ser, é afirmar sua dependência do ser subsistente, que os torna entes. É claro, que a todos os analogados secundários, convém a razão interna do ser, enquanto todos são entes, diferem porém, no modo pelo qual lhes compete o ser. O ser dos acidentes, por exemplo, depende do ser da substância.

8. A analogia de proporcionalidade própria não inclui nem exclui dependência. Aqui o termo análogo é atribuído a cada analogado, porque a razão analogante encontra-se essencialmente em todos os analogados, mas de modo diferente. Prescinde-se de qualquer consideração de dependência.

Os analogados por si podem ser da mesma ordem e não necessariamente se exigem analogados primários e secundários.

A analogia de proporcionalidade existe, onde há semelhança de proporções. A proporcionalidade matemática é unívoca, enquanto diz identidade, conveniência de proporções. A proporcionalidade do ser porém, é análoga, enquanto as proporções dizem ao mesmo tempo semelhança e dessemelhança. O ser, por exemplo, pode ser dito de todas as realidades proporcionalmente, isto é, do subsistente ao finito, do sujeito e de seus atributos. Vê-se, que na proporcionalidade própria, -a razão analogante é essencialmente própria a todos os analogados, mas num analogado pode existir de modo perfeito e no outro de modo menos perfeito, ou nos dois de modo imperfeito.

Em todos os analogados se realiza a razão comum analogante, pois todos os analogados são entes em sentido próprio, enquanto contém aquilo, que é próprio e formal em cada ente, que é o ser.

O ser não pode ser afirmado dos diversos entes, a não ser segundo proporção com suas diversas essências, isto é, o ente somente pode ser afirmado por analogia de proporcionalidade própria.

Sendo o ser, portanto, proporcionalmente o mesmo em tudo o que existe ou pode existir, o que convém a um ente, convém proporcionalmente todos os entes. Assim, a unidade da idéia de ente em relação às realidades das quais é predicado, é unidade proporcional, isto é, o ser é proporcionalmente comum a todos os entes.

9. A analogia metafísica em sentido pleno é composta pelos elementos de atribuição e proporcionalidade. A analogia de atribuição interna fornece os requisitos, para que se faça a de proporcionalidade própria. Em virtude da dependência na atribuição, a razão analogante encontra-se no analogado secundário de modo próprio, mas essencialmente diferente do modo de ser do primário. A analogia de atribuição inclui a de proporcionalidade própria, enquanto a atribuição, atribui o ser de modo proporcional a todos os entes do que resulta a proporcionalidade.

Desta forma, a atribuição interna e a proporcionalidade própria, não são duas analogias, mas dois elementos incompletos da analogia metafísica em sentido pleno.

A analogia de atribuição interna, é fundamental na ordem ontológica, enquanto fornece a razão analogante, pela qual a perfeição análoga de diversos modos, está contida nos analogados, em dependência do analogado principal. Dir-se-ia ser analogia em sentido vertical.

A analogia de proporcionalidade própria, por si não incluindo dependência, diz somente coordenação dos analogados na razão analogante "ser". É analogia mais em sentido horizontal.

A atribuição fornece a razão analogante e a proporcionalidade apresenta as proporções contidas nos analogados explicitamente, e só implicitamente contidas na atribuição.

Na ordem do ente, o ser é a razão analogante, fornecido pela atribuição interna. O modo de ser dos entes é apresentado pela proporcionalidade.

 

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CAPÍTULO VIII

 

O DEVIR DO SER

 

1. A idéia de ente (o ser) é uma, mas contém em si a multiplicidade dos entes em sua singularidade própria. Aplicada à realidade, ela se diversifica, conforme o modo singular de ser de cada ente.

Mas, o próprio ser singular uno, se diversifica em si mesmo. Passa continuamente de um modo de ser a outro, pelo devir interno. É, mas continuamente muda. De tudo se diz: É, foi, será. Não se tem experiência imediata de nenhum ser, que exista sempre no presente, isto é, que seja simplesmente ser, sem devir. O conhecimento também é um contínuo devir, pois passa-se do não saber ao conhecimento. Não há o simples saber absoluto. Aprende-se pelo método discursivo ou dialético, que desenvolve o conhecimento, negando o não saber pela posição do saber.

O devir é uma propriedade do ser finito, continuamente sujeito a mutações. Neste capitulo busca-se a conciliação do ser com o devir, pois o devir parece negar o ser, enquanto é vir a ser do ser, que não é. E o devir é uma realidade, é um ser, mas é devir. Como?

Em primeiro lugar parece impossível o devir do ser, pois, já afirmava Parmênides, que todo o devir supõe o não-ser, pois o devir é o vir a ser daquilo que ainda não é. Mas do não-ser, nada pode vir a ser. Logo, o devir do ser parece impossível.

Entretanto, o devir é um fato real e evidente do ser e do conhecimento e sua evidencia parece negar o ser. A conciliação pois, entre ser e devir parece impossível. Assim, ou há ser e não há devir, ou há devir e não há ser.

2. Pode-se perguntar se não há um meio termo entre o ser e o não-ser, que possibilite o devir. Entre o não-ser absoluto e uma planta existente, por exemplo, existe a semente, que não é planta e nem não ser, mas meio termo entre o não-ser absoluto e a planta. É o poder-ser-planta.

Para se entender o devir, é necessário estabelecer o poder ser do ente finito. O poder ser ou a potência, que o ente finito possui, é a capacidade positiva do devir. O que é, torna-se outro, enquanto pode tornar-se outro. Enquanto está se tornando, simultaneamente é em parte o que será e em parte não é o que será. A semente, por exemplo, enquanto está se tornando planta, já é em parte planta, mas também em parte ainda não é planta, caso contrário, não estaria se tornando planta.

A potência, portanto, como real e positiva capacidade do devir do ser, enquanto está se desenvolvendo, é simultaneamente realização e não realização de si. A realização de potência, chama-se ato.

No devir, como processo dialético, há simultaneidade de princípios contrários: a potência como capacidade de realização e o ato como realização desta capacidade. A semente, por exemplo, enquanto está se tornando árvore, é em parte semente, podendo ainda se tornar árvore, e em parte árvore, já tornada pela potência em ato. O poder tornar-se árvore no devir árvore, é a potência, e a realização parcial da árvore, já o ato da árvore.

Todas as realidades finitas passíveis de mudança, são compostas de potência e ato em si mesmas, pois a potência sozinha seria pura capacidade, sem poder existir sozinha. O ato sem potência, seria a realização pura sem capacidade de devir. Os princípios contrários, como próprios do ente finito, possibilitam a dialética ou o devir.

Tudo pois, que de alguma forma implica devir, é composto de potência e ato. Tanto o que não é e pode vir a ser, como o que é e pode deixar de ser ou mudar o modo de existir ou de ser, são compostos.

3. Há quatro tipos de devir. O devir local de um ente, importa a passagem de um lugar a outro. Enquanto se realiza a passagem do ponto de partida ao ponto de chegada, há simultaneamente uma potência para o afastamento e um ato de aproximação. Há simultaneidade de partida e de chegada.

Na mudança quantitativa há o crescimento, onde o que aumenta de quantidade, é simultaneamente ainda pequeno e em parte grande.

A mudança qualitativa importa alteração de qualidades, onde as posições contrárias são simultâneas. O que está se tornando bonito, é ao mesmo tempo, em parte ainda feio e em parte já bonito.

Na mudança substancial há cessação de um princípio formal, originando-se outro. O animal que morre, por exemplo, dá origem e a outros elementos, com princípios formais próprios.

O devir constitui passagem de um termo a outro de determinado sujeito, com potência para a passagem. O que se move (muda), aproxima-se afastando-se e afasta-se aproximando-se. Assim, o devir sucessivo, é a síntese indivisível do afastamento e da aproximação, em cada momento da passagem.

4. No devir sucessivo, existem os seguintes elementos:

a) Um sujeito (um ser), que pode ter condições para diversos tipos de devir. Uma semente, por exemplo, pode mudar de lugar, de quantidade, de qualidade. O sujeito com capacidade, com potência, é o ponto de partida.

b) A potência do sujeito, como se disse, que é a capacidade de devir, de realização.

c) O próprio devir, que é a passagem da potência em potência, para a realização, para o ato.

d) O ato, como termo final de realização da potência.

O ato e a potência não são dois seres, mas dois princípios do ser em devir. O ato é a realização da potência subjetiva (de um sujeito), e a potência, é a capacidade positiva de realização do ato. Não há devir, que possa reduzir o sujeito a ser puro ato sem potência. Por isso, quando uma potência realiza seu ato, ela continua a ser potência, mas não mais em potência para aquele ato. Ser potência significa ser capacidade de realização, o estar em potência, significa que a capacidade ainda não se realizou. Quando a capacidade tiver sido realizada, a potência estará em ato, pelo ato correspondente à potência.

O devir enquanto é devir, supõe um sujeito com potência em potência para o ato, em parte já em ato pelo ato correspondente. Como foi dito, o devir supõe sempre a simultaneidade dos princípios contrários. A semente, enquanto está se tornando árvore, possui potência em potência, porque a árvore ainda não está terminada. Mas, ainda que não esteja terminada, é em parte árvore, e por isso, é em ato imperfeito árvore pelo ser ato da árvore.

Pelo exposto, conclui-se, que o que devêm, diz sempre ordem a um ato anterior como realização, e a uma potência anterior, como capacidade que realiza. O devir indivisivelmente diz estas duas ordens, pois ao mesmo tempo é capacidade de perfeição, que deve ser adquirida e já de certa forma adquirida. Aristóteles já definia o devir como o ato imperfeito de um sujeito com potência, em potência para um ato mais perfeito. Enquanto é ato imperfeito, possui certa perfeição, enquanto é potência em potência, está ainda adquirindo perfeição.

Os princípios do devir não podem ser separados. São correlativos e complementares, assim que um não pode existir sem o outro. Todos os entes finitos, em suas diversas disposições de devir, compõem-se de ato e potência. A potência existe em ato pelo ato correspondente e o ato está na potência. O ato realiza a potência e se realiza realizando a potência.

Ato e potência são princípios internos do ente finito. A potência é a causa do ato, no gênero da causa material, enquanto multiplica, delimita e individua o ato. O ato por sua vez, é a causa da potência, enquanto atualiza, realiza a potência.

Há portanto causalidade mútua entre estes princípios, necessariamente relacionados, isto é, cada um é relativo a seu co-princípio, na constituição do ente mutável, em suas diversas modalidades de devir.

5. A potência e o ato, portam-se mutuamente como princípio limitante e princípio limitado. O devir é ato imperfeito do ente, mas orientado à perfeição. O ato como ato, não considerado como relativo a uma potência, significa plenitude de perfeição. Se for limitado, não será limitado por si. A limitação somente poderá provir do princípio oposto, que é sua potência. A capacidade de perfeição, é que determina o grau de perfeição do ato. A realização parcial do ato no devir, provem da potência limitante.

No devir há tendência à ilimitação do ato e limitação desta tendência pela potência. O ato por si ilimitado, enquanto é simplesmente ser, diz plenitude total de perfeição. Nos entes, o ser é limitado pela sua potência, que é sua própria essência.

O ser no devir manifesta sua limitação pela essência, que é sua potência. O ato numa potência, o ser por exemplo, não pode realizar sua perfeição total de ato, porque então suprimiria sua potência, tomando-se puro ato, sem limitação. Seria infinito.

No ente finito, há três composições de ato e potência, que possibilitam o devir:

a) Há uma composição de substância (sujeito) e acidente (atributo), onde a potência é a substância, capaz de desenvolver atributos. Cada substância é uma potência, para determinadas propriedades e atributos.

b) Outra composição, a propriamente dita, no ente, é a do ser e da essência, sendo o ser ato e a essência a potência. Assim, por exemplo, o ser de Pedro é limitado em sua perfeição, pela perfeição da essência humana limitante.

c) A própria essência dos entes materiais, também é composta de potência e ato, sendo ato o princípio formal, e a potência o princípio material. A essência humana é composta de alma, como princípio formal, ato, e de corpo, como princípio material, potência.

6. Os termos potência e ato, possuem diversas acepções. A potência ativa, identifica-se com o ato, e significa a própria ação. A potência subjetiva, é a própria capacidade, que um sujeito tem de devir.

É própria da substância, da essência e do princípio material. A potência objetiva, é a potência lógica, isto é, a possibilidade pensada de algo poder existir. Não é a possibilidade num sujeito, mas a possibilidade de um sujeito poder existir.

O ato pode ser simplesmente ato, então será único e infinito, simplesmente ser. O ato numa potência, será finito, limitado pela potência.

O termo infinito, possui dois sentidos. Em primeiro lugar, infinito é o que não possui limites. É a plenitude de perfeição do ser. Infinito, é também o que não pode ser completado, como a divisão do contínuo, que é divisível teoricamente ao infinito.

 

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CAPÍTULO IX

 

CAUSA EFICIENTE DO SER

 

1. O devir no ente finito, somente é inteligível pela composição dos princípios do ato e potência, nas três composições acima consideradas. Estes princípios, entretanto, por si não bastam para explicar inteligibilidade total do ser finito. Eles explicam a composição, a inteligibilidade interna, mas não sua razão última de existir. O ser finito, não possui por si só sua explicação total.

O que é propriamente composto de ato e potência, possui na potência sua insuficiência de ser por si. A potência humana, por exemplo, que é a essência, por si, é somente capacidade de existir e não ato de existir por si. Para existir, deverá tornar-se em ato, por um ato, que ela por si não possui.

No ente finito atual completo, o princípio ser é participado à essência, isto é, não é próprio da essência do ente finito possuir ser por si. Se possuísse por si, não seria finito, já que o finito se define como "poder ser", e não como ser simplesmente.

O ente finito, se existe, possui ser participado, isso é, completo, mas em parte e não em plenitude. O ser em parte, é próprio do ente participado, inteligível em si, enquanto próprio de uma potência, mas ininteligível por si, enquanto sem razão suficiente para existir por si.

Para a inteligibilidade total do ser finito participado, é necessário recorrer a uma razão suficiente externa, já que por natureza, não possui razão suficiente total em si. Esta razão suficiente externa, deverá a seu modo, influir para a existência do ser participado.

Chama-se causa, o que interna ou externamente influi, para que algo possa existir.

2. A noção de causa pode ser determinada, partindo da consideração da noção de princípio. Princípio, é aquilo, donde algo de algum modo procede. Pode ser o inicio de uma realidade, sem nela influir, a não ser como ponto de partida. Mas o princípio pode estabelecer um nexo com outra realidade, dando origem a um termo real. Chamar-se-á então de causa. Causa é um princípio, que determina a existência de algo, por si incapaz de existir, sem sua participação. O ser finito participado, não podendo por si dar origem à sua existência, necessita de uma causa externa a si.

As causas dividem-se, em causas internas ao próprio sujeito e externas a ele. A causa é interna, quando é parte constitutiva do efeito, como as causas material e formal. O ser humano, por exemplo, possui o corpo e alma como causas internas.

A causa externa origina externamente a existência do sujeito. É causa externa, o pai que gera o filho. A causa eficiente é externa e se caracteriza pela ação na produção do efeito. É externa também a causa final, que como bem, atrai a ação do agente.

A causa eficiente, portanto, é o princípio externo, que por sua própria ação determina a existência do efeito. Enquanto é externa, distingue-se das causas material e formal, e enquanto age, distingue-se da causa final.

A causa eficiente, que opera de forma imanente, produz algo que permanece no próprio sujeito da ação. Neste caso, se a ação for boa, aperfeiçoará o próprio sujeito. Assim, o sujeito humano, que pratica a justiça, torna-se justo.

A causa eficiente, agindo de modo transitivo, produz o efeito, que é externo a si mesma. O quadro pintado pelo artista, é externo a ele. Causalidade é a influência de causa no efeito. É aquilo que torna a causa causante e o efeito causado.

O princípio de causalidade eficiente, aplicado ao ser em sua finitude, é formulado nos seguintes termos: "O ser finito necessariamente possui uma causa eficiente de si mesmo".

O ser finito, contingente, composto de ato e potência, não possuindo em si razão suficiente para existir, deve apelar a uma causa externa, por necessidade ontológica. Para ser inteligível, deve possuir uma razão suficiente externa.

3. Pode-se demonstrar, pela experiência interna e externa ao ser humano, a existência de causalidade eficiente.

Considerando a experiência interna do ser humano, verifica-se que os homens possuem uma disposição própria, pela qual determinam diversas situações, através de seus atos. Esta disposição é a liberdade de escolha e de execução. Tem o homem consciência de ser ele próprio a causa eficiente de seus atos de querer, de julgar, etc...

Pela experiência externa, pode o homem influir em sentido verdadeiramente causal em outros. Uma ordem dada e cumprida, não é uma simples sucessão de fatos, mas a produção de um efeito, através de uma causa externa agindo.

Esta experiência interna e externa ao próprio sujeito revela a existência de verdadeira causalidade eficiente.

4. Considerando a causalidade eficiente na ordem do ser, verifica-se a dependência do ente finito participado de uma causa eficiente externa, razão suficiente para sua inteligibilidade plena.

No devir, constata-se que o ser finito depende de uma causa eficiente, pois tudo o que muda, muda por outro, torna-se outro por outro. No devir algo aparece, desaparece ou se transforma. Passa de um estado a outro, torna-se sucessivamente outro.

Antes de devir, o ser finito possui potência em potência. Depois do devir, estará em ato, por um ato. Logo, o sujeito que devem, não pode estar em potência e em ato simultaneamente, pois, ao mesmo tempo seria e não seria tal. Quando o que muda estiver em ato, será outro por outro, pois por si é somente potência em potência.

Assim, o que muda, é inteligível somente por outro. Se adequadamente o sujeito em potência contém o que possui em ato, então não muda. Se muda relaciona-se a uma causa extrínseca, que torna inteligível sua mudança.

A causalidade eficiente está presente nos diversos modos de devir da realidade. Assim, o que começa a ser é causado, pois o não-ser não pode causar o ser. O que deixa de ser, também é causado, porque se o incausado, que é simplesmente ser, pudesse deixar de ser, ele seria a razão do não-ser, o que é contraditório. O simplesmente ser, não possui potência alguma para não ser ou para ser outro. Somente o causado pode deixar de ser, porque possui potência para não ser, e é causado por outro.

Finalmente, o que se transforma, é transformado por outro. Na transformação, o que é tal, torna-se outro. Recebe outro modo de ser de outro, já que por si, é somente potência para ser outro.

5. O fato da composição do ser finito de potência e ato, exige uma causa eficiente. É uma exigência ontológica, para a inteligibilidade do ser participado. O ser composto de potência e ato, princípios realmente distintos, é finito, limitado, não possuindo em si mesmo razão suficiente para existir. Se possuísse em si razão suficiente para existir seria simplesmente ser por si, sem composição, sem limitação, incausado, infinito.

O ser em devir, é limitado por sua-essência finita. É ininteligível por si só, pois em razão de sua essência, é somente possível e não atualmente existente. Torna-se inteligível somente por uma causa extrínseca, que dê existência à sua potência de existir. Esta potência de existir, é sua essência. A causalidade eficiente extrínseca, é o ato de comunicação do ser, que o faz existir nos limites da potencialidade da essência.

A noção plena de causalidade eficiente, encontra-se unicamente no ser, cuja natureza é ser, somente ser, absolutamente ser.

6. Para Hume e os empiristas, nossa experiência atinge somente sucessão de fenômenos, sem nexo causal. O princípio de causalidade é de origem puramente psicológica, enquanto concluímos que o que vem depois da causa seja um efeito.

Para Kant, a causalidade não se restringe a uma mera sucessão de fenômenos, pois da causa procede o efeito, mas o nexo causal, é somente da coisa como aparece, e não de como é em si.

Bergson e Le Roy afirmaram a realidade como um movimento continuamente fluente, no qual, não há nem substância estável e nem causa. A causa possuiria somente valor subjetivo, psicológico e não objetivo e real.

Avicena nega às criaturas a possibilidade de serem causas eficientes. As criaturas são somente ocasião para Deus agir. Nos tempos modernos Malebranche renovou a doutrina de Avicena.

Evidentemente, participar o ser, é próprio do ser simplesmente. Nas transformações, as criaturas são causas instrumentais e eficientes secundárias, influindo para que a potência exista em ato pelo ser.

7. Deve-se distinguir da causa, a condição e a ocasião. A condição se requer para produzir o efeito. Não produz o efeito, mas possibilita sua produção. Negativamente, a condição afasta os obstáculos, que dificultam a realização do efeito. A janela aberta, por exemplo, é condição para o sol iluminar a sala. O sol é a causa. Positivamente, a condição coloca os elementos necessários para o agente poder agir. Por exemplo, abrir as janelas para o sol causar a luz na sala.

A ocasião torna mais fácil a realização do efeito. É a oportunidade, que ativa a causa e a condição.

 

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CAPÍTULO X

 

A FINALIDADE DO SER

 

1. A causa eficiente na ação, está orientada a um fim, a um objetivo, que é o efeito. É o fim, que faz a causa eficiente agir. É a finalidade da ação, que influi na causa eficiente, fazendo-a agir.

Portanto, a finalidade é causa, que influi na produção do efeito, fazendo o agente agir.

Quando se diz, que algo foi feito para um objetivo, este objetivo se grava na própria natureza do efeito e ordena sua atividade a alcançar este objetivo, que é a intenção própria da causa eficiente.

O efeito, que busca com sua atividade realizar seu próprio fim, realiza o fim de sua causa eficiente. A necessidade de finalidade, relaciona necessariamente a causalidade eficiente à causalidade final, de tal modo, que o efeito produzido pela causa eficiente, possui uma finalidade.

O princípio de finalidade, é logicamente formulado nos seguintes termos: "todo o agente age por causa de um fim". O agente, como causa eficiente, na ordem do ser, possui uma finalidade ao agir, que será própria do efeito finito. Segundo o princípio de finalidade, é o fim que causa a ação do agente. O fim move a ação a produzir o efeito.

O fim não é tomado como termo, ou efeito já produzido pela ação do agente, mas no sentido de escopo a ser realizado. O fim como escopo, precede a ação do agente.

A índole causativa do fim, como bem, consiste em fazer a causa eficiente agir. A força causativa do fim, é a atração que ele possui como bem. O fim, como objetivo a ser alcançado, pode significar a produção de algo, se ainda não existe, ou sua aquisição, se já existe.

2. A ação da causa eficiente, pode realizar simultaneamente diversos fins. O agente pode pretender outro fim, além do fim próprio que a ação realiza. Pode-se pretender lucro, ao se fazer um relógio, que marca as horas. É o chamado fim do agente. O fim da ação, é o objetivo próprio a que a ação se ordena. No caso de se fazer o relógio, a ação é de fazer o relógio. O fim da obra feita ou do efeito, é aquilo para o qual se destina o próprio efeito. No caso do relógio, marcar as horas.

É claro que o fim do agente e o fim da obra feita podem coincidir. A ação pode orientar-se à realização de uma ordem de fins, como um fim próximo, um fim intermediário e um fim último. Estes fins sempre são desejados em si mesmos. O meio, como meio para um fim, é desejado em função do fim a ser alcançado.

O fim, como escopo, é a intenção do agente, e precede sempre a ação da causa eficiente e a faz agir. O fim, como termo, é o efeito já produzido pela ação da causa eficiente.

A causalidade final, que aqui se considera, é a vinculada à ação da causa eficiente, portanto, o fim como escopo, ou como intenção, determina a ação do agente. A intenção determinando a ação, determina também o efeito, como fim causado. O fim a ser alcançado pela ação, é sempre o motivo da ação.

3. A finalidade de uma ação ou de um efeito, consiste em sua ordenação para um fim. A força da finalidade, faz com que a ação se oriente para produzir ou alcançar um efeito. Isto pode acontecer de dois modos:

a) Através da finalidade subjetiva, se a ação da causa eficiente for própria do ser humano, que conhece e deseja conscientemente alcançar o fim, como bem.

b) Através da finalidade objetiva, se a ação da causa eficiente se orienta à consecução do fim, sem agir com consciência na busca do fim. É a finalidade própria das realidades privadas de conhecimento consciente.

A finalidade objetiva, somente pode ser entendida, de forma definitiva, apelando à finalidade subjetiva. Na finalidade subjetiva, sempre e necessariamente está contida a objetiva, pois a ação usada conscientemente, por si, objetivamente se ordena a um fim. A ordenação das faculdades humanas, por exemplo, para a verdade e para o bem, fundamenta a busca consciente da verdade e do bem. Há pois, uma disposição objetiva das faculdades para um fim, que o sujeito humano conscientemente assume.

Por sua vez, a finalidade objetiva supõe também a subjetiva. Formalmente, a finalidade objetiva não é um acaso no ser finito. Na ordem ontológica, o ser como ser, exige a ação de uma causa eficiente, que através de intenção consciente, determina a finalidade da essência de cada ente, que como finito, não existe nem por si e nem pelo não-ser.

4. Na realização de um objetivo, o agente necessita da causalidade da causa final, do escopo a ser realizado. Assim, o fim integra a ação da causa eficiente.

A causa eficiente deve possuir virtualmente o efeito na ação, isto é, deve possuir os elementos para a efetivação do efeito. O efeito, como efeito é outro ser, distinto da causa. O efeito distinguindo-se da causa, antes de ser realizado, existe como projeto ideal na intenção do agente.

A ação que persegue um escopo, o contém em si, e o vai transmitindo ao efeito. Desta forma, o mesmo escopo, é próprio do agente, da ação e do efeito. O fim termo ou efeito, é resultado da ação consciente ou inconsciente do agente.

Sem intenção do fim, não pode haver orientação adequada na ação, que realiza o fim.

5. Em que consiste a finalidade interna no ser finito? A ação do ser finito, é conseqüência de seu modo de ser, e é o meio de sua realização. Origina-se da natureza do ser.

Todo ser finito, possui essência composta pelos princípios formal e material. O princípio formal, que essencialmente define a natureza do sujeito, determina também seu modo específico de agir, através de suas faculdades próprias.

A ação das faculdades características do princípio formal, busca a realização da finalidade específica de cada ser. O ser humano, pela ação das faculdades do princípio formal, que são o intelecto e a vontade, pretende realizar sua perfeição própria. Todos os entes, possuem em forma de tendência natural, a aspiração de realização de seu princípio formal próprio.

A ordenação a um fim próprio do princípio formal, origina-se da causa eficiente, que produz o ser com seu princípio formal. A natureza de cada ente, pelo princípio formal, tende para o fim, que lhe é proporcional. Deste modo, todos os entes contêm em si a intenção do agente, que é a realização de seu princípio formal.

As faculdades, como princípios próximos de ação, resultantes do princípio formal, participam desta ordenação para o fim. A tendência natural de qualquer faculdade, é inclinação para o fim do princípio formal.

Pode-se concluir, que a finalidade interna do ser finito, é própria do princípio formal constitutivo da essência e que através das faculdades, naturalmente se orienta à ação, para seu fim próprio.

A determinação das faculdades para a ação, com objeto formal correspondente, é própria do princípio formal. É seu programa a ser realizado e possuído, em forma de tendência natural.

Os entes finitos tendem para seu fim próprio, segundo seu princípio formal. Esta ordenação para o próprio fim, é dirigido pelas leis da natureza, leis impostas fisicamente aos entes não livres.

Para o homem, a ordenação de seu princípio formal natural é feita com o uso da liberdade. A obrigação moral ou a lei natural, que é a consciência das exigências da natureza racional, é a orientação para o ser humano consciente e livremente alcançar seu fim.

A obrigação moral, é a consciência do verdadeiro fim, que deve ser amado, e por isso conquistado pela ação humana do sujeito.

A ação das faculdades do princípio formal, aperfeiçoa o próprio sujeito, se a ação possuir o objeto formal correspondente. A ação da vontade, por exemplo, se possuir o bem, como objeto formal próprio, aperfeiçoa o sujeito humano, realizando seu princípio formal, que é a alma.

Se toda a ação possui um fim não pode existir o acaso. O acaso diz-se existir, onde algo acontece, fora da intenção do agente. Achar um tesouro sem procurá-lo, parece um acaso. O acaso deste exemplo, possui duas causas, que influem em sua realização. Somente que a união destas causas, não é feita com intenção consciente. As causas existem, e fortuito é somente seu encontro. Logo, o acaso absoluto, sem ser causado, não pode existir.

6. Além das causas eficiente e final, existem outras, que influem na determinação do ente finito. As causas formal e material, são duas causas, dois princípios internos do ente finito material.

A matéria é princípio potencial, determinável, e a forma é determinante. Ambas são verdadeiras causas, enquanto influem internamente para a existência da essência da substância material. Possuem causalidade mútua. A matéria causa a forma, no sentido de limitá-la, multiplicá-la e individuá-la. A forma causa a matéria, determinando-a, aperfeiçoando-a, especificando-a.

A essência do ente finito material, é causada pela matéria e pela forma, ambas substanciais.

A causa exemplar ou formal extrínseca, existe, quando o agente racional realiza o efeito, imitando uma forma, um exemplar. O exemplar é verdadeira causa, pois o agente racional, ao produzir, propõe-se um modelo de ação, que influi na produção do efeito. Possui força de causa, na modalidade de formal externa.

A causa instrumental é a causa que age, movida por força recebida da causa principal. O instrumento como tal, não age por potência própria, mas pela potência recebida da causa principal. Entretanto, o instrumento, enquanto possui determinada natureza, age de acordo com sua natureza. A potência natural é própria do instrumento e a força instrumental, é a força recebida da causa principal.


III PARTE: ESTRUTURA DO ENTE FINITO

 

 

CAPÍTULO XI

 

ASPECTOS E PRINCÍPIOS DO ENTE

 

1. Ao iniciarmos esta última parte, torna-se oportuno recordar algumas posições já explicadas. Foi dito, que em cada uma de nossas afirmações, como razão última inteligível da realidade de nossa experiência imediata, atingimos o ser. A existência de um modo determinado e limitado do ser, provem da essência. Na experiência imediata, não é dado nenhum ser existente, sem relação a uma essência.

A respeito do ser finito, podem ser feitas duas perguntas, a saber, se existe e o que é.

A existência será a resposta à primeira pergunta. Pela existência, o ser finito encontra-se na ordem da realidade atual, não mais na pura possibilidade de existir.

A existência é um dado imediato da experiência, e exprime um aspecto do ser finito, já constituído. É o existente, que se opõe à pura possibilidade de existir. Não há termo intermédio, porque algo ou existe ou não existe.

À segunda pergunta responde a quididade. O existente possui um modo próprio de existir, uma índole peculiar, que o distingue de todos os outros. É também a quididade um aspecto do ser, já constituído. Note-se que os aspectos pertencem ao ente, já constituído.

2. Indagando ulteriormente sobre o fundamento dos aspectos do ser finito, constituido com sua essência, entende-se a composição de todos os entes de ser e essência.

O ente finito no ato de sua constituição e de sua duração realiza-se pela composição de dois princípios, que são o ser e a essência.

Assim, da concretização dos princípios de ser e essência, resulta sempre o ente finito composto. O ser é a atualidade do ente, isto é, o que faz a essência existir. Por si, o ser é absoluto e não relativo a algum modo de ser. Ao ser, nada se opõe. Por si, diz plenitude de perfeição. É a necessidade absoluta de tudo o que existe. Não há existente sem ser. É limitado pela essência.

A essência é a potência subjetiva do ser. É a capacidade do ato de ser. Determina o modo do ser existir em cada ente. Como potência, é limitação do ato de ser.

O ser e a essência são princípios ontológicos, constitutivos de ente finito. São princípios metafísicos, conhecidos por reflexão. Como princípios, o ser e a essência constituem o ente finito, ao passo que a existência e a quididade, revelam o ente finito já constituído.

A existência e a quididade, supõem o ser e a essência, já unidos no ente finito. No aspecto de realização, a existência convém mais ao ato de ser. Quanto à perfeição específica, a quididade corresponde mais à essência.

Existe causalidade mútua entre ser e essência, à maneira da causalidade formal e material. Tal causalidade existe no todo constituído. Há prioridade de natureza do ser sobre a essência, que como potência, depende do ato de ser para existir.

O ser como ato, depende da essência como potência, sob aspecto de limitação. A essência do ser, torna-o limitado, finito, contingente. Assim, o ato de ser não é limitado por si, mas em si, pela essência. A essência substancial, por sua vez, existe não por si, mas em si, pelo ato de ser.

3. Entre o ser e a essência, dá-se uma composição real, feita na realidade, independentemente da operação da mente. Entre os aspetos de existência e quididade, a distinção é feita pela razão.

Distinção, é falta de unidade entre diversas realidades e noções. A distinção existe, quando uma coisa não é a outra, onde há pluralidade e não identidade. Será real a distinção, se existir na própria realidade, independentemente da consideração da mente. A distinção real metafísica, existe entre os princípios, que constituem o ente, por exemplo, entre ser e essência.

A distinção feita pela razão, pode ser maior ou perfeita e menor. A maior existe, quando uma noção pode perfeitamente ser entendida independentemente de outra, como na noção de homem, pode-se entender a noção de animalidade, independentemente da noção de racionalidade. Na distinção de razão menor, uma noção não pode ser entendida, sem implicitamente entender-se a outra. Assim, a noção de ser implicitamente inclui a noção de inteligibilidade. Todo o ser é inteligível, e todo o inteligível é ser.

A distinção entre os aspectos de existência e quididade, é de razão maior ou perfeita, isto é, um aspecto não inclui em ato o outro.

Demonstra-se esta afirmação da seguinte maneira: A existência finita atual pode ser pensada, sem incluir uma determinada quididade finita. Pode-se pensar o "estar-aí" de algo, sem pensar no modo como está aí. Da mesma forma a quididade finita, também pode ser pensada sem sua existência atual. A quididade, por exemplo, pode ser pensada, como possível modo de existir.

Além do mais, o ser contingente, pelo fato de existir como finito, é propriamente composto de existência e quididade. Por ser contingente e não necessário, o ser finito em sua quididade, não inclui a existência. Incluiria se fosse necessário, porque então existiria sempre.

Do que se deduz, que a existência atual, não pertence à quididade do ser contingente. A quididade em sua constituição, permanece a mesma, quer exista, quer não exista.

4. Entre os princípios ser e essência, a distinção é real, isto é, existe tal distinção independentemente da consideração da mente, ainda que não possa haver separação real.

Consta em primeiro lugar, que os aspectos de existência e de quididade, não coincidem com os princípios de ser e essência.

Na afirmação, o ser não diz somente existência, mas significa a própria razão fundamental e objetiva da existência. Somente pode existir o que pode ser. É o ser que existe.

Além do mais, a existência e a quididade do ser finito, são finitas. Sua finitude depende da finitude do ser, que manifestam. E a finitude do ser real atual provém da essência limitante. Por isso, a existência e a quididade possuem finitude, conseqüente à constituição finita dos princípios.

Não há portanto, coincidência entre os aspectos e os princípios do ente finito.

Entre os princípios ser e essência, há verdadeira composição e composição real. o que se pode demonstrar da seguinte forma: O ser como ser, por si não diz limitação ou finitude. A finitude não pertence à índole própria do ser. Se é conhecido como finito não pode ser finito por si. A finitude do ser provém de sua essência.É da composição real com sua essência, que o ser é limitado, finito. O ser é em si finito, por sua essência.

Se a composição entre ser e essência for real, sua distinção, consequentemente também será real.

A existência e a quididade pertencem ao ente já constituído, pelos princípios de ser e essência. A composição dos princípios possibilita a existência dos aspectos.

Havendo constituição real de princípios, haverá também distinção real entre os mesmos. Se houvesse identidade real ente os princípios, a essência seria ser e resultaria a existência do simplesmente ser. Unicamente existiria o absoluto e infinito.

5. Quando não se afirma a distinção real ente ser e essência, há identificação do finito com o infinito.

Para Spinoza. por exemplo, existe somente a substância infinita. As criaturas, sem possuir ser próprio são modos da substância infinita.

Para Hegel, tudo é próprio da mesma idéia absoluta, que através de sua evolução, produz os momentos finitos, que são as realidades existentes.

Para Sartre, homem é existência totalmente indeterminada, e por isso, liberdade absoluta. Se o homem dependesse de Deus, seria limitado, com liberdade limitada. A liberdade absoluta do homem constitui sua essência absoluta. Não há nele nem composição, nem limitação de princípios.

Martin Heidegger toca na distinção entre ser e essência em sua diferença ontológica, pela qual opõe o ser (das Sein) ao ente (dem Seiendem). O ser é próprio a todos os entes, mas nenhum pode a ele se identificar. Sendo a raiz de todos os entes, essencialmente transcende a cada um. Somente no homem, o ser como tal sempre se manifesta. Por esta manifestação, o homem é constituído como existência. Com isso, parece que o homem e o ser mutuamente se pertencem.

Esta afirmação de Heidegger, exclui a transcendência própria do ser. Na historicidade e finitude do próprio ser, funda-se a historicidade e finitude do homem. Desta finitude, nunca se poderá chegar à infinitude.

 

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CAPÍTULO XII

 

A SUBSISTÊNCIA DO SER

 

1. A ordem ontológica, é constituída pelos princípios inteligíveis de ser e essência, que fundamentam a existência da realidade. Pelo modo como o ser e a essência se relacionam entre si, existem os entes reais, que se constituirão em sujeitos ou atributos do sujeito.

Se a relação entre os dois princípios for imediata, resultará a substância, o sujeito existente em si mesmo. Se, no entanto, a relação for mediata, existirá o ser acidental, isto é, o ser como acontecimento ou atributo do sujeito.

Pergunta-se agora, como resulta a realidade substancial da composição do ser e essência.

Para que algo possa existir, em primeiro lugar se requer que seja substância, ou seja, sujeito capaz de receber atributos. Os atributos supõem a existência do sujeito.

O que propriamente define a substância, é sua subsistência, isto é, a condição de ser sujeito existente em si mesmo e não inerente a outro sujeito, como são os atributos.

Ao se falar da noção de unidade do ser, foi dito, que o ser propriamente dito, é indiviso em si e diviso dos outros. Idêntico consigo mesmo, como algo existente em si mesmo, como substância.

É pois a substância, o sujeito que subsiste. O sujeito pode ser considerado de dois modos: como sujeito lógico e como sujeito real. O sujeito lógico é o sujeito da afirmação, do qual se afirma ou nega alguma coisa. É o sujeito de um predicado num juízo. O sujeito real é o ente real, que realmente existe pelo ser real. Se tal sujeito não for inerente a outro e subsistir, chamar-se-á de substância. A substância, é o ente que propriamente existe. Impropriamente dito, é o ser, que para existir necessita de outro sujeito real.

A substância em seu sentido empírico, é.toda a realidade concreta física, enquanto constitui algo, que subsiste por si mesma, como sujeito. Metafisicamente, a substância é o ser, cuja essência indica existência em si e não em outro. É o ser subsistente e não inerente a outro sujeito.

O termo "substância", é derivado do verbo latino "substare", que significa "estar sob", isto é, sob os fenômenos, sob os atributos. No conhecimento, a substância se revela como algo, que está sob atributos. Tomada como realidade, a substância significa subsistência, ou existência em si mesma, sem considerar os atributos, que possui.

O sentido essencial da substância, é subsistir em si, ser em si, sem ser inerente a outro sujeito. A substância é aquilo, que propriamente é. É aquilo, que realmente existe.

A substância pode ser afirmada de diversos modos, segundo suas modalidades de existir. A substância primeira ou singular é o sujeito singular. É o substantivo próprio. Desta substância singular, a mente forma a noção universal de substância, válida para todas as substâncias. Esta noção substancial universal, chama-se de substância segunda.

A substância simples, é a que não possui partes, como a substância espiritual. A substância composta ou material, possui quantidade e pode ser dividida em partes extensas.

Os principios substanciais, como o ser e a essência, o principio formal e material, são chamados de substâncias incompletas.

A substância não é sensível por si mesma. Não pode ser percebida, se não possuir atributos. É, no entanto imediatamente inteligível quanto à sua existência, mas de modo não claro quanto à sua essência. São seus atributos, que revelam sua natureza.

2. A substância é uma necessidade real de existir do ser, e não somente uma necessidade da razão, que exige um sujeito lógico para poder ser feita uma predicação. A afirmação, não se reduz à simples atribuição lógica de um predicado a um sujeito, sem fundamento real. A afirmação resulta da posição real do sujeito. Esta posição real, possibilita a forma lógica do conhecimento.

A afirmação, é a função da mente, fundada no ser. Sem este fundamento, a mente careceria de razão suficiente para afirmar. A substância, é ser que primeiramente se afirma, como algo, que realmente existe em si mesmo.

Por que o ser deve existir como substância, para se justificar qualquer existência da realidade?

A substância é uma simples explicitação do modo fundamental de existir do ser. O ser propriamente, como ser, se realiza em sua identidade consigo mesmo, em sua posição como existente em si mesmo, como realidade subsistente, como substância.

A substância finita é análoga e em devir continuo. É análoga, por possuir diferentes modos de existir, segundo sua essência.

A substância é de natureza dinâmica e está em continuo devir, em razão de sua composição entitativa essencial de ato e potência. A substância, no sentido de subsistência, vale tanto para o ser finito substancial composto, como para o ser que simplesmente subsiste, cuja essência é ser.

A pluralidade de modos de existir da substância, é conseqüente à pluralidade de modos de ser das essências, segundo o princípio formal diversificante.

3. A experiência pessoal externa ou interna do sujeito, pode demonstrar a existência da substância. A experiência interna, refere-se ao meu eu pessoal, em seu devir. A mutação do meu eu importa composição de ato e potência na ordem acidental, isto é, na ordem da substância, como potência e do atributo, como ato. Vejamos, como esta realidade pode ser constatada.

Possuo experiência concreta, por exemplo, de minha capacidade de querer, de entender, de tornar-me. Experimento esta dualidade de ser sujeito, com determinados atos, pelos quais meu ser se revela. Tais atos não podem existir sem o sujeito, pois não existem o entender, o querer..., como realidades absolutas e subsistentes em si mesmas. E os atos passam, enquanto o eu permanece. O eu é outra realidade que seus atos. Os atos não constituem o eu, mas o revelam, o desenvolvem, e o aperfeiçoam. Supõem um sujeito dinâmico, princípio de ação.

O eu, é algo que existe em si, que permanece em si, com alguns atos necessários e outros contingentes. Além do mais, o eu é responsável por seus atos livres, a tal ponto de não poder transferir esta responsabilidade a outros sujeitos. Assim, o eu é o sujeito que age. É o existente em si, de natureza dinâmica, e em devir. E o sujeito do devir.

Enquanto livre, cada um é aquele que decide por si, que é em si, e não é disposição de outro.

A experiência externa, é a experiência do eu alheio. A mutação do eu de outrem, supõe também a composição de ato e potência, na ordem do ser existente, isto é, composição de substância e atributos.

A experiência me apresenta também o eu alheio, como sujeito mesmo em sua constituição, mas não em sua qualificação. O sujeito humano, é o substrato permanente, existente em si, livre e responsável. Não é puro acontecer, mas o sujeito do acontecer. Também nos seres não humanos, a mutação supõe composição de ato e potência. Nos viventes, o crescimento, a assimilação, são atos, que supõem um sujeito onde se realizam. O sujeito em si, é a substância.

4. O empirismo de Hume, apoiando-se quase exclusivamente na experiência sensível, nega a substância, como realidade metafísica. A idéia de substância, resulta da constatação de fenômenos vinculados entre si, sem sujeito. Distinta dos fenômenos, a substância é uma ficção.

Para Kant, a substância vale somente como fenômeno e não como realidade em si. Não possui valor ontológico, enquanto é pura representação unificativa dos fenômenos.

Segundo M. Heidegger, somente as coisas são substância. O homem como existência, não é substância, mas é processo, que de modo histórico continuamente se realiza pela comunicação. Dá-se a si mesmo o próprio ser, pela comunicação e pela liberdade, através das quais vive no tempo.

A física moderna afirma ser a substância corporal um processo de mudança de massa em energia e de energia em massa. A energia não é, nem atributo e nem sujeito.

 

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CAPÍTULO XIII

 

A SINGULARIDADE DO SER

 

1. As realidades existentes propriamente ditas, são substâncias singulares, isto é, são sujeitos individuais. Realizam-se como multiplicidade de indivíduos, pertencentes a uma espécie. O ser não composto com essência, é único em seu modo de ser, os demais ou são múltiplos num gênero, se possuírem essência simples, ou são múltiplos na espécie, se possuírem essência composta.

Trataremos da multiplicidade numérica dentro da mesma espécie, considerando o princípio de especificação e o de individuação das realidades materiais singulares.

A espécie, é um grau determinado de perfeição comum de existir do ser. A determinação especifica, resulta do princípio formal da essência e todos os seres possuidores de tal essência, possuirão características especificas comuns.

A determinação individual da realidade singular, resultará do princípio material da essência, que singulariza o indivíduo na espécie e lhe confere características próprias.

2. O indivíduo substancial é o ser próprio singular. Na ordem lógica, indivíduo é o sujeito não comunicável, isto é, o sujeito que não pode ser predicado comum de outros. O que o indivíduo possui como próprio, é singular e o que possui como comum, é universal.

Como realidade existente, o indivíduo é o ser singular, entre os que lhe são semelhantes na espécie. A individualidade, faz com que o indivíduo seja distinto de outros da mesma espécie. Torna-o ele, um e único.

No ser finito de natureza material, a matéria é o princípio potencial da essência. Esta matéria é chamada de matéria primordial e somente pode ser conhecida por uma reflexão do intelecto. Ela é o princípio potencial material, que com o princípio formal substancial, constitui a essência do ser finito material.

O princípio material em si, é indeterminado, no sentido de não estar restringido a nenhum ente corporal. Sua potencialidade constitui, com o princípio formal, qualquer ente corpóreo. Por si, é pura potência.

A indeterminação do princípio matérial, não é total e absoluta. Como potência subjetiva da essência, está voltado a ser algo de substancial. Relaciona-se à categoria de substância. É também princípio de corporeidade da substância material. Potencialmente contém os elementos, que são próprios dos seres corpóreos, enquanto são corpos. É próprio do corpo, situar-se no tempo e no espaço. Por isso. por sua índole íntima, o princípio material origina a espacialidade e a temporalidade.

Estas determinações, só potencialmente estão contidas na matéria primordial e são traduzidas em ato, pela união com o princípio formal. Os atributos conseqüentes à união com o principio formal, explicam mais a natureza da matéria.

3. O princípio formal atualiza e especifica a essência da substância matérial. Unido à matéria, comunica-lhe sua perfeição, situando-a no tempo e no espaço. O princípio formal, enquanto determina a essência, é causa especificante do ser finito. Se o princípio formal depender intrinsecamente da matéria, possui ser somente na composição com a matéria. A essência composta, neste caso, é o sujeito do ser. Cessando o composto, cessa também o ser. Se porém, o princípio formal for espiritual e não depender intrinsecamente da matéria, possuirá subsistência própria, com ser próprio.

Na composição da essência da substância material, o princípio da singularidade na espécie, é o princípio material.

No ato de afirmação existe a composição de um predicado universal, com um sujeito singular. Nesta composição, surge o problema da relação universal com o singular, na ordem do ser. São possíveis diversos seres singulares, com o mesmo grau de perfeição de ser?

Na síntese sujeito-predicado, o predicado determina a indeterminação do sujeito. O predicado é universal, enquanto distributivamente se predica de todos os sujeitos da mesma espécie. O sujeito, propriamente, significa aquilo que os sentidos percebem, como uma realidade singular.

O objeto proporcional ao intelecto, é o ser singular, entendido por afirmação. Assim, a idéia de ser, afirmado pelo intelecto, corresponde ao modo real de existir do ser, que se afirma. O modo de existir do ser afirmado, é o de ser indivíduo na espécie. É de existir como singular.

Este modo individual de existir do ser, é o fundamento ontológico, da síntese lógica de sujeito e predicado. Existe, pois, o problema ontológico da diversidade de indivíduos da mesma espécie. Cada ser realiza em si uma perfeição específica comum, e ao mesmo tempo uma perfeição singular própria. Com a identidade específica, existe a multiplicidade numérica.

4. Como se explicam, na ordem ontológica, a unidade específica e a multiplicidade numérica dos seres finitos materiais?

A essência do ser, determina-o a um grau de perfeição específica. O princípio formal determina especificamente a essência. É o princípio da unidade especifica do ser. Por si, significa perfeição total de um grau de ser. Se subsistir, sem composição, será único, infinito naquele grau.

Quando o princípio formal se multiplica no mesmo grau especifico de ser, não pode multiplicar-se por si. Para não ser contraditório, deve multiplicar-se pelo princípio com o qual compõe a essência, que é o princípio material.

Assim, a limitação do princípio formal é feita pelo princípio material, que é potência na ordem da essência. O composto resultante dos princípios material e formal, constitui a potência subjetiva do ser.

O princípio formal estabelece a natureza e o grau de perfeição do ser. O princípio material limita esta perfeição, no sentido de realizá-la num ser singular.

O ser é determinado a um certo grau de perfeição singular pela essência, que é potência subjetiva do ser.

5. Qual é o princípio último interno de individuação, razão intrínseca da singularidade dos indivíduos da mesma espécie?

Não se pergunta pelos princípios manifestativos de individuação, que são os atributos externos singularizantes. Nem se pergunta pela causa eficiente, que é o princípio externo da origem do ser.

A individualidade é o aspecto do indivíduo, já constituído pelo princípio de individuação.

O princípio último interno de individuação, é a dimensão interna da realidade, quantificada pelo princípio material. O princípio pelo qual a forma de ser é esta e singular, chama-se de princípio de individuação, razão última que possibilita a unidade numérica. Tal razão é a matéria por sua quantidade. O princípio material é conhecido na composição da essência, por sua oposição ao princípio formal. Nesta oposição, o princípio material é potência limitante e individuante do princípio formal. É o sujeito do princípio formal, e torna o princípio formal incomunicável a outro sujeito, torna-o singular, individual.

Por sua vez, o princípio material, é singular em razão de sua quantidade concreta. Em virtude desta quantidade concreta, a matéria é extensa, com dimensão própria.

Pela quantidade própria, o princípio material é numericamente distinto de outros. É singular. Assim, a matéria singularizada por sua quantidade, constitui o princípio último de individuação dos seres finitos.

6. Da união dos princípios formal e material, resulta a multiplicidade dos seres, unificada especificamente pela forma. Em virtude de sua quantidade, o ser finito material é divisível indefinidamente. Por si, a extensão, como efeito da quantidade, não pode significar um número definido de unidades individuais.

O princípio material, como princípio de individuação, é a razão donde resultam as determinações individuais para o ser. As perfeições específicas, são propriamente resultantes do princípio formal, enquanto é singular pela matéria, a cujas disposições se limita.

Note-se, que a unidade numérica, requer a composição de princípio formal e material. Assim, o princípio de individuação, é o princípio da distinção numérica.

Ainda que a matéria primordial, como sujeito da forma não exista como tal, existe, contudo como particular, pela forma com quantidade e qualidades sensíveis. No particular existente, encontra-se a razão da matéria enquanto tal, isto é, da matéria primordial, como sujeito do princípio formal. Encontra-se ainda a razão da matéria, enquanto determinada pela quantidade que possui, para ser assim sujeito deste princípio formal.

 

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CAPÍTULO XIV

 

O SER PESSOA

 

1. O ser finito substancial é singular, uno, idêntico consigo mesmo. Se for material, simultaneamente à sua identidade, contém também sua não identidade consigo mesmo, enquanto a matéria é princípio de evolução e de mutação substancial. Pode tornar-se outra substância.

Tal substância, é parte do universo material e essencialmente meio para um fim ulterior. Não possui seu ser de modo definitivo.

As características próprias do ser, tomado em seu sentido absoluto, dizem que o ser opõe-se ao não-ser, que propriamente é ser em si, ser por si e ser para si. Estas características realizam-se de modo perfeito somente no ser absoluto, isto é, não relativo a uma essência. No ente finito substancial, a pessoa é a realidade onde, de certa forma, se realizam as características próprias do ser, enquanto é ser em si e para si.

O caráter absoluto do ser, de algum modo se realiza em tudo o que existe. Esta realização porém, pode ser tão imperfeita, em virtude da essência material, que torna o ser totalmente relativo. Na pessoa, entretanto, as características absoluta do ser possuem certa plenitude.

2. A pessoa, é um sujeito de natureza racional. E algo, que realmente é, e não pelo qual outra coisa é. Também não é por meio de outra realidade, como sujeito seu.

A subsistência, diz que o sujeito é uma substância singular, e que existe com ser próprio. Perfeitamente distinto em si, significa que o sujeito é completo em si. Não é parte de um todo, confundindo-se com o todo, mas é uma totalidade completa em si mesma.

A propriedade característica do sujeito humano, é a incomunicabilidade, no sentido de não ser parte de outro. É substância completa e não pode ser assumido por outro, como atributo, porque possui ser próprio, pelo qual subsiste. Possui natureza completa, isto é, essência própria, existente com ser próprio singular.

Na pessoa, a natureza completa possui a característica da racionalidade. As propriedades, como o intelecto e a vontade, somente aperfeiçoam, mas não definem a pessoa.

O vocábulo "pessoa", é originado do verbo latino "personare", que no teatro significava a voz, que soava (personabat) através da máscara. "Persona" era chamada a máscara, através da qual soava a voz do personagem. De máscara, o termo pessoa passou a significar o personagem, que representava.

Filosoficamente pessoa responde à pergunta: "Quem?" A resposta indica o sujeito humano singular. A propriedade peculiar da pessoa humana, é sua capacidade de reflexão completa sobre si mesma. Pela reflexão, a pessoa tem consciência de si mesma. Pela consciência de si, a pessoa possui a si mesma. Torna-se uma realidade própria e original. Um mundo próprio, que se chama "eu".

Por ter consciência de si, a pessoa é livre. Pode dispor de si, decidir-se, determinar-se. Somente a pessoa, é o ser próprio, que é. As outras realidades, são aquilo pelo qual o universo é. É a consciência reflexa, que possibilita tudo isso à pessoa.

A personalidade moral é resultancia de exercício racional e livre da pessoa. Os atos pessoais, que desenvolvem a personalidade, devem ser conscientes, voluntários e livres e possuidores de valor humano. Por meio destes atos, a pessoa eleva-se à realização de sua própria perfeição. A personalidade não é resultância natural e necessária da pessoa, mas conseqüência do uso racional da liberdade.

3. A primeira exigência do ser idêntico consigo mesmo, é que seja substância, ser em si. O modo concreto de existir da substância, e que realiza de certa forma as características absolutas do ser, é a pessoa.

O ente puramente material, não realiza a identidade consigo mesmo de modo perfeito. É em função dos outros, isto é, é para outro, ainda que seja em si mesmo, como substância material. O ser, no entanto, em sentido genérico, como ser, é idêntico consigo, completo e independente. É por causa de si, fim em si mesmo, razão de ser em si.

Sentido semelhante, possui a pessoa, como ser em si e por causa de si. A pessoa é fim em si mesma, enquanto pelo intelecto e pela vontade tem a capacidade de atingir a totalidade do ser, como verdade e como bem. A possibilidade de atingir a plenitude do ser em si mesma, pelos próprios atos de entender e querer, torna a pessoa um ser para si.

A posse da plenitude do ser, faz a pessoa ser para esta plenitude possuída. Dinamicamente, a pessoa se identifica com seus atos de conhecer e de querer. A plenitude possuída por estes atos, plenifica a própria pessoa.

Em virtude de sua capacidade, voltada à plenitude, que pode ser possuída, somente a pessoa é fim em si mesma. E um ser para si, por causa de seus atos.

Como fim em si mesma, a pessoa, evidentemente, não é simples meio para a utilidade de outrem, ainda que deva ajudar os outros.

Somente o ser absoluto, é fim em si mesmo em sentido pleníssimo. É identicamente seu fim, porque é identicamente perfeição absoluta. A pessoa finita é fim em si mesma, enquanto por sua atividade racional própria, se ordena ao ser absoluto.

A pessoa finita, em razão das funções do intelecto e da vontade, é por causa do ser absoluto, como fim que intrinsecamente deve ser possuído. O ser absoluto, é pois, o fim último extrínseco, e os atos pelos quais a pessoa pode possuí-lo, são o fim último intrínseco.

A ordenação da pessoa para o ser absoluto, é algo a ela essencial e dela inseparável, quer alcance, quer não alcance definitivamente tal fim.

4. A razão da existência de cada ser, é o seu fim. Se a finalidade de algum ser, é para existir por causa de si e não para outro ou para não ser, tal ser não pode deixar de ser. Sendo para si, não poderá não ser para si. Sendo para seus atos, não pode deixar de ser para eles.

O que é simplesmente desejado, para que possua fim em si mesmo, não pode deixar de possuir este fim, sem contradizer o desejo de quem o quer. A razão de ser da pessoa, é para existir para seus atos, isto é, para conhecer e amar o ser, na plenitude de sua verdade e bondade em si e para sempre.

As realidades do mundo material, carecendo de consciência reflexiva de si, não se possuem e não estão em função de si, mas em função do homem, como meios.

Assim, a pessoa realiza em si mesma, não de forma absoluta, as características próprias do ser. Ela é a realidade mais perfeita da natureza, em virtude do princípio formal de sua essência, que é a alma.

Em razão do corpo, o homem está na evolução do universo material, mas em razão da alma, é fim em si mesmo. E como o princípio material, existe em função do princípio formal, a alma humana informa o corpo para a evolução de sua própria consciência e liberdade. A consciência, a vontade e a liberdade, são faculdades do composto humano.

As ações da pessoa, são ações do sujeito humano, em sua constituição total, orientadas pelas disposições racionais do princípio formal.

Por ser fim em si mesma, a pessoa é autônoma. É um ser para si, que goza de liberdade. É para si, para se realizar pelos seus próprios atos de posse do ser. Com isso, a pessoa não pode ser meio para realizar a pessoa como fim.

O ato livre e consciente, é um ato criado pela pessoa, ao qual ela dá o ser. Dando ser a seus atos livres, a pessoa cria seu próprio fim.

A consciência moral, é a visão que a pessoa tem de ser um ser para si, que deve realizar-se pelos seus atos pessoais conscientes e livres. O conteúdo de tais atos, será o verdadeiro bem para a própria pessoa. Em princípio, os atos livres da pessoa, deveriam orientar-se sempre para seu fim próprio. A complexidade constitutiva do ser humano, no entanto, faz com que o fim somente seja concebido em abstrato, e não sempre realizado em concreto. Pode haver, portanto, na pessoa um dualismo na visão do fim, segundo a composição de sua essência, de princípio formal e material. O princípio da razão e dos sentidos, buscariam fins próprios e não o fim da pessoa, como unidade racional.

Os direitos naturais da pessoa, somente têm sentido, se a pessoa for considerada como fim em si mesma. A pessoa é fim em si mesma, em razão de seu princípio formal, do qual lhe advém a consciência, que lhe fundamenta radicalmente a posse e o uso de si, através de seus direitos. Os direitos constituem a integridade do eu total.

5. De muitas formas os pensadores contemporâneos, caracterizam o ser humano, através de elementos psicológicos, axiológicos, econômicos...

O teólogo Günther, no século XIX ensinou que a pessoa consiste na consciência atual de si mesma. Para Locke, Wolff, a pessoa, além da consciência de si, possui memória e liberdade. Eucken e N. Hartmann definem a pessoa axiologicamente, isto é, pelo valor moral que ela livremente realiza. Kierkegaard e Jaspers não consideram a constituição substancial da pessoa, mas a reduzem ao exercício da reflexão e da liberdade. Os pensadores personalistas, como Mounier, M. Buber concebem a pessoa como realidade essencialmente social, definível somente por relação aos outros. O "eu" somente pode ser proposto frente a um "tu".

Para Max Scheler, a pessoa não é uma substância distinta de seus atos, mas é o centro dos próprios atos, percebido e vivido em cada ato. Este centro funda todos os atos, e constitui a unidade da vida pessoal. Para M. Heidegger, o homem como existência, não é sujeito substancial, mas é uma realidade que historicamente e de modo contínuo se faz. Em virtude de sua comunicação e pelo uso de sua liberdade, dá a si mesmo seu próprio ser.

Sartre vê a realidade humana, como liberdade radical, identificada com a consciência e com a própria existência. A liberdade consiste no ato de escolher. A pessoa é escolha, não como atributo da natureza humana, mas como sendo o próprio homem. O homem é escolha radical, pura contingência. O homem se escolhe. Escolhe seus valores, suas condições de existência, sua situação. Por suas escolhas particulares, o homem aos poucos escolhe sua essência. É existindo, que o homem vai construindo sua essência. A existência precede a essência.

Para Marx, o homem é o resultado de situações históricas, segundo suas estruturas sociais e econômicas. O homem é um produto histórico, que muda, sem possuir estrutura psicológica e ontológica determinadas.

 

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CAPÍTULO XV

 

O SER ACIDENTAL

 

1. A pessoa é uma substância singular, voltada para seu fim próprio, que deve ser conquistado pelo agir. O agir também é ser, mas não de natureza substancial, porque não existe em si mesmo. Existe somente num sujeito. Constata-se a existência do seres portanto, de natureza diferente da natureza da substância, com o qual fazem composição. Nesta composição, os atributos da substância são atos.

O agir, como propriedade da pessoa, complementa seu modo de existir no sentido de construir seu fim. O agir é modo de ser inerente ao sujeito. Este modo de ser chama-se de acidente, cuja etimologia, significa acontecimento. Os seres acidentais são as propriedades, os atributos dos seres substanciais.

Dois atributos na ordem da ação, se constituem em seres acidentais na pessoa. São as ações imanentes e as ações transitivas.

A ação imanente é o agir, que aperfeiçoa o próprio agente. Diz-se imanente, porque se origina e termina no sujeito de origem.

A ação transitiva é o fazer. É transitiva, porque procede do agente, mas termina no paciente, isto é, num termo distinto do agente. Tanto a ação imanente como a transitiva, são acidentes próprios de um sujeito substancial.

O ser acidental é um ser existente num sujeito. É uma essência com ser na substância ou da substância. O agir como acidente, é um ser inerente ao sujeito.

O ser acidental somente pode ser definido em relação à substância, cuja essência revela. Pelo agir humano, por exemplo, revela-se a essência humana. O acidente necessário é uma resultância necessária da essência específica do sujeito. Assim, no ser humano, o intelecto e a vontade são conseqüências necessárias da essência humana. O acidente contingente, é o ser que de fato e não necessariamente acontece no sujeito. O habito de jogar, por exemplo, é algo que pode acontecer num sujeito, mas não é uma resultância necessária dele.

2. A pessoa é substancialmente completa, mas é incompleta enquanto não alcançar seu fim pelo agir próprio. O agir de natureza acidental, como ato, aperfeiçoa a pessoa de natureza substancial, como potência.

O ato último, que aperfeiçoa a pessoa em sua constituição substancial, é seu ser próprio. O agir é o ato último, que aperfeiçoa a pessoa como realidade dinâmica, que busca seu fim pela ação.

Para cada ser, progredir significa agir de acordo com seu objeto formal próprio. O sujeito por seu princípio formal próprio, está em potência para a conquista de seu fim, que é seu ato último. E agir para alcançar um fim significa existir em ato no sujeito o objeto formal próprio da ação.

O ser e o agir são atos últimos, em ordens diferentes. O agir é ato último na ordem da perfeição definitiva do sujeito, enquanto o ser, é ato último na ordem da constituição do sujeito. O ser é ato último, que como causa formal, informa a essência. O agir é ato último na ordem da causa final.

Pelo agir o ser desdobra suas potencialidades para sua perfeição final. O agir realmente se distingue do ser. O agir é ato do ente substancial constituído, com a finalidade de aperfeiçoá-lo. O ser, é ato da essência na constituição do próprio ente.

O agir é definido por seu objeto formal. Especifica-se pelo objeto formal. O objeto formal do intelecto e da vontade humana, são a verdade e a bondade do ser simplesmente, do ser sem limites. Assim, estas faculdades por natureza finitas, enquanto próprias de um sujeito finito, tornam-se infinitas em razão do objeto formal. O ser humano, finito no seu ser, busca o infinito pelo seu agir, para sua realização plena.

3. Como ato último, o agir é a atualidade das potências do agente. A ordenação das potências aos atos correspondentes, constitui a própria entidade destas potências.

Cada potência ordena-se a seu ato correspondente, segundo seu próprio objeto formal. Tanto a potência operativa, como seus atos, possuem natureza acidental. São seres acidentais e não substanciais.

Como já ficou dito acima, o agir se define ou se especifica por seu objeto formal. Por sua vez, as faculdades se especificam por seu agir próprio. Tantas pois serão as potências operativas realmente distintas entre si, quantos forem os objetos formais próprios. As faculdades se especificam e se distinguem, conforme seus objetos formais próprios.

Como acidente próprio e necessário, a faculdade possui o caráter da própria essência do sujeito. É do princípio formal da essência, que resultam naturalmente as faculdades do sujeito e através das faculdades, o agir correspondente. E o agir aperfeiçoa o princípio formal, donde se origina, pelo objeto formal próprio.

O agir é ser contingente, oriundo da contingência do encontro da faculdade com o objeto formal. O agir é a realização da potencialidade do princípio formal substancial, que leva à realização o próprio sujeito.

Os atos repetidos das faculdades, criam nelas uma verdadeira qualidade, capaz do aumento, chamada de hábito. Se o hábito for bom, será virtude, se for mau, será vicio. Os hábitos também são seres acidentais contingentes.

Considerando a ação transitiva, que é o fazer, chega-se à mesma conclusão, isto é, da existência do ser acidental.

A ação transitiva, como ser acidental, existe em outro. Este outro, não é o agente que origina a ação, mas o paciente que a recebe. O paciente é a potência da ação transitiva.

O ser material substancial, complementa-se pelos acidentes qualitativos e quantitativos, oriundos dos princípios formal e material. Não há quantidade sem qualidades, nas substâncias materiais. O agir do ser material, está vinculado à quantidade, que se desenvolve no tempo e no espaço, que também são seres acidentais.

4. O ser do acidente, é distinto do ser da substância ou existem os acidentes pelo ser da substância?

Pode-se afirmar, que os acidentes possuem ser próprio, distinto realmente do ser da substância, pois cada essência deve possuir seu ser próprio. Neste caso, o sujeito do ser acidental seria a substância, que passaria a possuir dois seres, um substancial e outro acidental.

No entanto, com maior razão, deve-se afirmar que em cada ente, há somente um ato de ser, pelo qual existem a substância e os acidentes. Os seres acidentais são evoluções da potência do ato de ser do sujeito substancial, com determinado princípio formal.

A substância e os acidentes formam uma unidade, com um só ato de ser. O concreto existente, é um composto de substância e de acidentes, como princípios pelos quais o ente finito realmente existe.

 

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CAPITULO XVI

 

O SER RELAÇÂO

 

1. Até o presente, o ser finito foi considerado em si mesmo, ou genericamente, como atributo de um sujeito. Passamos agora a considerar a relação existente nos seres, como ser. A potência, por exemplo, relaciona-se ao ato; o ser acidental ao substancial e assim por diante. Que tipo de ser é a relação?

Os seres todos formam uma unidade na multiplicidade das substâncias, em seus diversos graus de ser. Esta unidade provém do conjunto de relações. O universo é constituído pela relação dos seres finitos entre si e com sua causa eficiente real. Assim o ser pode ser considerado em si mesmo ou em sua relação com os demais seres.

Entre as realidades existentes, algumas são absolutas e outras, por natureza, são relativas. Absolutas são aquelas coisas, que por si podem ser entendidas, sem ordenar-se a outras. A noção de homem, por exemplo, pode ser entendida em si mesma. Existem também realidades relativas, em razão de sua própria natureza e que não podem ser entendidas, a não ser por relação a outras. Desta natureza, é a noção de "pai", que por si é relativa a "filho".

Evidentemente, a mesma realidade, pode ser concebida como absoluta sob um aspecto e como relativa sob outro aspecto. Somente e absolutamente é absoluto, o ser simplesmente.

O relativo, pode ser entendido por oposição ao absoluto. O absoluto diz perfeição do sujeito, considerado em si mesmo. Relativo é sujeito existente em ordem a outro.

Relativo é o que diz ordem a outro, diz respeito a outro. Relação é a ordem de uma coisa a outra. É puramente ordem para outro. Esta ordem requer os seguintes elementos: a) sujeito que se refere; b) termo ao qual o sujeito se refere; c) uma razão ou o fundamento da referencia e d) distinção real entre o sujeito e termo.

No caso da paternidade, por exemplo, o pai é o sujeito, o filho é o termo, o pai causa o filho, é o fundamento e há distinção entre pai e filho.

2. A relação pode ser predicamental e transcendental. A relação predicamental pertence a um modo próprio, a uma categoria acidental de predicação, que totalmente consiste na ordem para outro. Esta relação exige a existência atual do termo. Não é própria do sujeito, mas acontece nele, como acidente real. O ato de ver, por exemplo, acontece na vista, por relação ao visto.

A relação transcendental, não pertence a um modo determinado de predicação, mas pode encontrar-se em todas as formas de predicação. É a relação necessária, sem a qual algo não pode existir. Esta relação existe, por exemplo, entre ser e essência no ente finito. A relação transcendental, pode pertencer à constituição ou ser consequência da constituição do sujeito. Enquanto existir tal sujeito, existirá tal relação. Por isso. a relação real transcendental, acompanha sempre o sujeito do qual é própria, e pode existir sem que exista atualmente seu termo. Assim é o efeito, que cessando a causa, continua sendo efeito, com relação à sua causa.

Em todas as relações, existem os aspectos do "existir em" e "existir para". O "existir em" convém à relação, enquanto é ser acidental, inerente ao sujeito. Nisto a relação é comum aos outros seres acidentais, que existem na substância. O "existir para", convém à relação, enquanto é relação, que se distingue dos outros seres acidentais.

3. A relação somente diz "ordem para" e por isso pode existir na realidade ou ser resultado de reflexão da razão. As relações feitas pela razão existem de diversas formas. É de razão, por exemplo, a relação quando o sujeito ou o termo são da razão, como a relação do gênero aos indivíduos, ou dos indivíduos à espécie universal. É também de razão a relação, se o sujeito e o termo possuírem ser intencional, como a relação entre o sujeito lógico da afirmação e seu predicado lógico.

Se a distinção entre o sujeito e o termo for somente de razão, a relação também será de razão, como a relação de identidade entre o ser e suas propriedades transcendentes. Estas relações pertencem a nosso modo abstrato de pensar, e possibilitam o conhecimento racional.

De outra parte, a relação real, é a que existe independentemente da consideração da razão, e está no que se refere a outro. A relação real exige distinção real entre o sujeito e o termo, que devem ser reais e atualmente existentes. A relação real necessita de um fundamento real no sujeito que se refere, isto é, uma razão interna, que faça o sujeito relacionar-se e supõe um termo real, atual ou possível. Contam-se três os fundamentos da relação:

A unidade e a multiplicidade, constituem o primeiro fundamento. A unidade pode ser de identidade na substância, de semelhança na qualidade e de igualdade na quantidade. Pode-se, por exemplo, relacionar Pedro com Paulo na igualdade, dizendo que ambos possuem a mesma altura (em quantidade). A multiplicidade da substância, da quantidade e da qualidade também funda relações. Ao se dizer, que Pedro não é igual a Paulo, faz-se uma relação, fundada na multiplicidade da quantidade.

Outro fundamento da relação, é o da causa e efeito, como acontece na relação do pai que gera o filho.

Por fim a medida e o medido, também fundamentam relação, como ao se dizer que se possui tal idade, está-se medindo a existência pelo tempo. Relaciona-se a existência ao tempo.

4. O ser, como ser, é absoluto, incondicionado, sem relação. É subsistente absoluto. Os seres finitos, são relativos em si mesmos, à essência que possuem. Por isso, o ser se realiza com a imperfeição posta pela essência, que o relativiza.

A relatividade do ser finito, é a expressão de sua imperfeição. Todos os seres existem absolutamente pelo ser, mas, enquanto se realizam com ser limitado pela essência, são relativos. O ente finito, portanto, é relativo, não em razão do ser, mas da essência. A essência limita o ser, tornando-o dependente e relativo.

A raiz última da relatividade do ser finito, é o princípio material da essência. O principio formal substancial é grau intensivo do ser. Segundo o princípio formal, o ente possui ser e se relaciona ao ser simplesmente e aos outros seres participados. Existe assim uma profunda afinidade ontológica entre os entes através de seus modos de ser.

Pelo agir, os seres estabelecem entre si relações diversas. Na ação das faculdades, existe relação transcendental, isto é, necessária com o objeto formal próprio.

Pela essência específica, resultante do princípio formal, os seres finitos transcendentalmente se referem a todos os indivíduos da mesma espécie.

Pela quantidade, que resulta do princípio material, os seres finitos se relacionam ao mundo externo material.

A relatividade transcendental não se distingue realmente de seu fundamento, pois o próprio fundamento é relativo, que pode ser substância, quantidade, qualidade, etc...

Pela relação entende-se a ordem do universo. O universo é a totalidade dos seres finitos, formando uma unidade. Esta unidade de distintos subsistentes, realiza-se pela relação real. Cada ser finito é realmente relativo aos demais seres. O universo é universo pela relação dos seres reais, relacionados entre si como causa e efeito e como efeitos entre si.

 

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CAPÍTULO XVII

 

O SER SUBSISTENTE

 

1. Introdução: Na filosofía do ser repetidas vezes relaciona-se o ser participado, conhecido através da afirmação da realidade de nossa experiencia imediata, ao Ser não participado, não existente num sujeito, por tanto subsistente.

No capítulo da analogia de atribuição interna, trata-se do ser puro, analogado principal na ordem ontológica. A causalidade metafísica externa eficiente e final, possui como justificação definitiva o Ser incausado, origem e termo do ser e do seu agir. O modo perfeito de subsistência da plenitude da substância, somente existe no Ser, cuja ilimitação nega qualquer potência passiva.

A pessoa, como realização do caráter absoluto do ser, através de suas potências operativas próprias destina-se ao ser de perfeição total, como a seu objeto próprio. A íntima relação dos seres entre si em sentido horizontal, que constitui o universo, só é inteligível por uma relação em sentido vertical, com a fonte do ser, que é o ser absolutamente absoluto. Destes contínuos apelos que o ser de nossa experiência faz ao ser fontal, resulta necessária uma consideração direta do ser absoluto, não por causa de si mesmo, mas em ordem à solução de questões fundamentais da Ontologia. Explicitar o que se afirma como necessário para a inteligibilidade plena do ser. Esta explicitação não pretende tornar completamente inteligível o Ser subsistente, menos ainda explicá-lo como divino.

2. O homem e o mundo real. É um fato a existência do mundo real, onde o homem se encontra como parte. É um fato também a existência de uma faculdade operativa no homem, pela qual se relaciona com o mundo real para conhecê-lo. A manifestação da realidade ao homem faz-se através do juízo, que é a operação própria de seu conhecimento. O homem é juiz da realidade e por seus juízos chega a conhecer a índole íntima desta realidade.

A capacidade de julgar, de afirmar o que existe, funda-se na própria realidade do sujeito humano e do mundo real, termos intimamente relacionados, cuja razão última de relacionamento operativo, por parte do sujeito é o intelecto e por parte do objeto é o ser.

No juízo a correlação mundo-homem, como condição de sua possibilidade, encerra a correlação intelecto-ser. E como o intelecto também é ser, o ser torna-se razão do homem, do mundo, de tudo.

3. O relativo e o absoluto na afirmação. A operação da mente humana fundada no intelecto e no ser em seu exercício, encerra dois aspectos. Um relativo e um absoluto.

a) O aspecto relativo. O mundo próprio do homem e que o homem manifesta a si mesmo por seu ato próprio de conhecer não coincide plenamente, com a realidade em si.

Permanece o homem sempre um ser histórico, preso a limites de tempo e espaço e consequentemente sua operação estará sempre imersa numa situação concreta. Restringer-se-á unicamente aos fenômenos, não fosse a capacidade operativa racional de ultrapassar esta situação relativa.

b) O aspecto absoluto. Não obstante em sua verdadeira historicidade, o homem não imerge totalmente no tempo e no espaço, mas excede os momentos do tempo e as circunstâncias do espaço, a ponto de poder julgá-los e compará-los. Neste julgamento atinge como objeto próprio, a realidade em si do limitante. Assim todo o real se manifesta não, somente como aparece, mas como é em seu próprio ser.

O ser transcende toda aparência puramente relativa e em relação a ela revela-se como absoluto, como totalidade plena, ainda que indeterminada.

Desta forma o homem em sua operação é um ser sujeito a limites históricos, mas segundo sua constituição intima profunda, como intelecto, ultrapassa todos os limites e está ordenado ao simplesmente ser.

Os dois aspectos concorrem para a constituição da operação humana do conhecimento. Não sendo o intelecto humano puramente intelecto infinito, sua operação possui um aspecto relativo, mas também, sem o aspecto absoluto a operação intelectiva não ultrapassaria os limites dos sentidos. Através destes dois aspectos, a operação da mente humana passa do relativo ao absoluto. Esta passagem, que exprime a própria essência da operação humana, revela sua constituição íntima, que faz do intelecto, imerso numa situação concreta, elevar-se ao ser, entendido como ser.

4. O juízo é a sede do ser. De duas ordens são os juízos do intelecto sobre a realidade externa e sobre o próprio sujeito: juízos existenciais e juízos essenciais.

O juízo existencial exprime o sentido fundamental do próprio ser, isto é, seu existir, mas distingue o ser de seu sujeito. Dizendo-se "Pedro é", diz-se que a "Pedro convém o ser", e não que "Pedro é ser".

O juízo essencial não só atribui o ser ao sujeito, mas também o modo, segundo o qual o ser convém ao sujeito, pois em tal juízo há um predicado: "Pedro é homem, é branco".

A realidade em seu aspecto absoluto, como ser, manifesta-se nos dois juízos. No existencial atinge-se o ser mais plenamente, do que no juízo essencial, pois neste, o ser não diz por si existência, mas conveniência de nexo entre o ser do sujeito e o predicado.

Em qualquer juízo encontramos ao menos dois elementos, que de forma abstrata assim se exprimem: O ente é, ou ao ente compete o ser. Esta dualidade própria do juízo resulta da composição existente na coisa julgada e no sujeito, que conhece através dos juízos (por composição judicativa e não, por intuição). Isto vale de qualquer juízo, seja existencial ou essencial.

Dizendo "Pedro", ou "Pedro é homem", diz-se que a Pedro compete o ser, e compete de modo determinado, que é o humano. Pedro não possui a plenitude do ser, nem a plenitude da natureza humana, mas possui o ser e a natureza humana de modo participado, isto é, possui em parte o ser e a natureza.

No juízo, portanto, encontramos o ser, como em seu reino próprio e também sua manifestação própria. Mas em todas as afirmações o ser se manifesta como existente em modo particular, determinado, e não em plenitude de ser, como posição absolutamente absoluta.

É claro, que a função lógica do ser na afirmação, resulta de sua função ontológica, enquanto afirmando atribui-se o ser à realidade singular, como parte sua, medida pelo modo de ser.

Sendo o juízo, a afirmação, a sede própria do ser, somente nele poderemos encontrar sua manifestação, como posição absoluta, não relativa a modos.

5. O objeto do juízo é concreto (composto). O ser entendido nos juízos de nossa experiência não é absoluto, mas relativo a modos. Sua posição não é absoluta. Más será que o aspecto absoluto da afirmação do relativo, exige a existência real do absoluto, como condição de possibilidade do relativo? Os diversos modos de ser em parte, requerem como condição de sua inteligibilidade um modo absoluto de ser em plenitude? O ser simplesmente, atingido no aspecto absoluto de nossas afirmações, existe além dos modos de nossa experiência ou é uma pura forma de conhecer, sem ser?

No exercício de nossas afirmações, o ser nos é dado como princípio real do ente finito; princípio limitado e multiplicado por outro princípio oposto, que lhe é sujeito. Diz-se: ser isto, ser aquilo.

Assim o juízo exprime o ente em forma de concreto (concrescido). É fato real, que o ente real da afirmação, é composto de vários elementos. É concreto, concrescido. O modo de conhecer pelo juízo atinge o objeto julgado como composto, concrescido e assim o ato de conhecer, o objeto conhecido e o sujeito que conhece, são compostos, concretos.

6. Decomposição por abstração total e formal. O juízo conhece o ente como concreto, como composto. A decomposição é feita por abstração. O juízo, a afirmação, como condição de sua possibilidade encerra duas abstrações, a total e formal.

A abstração total encontra-se no predicado da afirmação e reduz o indivíduo à sua essência total. Abstrai-se o sujeito com sua forma reduzindo o indivíduo a uma determinada ordem do ser. Assim de "Pedro" abstrai-se "homem", como algo que possui humanidade.

A abstração formal encontra-se no "é" da afirmação e reduz o indivíduo e sua essência ao ser simplesmente. Chama-se formal, porque se abstrai a forma de ser, que se opõe ao indivíduo com sua essência determinada.

O "é", diz no ente o exercício de ser, diz o próprio ser, em seu aspecto absoluto, como ser simplesmente.

O modo ontológico da abstração formal, reduz o ente concreto a seus elementos constitutivos, e assim reduz o ente ao ser, como sua razão formal. Aqui a forma de ser permanece como elemento constitutivo do ente concreto, sem ultrapassá-lo.

O modo metafísico da abstração formal, decompõe o ente concreto e atinge a forma de ser como tal, ultrapassando-a como elemento constitutivo do ente concreto.

7. A possibilidade da abstração formal em seus modos. O modo ontológico da abstração formal, decompõe o ente concreto em seus elementos constitutivos. É evidente a possibilidade de ser analisado o ente concreto e da análise procede a abstração do ser, como princípio do ente. Esta abstração está contida em qualquer juízo, como condição de sua possibilidade. Sem o ser contido na noção de ente, é impossível o juízo, a afirmação. Esta abstração supõe a distinção real entre ser e essência.

O modo metafísico da abstração formal, chega ao ser enquanto tal, isto é, enquanto ser, evidentemente ilimitado e único. Neste modo de abstração não se atinge o ser como princípio do ente concreto, limitado e múltiplo, mas ultrapassa-se este modo de ser como princípio, para atingi-lo somente como ser.

Aqui a abstração não consiste numa pura análise do concreto mas requer uma justificação particular, que é a seguinte.

Toda afirmação encerra o ser, que de modo absoluto é próprio a tudo que se afirma. Transcende os limites de situações históricas. Nada se opõe ao ser e como ser não se restringe a nenhum modo. Sendo assim, primeiramente o ser consiste em sua posição absoluta (absolutamente é, põe-se) e a essência como modo de ser, deriva-se desta posição absoluta.

Portanto, o ser por si é posição absoluta, permanente em qualquer modo de ser... Por si o ser é necessidade absoluta.

8. Nexo do concreto com o subsistente. Existindo o ser que ultrapassa o modo concreto de existir, evidentemente tal ser não será de um sujeito, porque não concresce, mas subsiste como ser. Desta forma haverá unidade, simplicidade de subsistência, em oposição à dualidade e à composição do concreto. O subsistente é entendido como o ser simplesmente realizado, como ilimitação e unidade de ser.

9. No juízo o ser é composto. Analisando o ato de conhecer humano, que é o juízo, nele constata-se o exercício do ser de modo concreto, como composto com um modo de ser. O ser é afirmado como ser de algo.

Em primeiro lugar, sendo o ente transcendente, nele o ser está contido como ser simplesmente, não limitado a uma determinada ordem, mas excede e abrange todas as ordens.

O conceito de ente como transcendente, segundo sua origem no juízo, é concreto, composto, é aquilo ao qual compete o ser. No juízo o concreto se manifesta sempre como algo, que possui ser. Aquilo que é ser, somente se atinge, negando o modo de ser concreto.

O modo de julgar o ser como concreto, funda-se no modo real concreto de ser do próprio sujeito, que não conhecendo por intuição, conhece por juízo, que é composição.

Disto se conclui, que o ser em forma de composto no ente, é um fato real, pois a composição (o concrescimento) é a estrutura real do juízo, que revela a estrutura real de quem julga e do julgado.

10. O ser concreto supõe o subsistente.

a) No modo concreto o ser compõe-se com um sujeito (a essência) da qual se distingue. O ser não se identifica com o sujeito. Se assim não fosse não haveria modo concreto, composto, o que não se pode negar como fato. A distinção portanto, entre o ser e seu sujeito no concreto, deveria ao menos ser de razão perfeita, mas na verdade é real.

b) Sendo real a distinção, o sujeito do ser, a essência, não faz parte do íntimo do ser, que se constitui independentemente do algo, isto é, da necessidade de ser concreto, composto com algo. Por isso, o ser em sua constituição íntima, não se relaciona por necessidade metafísica à essência, mas está unido à essência de modo totalmente contingente. À essência compete o ser de modo completamente contingente.

c) Se, por fim, o modo concreto, composto com a essência, fosse a única realização possível do ser, o ser por necessidade metafísica estaria unido à essência e assim a essência pertenceria ao íntimo do ser. Consequentemente eliminar-se-ia a distinção entre ser e essência e não poder-se-ia mais falar do concreto, de composto, que se compõe porque se distingue.

Assim resultaria uma contradição, isto é, que o modo concreto, constatado pela análise da afirmação, não seria modo concreto.

d) A contradição somente poderá ser evitada, admitindo-se que o modo concreto, não é a única realização possível do ser. A outra realização é a que não diz união necessária do ser e um sujeito distinto de si. Esta ultrapassa a ordem do concreto e é significada pela existência do ser sem sujeito, isto é, pela subsistência.

11. Realidade do Ser Subsistente.

Somente o ser subsistente real pode explicar e fundar a estrutura real do ente concreto. O ser subsistente, outra coisa não é, que o ser realizado de modo absoluto, segundo sua natureza íntima. O ambiente do ser concreto é o mundo real das coisas e do ser subsistente é a região metafísica.

Comparando os dois modos de ser, o concreto e o subsistente, constata-se ser o subsistente primário e originário, e o concreto ser secundário e derivado. O modo de subsistência do ser, segundo seu íntimo, necessariamente precede o modo que contém o ser, que, quase de certa forma, como alheio, não fazendo parte de seu íntimo.

12. Causalidade exemplar do ser. Conforme a argumentação, a forma do ente concreto somente é possível e inteligível se for precedida pela forma do subsistente, da qual se determina e deriva. Este influxo determinativo, chama-se de causalidade formal externa ou exemplar.

No concreto, o ser distingue-se da essência, isto é, não coincide formalmente com ela, e o exemplar, que é o ser, em virtude de sua subsistência, manifesta-se totalmente independente (absolvido) de qualquer essência. Por ser absoluto, é causa exemplar de ser no concreto.

A causalidade exemplar é primeira e fundamental, enquanto pertence à possibilidade interna e determina qual será a estrutura do ser, que poderá ser realizado.

A causalidade eficiente, refere-se à possibilidade externa, mas supõe a interna. A externa completa a interna.

Na ordem da natureza, a exemplar é anterior, quanto à constituição do ser, e a eficiente quanto à realidade. Como a constituição funda a realização, a causa exemplar é simplesmente anterior.

Assim passamos da realidade do ser, existente de modo concreto e revelado no ato de afirmação, à realidade do ser subsistente, através da causalidade exemplar.

13. Os três modos do ato de ser.

No primeiro modo, o ser existe no ente concreto, como princípio de uma essência finita. É atingido por abstração formal ontológica.

No segundo modo, o ser enquanto ser, é considerado como independente de modos. Ultrapassa qualquer composição com uma essência finita. Neste modo é atingido pela abstração formal metafísica.

c) No terceiro modo sobe-se ao ser subsistente, que absolutamente exclui composição com uma essência finita. É independente de qualquer sujeito. É ato puro, atingido por um raciocínio metafísico.

Realmente só existem e podem existir o ser, como concreto e o ser como subsistente, porque somente estes são determinados. O ser enquanto ser é indeterminado, e só pode ser expresso pelo intelecto humano.

O ser como ser é sempre e essencialmente o meio indispensável para a passagem do concreto ao subsistente.


Referências

 

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AGIR

 

 

 

ÉTICA GERAL


INTRODUÇÃO

 

A pessoa humana é o ser cuja essência se revela pela função do intelecto como faculdade que conhece pelo ato de afirmação (juízo) e pela vontade como possibilidade de escolher livremente entre as múltiplas realidades conhecidas, afirmadas.

Assim o ser humano em situação de normalidade pelo poder de conhecer e livremente escolher o que conhece, é responsável pelas ações que pratica.

A prática de atos responsáveis origina os costumes chamados morais, que na ordem dos valores propriamente qualificam o ser humano.

Os valores morais possuem prioridade na hierarquia dos valores criados pelo homem.

O processo psicológico que origina o agir do ser humano começa pela atração do bem conhecido. Assim o homem age motivado pelo bem.

O bem quando julgado conveniente ao sujeito, torna-se para ele um valor, conhecido e sentido com certa vibração. Esta sensação de prazer provocada pelo valor, surge da conveniência que o valor representa como resposta satisfatória às necessidades do sujeito. E o sujeito através da consciência de suas necessidades e da liberdade em satisfazê-las, quando age em situação concreta, torna-se responsável por seus atos, pois é deles criador.

A responsabilidade humana pertence à ordem moral, como consequência da ação livre e conscientemente praticada. É-se responsável pelo que se faz.

Pelo modo como se porta, o sujeito vai criando seu modelo de vida, sua personalidade moral, seu "ethos". O "ethos" é o "lugar interno" do homem, seu caráter moral adquirido através de atos e hábitos.

Cada homem constrói seu "ethos" pessoal, conforme as circunstâncias em que vive. E guia-se por este "ethos". O "ethos" é o fundamento e a orientação da praxis humana.

Do "ethos" tira sua origem a ética, com o significado de norma que orienta a praxis, a vida prática humana. A ética possui assim função normativa, como ciência diretiva do agir humano. Propõe ao sujeito humano valores morais que realizados em situações concretas individuais, familiares, profissionais e sociais justificam e enriquecem a existência humana.

É, pois a ética uma ciência normativa, não descritiva da praxis moral humana e nem expositiva analítica de termos de significação moral. É ciência prática, orientadora da praxis humana em ordem à valorização moral do sujeito humano. Propõe ao homem a normatividade, o conveniente dever agir, não sob o aspecto lógico ou estético, mas moral, que é o propriamente humano.

O dever agir bem é necessidade proveniente do valor, sentido como perfeição a ser alcançada. E o valor é sentido conforme a situação concreta em que se encontra o sujeito.

Nesta situação está o sujeito humano como natureza, interagindo com o meio físico que condiciona seu gênero de vida. Este por sua vez estabelece normas de comportamento, isto é, indica valores para a sobrevivência e o aperfeiçoamento dos indivíduos no grupo. Estas normas são consideradas como um bem. A elas o indivíduo se adapta enquanto encontra nelas seu valor, sua perfeição.

Por fim o sujeito vivencia as normas, os valores, conforme sua própria consciência moral, tornando moral o que estiver de acordo com a consciência dos valores, que com sinceridade procura descobrir e desenvolver. A consciência moral pessoal constitui-se assim em fundamento próximo do valor moral.

Ética como ciência normativa expõe e explica as normas remotas e próximas, isto ê, as leis e a consciência moral, que orientam o comportamento humano. A multiplicidade de situações em que o sujeito humano atua, determina a divisão da ética em geral, aplicada e profissional.

A razão humana reta orienta a conservação e o desenvolvimento do homem através de juízos de valor. Estes juízos como formulações dos valores, são as leis universais e os deveres comuns, de cuja prática resulta a justificação e o aperfeiçoamento da existência humana. Disso trata à ética geral.

Os princípios comuns são aplicados em circunstancias concretas da vida do homem, como indivíduo e como membro de diversas comunidades a que pertence. Esta aplicação é objeto da ética aplicada.

Já a ética profissional, abrange as normas morais, os deveres profissionais, que o profissional deve cumprir para o funcionamento eficiente, condigno e honroso da profissão,

O ponto de partida da reflexão ética é o fato moral, isto é existem determinados valores, irredutíveis a outros, que atingem o homem em sua subjetividade, qualificando-o como bom ou mau, São os valores morais, cuja estrutura, normas, fontes e consequências, são objeto de estudo da ética.

Portanto a ética é a ciência dos valores morais.


CAPÍTULO I

 

O Sujeito Humano E seu agir

 

1. Somente o homem é responsável por suas ações, porque, como ser livre o consciente, é criador de seu próprio agir. Pode e deve responder pelo que faz. Ele é autor de seus atos. Delibera, decide e livremente executa o que se propõe.

O agir humano depende em seu ser do sujeito e por isso também o qualifica como humano. O homem define-se dinamicamente pelo seu próprio agir. Isso acontece com ele pelo fato de possuir algumas características, que os autores propõem e acentuam, de acordo com a orientação filosófica de cada um.

Para o filósofo Antônio Günther (+1863) a pessoa é definida por uma característica psicológica, que é a consciência atual de si mesma.

Outros dois filósofos, J. Locke e Cristian Wolff, à consciência acrescentaram a memória e a liberdade.

Para N. Hartmann e R. Eucken o homem define-se axiologicamente, isto é, pelo valor moral que livre e conscientemente pratica.

Já S. Kierkegaard e K. Jaspers não consideram a constituição substancial da pessoa, reduzindo-a ao exercício atual da reflexão e da liberdade.

Jean Paul Sartre diz que o homem é radicalmente liberdade, identificada com a consciência e com a existência. A liberdade é escolha, não como atributo da natureza humana, mas sendo o próprio homem. Assim o homem como escolha radical se escolhe ser. Escolhe sua situação, suas condições de existência, seus valores. Aos poucos escolhe sua essência. Desta forma a existência precede à essência.

Para M. Heidegger o homem não é, mas históricamente se faz de modo contínuo. Pela comunicação e pelo uso da liberdade, o homem dá a si seu próprio ser, sua aspiração a vir a ser.

Max Scheler vê na pessoa não um substrato distinto de seus atos, mas o centro deles, percebido e vivido em cada ato. Esse centro que funda todos os atos constitui a unidade, da vida pessoal.

Para os personalistas, como E. Mounier e M. Buber, a pessoa é realidade essencialmente definível, somente por meio do relacionamento com os outros. O "eu" somente pode ser definido pelo "tu".

Karl Marx define o homem na filosofia do materialismo dialético e histórico. O homem não possui uma natureza, mas é resultado de situações históricas, baseadas em estruturas sócio-econômicas. O homem ê um produto histórico em evolução, sem constituição metafísica definida.

 

2. Limitando a pessoa a seus elementos constitutivos fundamentais e às suas consequências, próprias, diríamos que ela é o encontro do eu ontológico com o eu psicológico.

O eu ontológico compreende a natureza determinada da pessoa, isto é, o modo que lhe compete por origem, seu plano constitutivo original, diferente do plano original de outros seres, como os animais e os vegetais.

Este plano original determina e especifica o ser próprio de cada indivíduo. Os indivíduos todos são humanos por possuírem natureza humana determinada. Ainda que a natureza determine o ser humano individual numa espécie, este ser não coincide totalmente com a natureza. É mais que natureza, o que se manifesta no eu psicológico, fundamentalmente constituído de consciência e liberdade.

A consciência como presença reflexiva de si a si mesmo, possibilita a posse de si e consequentemente a disposição de si, através da liberdade. Pela posse e disposição de si, a pessoa torna-se criadora e responsável individual de seus atos, possuidora de direitos e deveres.

 

3. A existência singular do sujeito humano revela-se através da consciência individual e do agir livre pessoal. As decisões, as opções livres vão determinando a imagem, a figura do indivíduo.

O querer livre da vontade revela o caráter singular, individual do sujeito e também sua incomunicabilidade, isto é, o não poder ser comum e transferível a outros. O que foi feito livre e conscientemente por alguém, foi feito por ele e deve responder pelo feito.

Aparece assim o sujeito humano como um ser determinado em sua natureza específica e indeterminado em sua imagem pessoal, que vai se constituindo por suas decisões livres.

A natureza humana constitucionalmente determinada, definida, é indeterminada em suas possibilidade de agir livremente e a indeterminação da liberdade determina-se pelas escolhas que o sujeito vai fazendo no decorrer de sua existência.

Comunica-se o homem com a realidade dos valores, para os quais se sente aberto, e por eles vai se modificando, determinando e constituindo.

Assim a natureza humana determinada, define uma espécie. Possui exigências próprias e diz certo grau de perfeição. O sujeito desta natureza pela consciência e liberdade é indeterminado em relação ao objeto (valor) que vai assumir. O ato de assumir livremente o valor constitui uma determinação. Dizendo por exemplo, "eu me decido" ou "eu sou senhor de mim", constata-se o "eu" que dispõe de si para se determinar.

A indeterminação proveniente de liberdade de escolher-se sucessivamente, não significa falta de perfeição, mas potência positiva para um continuo aperfeiçoamento.

O uso da liberdade não modifica a constituição determinada da natureza humana da qual se origina. Modificando as exigências fundamentais da natureza, a liberdade comprometer-se-ia a si mesma.

Assim, a natureza humana através da razão e da consciência moral, manifesta certas necessidades que exigem satisfação por meio de valores adequados. A liberdade não pode opor-se a estas exigências próprias da natureza, sem negar sua racionalidade.

O sujeito humano desta forma, pela posse de si, que lhe é fornecida pela consciência de si e pela disposição de si, que lhe é dada pela liberdade, conscientemente realiza sua finalidade, que é a finalidade da natureza humana.

4. De características ontológicas o psicológicas próprias, como consequência possui também o sujeito humano um agir próprio.

Nem sempre o agir do homem é humano, por carecer dos elementos que o tornariam humano. Assim por exemplo, onde houver ignorância e falta de liberdade o homem pode agir, mas não age de modo humano. Para ser humana a ação deve satisfazer certos requisitos, exigidos pela própria constituição do sujeito racional, consciente e livre.

a) Antes de agir, deve o sujeito ter consciência, deve representar o que pretende realizar. O sujeito através de um juízo de valor, delibera sobre o conteúdo da ação. Procura conhecer o que vai tornar ato real,

b) Esta deliberação é seguida pela decisão, que é o querer efetivo da ação ou do valor contido na ação. A execução da decisão, é efeito de potências externas à vontade.

O querer da vontade é o dinamismo da razão informada pela idéia, orientada à execução polo juízo de valor. A ideia torna-se realidade através do dinamismo valorativo da razão pratica.

c) O bem que faz o sujeito agir, é o motivo, a causa final da ação. Quando motivado pelo bem, o sujeito sabe que está agindo e porque está agindo. No horizonte da ação, há sempre o valor que motiva, que move a vontade a querer, a decidir-se.

O valor é o bem honesto, julgado conveniente às necessidades do sujeito, sem considerar propriamente a utilidade e a satisfação que pode causar.

d) A decisão da vontade para ser humana deve ser livre. Poder dispor dos próprios atos conscientes, para realizá-los quanto a seu ser e modo de ser, é condição fundamental do agir humano.

5. A liberdade física ou psicologicamente considerada ê uma disposição da vontade humana, através da qual o sujeito, diante dos valores, pode optar ou não pela ação e pelo modo e conteúdo da ação.

A liberdade absoluta ou física, é o poder absoluto de agir não levando em conta a racionalidade ou irracionalidade da ação.

A liberdade pode ser exercida conforme os juízos da razão reta, que julga os valores convenientes ao sujeito. Será então ordenado e moral tal uso da liberdade.

O sujeito humano quando age conscientemente sabe que pode dispor de seus atos, ainda que esta disposição possa variar em cada indivíduo, segundo seus condicionamentos pessoais.

É próprio da condição do sujeito humano possuir liberdade, como capacidade individual de transcender os valores no ato de escolher. Poder estar além de si e dos objetos, não sendo necessariamente determinado por eles. Tudo isso possibilita ao sujeito humano ser o criador e o responsável por seus atos e de ser por eles profundamente marcado.

De alguma forma consciente de ser o senhor de seu destino, pelo fato de ter liberdade, torna-se o homem uma realidade inquieta e existencialmente angustiada. Aspira a valores que transcendem os de sua experiência imediata. Deve no entanto optar livremente para satisfazer a situação.

Deve proceder à escolha de valores num plano puramente horizontal, passando do relativo ao relativo, sem resposta definitivamente satisfatória. Viverá desejando desejos novos, acompanhados da esperança de superar a angústia, contida nos próprios desejos de valores limitados.

Procedendo em sentido vertical, a escolha livre do valor, pode transcender o relativo para terminar no absoluto, Este fenômeno de transcendimento é autenticamente humano, enquanto aspira o homem a uma resposta plenamente satisfatória,

O ser humano pelo dinamismo de sua inteligência e vontade, tenta superar os horizontes limitados de sua experiência. Busca ultrapassar o contingente, para firmar-se no necessário e definitivo, que pode aliviá-lo da angustia.

O termo que o dinamismo do ser humano busca, é o fundamento absoluto dos valores. É este real absoluto o motivo ultimo de toda a atividade humana livre.

6. A liberdade humana é sempre individual e encontra-se em situações concretas, que a determinam e condicionam. A ignorância, por exemplo, sobre o valor de uma ação, impossibilita o exercício responsável da liberdade.

Os condicionamentos da liberdade são de natureza diversa. Fatores naturais bio-psicológicos, como a idade, o sexo, o temperamento, as disfunções do sistema endócrino e neurológio, podem repercutir de várias maneiras no conhecimento e nas livres decisões do homem.

As situações sociais podem criar tensões, que modificando o comportamento, alteram o exercício da liberdade. Há pressões políticas, religiosas, culturais, econômicas e outras, que inconscientemente conduzem as pessoas a agir de forma coletiva e não mais individual livre. Os meios de comunicação, as relações nos ambientes de trabalho, as formas de diversão, são outras maneiras de condicionar o uso da liberdade.

As incontáveis formas de controle da atividade humana, estabelecidas por normas a seguir, fazem do homem um ser subjugado, enquadrado, despersonalizado, incapacitado de exercer espontaneamente sua liberdade. Existem ainda os condicionamentos psicológicos, ligados aos diversos tipos de personalidade ou aos transtornos de natureza neurótica ou psicótica. Conforme o grau de intensidade, as patologias psicológicas impedem ou até eliminam a responsabilidade humana.

 

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CAPÍTULO II

 

Os Valores

 

1. O ser humano é sujeito de muitas necessidades. Algumas são naturais e outras são adquiridas. Entre as adquiridas, há boas que lhe servem, e há menos convenientes, que ao serem satisfeitas podem prejudicá-lo.

Necessidade é o dinamismo destinado a mover o homem na busca do que lhe é conveniente. E o que é conveniente a alguém ou a alguma coisa, chama-se de bem. Assim a água é boa para a planta e para o animal.

Quando o bem for julgado pelo sujeito como resposta satisfatória às suas necessidades, torna-se um valor. Através de um juízo de valor, o homem julga convir a si mesmo o bem que lhe confere valor, que dá perfeição. E a perfeição é a finalidade do agir humano. Daí a preocupação, o interesse de pensar a realidade em função do valor que possui para a plenificação humana.

a) Rodolfo Lotze (+ 1881) é considerado o pai da moderna filosofia dos valores, por ter introduzido a distinção entre entender o ser a sentir o valor. Entender e sentir são dois modos diferentes de conhecer. Sentir é um modo de conhecer com emoção, com sentimento. Mas, ser e valer possuem raiz comum. É no âmago da realidade que se encontra o conteúdo valioso.

b) Para Francisco Brentano (+ 1917), seguidor do pensamento de Lotze, o valor é um fenómeno original. Afirma que no conhecimento o conceito representa a essência do real e o juízo o ser desta essência, O sentimento por sua vez, indica amor e ódio, gosto e desgosto, que se relacionam com valores antivalores.

Somente por uma característica forma de amor, se atinge o valor, como pelo juízo (afirmação), apreende-se o ser.

c) O pensamento platonizante de Max Scheler, Nicolai Hartmann e Dietrich Von Hildebrand, coloca o valor como forma possuidora de certo ser em si, atingido por intuição emocional e não racional.

d) Psicólogos, com Ribot, Mueller-Freinfells o outros, interpretam o valor de forma individualista, considerando-o projeção das tendências e necessidades do sujeito. São os desejos da pessoa que fundam o valor. Vale o que se deseja, do que se necessita.

e) Já os sociólogos Émile Durkheim, L. Levy-Bruhl, tomam os fatos sociais como fundamento e razão dos valores. É a sociedade, através de seus juízos de valor sobre os fatos sociais, que estabelece os valores.

f) Alguns autores existencialistas, como Sartre e Polin, valorizando a liberdade humana, estabelecem-na como valor supremo e norma do valor humano. O valor depende do uso que o homem faz da liberdade.

g) Para a orientação filosófica marxista, é a infraestrutura económica e social que dá origem aos valores. A fonte do valor é o homem, e a sociedade sem classes é seu ponto de referência, para se estabelecer uma hierarquia de valores.

h) A escola filosófica espiritualista de René Le Senne e Louis Lavelle relaciona os valores à atividade espiritual do homem, que se dá conta serem os valores certa manifestação do Absoluto. Uma presença do Absoluto nas realidades do mundo. As coisas finitas participam do valor do Ser Absoluto.

2. Fenomenologia do valor. Para se poder determinar a natureza do valor, é necessário apreciar a forma de manifestação, de revelação do bem ao sujeito humano. O bem é sentido, percebido por certos fenômenos, que desperta no sujeito.

No momento em que se dá a conhecer, o bem suscita o desejo de ser possuído, porque sua posse valoriza o sujeito, enquanto responde satisfatoriamente às suas necessidades. Além do desejo, o bem desperta admiração, amor, exaltação.

Entretanto o valor não se manifesta a não ser como resposta às inclinações. O valor assim é a resposta satisfatória às necessidades perfectíveis do sujeito.

O desejo e o amor não são simples modos de perceber o valor, mas se constituem em forma de conhecimento afetivo profundo, iluminado pelo intelecto. Os "pensamentos do coração" são os pensamentos envoltos em afetividade, nos quais o valor se revela. A afetividade é a presença do prazer na satisfação de necessidades causadas pelo valor.

A manifestação do valor supõe que ele possua os elementos para satisfazer às exigências de perfeição do sujeito.

Para que o valor se manifeste, da parte do sujeito, em primeiro lugar, deve haver a devida aptidão para sentí-lo e apreciá-lo. Deve também estar presente no sujeito o interesse, o gosto, que é a direção da efetividade para objetos determinados. O interesse é uma posição afetiva e a aptidão é um modo de ser do sujeito.

Requer-se ainda no sujeito o ajustamento de sua personalidade. Este ajustamento comporta traços de caráter equilibrados (flexibilidade, bom humor...), certa estabilidade emocional e motivações adequadas.

Em relação à manifestação de alguns valores cultivados, deve o sujeito ter a devida competência, adquirida pelo estudo e a experiência.

3. Características do valor. A noção que o valor significa, é acompanhada de algumas qualificações características.

a) Diz-se que o valor transcende nossa experiência do real, porquanto não há realidade que responda satisfatoriamente à nossa busca de valor. Assim o valor é transcendente porque transcendente é no ser humano a aspiração ao valor.

b) Por ser o valor a resposta à necessidade de perfeição no homem, em si mesmo ele diz necessidade de existir e necessidade de ser possuído, para justificar a finalidade do ser humano.

c) Os valores sendo realidades positivas qualificativas de perfeição, possuem posições contrárias qualificativas de imperfeição. Assim ao bem se opõe o mal, ao belo o feio.

d) Como as necessidades de perfeição no homem são diversas e diferentes em sua natureza, diferentes também são em natureza a realidade dos valores. A heterogeneidade dos valores significa que cada um possui natureza própria.

4. Natureza do valor. Do modo como se manifesta, pode-se deduzir a estrutura do valor. Manifestando-se como realidade que aperfeiçoa, evidentemente em si mesmo o valor deve ser uma realidade que possui perfeição. À necessidade de perfeição do homem, de satisfação dos desejos conscientes ou inconscientes, de plenitude, de totalidade, responde o valor como ser perfeito em si para a perfeição do sujeito.

Assim o valor formalmente como perfeição não existe em si mesmo, independentemente do sujeito, mas por relação transcendental ou de necessidade para com o sujeito.

Nem o valor em si objetivamente, nem o desejo e o amor do sujeito subjetivamente, constituem formalmente o valor, mas a relação de satisfação de perfeição do sujeito pela realidade do valor, é que determinam o valor.

Não existindo a perfeição como tal em si, mas no sujeito pelo valor, se conclui que o valor é o ser perfeito do sujeito. Existir como ser perfeito, através de respostas satisfatórias aos desejos de perfeição, de totalidade, define o valor para o homem.

O ideal que está no horizonte dos projetos do homem, é o desejo de sentir-se completo, totalmente feito (perfeito) pelos valores correspondentes à heterogeneidade de suas necessidades biológicas, estéticas, morais, econômicas...

Desta forma, o valor se estrutura como ser perfeito o sujeito, por relação a uma perfeição real.

5. Conhecimento do valor: O valor como perfeição está vinculado ao desejo, ao amor, à admiração do sujeito, disposições envoltas em efetividade.

a) Assim a densidade do valor, não pede ser conhecida através de um ato puramente racional e "a priori", sem relação a uma experiência sentida. O racionalismo puro é incapaz de formar válidos juízos de valor.

b) Para se conhecer o valor é necessário considerá-lo como resposta ao dinamismo de perfeição do sujeito. No encontro da busca de perfeição, com o objeto adequado a esta busca, se conhece o valor.

Para se formular um verdadeiro juízo de valor, onde se dá seu conhecimento, é necessário que o objeto que aperfeiçoa, seja considerado pelo sujeito como conveniente a si, enquanto sujeito que busca perfeição, E conhecer o objeto como bem (perfeição) é perceber a concordância de seu dinamismo com o dinamismo do sujeito. O ideal que o sujeito busca, é o próprio ideal a que o objeto se destina, que é ser perfeito.

c) Ha ainda o modo conatural ou espontâneo de se conhecer o valor. Consiste na resposta que um objeto conveniente dá a aspirações e sentimentos de inquietude do sujeito.

Antes de qualquer juízo valorativo, antes de qualquer proposição temática de um valor, sente-se que algo causa satisfação como resposta a uma busca não definida. Diz-se então espontaneamente ao ter contato.com tal valor: "Era o que eu procurava" ou "era o que eu desejara".

Desta maneira os desejos indeterminados e confusos tomam forma e orientação a um fim. A conveniência do valor nesta forma de conhecer, não é conhecida tematicamente, mas é sentida, experimentada, vivida. É o caso das vocações pessoais. A aspiração a um ideal, vago, se concretiza no encontro com um determinado valor.

6. A hierarquia dos valores: O valor, como ficou dito, se constitui por uma relação de conveniência de uma realidade boa com as necessidades (potencialidades) de valorização do sujeito.

Há necessidades que são naturais e outras adquiridas com prioridades variadas de satisfação, conforme às disposições próprias e escalonadas de cada indivíduo. Assim na determinação da escala de valo­res, deve se levar em conta o modo de relacionamento do indivíduo, segundo a preferência de satisfação de suas necessidades.

Em si mesmo, sem levar em conta as preferências do sujeito em sua escolha, existem quatro graus definidos e especificados de valores.

a) Os valores ditos infra-humanos são os que valem para o homem, ainda que não sejam específicos do homem. São também comuns aos outros animais, como os valores biológicos e os da sensibilidade, A saúde do sujeito, que é seu bem-estar físico e psíquico, é um valor no sujeito, resultante de conveniências reais (alimentação, remédio) que o produzem. De forma semelhante à satisfação dos sentidos como o ver, o ouvir, o saborear o que convém e causa prazer e bem-estar, é para o sujeito um valor. O prazer assume valor humano, quando julgado conveniente ao ser racional.

b) Ao segundo grupo pertencem os valores chamados humanos infra-morais, enquanto por si não atingem as características próprias do homem, como ser racional e livre. A beleza física, por exemplo, não faz o homem melhor como ser racional. Tais valores são próprios ao homem, mas não formalmente do homem.

A esta classe pertencem os valores econômicos e os eudemônicos, considerados em seu estado objetivo, como a riqueza, o sucesso num empreendimento e em seu efeito subjetivo pela felicidade que podem proporcionar, quando de sua posse e uso ou bom êxito na ação.

Do mesmo grupo dos infra-morais, fazem parte os valores chamados espirituais, de certo modo mais distanciados das necessidades biológicas. A esta classe pertencem os valores noéticos, como a verdade, a doutrina e seus conhecimentos por parte do sujeito. Os valores estéticos são a beleza e o bom gosto pelo belo. Os valores sociais se constituem da prosperidade da nação, do grupo e pelo dom de liderança, de relacionamento e de iniciativa de membros da comunidade. Os valores da vontade são os traços positivos de caráter, como a força de vontade, a constância nos empreendimentos e o uso com sucesso dessas disposições, Estes valores da vontade podem confundir-se com os valores morais, mas não se identificam com eles.

c) O terceiro grupo é formado pelos valores propriamente humanos, que são os valores morais. Estes atingem o homem como homem, naquilo que lhe é mais seu, isto é, no exercício racional de sua liberdade.

Em seu aspecto objetivo, o valor moral se constitui do bem honesto, que a razão prática descobre e propõe à liberdade da vontade. Este bem honesto está contido em todas as ações humanas, como a justiça, a verdade, a fidelidade, a temperança, a prudência, etc.

No aspecto subjetivo, o valor moral é próprio do ato livre, que assume o valor objetivo. É este ato livre, de conteúdo moral, que atinge a subjetividade humana, qualificando-a como humana. Diz-se por isso: "Fez o bem, é bom; fez o mal é mau".

Sendo o sujeito definido pelo valor moral, é evidente que tal valor deva impor-se a todos os valores, já que é o único a atingir a subjetividade intima do homem,

d) Os valores religiosos, que formam o quarto grupo, do ponto de vista objetivo, se constituem do sagrado, do divino, de Deus e de tudo o que entra em relação com o sagrado, como ritos, fórmulas, objetos e pessoas sagradas.

Na prática religiosa se exerce o valor sagrado, através de atitudes, funções, liturgias. São os atos de culto ao sagrado. Santidade é a qualidade da pessoa subjetivamente consagrada ao sagrado por atos sacros. Santo é aquele que em seus atos irradia o sagrado, o divino.

O valor sagrado para ser sagrado, deve ser racional, podendo ser supra-racional, mas nunca irracional (contra a reta razão). O agir sagrado, religioso, sendo racional, será sempre moral. Qualquer prática imoral, irracional não poderá ser religiosa. Assim o valor religioso abrange o valor moral natural, podendo ultrapassá-lo por valores sobrenaturais.

 

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CAPÍTULO III

 

Fato do valor moral

 

1. O mundo da ética é o mundo do valor moral. O ponto de partida para a consideração do valor moral é a constatação de sua existência, como realidade objetivamente fundada e em si mesma válida.

Pergunta-se à consciência axiológica, se lhe é dado um valor distinto e irredutível a outros valores, que realmente atinja a todos os homens em sua qualificação propriamente humana.

O senso comum da humanidade reconhece a especificidade da experiência moral e do valor por ela revelado. Esta experiência é diferente da experiência de outros valores, como dos valores eudemônicos provenientes do ser louvado, estimado, favorecido.

Não se trata de saber como foi constituído para o homem este valor, mas simplesmente como se apresenta o valor moral à estrutura atual da consciência humana.

É próprio do valor moral valorizar o ato humano enquanto humano e através dele valorizar o próprio homem. O ato humano é humano enquanto moral e o homem se justifica como homem pelo valor moral que pratica. A beleza, o vigor, a habilidade não tornam o homem bom como ser humano, em seu aspecto moral. A experiência do valor moral da consciência humana não pode ser uma ilusão, mas corresponde à realidade.

2. Existem juízos do valor moral. As ações dos indivíduos são julgadas moralmente como boas ou más. Este modo de julgar encontra-se em todos os tipos de cultura, da mais primitiva à mais evoluída, claro, com diferenças quanto à determinação do conteúdo reconhecido como bom ou mau.

Nos juízos morais existe a noção de mérito com a correspondente recompensa, pela prática do bem, vinculado à ordem, à retidão, à justiça, etc.

A ação moralmente boa não está ligada às qualidades físicas, intelectuais e económicas do sujeito, mas a seu comportamento racional livre. Aprova-se o que foi em si bem feito e reprova-se o mal feito. Sente-se com pesar, o insucesso de quem age bem e o sucesso de quem age moralmente mal.

Frente aos valores naturais não se possui apreciação comparável à dos valores morais, únicos que propriamente humanizam o homem. Tais valores, às vezes, parecem impostos pela divindade, pela educação ou pela sociedade. Mesmo nesta suposição a consciência humana dá-se conta de que, em si mesmos os valores morais, independentemente de sua origem, são os valores próprios do homem.

A consciência humana, evidentemente não teve sempre uma noção clara do valor moral e de sua proeminência sobre os outros valores. Inclusive a virtude possuía sentido de força física e somente aos poucos passou a ter o significado de virtude moral.

Os valores morais, como os demais valores foram sendo gradativamente descobertos e aperfeiçoados em seu conceito e realidade. Através da experiência e da reflexão, o homem foi formando a convicção de que o valor moral é o valor propriamente humano, independentemente de determinações religiosas e sociais, ainda que a religião, a educação e a sociedade insistam na prática destes valores.

Os juízos de valor sobre o bem e o mal moral praticados por outros, não consideram nosso relacionamento de amizade ou inimizade, de utilidade ou inutilidade com eles. O bem é bom e o mal é mau, independentemente das qualificações da fonte donde procedem.

Igualmente em relação a nós mesmos, sentimos não ser a sensação que nos leva a proceder corretamente, mas o valor da ação em si mesma, enquanto atinge nosso modo humano de ser.

Na experiência do arrependimento, isto é, do desejo de que não se tivesse feito o que se fez, revela-se o valor moral destruído pelo mal praticado, que atingiu o próprio sujeito em sua integridade humana. O mal moral contraria o ideal humano, proposto como objetivo a ser alcançado, no decorrer da própria existência.

Não é a repulsa suscitada nos outros pelo mal praticado, que explica o sentimento de perda e de diminuição, mas a consciência de violação da própria integridade pessoal. Não importa que os outros ignorem o mal praticado, ele no entanto existe e atinge o sujeito, à semelhança da doença física, que produz suas consequências, sentidas, mesmo quando a doença é ignorada pelos outros.

3. A obrigação moral. Obrigação significa necessidade. O homem sente-se necessitado, obrigado à ação para construir a si mesmo, sua personalidade nas diversas dimensões que possui.

O dinamismo interno do ser humano está voltado para os valores, como respostas satisfatórias necessárias. A necessidade dos valores funda-se na experiência da necessidade, que o sujeito humano sente de realização. Daí a obrigação como necessidade procede do valor, que obrigatoriamente deve ser assumido, para justificar a existência do sujeito e seu aperfeiçoamento.

A noção de obrigação moral é um dado da consciência, constatado na experiência do agir humano. O homem dá-se conta de forte imposição feita à sua consciência, para proceder de um modo determinado. A liberdade que possui não o exime da necessidade de assumir os valores morais, que são seus valores próprios. O sentimento de culpa (remorso) surge, quando da violação desses valores.

O sentimento de culpa no caso, não é simples tristeza proveniente de algo que se perdeu, mas é o sentimento de perda de si mesmo, pela perda dos valores da própria existência. Tudo isso, o homem expressa através de afirmações, que indicam necessidade moral, originada do valor. São afirmações como: "Isto não é como devia ser" ou "Deve-se proceder assim".

Esta necessidade não provem da natureza física do sujeito, que como sujeito não é determinado, mas é livre. Provem da consciência do dever realizar a própria existência através de valores propriamente humanos.

Não resta dúvida, que muitas vezes a necessidade de praticar o bem se origina de pressões sociais, ou influências de natureza religiosa, de temores de castigo ou de desejos de louvor. No entanto, independentemente destes fatores, sente-se o homem necessitado à prática do valor moral frente à própria consciência, para justificar, dar sentido e perfeição à sua vida.

Há exigências que por si necessitam o sujeito a satisfazê-las, sem razão nenhuma externa. A necessidade do alimento para a conservação e o aperfeiçoamento físico e a necessidade do valor moral para o aperfeiçoamento racional, são de origem interna do homem e por isso naturalmente sentidas. De sua satisfação adequada depende a realização humana.

Na ordem natural o homem não pode justificar que não precisa satisfazer a necessidade de alimentar-se para sobreviver, como não pode provar a existência da necessidade de alimentar-se. São fatos que por si mesmos se justificam.

Assim a obrigação moral, é uma necessidade natural interna, cuja satisfação adequada, justifica e aperfeiçoa o ser humano em seu aspecto formal.

A violação da obrigação é uma violação do valor do sujeito e a reparação é o modo de recuperar o valor perdido, de refazer o equilíbrio violado.

O “dever fazer o bem” e o “dever evitar o mal”, procedem da consciência de necessidade da valorização do próprio sujeito, em si mesmo livre para escolher.

Todos os valores, enquanto valorizam o homem impõem-se à sua liberdade de escolha. Unicamente o valor moral possui a prerrogativa de qualificar o homem como ser racional e livre.

A falta de saúde, de beleza, de prosperidade não desqualifica o ser humano, mas a maldade moral torna-o irracional, enquanto corrompe sua razão e liberdade.

O homem pode deixar de praticar o valor moral, único propriamente humano racional, mas sentir-se-á sempre a ele sujeito. Desprezando o valor moral, sente-se o homem desprezado a si mesmo como ser racional. Assim o valor moral impõe-se por si como necessidade que faz crescer o sujeito. Faz o homem ser o que deve ser, superando modos de ver e sentir individualistas, que o desviariam de seu fim próprio.

É evidente que cada homem se realiza a partir de seu modo pessoal de ser, mas esse modo pessoal não deve desviá-lo da necessidade do valor moral. Esta necessidade não se propõe ao sujeito de modo disjuntivo, mas de maneira absoluta. O imperativo do valor moral é racionalmente categórico, sobre as disposições individuais do sujeito. Contrariar o valor moral é contrariar e negar-se a si mesmo.

Diz-se portanto, que “o bem deve ser feito e o mal deve ser evitado”, no sentido de que se deve fazer somente o bem, algum bem e praticar aquele bem, cuja omissão seria um mal.

A ética neste sentido é ciência normativa. Não propõe a verdade moral à contemplação do homem, mas a sua execução.

A inteligibilidade do ser humano em sua plenitude, somente, é possível pela prática do valor moral.

 

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CAPÍTULO IV

 

Normas do valor moral

 

1. Verificada a existência do valor moral do agir humano, deve-se estabelecer o princípio que o constitui como valor.

É da essência do valor moral relacionar-se a uma norma que o determine a ser tal. Esta norma será seu princípio constitutivo último próprio.

Segundo o positivismo moral, origina-se o valor moral da conformidade do ato humano com uma lei positiva estabelecida por autoridade humana ou divina. Fundamenta-se esta opinião, no fato constatado da diversidade de formas e modos de existir do valor moral. Conforme a cultura, os costumes, as situações políticas, religiosas e econômicas de cada povo, varia a noção de valor moral.

Os precursores deste modo de conceber a norma dos valores foram os sofistas dos séculos 5º e 4º a.C., como Protágoras, Hipias e Cálicles, para quem os valores morais são relativos às situações concretas de cada sociedade. Esta doutrina foi reassumida no século XVI por Montaigne.

É de Thomás Hobbes também a afirmação, de que o bem e o mal, o justo e o injusto somente existem após a promulgação de leis positivas.

Autores da sociologia positiva, como É. Durkheim e J. Levy Brhul afirmam que a moral é imposta pela aprovação da sociedade.

Os defensores do voluntarismo divino, como Guilherme de Ockham, René Déscartes e Samuel von Pufendorf, fazem depender toda a ordem moral da vontade livre de Deus.

Pode-se fazer algumas observações à opinião dos autores citados. Em primeiro lugar deve-se conceder, que estabelecida uma lei moral pela autoridade legítima, sua observância é um valor moral. No entanto, a noção de honestidade, de valor moral, é anterior à lei, pois é da própria honestidade que a lei tira seu valor. Há um critério de valor, que precede e determina o valor da lei.

O mesmo se diga em relação à vontade divina. Se o homem não tiver noção de honestidade, nada significará para ele dizer, que é honesto obedecer, quando Deus manda.

2. A escola hedonista e eudemonista colocam o prazer e a felicidade como critérios do valor moral, isto é, o prazer dos sentidos ou a felicidade racional causam o valor moral. Porque o prazer e a felicidade são o que todos procuram, serão eles a medida do valor. Os epicureus hedonistas são os precursores desta doutrina, enquanto afirmam estar no prazer o sumo bem. O princípio do prazer conduz o ideal da vida humana,

No século XIX Jeremias Bentham (1832) utilitarista hedonista, propõe que os homens disponham suas ações de tal modo, que delas possam tirar o máximo prazer. Valoriza a benevolência, que produz um prazer puríssimo. Aos legisladores compete construir para seus cidadãos a maior felicidade possível.

Aristóteles, desenvolve um eudemonismo racional, colocando a felicidade do homem na prática do bem, acompanhado de boas disposições, físicas, económicas a sociais. É como cidadão virtuoso que o homem constrói sua perfeição. As virtudes intelectuais (dianoéticas) prevalecem sobre as virtudes morais. O que mais torna o homem feliz e o aproxima da divindade, é a contemplação filosófica. Esta doutrina aristotélica é proposta em nossos dias pro Éric Weil.

Ao eudemonismo observe-se que o prazer e a felicidade são efeitos do bem e não sua causa. Porque se faz o bem se é feliz. A felicidade é o efeito merecido pelo bem praticado.

O prazer dos sentidos não pode ser norma do valor moral. Este pertence à constituição racional do homem. Existem ações heróicas, honestíssimas e de sumo valor, que são acompanhadas de fortes sofrimentos, sem prazer.

3. O sistema altruista possui como critério do valor moral, fazer bem aos outros. Toda ação, cuja finalidade é o bem alheio social ou individual, é moralmente boa.

Para muitos autores contemporâneos, como M. Scheler, M. Buber, M. Nédoncelle, E. Mounier, a personalidade moral consiste radicalmente no relacionamento com o outro. O valor moral surge na comunicação verdadeira, na abertura para acolher o outro.

Alguns autores, de maneira sentimental, colocam no afeto para com os outros a norma do valor. Assim é moralmente bom o que se pratica com benevolência (Francisco Hutcheson) simpatia (A. Smith), altruísmo (A. Comte).

Para João Stuart Mill, o homem moralmente bom, é o que procura imediatamente o bem para o maior numero possível de pessoas.

Para a escola marxista, as idéias morais surgem sempre da classe dominante. A moral feudal estava baseada na honra. A moral burguesa no respeito à propriedade.

A moral do proletariado surge da visão da futura sociedade sem classes. Abolida a propriedade privada, a exploração e a divisão das classes, passará o homem do reino da necessidade para o da liberdade. A moral presente está em função deste futuro a ser alcançado.

A moral marxista é totalmente teleológica, isto e, o valor das ações é julgado em função de um fim (telos) a ser alcançado.

Em primeiro lugar ao altruísmo observamos que o critério que estabelece a bondade do bom relacionamento, da benevolência, da simpatia, não está nestas virtudes. Que faz, por exemplo, ser boa, racional a simpatia, a benevolência?

Qual o princípio, que estabelece ser a sociedade sem classes o valor ideal para o homem e critério de todo valor moral? A sociedade somente pode ser critério de valor, se julgada e estabelecida como objetivo, que resultará em benefício e defesa da pessoa. O valor julgado conveniente ao homem, com ou sem as instituições, é que vale. As instituições existem em função do homem, que a todas precede.

4. Existe a chamada ética cósmica e biológica que valoriza a vida e o universo, considerado às vezes como objeto de veneração. Faz-se a tentativa de identificar a ordem física com a moral. Assim, por exemplo, o que serve para expandir a vida é moralmente bom.

Os estóicos cultivavam a moral cósmica, segundo o princípio do viver conforme à natureza. As leis do universo são a expressão do logos ordenador e orientador que é justiça, providência, etc...

Herbert Spencer explica a origem e o desenvolvimento da consciência moral, segundo sua orientação evolucionista. Para ele, o homem passa do egoísmo ao altruísmo. O bem dos outros procurado por interesses próprios passará para o interesse dos outros. A humanidade, através de uma evolução natural, tende para um estado, onde cada um espontaneamente procurará o bem dos outros. Então a obrigação não terá mais razão de ser.

Frederico Nietzsche exalta a vontade de poder e afirma que a vida deve preparar a vinda do super-homem. Há dois tipos de pessoas: os senhores e os escravos. Os senhores são os indivíduos nos quais a vida se afirma plenamente. Somente eles possuem valores nobres e superiores. Os escravos são una tropa de miseráveis, dedicados a valores vulgares. Em Nietzsche, a evolução da vida é o valor supremo.

Henrique Bergson em sua filosofia moral, distingue a ética fechada da ética aberta. A fechada é de índole biológica e social. Resulta da pressão exercida pela sociedade sobre os cidadãos. As ações dela resultantes são automáticas e inconscientes. É moral impessoal, cuja finalidade é conservar os costumes sociais. Está em função de um grupo e nunca será válida para toda a humanidade

A moral aberta é de índole mística. É vocação própria dos grandes homens. Origina-se de uma emoção profunda, de um apelo ao heroísmo. Não procede de pressão, mas é humana e pessoal. Fruto de evolução da primeira, é uma renovação do ímpeto (élan) vital. O valor supremo que se procura na ética aberta, é o amor espiritual, atingindo-se uma experiência mística.

A todas essas opiniões observamos, que o valor moral que atinge o sujeito racional, não pode resultar de algo que lhe seja inferior, como o universo e a vida física em toda sua evolução. O homem livre está acima da ordem do universo em evolução e o valor moral, é algo de absoluto para o homem e não relativo a situações históricas e a momentos da evolução biológica.

5. Ética da liberdade. O valor moral é próprio do ato humano, se este gozar de liberdade. Parece, portanto, resultar da liberdade e valer proporcionalmente ao grau de liberdade, como norma do valor moral, O homem age moralmente bem quando livre e moralmente mal quando não livre. Com isso o progresso moral é descrito como certa libertação.

Os estóicos deram grande valor ético ao racional e livre domínio de si sobre as paixões. Há filósofos contemporâneos, que insistem em colocar o valor moral na afirmação de si, como indivíduo, distinto dos outros pela liberdade pessoal e única. É a teoria de Max Stirner (Johann Kaspar Schmidt).

Para Jean Paul Sartre o homem é liberdade. E liberdade é escolha radical, pela qual o homem escolhe a si mesmo, suas condições de existência, sua índole, seus valores. Agindo assim o homem determina sua essência. É uma liberdade absolutamente indeterminada. O homem deve continuamente preocupar-se em ter consciência de sua liberdade pessoal radical, para assim ser mais ele mesmo, mais autenticamente, mas também para ajudar os outros, a alcançarem esta liberdade.

A tudo isso se observa, que a liberdade em seu sentido próprio, enquanto não diz necessidade de escolha, não pode ser norma do valor moral ainda que seja sua condição fundamental.

O valor moral é um dado que a liberdade encontra e que somente pode ou não realizar e não alterar sua natureza. A liberdade, por exemplo, não pode alterar a natureza da verdade, da justiça...

Os valores valem quando existem pela liberdade, mas não são constituídos pela liberdade. A liberdade para o valor moral é orientada pela razão. Seu ato bom deve ser racional, É a razão que determina o valor moral do ato livre.

Se a. liberdade fosse norma do valor moral, não poderia existir o mal, porque, se todo ato livre e bom, o ato mau seria não livre. Onde, porém, não há liberdade, não há condição de qualificação moral.

6. O formalismo moral de Kant. Acima a razão humana foi apresentada como norma do valor moral. Diz-se que a vida honesta é a vida vivida conforme à razão. E a razão é a faculdade, que forma juízos de valor, valorizando o agir.

Pode-se considerar os juízos da razão prática como leis universais e, o valor moral consistiria na conformidade do agir com esta forma universal de leis. Sob este aspecto formal, a lei foi considerada por E. Kant como norma do valor moral.

A moral concebida por Kant, pode ser proposta brevemente em quatro pontos fundamentais.

a) É um fato a existência da lei moral. Como fundamento da moralidade, Kant estabelece um fato universal e evidente, que é a existência, da obrigação moral, isto é, de uma lei que manda o que se deve fazer. É uma obrigação categórica de valor absoluto.

b) Natureza da obrigação: A origem da obrigação para Kant pode ser explicada de dois modos:

- Partindo-se da matéria, a obrigação fundar-se-ia num bem absoluto, fim último do homem e fundamento da moralidade. Então o valor moral dependeria da conformidade com este bem. Boas seriam as ações que conduzissem a esse bem, que é a matéria do agir. A obrigação deste modo seria a necessidade da ação por sua conexão com o fim, que necessariamente deve ser alcançado.

- Partindo-se da forma, do preceito considerado em si mesmo, independentemente de qualquer bem, isto é, de qualquer matéria.

Kant escolheu esse segundo modo, encontrando na obrigação algo de absoluto, sem pressupor um bem, para evitar que o imperativo categórico, fosse relativizado, condicionado a um bem. A obrigação já possui em si mesma razão suficiente de explicação. Por isso é definida como a necessidade de se fazer o bem por reverência à lei. As ações não são obrigatórias porque são boas, mas são boas porque obrigatórias.

c) Condições da moralidade. Para que haja moralidade se requer únicamente boa vontade em obedecer à lei, porque é lei. Obedecer à lei por utilidade torna a ação legal e não moral. Além disso, deve-se obedecer à lei por reverência à lei, porque obedecê-la por outro motivo, seria procurar satisfação, que não torna moral a ação. O sentido de reverencia, que contém necessidade e não satisfação, não tira a moralidade.

Com isso, a razão prática é lei a si mesma. Impõe-se a si mesma como obrigação. Não é motivada de fora pelo bem, porque então agiria por amor comprometido, o que não é moral.

À vontade é o único bem absoluto que existe e recebe sua bondade unicamente de seu querer, isto é, de si mesma e não de um objeto, externo. A utilidade ou inutilidade de uma ação, não tiram dela o valor, pois a vontade livre não está comprometida com nada.

d) Fórmulas da lei moral: Para Kant o motivo da ação para se agir honestamente, é unicamente a obrigação em si. Quando se sabe existir tal obrigação? Kant propõe três fórmulas fundamentais:

“Age de tal forma que o motivo de tua ação possa ser constituído em princípio universal”. O motivo da obrigação deve valer para todos.

“Age de tal forma que tenhas sempre a vontade racional em ti e nos outros como fim e não como meio”. Tratar sempre os outros como fim e não como meio. A reverência absoluta à pessoa humana é o fundamento do direito e da obrigação.

“Age de tal forma como se fosses ao mesmo, tempo legislador e súdito no reino das vontades livres e racionais”. O ideal que a moral pretende alcançar é a formação de uma república de vontades livres e racionais, na qual cada um seria fim em relação aos outros.

É certo que Kant estabeleça a obrigação e a universalidade da lei e defenda a dignidade da pessoa humana. Contraria, no entanto a finalidade da natureza humana, propondo que se aja somente por obediência à lei e não a um fim a alcançar. É o fim ou o valor contido na lei, que se deve alcançar, que justifica a lei e a ação conforme à lei. Não é a .simples reverência à lei que cria a moralidade, mas o assumir livremente o valor moral para a realização da perfeição humana.

 

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CAPÍTULO V

 

A essência do valor moral

 

1. Moralidade e racionalidade no agir são termos e realidades equivalentes. A prática moral somente pode ser uma atividade racional. Existe vinculação entre a razão humana e o valor moral, no sentido de ser a razão humana o critério, a norma do valor moral.

A conformidade do agir humano com a razão humana reta, expressa em forma de leis, orientações, normas, constitui o valor moral. Deste modo a razão humana não somente manifesta ao sujeito o valor, como norma manifestativa, mas formalmente o constitui como tal, tornando-se efetivamente sua norma constitutiva.

Não pode haver ordem moral sem relação à razão humana, que a constitui formalmente per seus juízos de valor.

A razão reta é a faculdade humana, que julga o bem como conveniência ao sujeito, transformando-o em valor quando livremente assumido. É chamada de norma objetiva, enquanto se refere ao valor objetivo da ação que deve ser realizada. É expressa em forma de juízo moral universal prático, isto é, em forma de lei, como: "Deve se respeitar a vida humana".

A razão reta é aplicada concretamente pela consciência moral, considerada norma subjetiva do valor moral, isto é, como aplicação da lei, feita pelo sujeito em situação concreta. Por exemplo: “Eu aqui e agora respeito à vida humana”.

Em termos de psicologia, poder-se-ia dizer que o homem se orienta pelo instinto (id) buscando o prazer, pela razão reta (ego) buscando o bem objetivo (realidade) e pala consciência moral (superego) procurando o valor moral (ideal).

2. O que torna o agir humano bom como humano, é a racionalidade que possui. A liberdade contida no ato humano, para que possa ter valor, deve ser racional. A vontade livre, usada irracionalmente, corrompe-se. Assim o agir humano será moralmente bom, quando for conforme ao juízo da razão reta.

A razão reta, é a faculdade que julga a realidade de modo objetivo, sem deixar-se envolver por possíveis desorientações do princípio do prazer ou por outras solicitações externas ou internas irracionais.

A razão reta em sua sinceridade original julga o que é real e objetivamente bom, ainda que a consciência moral possa aplicar erradamente o bem julgado de modo objetivo.

O fundamento do valor esta numa realidade objetiva, num objeto em si bom, isto é, conveniente à razão. Assim a vida humana, no aspecto moral de sua conservação, é um objeto julgado bom pela razão.

Daí a norma, a lei objetiva da razão, que diz se deva respeitar, por exemplo, a vida humana, com o "Não matarás".

Formalmente a vida humana torna-se um valor moral, quando o sujeito humano, por um ato racional da sua consciência moral, respeita livremente a vida alheia. Assim, propriamente moral, não é a vida humana, mas o ato concreto livre e racional que a respeita.

A razão humana em si mesma reta, no seu exercício, pela consciência moral pode não ser aplicada corretamente. Sabe-se que objetiva e racionalmente se deve respeitar a vida alheia, e, no entanto deliberada e irracionalmente se mata.

3. Na ordem dos valores, já observamos, a razão reta não julga de modo abstrato e racionalista. Afirma ela o que o sujeito sente ser conveniente à satisfação adequada de suas necessidades todas, psicofísicas e racionais.

Sentir é uma forma de conhecer com sentimentos de prazer ou dor. Os sentimentos de prazer no conhecimento do valor procedem da percepção da conveniência do valor, manifestada não somente à razão, mas à totalidade do ser humano. O sentimento é um conhecimento envolvido, ou envolto em cordialidade, isto e, acompanhado de certa intensidade emotiva, de vibração interna.

A razão reta fundada no bem real, sentido como conveniente ao sujeito, forma seus juízos universais de valor, que assumem forma de leis. As leis deste modo encerram o sentir racional.

A norma do valor moral, portanto, não é nem a razão pura e nem o sentimento puro, mas a razão reta e o bom sentimento.

4. Em que sentido pode se dizer, que a natureza humana é norma do valor moral? A natureza humana é o elemento constitutivo específico do ser humano caracterizado pela racionalidade. Esta natureza possui necessidades que devem ser satisfeitas convenientemente. As necessidades do conhecimento racional prático possuem como respostas satisfatórias, os valores morais, formalizados como tais pelos juízos de valor da razão.

É a razão que transforma o aspecto natural do bem em valor moral, enquanto julga sua conveniência para o aperfeiçoamento do sujeito. E este livremente o assume. O bem natural passa através da razão, para o aspecto formal, de valor, à semelhança do bom alimento, que se torna valor saúde pela assimilação.

O objeto material do valor moral do agir é o bem honesto natural.

5. Dotado de razão, como faculdade própria emergente de sua natureza, orienta-se o homem julgando a realidade. Julgar é dizer o que é e para que serve o mundo real. Os juízos especulativos definem as coisas e os práticos revelam sua utilidade.

Assim, a razão define o próprio sujeito, segundo sua constituição física, psíquica e propriamente racional e moral, com correspondentes necessidades físicas, psíquicas, racionais e morais.

A razão julga também os valores convenientes a estas necessidades, isto é, o bem estar físico, psíquico, racional e moral.

Na ordem da aplicação prática, o valor que convém à razão como razão, isto é, o valor-resposta racional, é o valor moral. O ideal da razão prática não é o conhecimento da realidade, do bem em si, sua contemplação, mas do bem como resposta que aperfeiçoa o ser racional livre.

A razão como natureza, busca satisfação no conhecimento da realidade. Como razão, procura o que é racional na ação, onde está empenhada também a liberdade. É esta racionalidade do agir livre que constitui o valor moral, resposta satisfatória dada à necessidade da razão como razão. Algo de análogo acontece no ato de alimentar-se, onde no mesmo ato se encontra, de um lado o prazer do alimento e de outro o valor saúde.

Assim, o valor moral é o valor próprio da razão, que como razão busca seu ideal, resposta satisfatória às suas necessidades propriamente racionais.

6. O ideal da razão prática, alcançado pela atividade mais perfeita do sujeito humano, consiste na apropriação do valor através do conhecimento e do amor.

O conhecimento e o amor tornam o valor a perfeição do sujeito, deixando que o valor permaneça em sua realidade objetiva. Sentir-se realizado pelo conhecimento e pelo amor, que se tem para com as perfeições de alguém, não significa destruir este alguém em função de si. Assim ama-se o bem porque é bem e bom em si mesmo, e procura-se que seja em si mesmo melhor.

A perfeição, o ideal da atividade da razão pratica, é amar o bem perfeito, que se manifesta amável em si mesmo. Este amor ao bem perfeito, oferece a norma a todo o amor verdadeiro. O valor perfeito é o objetivo próprio da atividade da razão pratica, que se realiza através do amor aos valores existentes pela prática da justiça, da fidelidade da verdade, etc...

O ideal, no entanto, da atividade da razão, é a plenitude do valor em si mesmo, algo de absoluto, que está no horizonte de todos os desejos, e que para o homem permanece como aspiração a ser alcançada. As normas que orientam a realização do valor, em ultima instância, fundam-se no ideal do valor, objetivo próprio da razão prática.

 

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CAPÍTULO VI

 

As leis

 

1. A razão reta fundamentada no bem, sentido como resposta satisfatória às necessidades racionais do sujeito, é norma do valor moral. Assim a razão traça as normas do procedimento humano-moral, para que seja correto, aperfeiçoe o homem e realize a normalidade da convivência humana,

Como faculdade, que julga na ordem prática o que deve ser feito, os juízos da razão chamam-se leis.

A lei, portanto, é um juízo, uma afirmação da razão reta que apresenta um valor normativo a ser praticado pelo sujeito, para seu aperfeiçoamento próprio. É da própria natureza da lei, como expressão racional da razão, encerrar um valor. Juízos irracionais da razão, e como tais não contendo valores para a perfeição do homem, por natureza não são leis.

A lei é um valor proposto em formulação verbal, para ser livremente assumido pelo homem. A obrigação contida na lei, é a necessidade moral do valor apresentado pela razão reta, como resposta à necessidade de perfeição do sujeito.

A lei é objetiva, enquanto apresenta um valor objetivo comum ao indivíduo, que, como sujeito, através de sua consciência pessoal, vai assumi-lo ou não É norma objetiva.

2. As leis ou os valores podem ser conhecidos espontaneamente, pelo homem ou através de disposições, de atos postos pela autoridade. As leis ou os valores espontaneamente conhecidos são chamados de leis ou valores naturais. As leis propostas pela autoridade chamam-se de leis positivas. Existem assim duas classes de leis: as naturais e as positivas.

A lei natural (valor espontâneo) se caracteriza pela sua origem e seu conhecimento natural. O homem toma naturalmente consciência de certos valores, que a razão julga serem fundamentais e necessários para o aperfeiçoamento de qualquer ser humano. Daí surgem naturalmente juízos universais de valor, normalmente conhecidos por todos, enquanto determinam os valores básicos para o desenvolvimento do ser humano.

A razão, de um lado conhece as necessidades naturais do sujeito e ordena a prática dos valores correspondentes a tais necessidades. Esta ordenação natural chama-se de lei natural.

As leis positivas por sua vez, como códigos, regulamentos, regimentos, são valores formulados pelos responsáveis das comunidades humanas, que os julgam oportunos para o bem da comunidade. São derivações e determinações da lei natural ou dos valores naturais, para serem estabelecidos em circunstâncias determinadas pela autoridade conforme às exigências do bem comum.

A autoridade ordena através da prática de determinados valores, a atividade dos cidadãos para que se alcance o bem comum. Contendo um valor, a lei será sempre útil, honesta, justa e possível, vinculando a consciência do sujeito, isto é, ligando-se à sua própria racionalidade de modo humano e não puramente externo.

Sob esta classificação positiva, a lei pode ser definida nos seguintes termos, que encerram quatro elementos:

É a lei uma ordenação da razão para o bem comum, promulgada nela legítima autoridade.

a) É uma ordenação da razão, enquanto a razão, pelo valor que a lei encerra, ordena o agir humano para o bem do sujeito e da comunidade. O cumprimento da lei evita a desordem, pois ordena o agir. A lei diz ordem, enquanto apresenta valores.

Não é a lei uma arbitrariedade da vontade livre, mas como valor, é uma disposição da razão reta. A lei natural também é uma ordenação da razão.

b) A finalidade da lei positiva é a realização do bem comum, pois como disposição universal, ordena o agir de todos os cidadãos.

A prática das leis positivas, cria um conjunto de condições sociais, morais, políticas, religiosas, que possibilitam ao homem viver como ser humano.

c) Para ser do conhecimento dos cidadãos, as leis positivas devem ser notificadas através de meios adequados de comunicação.

A lei universal natural é espontaneamente conhecida, o que evidentemente não acontece com a lei positiva, que se destina somente a uma determinada comunidade humana. Deve, pois ser promulgada.

d) A lei positiva possui como autor a legítima autoridade, que a elabora e promulga. É função da autoridade promover o bem comum, propondo os valores de que a comunidade necessita em sua situação concreta. Faz isso através de leis positivas oportunas, que obrigam em consciência os cidadãos, culpando-os moralmente no caso de infração.

3. Entre as leis positivas, aparecem a partir do século XIII as chamadas leis puramente penais, isto é, leis que não criam culpa moral quando infringidas. Na violação destas leis, a culpa moral começa o existir somente no momento em que o transgressor é apreendido.

Não havendo apreensão, não há culpa em consciência, por mais grave que possa ser a violação, Essas leis seriam aplicadas nas alfandegas, no trânsito, caça e pesca...

Foram criadas para favorecer grupos de pessoas, que apesar de múltiplas transgressões em benefício próprio, nunca terão culpa moral, por não lhes ser descoberto o delito.

Evidentemente, se as leis positivas propõem valores para o bom comum, as leis puramente penais, que visam a pena e não a culpa não favorecem o bem comum. Elas não se justificam pelas seguintes razões:

a) O legislador propondo leis, não pode abrir exceções quanto à finalidade da lei, que é obrigar em consciência os cidadãos, para que se realize o bem comum.

b) Se o infrator da lei puramente penal, não se torna culpado no ato de infringir a lei, não poderá ser intimado a cumprir pena alguma, pois é inocente e o ato de prendê-lo, após a infração, não pode torná-lo culpado.

c) A lei puramente penal propõe um valor para não ser praticado, pois favorece a violação de tal valor. E isso não é da natureza da lei, como não é próprio da lei obrigar somente ao cumprimento de penas, sem culpa.

Deve se observar, que se tratando de orientações particulares e não de leis própriamente ditas, pode-se obrigar a uma culpa puramente externa, sem querer vincular a consciência. Isso porém não pode acontecer no âmbito do Estado, que busca de forma racional a prática do bem comum.

4. Falando da lei natural, foi dito que ela se forma espontaneamente, a partir da experiência. Em outras palavras, existem certos valores, a cuja prática o homem naturalmente sente-se necessitado, sem proposição alguma por parte da autoridade.

Assim sendo, a lei moral natural se apresenta com duas características próprias, que são: a universalidade e a imutabilidade, o que significa que a lei vale para todos e sempre.

Considerando-se a estabilidade da natureza humana, com algumas necessidades fundamentais permanentes, deverão existir valores permanentes correspondentes.

É claro que o sujeito de natureza humana se encontra em situações concretas pessoais, sociais e culturais, as mais diversificadas possíveis, que lhe criam variadas necessidades de valores. Entretanto, seu plano original, possui necessidades básicas comuns à natureza racional, que exigem valores correspondentes.

a) Pode-se, pois, afirmar, que a primeira característica da lei moral natural é a universalidade, isto é, ela vale para todos os homens, ainda que possa não ser por todos conhecida.

O princípio fundamental da ordem moral é universal: “O bem deve ser feito e o mal evitado”. É o princípio prático do ser racional, que orienta o dinamismo humano à busca de seu acabamento, de sua perfeição, O bem deve ser feito, isto é, nenhum valor se opõe à razão humana, como tal, mas necessita sua realização e posse.

Nenhum ser racional pode opor-se normalmente ao valor. Opor-se ao valor, é um ato irracional. A determinação do valor deve de forma racional ser feita pelo sujeito.

Além do princípio fundamental, algumas de suas derivações naturais, também possuem caráter universal e se fundamentam em certas exigências e relações da natureza humana.

Em primeiro lugar a natureza possui certas exigências em relação ao sujeito humano, como o instinto natural de conservação, que faz o sujeito racionalmente procurar os meios para a conservação da vida. Dai segue a irracionalidade do suicídio e da mutilação direta.

Em segundo lugar: há exigências naturais em relação aos outros. Sendo os seres humanos fundamentalmente iguais, não há domínio de uns sobre os outros. Deve-se respeitar a vida, e a integridade física e moral dos outros. Daí o homicídio direto, o furto e a mentira serem atos contrários a qualquer razão humana.

b) Outra característica da lei moral natural é a imutabilidades, isto é, vale sempre e não muda, pois há valores que sempre valem para o homem.

A aplicação da lei em certas circunstâncias pode variar, por exemplo, em caso de legítima defesa, pode-se matar o agressor injusto, ainda que a lei de respeitar-se a vida alheia permaneça sempre. No passado tirava-se injustamente a liberdade aos indivíduos sujeitos à escravidão, mas o princípio da liberdade sempre foi válido.

Há princípios fundamentais permanentes, porque a natureza humana possui certas necessidades permanentes, satisfeitas por valores determinados.

Se a lei moral natural vale para todos os homens e sempre, pode, contudo ser em parte ignorada, pois, as mais variadas circunstâncias dificultam o conhecimento, mesmo dos valores humanos fundamentais.

Os princípios morais não são inatos no homem. Inatas no homem são suas necessidades de perfeição e a capacidade natural de descobrir os valores correspondentes a estas necessidades. Podem estas necessidades ser de natureza simplesmente física ou psíquica, mas quando assumidas pela razão humana, em sua-resposta possuem valor moral. Assim, procurar convenientemente a saúde, e um ato moralmente bom, como prejudicar a saúde, é um ato irracional e moralmente mau.

5. Pode ser dispensada a prática da lei natural, ou em outras palavras, pode o homem dispensar os valores fundamentais para sua sobrevivência e aperfeiçoamento?

Qualquer ação contrária à realização do ideal da razão prática, é moralmente má. É um antivalor que prejudica o sujeito. Portanto não permitido.

Não se pode negar, que haja valores morais fundamentais ligados a necessidades naturais do ser humano. Seria frustrar o homem negar-lhe a existência de leis morais naturais universais, que valorizam o que é mais fundamental em sua existência, sua vida, integridade, liberdade, bens para uma sobrevivência digna.

Como ficou dito acima, a aplicação destas leis, ou a prática destes valores, pode ser alterada pela consciência moral individual, em circunstâncias concretas, mas a lei permanece, porque permanece a natureza com suas necessidades básicas e seus valores correspondentes.

A chamada ética da situação, não possui razão suficiente para afirmar, que não existem leis morais universais. Pode no entanto com razão se afirmar, que existem sérias dificuldades em verificar com certeza, como pode ser aplicada e conhecida a aplicação das leis universais em situações concretas.

Os valores fundamentais sempre valem para o homem, mas há circunstâncias em que não se percebe como podem valer. A vida humana, enquanto for humana, por exemplo, sempre deve ser respeitada e defendida, mesmo em nascituros, portadores de graves defeitos físicos ou psíquicos ou em anciãos com doenças incuráveis. A vida humana como tal, em qualquer situação, é vida humana, igual em todos os homens.

 

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Capítulo VII

 

os direitos humanos

 

1. As leis contém valores morais, que o homem deve assumir pessoalmente, se quiser completar, plenificar sua vida. Como necessidades ou obrigações, os valores se impõem à consciência de cada indivíduo.

Entre os valores morais, há os que criam necessidades, não no próprio sujeito, mas nos outros. E estas necessidades são os deveres, resultantes dos direitos alheios... Assim os direitos.de alguém, são seus valores, que pelos deveres devem ser respeitados.

A existência de direitos, como do direito à vida, à liberdade, aos bens..., cria um modo, moral de proceder, que regula a convivência humana. Desta forma o direito, como valor fundamental do homem é a norma que orienta o comportamento humano nas relações sociais em todos os seus aspectos.

O termo "direito" tem o significado de retidão. Está direito o procedimento, que respeita e promove os direitos alheios.

Três são as principais significações do direito:

a) Objetivamente, conforme alguns autores, direito significa a prática de um dever em relação a um direito, ou a efetivação da justiça. Dizendo que algo está direito, diz-se que objetivamente cumpriu-se um dever, praticou-se a justiça, estabeleceu-se a igualdade ou o equilíbrio nas relações humanas. A igualdade consiste em cumprir-se um dever, de conformidade com a exigência do direito alheio.

b) Como preceito ou norma jurídica, chama-se o direito de preceptivo. Neste sentido fala-se de direito civil, penal, internacional... Estudar direito significa estudar os preceitos jurídicos.

c) O sentido próprio de direito, comumente usado, é o subjetivo, isto é, o direito que o sujeito possui como valor, ao qual corresponde o dever alheio. É o direito à vida, à liberdade, às posses...

Neste sentido, o direito é a faculdade moral de possuir, fazer e exigir o que e seu.

- É uma faculdade, uma qualidade potencial inerente ao sujeito, à semelhança, das faculdades físicas que são potências, como as de ver, ouvir, etc.

A potência do direito, é de exigir o que a ela se vincula, como o respeito à vida, à justa retribuição pelo trabalho... O direito liga ou exige o dever correspondente.

- É uma faculdade de natureza moral, própria somente do ser racional. Na consciência que o homem pode possuir de si, funda-se o direito subjetivo. Violando-se o direito, que é uma faculdade moral (racional), age-se moralmente mal.

É uma faculdade moral, que necessita os outros em forma de dever. Exige que se respeite os bens a ela vinculados. Estes bens podem ser objetos, ações, competências jurídicas, etc...

2. A justiça é a prática exata do dever em relação ao direito correspondente. Ela ajusta, torna correto o relacionamento humano de modo matemático, salvando o que realmente compete a cada indivíduo ser e possuir.

A justiça cria igualdade, enquanto procura fazer com que os di­reitos fundamentais de cada sujeito sejam respeitados.

A justiça pode ser definida como o hábito da pessoa ser justa ou como um ato praticado de justiça. Como hábito ou disposição permanente, a justiça é a virtude pela qual se atribui a cada um o que lhe pertence como seu.

Pela prática da justiça, permite-se que cada um seja o que lhe convém ser, segundo suas possibilidades. A justiça respeita o que pertence ao outro, atribuindo-lhe tudo o que lhe é próprio. Se possuir pouco será pouco, se possuir muito será mais.

Em termos de rigorosa justiça, pode-se proceder de forma desumana com os menos favorecidos, aos quais se costuma dizer, que nada se lhes deve. Pela justiça possui o homem o que é seu. O termo "seu" vinculado ao "eu" indica posse, que complementa o eu. Entende-se a perfeição de eu pela posse de seus valores que o constituem, como princípios ou o completam como qualidades positivas.

Somente o homem, pela consciência de si e pela liberdade, como já ficou dito, pode possuir e dispor de si e de seus valores. Pela posse do que é seu, defendida pela justiça, conserva-se a integridade e a imagem própria do eu. Desfigura-se o eu pela violação do direito ao seu de cada um. Querer atribuir a cada um, o que é seu, é querer que ele seja o que merece ser.

Qualquer forma consciente ou inconsciente de violação do direito é diminuição real do outro. Exige reparação, ainda que não haja culpa formal no infrator. A justiça respeita o eu alheio pelo dever cumprido, segundo seu direito.

Entretanto, somente a verdadeira fraternidade, ou caridade social bem entendida e praticada, promove e ajuda o outro. Por sua vez, a fraternidade supõe sempre a justiça, em outras palavras, não se pode promover sem antes respeitar.

3. Segundo as diversas formas de relacionamento humano, existem espécies diversas de justiça:

a) A justiça dita comutativa é a que se pratica entre indivíduos e comunidades particulares. Por exemplo, nos contratos de compra e venda, de trabalho, etc..., cria-se uma relação jurídica de direitos e deveres particulares. Nesta relação, há o dever de se retribuir materialmente o que se deve ao outro.

b) A justiça distributiva é praticada entre os cidadãos e o poder público. Nesta espécie de justiça, o dever existente no poder público consiste em atribuir aos cidadãos o que merecem, conforme seus direitos, para a realização do bem comum.

c) Na justiça legal, os cidadãos cumprem o dever de colaborar para o bem comum, conforme as exigências reais da comunidade. Neste caso, o poder público possui o direito de exigir contribuição proporcional dos cidadãos.

d) A justiça social exige a prática de deveres por parte de todos os cidadãos, para o bem estar social. Geralmente é exigida por meio de leis sociais, que exigem a colaboração do Estado, dos empregadores, dos empregados e de toda a comunidade, para que todos possam ter um nível humano de vida.

Na prática da justiça social, todos os cidadãos possuem o dever de colaborar, segundo suas possibilidades e o direito de exigir de alguma forma, os benefícios da colaboração prestada. Esses benefícios criam o bem-estar social.

4. A relação que se estabelece entre quem cumpre o dever para com o direito do outro, por motivo de contratos, doações, etc... chama-se relação jurídica. A relação jurídica constitui-se de quatro elementos: 1) o sujeito do direito é quem exige o "seu" pela relação estabelecida; 2) o sujeito do dever é aquele, que pela relação criada, deve atribuir o "seu" ao sujeito do direito; 3) o fundamento da relação, é a capacidade que a pessoa deve possuir para estabelecer uma relação jurídica. Os menores, por exemplo, são incapazes de assumir certas responsabilidades, e por isso não podem ser sujeitos de direitos e de deveres. 4) O título jurídico, é o fato que faz surgir a relação jurídica. Tal fato pode ser um contrato, uma doação, uma herança...

O sujeito das relações jurídicas pode possuir gêneros diversos. No direito de jurisdição, o objeto da relação poderá ser, por exemplo, o poder de aplicar leis, que a autoridade concede a pessoas qualificadas, para determinado território ou grupo de pessoas.

No direito de domínio o objeto pode ser a atividade alheia, resultante de um contrato de trabalho, ou um objeto (coisa) num contrato de compra e venda.

O direito de alguém exige o dever no outro, mas existem deveres que não supõem direitos nos outros. Assim fala-se do dever de praticar a fraternidade, sem que no outro haja, rigorosamente falando, o direito de exigi-la. Pode ser por isso desonesto não praticar a fraternidade, mas não injusto.

Em relação a nós mesmos, possuímos certos deveres fundamentais, que não possuem direitos correspondentes na mesma ordem, como o dever do trabalho, da conservação da vida... Destes deveres fundamentais surgem certos direitos, para se poder cumprir tais deveres. Do dever de conservar a vida, surge o direito de exigir dos outros os meios para poder conservá-la.

5. Como a lei, assim também o direito divide-se em natural e positivo:

a) O direito natural diz respeito a certos bens, por origem vinculados moralmente ao sujeito. Bens não concedidos pela autoridade, mas pela natureza, isto é, pelo fato de ser o homem um ser humano. A liberdade humana, por exemplo, é um bem para o sujeito. Está a ele vinculado e ninguém dela pode dispor sem razão suficiente, O direito à liberdade, portanto, no homem significa a faculdade moral de possuí-la como própria e dela dispor para seu bem.

b) O direito positivo é criado por meio de fatos concretos, como leis, contratos, doações... O direito positivo nunca poderá contrariar o direito natural. Uma lei que concedesse a alguém arbitrariamente o direito de matar, seria contrário ao direito natural à vida.

c) O direito chamado das gentes (jus gentium) possui um fundamento natural e uma determinação positiva. É o direito dos povos, mas não se identifica com o direito internacional. Um exemplo do direito das gentes, é a posse de um país, de determinada extensão de mar territorial. Ter direito à posse e uso do mar na costa do território é um direito natural. A extensão, no entanto, é determinada por decisão positiva internacional.

A ordem jurídica compreende o que é justo ou injusto, isto é, o respeito ou o desrespeito aos direitos alheios, sem, rigorosamente falando, olhar a responsabilidade moral de quem age. Matar alguém sem intenção de fazê-lo é uma transgressão jurídica e não moral. A ordem moral abrange os elementos todos referentes à responsabilidade humana, isto é, o agir humano perfeito e sua conformidade ou desconformidade com os princípios da razão reta.

6. As propriedades do direito são as características próprias do direito subjetivo.

a) A primeira destas características é a inviolabilidade, porquanto a violência não pode destruir o direito, como faculdade moral própria do homem. O uso injusto da força contra o direito poderá, com o passar do tempo, ser justificado, quando circunstâncias novas indicarem, que aquele que usou da violência, tornou-se o único capaz de salvar o bem comum.

b) A limitação é outra propriedade do direito. A igualdade fundamental de todos os homens e a possibilidade de participação no uso dos bens, para a realização do bem comum, limita a posse e o uso dos direitos. Qualquer direito, de quem quer que seja, é medido pelo bem comum.

c) A coercibilidade, indica que o direito e seu exercício legítimo, podem ser defendidos pela força, sem fazer distinção de pessoas. Quem possui direito, possui também o direito ao uso da força, para defender seu direito. A coação é um instrumento da justiça, para a salvaguarda do direito, A coercibilidade resulta da própria natureza do direito.

7. Sobre a existência de direitos naturais, não houve sempre concordância entre os autores. A escola do direito positivo de Thomas Hobbes, E. Durkheim e L. Lévy-Bruhl, proclamava ser a lei positiva a única fonte do direito. O justo e o injusto existem somente depois da lei. O espírito da nação e os costumes do povo, dão origem ao direito, segundo os autores alemães do século passado, von Savigny e Sthal. Para o marxismo o direito é uma ideologia, que revela a estrutura econômico-social através dos tempos.

Positivistas e agnósticos de todos os tempos, fundam o direito na sociedade concreta. Os costumes da sociedade são a única fonte do direito e sua sede e a consciência comum do povo. Não negam, entretanto uma ordem moral natural.

8. Em nossos dias defende-se a existência do direito natural para cada ser humano, sem exceção. A “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, aprovada pela ONU no dia 10 de dezembro de 1948, no artigo 1º diz: "Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade". E no artigo III, lê-se “Todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.

Como demonstrar que ao originar-se, qualquer ser humano é possuidor de direitos naturais?

Independentemente do relacionamento com qualquer autoridade, todos os homens possuem deveres a serem postos em prática. Há deveres mútuos, porque há direitos em cada sujeito.

Ao se reconhecer a igualdade fundamental dos homens, se reconhece a posse em cada homem, de alguns bens próprios, iguais em todos. Ora reconhecer estes bens, como a vida, a liberdade, etc..., é atribuí-los a cada um como seus, e esta é a definição própria do direito. Define-se o direito subjetivo, já foi dito, como a faculdade moral de possuir o que é seu.

O direito natural é demonstrado no fato de reconhecimento da igualdade fundamental dos homens. Este reconhecimento significa um ato de justiça, praticado para com o ser humano.

A igualdade se refere em primeiro lugar ao próprio exercício da existência humana, que chamamos de vida. O fato de viver é igual em todos os homens. Não há menor, maior, pior, ou melhor, vida como vida. E a vida do ser racional com consciência de si, possui como consequência, a possibilidade igual de ser livre. Poder dispor de si, é natural a qualquer ser humano.

Além de dispor de si, qualquer ser humano, pode naturalmente dispor dos bens para sobreviver. É a faculdade de possuir os bens materiais como seus, para viver decentemente.

Finalmente a necessidade de conviver com os outros para sobreviver, progredir e multiplicar-se, é também própria do ser humano. Direito à participação na vida social, é um direito que cabe a cada homem. Além do mais, qualquer concessão de direitos positivos, feita pela legítima autoridade, supõe a existência de direitos naturais.

Supondo-se que a sociedade civil seja uma instituição natural resultante da natureza social do homem, a autoridade para manter esta sociedade, também é natural. Compete à autoridade usar dos recursos para poder realizar o bem comum, que é sua função própria. Para o exercício normal desta função, possui naturalmente o direito de criar deveres nos cidadãos.

Desta forma, não se supondo a existência do direito natural da autoridade, como instituição natural, ela não poderá criar direitos positivos.

Os direitos positivos criados por qualquer fato jurídico, são determinações de direito natural, do qual tiram sua força. As determinações do direito natural são feitas pela autoridade, conforme a estrutura, os costumes, a situação política, econômica, cultural e religiosa da sociedade. Assim, o direito positivo concretiza o direito natural e nunca, pode em situações normais opor-se a ele.

O direito internacional demonstra também a existência do direito natural. Somente pela força do direito natural os pactos entre as nações devem ser observados, independentemente de uma suposta autoridade supranacional.

Igualmente todos os que detestam os crimes cometidos contra a humanidade, por exemplo, os genocídios, admitem o direito natural. O fato de se detestar a ação de um poder público, contra a vida dos cidadãos, admite o princípio de que a autoridade pública não tem poder sobre o direito à vida dos cidadãos, que é algo natural e não concedido positivamente pela autoridade.

9. O último tema a considerar é o da relação entre a ordem moral do bem e do mal e a ordem jurídica do justo e do injusto. Rigorosamente falando, nem tudo o que é moralmente bom é justo, mas tudo o que é justo é bom.

Para Hugo Grócio no século 17, o justo pertence às atividades sociais do homem e o bem, o honesto às atividades individuais.

Kant afirma que o direito ordena a atividade externa e defende a liberdade externa, ao passo que a moral orienta a intenção humana.

Pode-se afirmar que a ordem jurídica e a ordem moral adequadamente não se distinguem, mas também não se identificam. A ordem jurídica do justo e do injusto, também é julgada segundo a relação de conformidade com a razão reta, mas considerando-se mais a prática externa do dever em relação a um direito. Pode-se, por exemplo, violar consciente ou inconscientemente um direito, cometendo-se uma infração à ordem jurídica, com ou sem culpa moral. Em caso de crime doloso, há intenção, e por isso a transgressão é moral e jurídica. No delito culposo, com menor culpabilidade, há culpa moral e jurídica, Numa transgressão jurídica acontecida por acaso, não existe culpa moral, mas existe culpa jurídica externa, quando, por acaso, mata-se alguém.

A ordem jurídica pertence à ordem ética, enquanto a razão reta define a retidão material e objetiva do certas ações. A força do dever da ordem jurídica vem da ordem moral, da ordem da razão, que propõe os deveres racionais.

A ordem da moral é bem mais ampla que a do direito, pois há obrigações que não fazem parte do direito, como a obrigação de dizer a verdade. A ordem jurídica pertence mais a materialidade da ação que à sua intenção. Cumprido, por exemplo, o dever, para efeito jurídico não se considera se foi feito com boa ou má intenção.

A ordem jurídica assim considera mais o aspecto externo da ação, mas não exclusivamente, pois leva em conta também sua relação de conformidade com a razão. Nas causas criminais, não se deve considerar somente os fatos, mas também a intenção de quem praticou o mal.

A ética considera as ações humanas, segundo procedem do sujeito com consciência e liberdade, ao passo que o direito vê mais a realização externa e social da ação.

 

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CAPíTULO VIII

 

A ordem moral subjetiva

 

1. O sujeito humano orientado pela razão reta e pelos bons sentimentos, deve agir em situações concretas. Sua atividade se fundamenta em realidades objetivas, denominadas fontes da moralidade. Destas realidades surgem os valores morais, devidamente qualificados no agir do sujeito.

Três são as fontes que qualificam a moralidade do ato humano: o objeto, as suas circunstâncias e seu fim.

a) O objeto é considerado a matéria da ação, o fim imediato que o realiza, conforme a norma da razão. Assim, o ato de matar alguém, é qualificado pela razão como injustiça, porque destrói o direito à vida.

b) O objeto pode estar acompanhado por diversas circunstâncias. Estas podem constituir-se em objeto novo, como o ato de matar o próprio pai, que além de ser uma injustiça, é um ato de impiedade.

Há circunstâncias que agravam ou diminuem a maldade de uma ação como o ato de furtar uma soma igual de dinheiro a um pobre ou a um rico.

Por fim, existem circunstâncias que não alteram a moralidade do objeto, como roubar com a mão esquerda ou com a direita. Sete são as circunstancias; que podem acompanhar um objeto moral: a de pessoa quem, mostra a qualificação da pessoa (pai, solteiro, governante); a circunstância de coisa o que, significa a quantidade ou a qualidade da coisa. A de lugar (onde) apresenta a posição do objeto no espaço (no lar, em público). Os meios usados, por exemplo, a violência, a fraude, e o modo de agir, voluntária ou deliberadamente são também circunstâncias. O tempo isto é, sua duracão e qualidade e o fim, isto é, o porque se agiu, são igualmente circunstâncias.

 

2. A circunstancia fim, possui particular relação com a vontade do sujeito, e por isso é considerada como fonte especial de moralidade, enquanto procede do ato interno da vontade, que recebe sua especificação do fim.

O fim pode identificar-se com o próprio objeto, como por exemplo, matar com a finalidade única de matar; ou pode distinguir-se do objeto, como matar para roubar. O ato interno da vontade recebe sua especificação do fim propriamente dito. Assim, quem mata para roubar, é mais ladrão, pois a especificação do ato vem da finalidade de toda a ação, que no caso, é roubar. O homicídio, entretanto, é mais grave que o furto, mas a causa final do homicídio é o furto.

3. Pelo que ficou dito, conclui-se, que o valor moral do ato não depende somente da intenção do agente (Abelardo), nem da pura obediência à lei (Kant), mas das fontes donde se origina.

Com relação às circunstâncias, podem acompanhar o objeto. Para que influam na moralidade do ato, devem ser conhecidas e desejadas como tais, tornando-se desta forma, aspectos característicos do objeto.

A circunstância fim, especificando o ato total como bom, não pode justificar meios maus. À vontade querendo o uso de meios maus, compromete toda a ação, como, da mesma forma, se corrompem meios bons se o fim for irracional. É sempre a totalidade realizada pela vontade, que deve ser considerada. Qualquer elemento negativo da vontade corrompe a totalidade do ato

Na determinação da moralidade da ação, a vontade pode interferir de duas maneiras. Em primeiro lugar, ela pode escolher ou não escolher o que, já por natureza, se caracteriza como moral ou imoral. À vontade, por exemplo, não pode alterar a natureza da mentira, tornando-a verdade, mas, somente pode optar pela mentira ou pela verdade. Quando, no entanto, o objeto for moralmente indiferente, a decisão da vontade, precedida da deliberação da razão, determina a moralidade do objeto. O ato de cantar, por exemplo, por si, só é moralmente indiferente, mas pode torna-se moral, conforme a finalidade da vontade. Pode ser bom ou mau.

4. O ato humano pode ser moralmente bom ou mau, enquanto fundamentado numa fonte do valor moral e for conhecido e livremente escolhido pelo sujeito. Ha, portanto, de um lado, o sujeito em condições de escolher e do outro um objeto, de alguma forma qualificado moralmente. E o “ser moral” do ato humano, consiste na relação do sujeito, com sua capacidade de determinar, pela razão reta e o bom sentimento, a bondade moral do ato, fundado num objeto qualificado moralmente. O "ser moral", é relação necessária entre o ato humano, regulado por uma norma moral e o objeto moralmente qualificado.

5. O mal moral. Onde falta o bem, uma perfeição, diz-se que existe o mal. Pode o mal ser simplesmente uma inexistência do bem? O ódio, por exemplo, é falta de amor, ou mais do que isso? O vício é uma falta de virtude, ou uma oposição a ela?

Há dois tipos de falta, como carência de alguma coisa. A negação, é falta de bem não devido ao sujeito ao qual falta. Para o homem, o não possuir asas é uma negação, mas não um mal, pois, ter asas, não é próprio do ser humano.

A privação é falta de um bem devido ao sujeito. O não poder ver para o homem, é privação, pois as vistas fazem parte de sua integridade. O mal, no entanto, é privação conseqüente a uma oposição, feita ao bem. A doença é uma oposição contrária á saúde, que priva o sujeito de seu bem-estar.

Assim, o mal é uma posição ou algo de positivo, no sentido de que se põe contra o bem. A maldade moral é uma posição livre da vontade contra o bem. A mentira consciente, por exemplo, é uma posição contrária á verdade.

Em todo ato mau, o sujeito procura algum bem, mas de modo desordenado, Quem, por exemplo, odeia os outros, ama a si mesmo desordenadamente, corrompendo a amor legítimo a si.

O mal é um ser da razão corrompida, uma posição contrária ao bem, que o sujeito poderia possuir.

 

6. O ser humano age somente bem e mal, ou pode também agir de maneira moralmente indiferente?

Existem evidentemente certos objetos de ação, que em si mesmos não possuem nenhuma conotação moral, como cantar, passear, ver... Outros já são em si caracterizados moralmente, como mentir, furtar.

Se, considerados como noções abstratas, certos objetos de ação são moralmente indiferentes, mas quando concretamente realizados, perdem sua indiferença moral, para se tornarem conformes ou contrários à razão reta, Quando a vontade ou a intenção for honesta, qualquer objeto em si indiferente, torna-se bom em sua realização concreta. Não se requer intenção explícita para se honestar um ato, mas basta a vontade do indivíduo de agir honestamente, isto é, de não contrariar com um fim mau a razão reta.

7. A consciência moral.

O sujeito humano possui respostas satisfatórias às suas necessidades legítimas através de valores. Os valores são propostos em forma de leis comuns e objetivamente válidas. O conhecimento e a aplicação das leis ou a prática dos valores, é feita individualmente nas situações concretas de cada indivíduo, segundo as disposições próprias que possui.

Assim, para agir, corretamente, o sujeito deve conhecer as leis (os valores), conhecer as circunstancia concretas em que se realizam e possuir condições pessoais ou convicções para poder realizá-las. A tudo isso, chamamos de consciência moral.

A consciência moral é, pois, um juízo, uma afirmação singular, que revela o conhecimento que o sujeito possui do valor a ser praticado, em situação concreta. Como se trata de um juízo singular e de uma situação, própria somente ao sujeito, diz-se que a consciência moral é norma subjetiva do valor moral, enquanto é pessoal e individual.

Este juízo singular, como decisão pessoal, pode conscientemente ser contrário à lei, aos valores. Neste caso, possui-se consciência errada e age-se moralmente mal. Conhecendo, por exemplo, a lei do não matar, alguém pode agir contra este conhecimento, cometendo aqui e agora um homicídio, por interesses pessoais egoístas. Neste caso, a consciência moral é falsa e culpável, porque o sujeito conhecia a lei do não matar e nenhuma circunstância favorecia tal ação a não ser seu egoísmo.

Há uma ordem moral objetiva de valores, que o sujeito pode culpável ou inculpavelmente violar, conforme conhece ou desconhece com culpa ou sem culpa os valores. Existem circunstâncias, nas quais o sujeito pode eliminar sua ignorância a respeito dos valores e das situações concretas de sua prática. Se não o fizer e proceder mal, será culpado de agir com consciência falsa culpável.

a) A consciência moral, verdadeira é a que se conforma à realidade. No caso contrário será falsa.

b) Chama-se reta, a consciência própria de quem é responsável, e não reta de quem possui má vontade.

c) Certas disposições psicológicas do sujeito podem criar-lhe uma consciência relaxada, escrupulosa (obsessiva) e perplexa.

d) Quando se tratar do consentimento pessoal, que o sujeito deve dar sobre a verdade da aplicação de uma lei, de um valor, numa situação concreta, pode a consciência ser duvidosa, provável, ou certa.

8. Falando-se impropriamente, a consciência duvidosa existe, quando duas posições contrárias, parecem possuir razões de igual valor para serem consideradas como verdadeiras, não se podendo fazer opção nem por uma e nem por outra.

Na probilidade as razões se inclinam mais, mas não exclusivamente, para uma posição, que para sua posição contrária.

Na certeza, os motivos a favor da verdade de uma posição, excluem a possibilidade de ser verdadeira a posição contrária. Na própria certeza, que se refere ao consentimento que o sujeito dá a uma posição, dá-se uma graduação. A certeza absoluta ou metafísica exclui absolutamente a possibilidade de ser verdadeira a posição contrária. A certeza física fundamentada em princípios físicos, como o que afirma, que todo corpo pesado cai, exclui também, mas com menor evidência, de que a posição oposta possa ser verdadeira.

Por fim a certeza moral fundada no senso comum e no modo habitual de proceder dos homens, com menor força, exclui a possibilidade de ser verdadeira a posição contrária à afirmada como verdadeira. Há, neste caso certeza e não simples probabilidade, mas, o consentimento dado, apoia-se em razões, que não evidenciam, de forma categórica e absoluta, a verdade.

Face à impossibilidade de se possuir sempre os elementos evidentes para se conhecer a verdade, pode acontecer de se ter certeza falsa, isto é, consentimento firme numa realidade, não correspondente à certeza, por ser falsa. Por exemplo, pode-se estar certo, sem duvidar, que hoje seja o último dia da semana, quando realmente é o penúltimo.

9. Princípios relativos á consciência moral.

a) Formar a consciência moral significa adquirir conhecimentos sobre os valores necessários, para viver honestamente a vida individual, social e profissional. A responsabilidade na prática dos valores é proporcional à possibilidade que se possui de conhecê-los e poder exercitar-se para pô-los em prática. Não basta conhecer os valores, é necessário que se saiba também discernir as situações concretas, em que devem ser realizados e que se crie a convicção e as disposições humanas para devidamente praticá-los.

b) Nunca se pode agir na dúvida sobre o bem ou o mal. Quem decide na dúvida, dá o mesmo valor ao bem e ao mal. De outra parte também, não é necessário que se possua certeza absoluta nas decisões, mas se requer e basta, a certeza moral.

Requer-se ao menos a certeza moral, para se evitar a dúvida e o relaxamento, já que esta certeza é a de menor grau de firmeza. A pesar de ser a menos categórica e absoluta, é necessária.

A certeza moral evita os extremos do relaxamento e do exagero, em relação ao conhecimento e à aplicação da verdade na vida prática.

c) Sempre, que o sujeito sincero, reto e interessado, tiver certeza moral da verdade, deve agir. Se constatar posteriormente, ter sido falsa sua decisão, não será moralmente culpado pelo seu erro.

d) Quando o sujeito, podendo usar recursos para eliminar o erro possível, agir com consciência certa, mas falsa, é culpado pelo erro que comete. A certeza que possui, é certeza acompanhada de negligência no uso dos meios, para chegar à verdade. Há ignorância culpável.

e) O que determina o valor moral do ato é o modo como o objeto é apreendido pela consciência moral do sujeito. No entanto, não segue deste fato, que o valor objetivo do ato não valha. Desinteressando-se do bem real e objetivo, o individuo já não possui consciência moral reta. Por isso, não é o sujeito através de sua consciência moral, independentemente da ordem objetiva, o fundamento último do valor moral. Esta norma será a consciência moral reta, interessada em proceder segundo a ordem objetiva,

A consciência moral não é uma disposição subjetivamente estabelecida, mas objetivamente fundada no valor real.

f) Em casos de permanecer dúvida sobre uma decisão a tomar como agir?

- Quando se tratar da validade de atos jurídicos, de contratos, deve-se refazer todo o processo, caso se estime ser duvidosa a verdade.

- Tratando-se de liceidade no cumprimento de uma obrigação e a duvida permanecer, após interessada procura da certeza segundo a verdade, pode-se favorecer a liberdade, conforme o princípio, de que “lei duvidosa não obriga”. Neste caso, não se pretende proceder contra a ordem moral objetiva, porque houve interesse em eliminar a dúvida, e nem se quer criar uma obrigação, que talvez não exista.

O mal que poderia resultar da omissão de uma obrigação existente, pode ser compensado por obrigações inexistentes cumpridas.

Na vida cotidiana, o ideal seria possuir sempre consciência moralmente certa e verdadeira, pretensão impossível para quem vive as contingências da vida humana.

Em momentos diversos, na exposição feita sobre o valor moral, constatamos à diversidade de opiniões, quanto à origem e critérios fundamentais para justificar a natureza das normas morais e sua aplicação. Qual seu fundamento e evolução através do tempo até à época contemporânea.

Evidentemente são fundamentos as leis morais e os decretos humanos do próprio ser humano, como ser social, histórico e transformador da realidade em que vive.

Como ser social, para a convivência humana, em qualquer instituição criada pelo homem e para sua conservação e progresso, a moral desempenha função social fundamental. A prática da justiça, da verdade, da fidelidade, etc... são indispensáveis para a manutenção e os objetivos a serem alcançados por qualquer instituição.

Além desta razão social, existe também a necessidade, para evitar arbitrariedades, que as mesmas morais estabelecidas possuam uma fundamentação lógica, para não entrarem em contradição com os interesses e as necessidades da comunidade.

As normas morais devem também, estar ao alcance do conhecimento de todos os que devem cumpri-las, afim de que possam ser traduzidas em atos, sem recursos heróicos e sobre-humanos. Não propor ideais impossíveis, em circunstâncias normais comuns.

Históricamente, sem levar em consideração as intenções de seus autores, normas e punições diversas foram propostas contra a evidência de conhecimentos científicos adquiridos e comprovados, nas áreas da antropologia, psicologia, sociologia, etc...

Evidentemente as descobertas cientificas recentes são úteis e necessárias para uma ordenação correta da prática da vida moral do ser humano histórico e criador.

Em tudo isso aparece e deve existir o progresso moral, que consiste não em suprimir o permanente e o transitório, mas fazer progredir a compreensão e a prática dos valores morais, através das modalidades diversas do conhecimento humano.

 

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CAPíTULO IX

 

o valor moral e a felicidade

 

1. O motivo da prática do bem é o valor do próprio bem e não a felicidade, que desta prática possa resultar. Entretanto, o homem existe para a felicidade e não somente para fazer o bem.

Fazer o bem, e proceder conforme às normas da razão reta e dos bons sentimentos, é caminho idêntico ao da busca da felicidade. É, pois a felicidade, a atuação do ser humano em sua atividade racional por meio de um objeto, que satisfatoriamente responda às suas necessidades de perfeição.

Há, portanto uma relação íntima entre a prática do bem e a felicidade. Que tipo de relação é?

Para Kant, o nexo é puramente extrínseco, isto e, a inclinação à felicidade é completamente alheia ao valor moral. A harmonia entre valor moral e felicidade, que a razão propõe, exige a existência de Deus, que fará tal harmonia.

Para outros, como Leibniz, o valor moral não é somente condição para a felicidade, mas certa forma de participação da felicidade. Realiza a felicidade em parte.

2. Partindo da experiência, constata-se que o homem naturalmente deseja a felicidade, como seu fim último subjetivo.

Como natureza, o sujeito humano está voltado, para um objetivo, que é a posse consciente do bem, que o torna feliz.

a) Todos os empreendimentos humanos possuem como meta a busca da felicidade. Na própria renuncia à felicidade, há uma busca de satisfação. Não se pode afirmar com sinceridade, que não se quer ser feliz, que se é indiferente à felicidade. É a voz da experiência,

b) Para o homem, deve existir um fim, último subjetivo, que seja a razão de todo seu querer. Se o querer humano não possui um termo, nada se quer, pois querer sempre uma coisa por causa de outra, é não querer nada. Não se pode querer diversos fins, mas pode-se querer em diversas coisas o mesmo fim, enquanto a vontade, como uma faculdade, possui somente um objeto. E este fim último é a felicidade, pois além da felicidade, nada mais se pode desejar. Ela satisfaz plena­mente a vontade.

c) À vontade é a expressão dinâmica do ser humano. Pela vontade livre, o homem atua como homem, para sua realização própria. Esta atuação é consciente e visa à posse do bem, da perfeição. Ora, a posse consciente do bem pela vontade, é a felicidade. Assim, o homem, através da vontade, naturalmente busca a felicidade.

3. Na felicidade, de modo eminente, encontra-se o valor moral. A felicidade consiste na atuação consciente do ser racional, efetivada através da posse de um bem honesto pela vontade. Esta atuação necessariamente deve ser uma atividade conforme à razão, já que se trata de felicidade humana, racional.

Ora, uma atividade conforme à razão, é algo de moralmente bom, visto ser valor moral o agir conforme à razão. Na felicidade, portanto, existe o conhecimento do bem e sua realização pela vontade, no que consiste o valor moral.

Há, pois um nexo íntimo entre valor moral e felicidade.

4. O desejo de felicidade é dinamismo em busca de perfeição, em cada ato praticado polo ser humano, A expressão do homem consiste nesta procura de afirmação, de perfeição. O valor é determinação, res­posta a este desejo indeterminado de felicidade.

Não se pode ser feliz como ser racional, a não ser pelo agir racional, ainda que a felicidade não esteja totalmente na atividade racional.

Na prática do valor moral, deve-se distinguir o fazer o bem por causa do bem, que por si mesmo deve ser feito e a satisfação do desejo de felicidade, que o bem feito proporciona,

5. À consciência universal humana, a felicidade se apresenta como consequência da prática do bem, e a infelicidade como castigo pelo mal feito. A felicidade ou infelicidade, não são efeitos naturais', consequentes à prática do bem e do mal, mas são o prêmio ou a pena merecidos pelo bem ou mal praticados.

Quem faz o bem merece o bem. O mérito é disposição criada no sujeito pelo bem praticado, e racionalmente exige retribuição adequada, em forma de bem, de felicidade.

Se houver promessa de recompensa por algum bem a ser praticado, é questão de justiça retribuir o mérito com um benefício. Não havendo promessa, é questão de equidade, de conveniência, satisfazer o mérito pelo bem feito. No caso da equidade, constata-se existir em quem fez o bem, uma razão objetiva para ser recompensado. Recompensar neste caso, é realizar a idéia de prática de ordem, de igualdade, entre o mérito e o benefício. Recompensando o mérito, se estabelece gratuitamente uma relação ordenada, entre o valor praticado e a felicidade em quem o praticou.

Portanto, por conveniência, deve haver certa proporção entre o exercício do valor moral e a felicidade, É questão de ordem efetuar esta proporção.

A sanção é o prêmio ou o castigo, resultantes do bem ou do mal praticados. Possui aspecto preventivo, se leva ao cumprimento da lei, por amor ou temor. Torna-se motivo subjetivo da observância da lei. Em caso de pena, o aspecto preventivo parece inútil, pois o castigo correspondente, é algo natural ao mal praticado. Se o castigo for maior que a infração cometida, pratica-se uma injustiça.

A sanção no aspecto medicinal pretende recuperar e corrigir o castigado, e confirmar quem praticou o bem. Em seu aspecto retributivo, a sanção retribui com prêmio ou castigo o bem ou o mal praticado. O aspecto de reparação do mal é próprio da sanção como pena. Reparar por uma pena o mal que foi feito.

Retribuir, é essencial à sanção e realiza proporção, harmonia, entre o bem natural do sujeito e o valor moral praticado.

6. A sanção moral, não é necessária como razão suficiente para se praticar o bem. A honestidade da ação, por si justifica sua realização, sem outro motivo externo. Entretanto é razoável, segundo a ordem universal das coisas, que haja uma harmonização entre o valor moral e a felicidade.

O bem honesto praticado, merece aprovação e reconhecimento, o que realmente causa felicidade. Para o homem virtuoso, a felicidade, ainda que não seja por ela exigida, é merecida e exigida pelo bem que fez. Além disso, o homem consciente e livre, é causa de seu agir, para alcançar o que pretende segundo suas necessidades. Ora, a felicidade é o que todos pretendem alcançar, através do próprio agir, ainda que não resulte imediatamente após a ação. Será, pois alcançada através do mérito, consequente ao valor realizado. Dai ser a felicidade sanção da lei moral.

7. Na vida atual que vive homem não existe harmonia entre o bem praticado e a felicidade, que lhe deveria corresponder.

Não há sempre proporção entre o bem, e a felicidade que lhe devia corresponder.

Há um apelo à imortalidade da alma humana, que subsistindo em sua individualidade, seria feliz na proporção do bem praticado.

Sendo real a imortalidade da alma, em que consistiria sua felicidade, quando separada do corpo? Na contemplação da própria perfeição? No conhecimento dos segredos e mistérios da natureza? Na eterna comunhão com outros seres humanos?

Segundo os filósofos cristãos espiritualistas, a felicidade consiste na eterna união individual com Deus, por intuição e amor.

A felicidade definitiva, não pode consistir na posse espiritual do mundo, que não satisfaz às aspirações do homem, enquanto é inferior ao objeto de seus desejos.

Não consiste também no conhecimento e posse de si mesmo, como realidade finita, possuidora de aspirações infinitas.

Não consiste na comunhão com outros seres humanos, pois a felicidade destes também é limitada.

A verdadeira felicidade requer atuação perfeita do intelecto e da vontade, pelo conhecimento e amor do bem absoluto e total, que responda, como pessoa perfeita, ao amor prestado.

Na ordem natural da razão, não consta a possibilidade de atuação do intelecto e da vontade, através do valor absoluto, ainda que a aspiração humana se volte a este objetivo.

É paradoxal, portanto, a condição do ser humano, na ordem puramente natural da existência.


referências

 

Ética Geral

 

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BOFF, Leonardo. Ethos Mundial. Rio de Janeiro: Sextante 2003.

 

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CARVALHO, J. M. de. Problemas e Teorias da Ética contemporânea. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

 

COMPARATO, F. C. Ética. São Paulo: Companhia de Letras, 2006.

 

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KÜNG, Hans. Projeto de Ética Mundial. São Paulo: Paulinas. 1992

 

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_____. Correntes fundamentais da ética contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2000.

 

PIVATTO, P. S. (org.) Ética. Crise de perspectivas. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2004.

 

SINGER, Peter. Um só mundo. A ética da globalização. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

 

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

 

VIDAL, Marciano. Ética Cristã. São Paulo: Paulinas, 1993

 

______. Moral de Atitudes. 3 volumes. Aparecida: Editora Santuário, 1989.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

agiR

 

 

ÉTICA APLICADA


introdução

 

O objetivo da Ética Geral é a exposição dos temas fundamentais relacionados ao ser humano, como sujeito consciente, livre e responsável pelos seus atos.

Os valores resultantes da condição responsável do agir humano são os valores morais, que definem e qualificam a pessoa como ser racional em seu aspecto dinâmico de procedimento.

Os valores morais propostos em forma de leis, preceitos como orientações da razão, são aplicados em situações concretas pela consciência moral de cada indivíduo.

A consciência moral pessoal, orientada pelas normas morais, destina-se a respeitar e promover os direitos individuais e sociais para o bem-estar pessoal e coletivo.

O bem comum, portanto, é consequência da realização dos valores morais.

As obrigações e os deveres postos em prática nas mais variadas circunstâncias da vida humana em seu aspecto moral, são objeto da Ética Aplicada, que conforme às situações, será individual ou social.

Os temas da Ética Aplicada individual se referem ao direito à vida e a todas as transgressões contrárias a este direito fundamental, como a prática do aborto, da eutanásia, da pena de morte. O direito à posse e ao uso dos bens. O valor do trabalho humano, etc. A Ética Aplicada considera também o homem como ser social, histórico e transformador da natureza em função do bem comum.

O ponto de partida da ética social aplicada é a instituição matrimonial, donde surge a família com direitos e deveres em relação à educação, etc.

A sociedade civil, como instituição política, forma o Estado que cria e ordena direitos e deveres dos cidadãos em diversas áreas da vida social.

A união das Nações origina a Sociedade Internacional com direitos e deveres determinados. Assim a Ética Aplicada ordena as atividades humanas na várias circunstâncias da vida do ser humano para a realização do bem particular e comum, através da prática dos valores morais.

 

 


CAPÍTULO I

 

DIREITO À VIDA E À INTEGRIDADE

 

I - Documentos:

 

a) Declaração Universal dos Direitos Humanos, Art. 3: “Todo homem tem direito á vida, à liberdade, e à segurança pessoal”.

b) Código Civil Brasileiro, Art. 2 (10 de janeiro de 2002): “A lei põe a salvo desde a concepção os direitos do nascituro”.

c) Código Penal Brasileiro, art. 124 a 128: Penas contra os que atentam contra a vida e a integridade humanas.

 

II - Princípios:

1. A vida humana é o exercício da existência humana, quer se realize de forma consciente ou inconsciente. Supõe a existência do ser humano.

2. A vida humana é fim para o homem e não meio. O homem existe para a conservação e o desenvolvimento de sua vida, no aspecto físico, intelectual, moral...

3. O homem é um “ser para si”, possível de consciência e liberdade, isto é, é por causa dos seus atos propriamente humanos, pelos quais conhece e ama. Neste “ser para si” do homem, fundam-se seus direitos. Como “ser para si”, não pode o homem ser para outro como meio, como coisa. É com os outros. Pode ser hominizado e humanizado (valores morais).

4. O instinto no homem, como necessidade interna, é de conservação da vida e de sua integridade, buscando meios e evitando ameaças.

5. O tempo da vida, como duração que passa, não altera o valor e a natureza da vida humana. A vida não se mede pelo tempo que possui.

6. A vida, como vida humana, é o maior bem da comunidade humana. Por isso, a perda de qualquer vida empobrece a sociedade.

7. Quanto ao direito em relação à vida, deve-se distinguir o direito á vida do direito na vida: a) Direito à vida é o direito de viver, de poder dispor dos meios para viver decentemente, b) direito na vida seria o direito de poder dispor da própria vida, ou da vida alheia, de qualquer forma. O homem tem direito à vida e não na vida. A vida é fim e não meio.

8. O delito contra a vida pode ser: a) doloso quando se possui intenção de matar, b) culposo quando não se evitam os meios e não se toma cuidado pela vida, seguindo daí sua destruição, c) casual, quando acidentalmente, sem intenção e nem descuido, segue a morte.

9. Para que haja responsabilidade em relação à destruição da vida, o sujeito deve possuir, no ato de matar, consciência do que está praticando, vontade de praticar e liberdade. Observe-se, que existem circunstâncias em que se prevê, se permite, mas não se quer o mal.

10. Suicidar-se, isto é, tirar-se a própria vida, como fato, objetivamente é um mal. Subjetivamente, como responsabilidade, depende das condições psicológicas do suicida, quanto ao grau de culpa.

11. O suicídio, quanto à culpabilidade, pode ser:

a) Direto, quando o suicida possui a intenção de tirar-se a vida, sem uma razão objetivamente proporcional a este ato.

b) Indireto, quando não há intenção de tirar-se a vida, ainda que a própria morte seja prevista e permitida e existe grave motivo para permitir a morte. Exemplos: kamikaze, greve de fome, médico em caso de epidemia contagiosa...

12. No suicídio direto, objetivamente há culpa, ao passo que no indireto, pode haver grande heroísmo e virtude.

13. Considerar o suicídio sob os aspectos: social, psicológico, moral e religioso.

Suicídios coletivos:

a) Massada (Palestina): Ano 72. Tito cerca Massada e os judeus se suicidam.

b) Numância (cidade espanhola): em 134 - 133 a.C. após longo sítio de Cipião Emiliano.

 

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CAPÍTULO II

 

ABORTO E EUTANÁSIA

 

1. Documentos:

a) O Código Civil Brasileiro no artigo 2, defende a vida do nascituro humano desde o momento da concepção.

b) O Código Penal Brasileiro nos artigos 124, 125, 126 e 127, propõe diversas penas aos praticantes do aborto, conforme as circunstâncias em que é praticado. No artigo 128 considera o aborto terapêutico isento de culpa.

2. Aborto é a morte do nascituro, considerado como vida humana em situação de óvulo fecundado, embrião ou feto. O aborto é a interrupção da gravidez, quando o nascimento ainda não é viável.

3. Classes de Aborto:

a) aborto natural ou espontâneo (involuntário): é o que acontece por causas naturais, sem intervenção humana.

b) aborto voluntário culposo: envolve o descuido relativo à situação que pode provocar o aborto, como exercício físico, uso de drogas não diretamente provocadoras de aborto.

c) aborto voluntário indireto, chamado também terapêutico, quando por razões graves, com previsão do aborto, o médico para salvar a vida da gestante, pratica uma intervenção, da qual segue a morte do nascituro. É o caso do feto ectópico. Observe-se, que o simples fato da intervenção do médico, não segue sempre ser o aborto terapêutico.

d) aborto voluntário direto é o doloso, também chamado de clandestino e criminoso. É o aborto praticado com a intenção de suprimir a vida humana nascitura sem motivo que possa justificar tal fato.

O aborto direto é sempre considerado homicídio e não existem razões que o justifiquem. Nem motivos eugênicos de má formação congênita; nem motivos de natureza econômica (miséria familiar: distribua-se melhor a renda); nem motivos de natureza moral (para salvar o nome da família, desonrado pela futura mãe solteira) estética e incômodo da gestante dita dona do seu útero.

O aborto indireto, juridicamente, isso é, segundo o “Código Penal” no artigo 128, é permitido em dois casos: Quando não há outro meio para salvar a vida da gestante e em caso de estupro, com o consentimento da gestante ou de seu representante legal. É questão jurídica e não moral.

Nestes dois casos o direito pretende salvar a vida e a liberdade, prevendo e permitindo a morte do nascituro, como último recurso, por razões consideradas graves para tal intervenção, (caso de anencefalia).

4. A vida humana, como maior valor deve ser sempre cultivada e respeitada, mesmo em seu estado mais incipiente de existência, em sua potência, mesmo remota, de desenvolvimento e perfeição.

5. A morte é o último acontecimento da vida. O homem é considerado clinicamente morto, com a morte irreversível do cérebro. O sujeito clinicamente morto, pode parecer biologicamente vivo, quando, através de equipamentos, conservar a respiração e a circulação forçadas

A eutanásia (boa morte, morte piedosa) é a ação que abrevia a vida através de lenitivos com intenção de aliviar o sofrimento dos pacientes. Esta é chamada de eutanásia positiva, no sentido de aplicação de meios (medicações) que simultaneamente ao alívio do sofrimento, abreviariam a vida.

A eutanásia, chamada negativa é a que priva o paciente de cuidados ou meios que prolongariam a vida. Por exemplo: privação de equipamentos para a respiração, circulação, etc.

Em relação à moral na prática da eutanásia, poder-se-ia afirmar o seguinte: Em casos extremos com previsão certa da impossibilidade de recuperação, e com o objetivo de aliviar os sofrimentos que levariam à morte (mutilados graves, idosos incuráveis...), parece permitido o uso de tranquilizantes, que simultaneamente ao alívio da dor, abreviaram não notavelmente a vida.

Quando o sujeito está clinicamente morto, não há normas que regulem a conservação puramente biológica (física) da vida.

A distanásia seria retardar artificialmente a morte definitiva de quem já está clinicamente morto.

A ortotanásia, no sentido de morte digna, é uma exigência ética, enquanto se proporciona ao paciente a assistência religiosa, familiar, ambiental e médica que alivia o sofrimento.

A mistanásia é a morte miserável com abandono, sem dignidade e muito sofrimento, descaso e descuido.

 

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CAPÍTULO III

 

A PENA DE MORTE

 

 

1. Na Bíblia, entre os muitos textos que falam da pena de morte, estão os seguintes: Gênesis 9, 6: “Todo aquele que derramar sangue humano, terá seu próprio sangue derramado pelo homem, porque Deus fez o homem a sua imagem”. Livro dos Números 35, 16: “Se o homicida feriu com ferro, e o ferido morrer, é réu de homicídio, e morrerá também ele”. Na carta de São Paulo aos Romanos 13,4 lê-se: “Mas se fizeres o mal teme, porque não é sem razão que (a autoridade) leva a espada: É ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal”.

 

2. A pena é a sombra da culpa. A finalidade da pena, principalmente, é reparar o mal praticado. É questão de justiça respeitar o direito alheio e restituir por reparação o direito violado. A fraternidade em si, supõe a justiça e procura não somente respeitar o direito, mas promover o outro.

 

3. A culpa é a consequência da violação consciente e voluntária de um valor ou direito de alguém. Pode existir erro moral ou jurídico, sem culpa, quando faltam as condições psicológicas humanas de responsabilidade (ignorância, coação, perversão involuntária). Psicologicamente, pode haver sentimento de culpa, sem culpa.

 

4. A pena, como punição, é o sofrimento infligido ao infrator, para que satisfaça de alguma forma o mal praticado.

a) a pena-vingança pretende reparar um mal com outro mal.

b) a pena-retributiva possui aspecto de reparação.

c) a pena-remédio (medicinal) pretende reeducar e recuperar o culpado.

d) a pena-exemplo ou preventiva serve de ameaça para que se evite o mal.

 

5. A aplicação de uma pena pode ser considerada como questão de direito, isto é, o poder aplicar a pena para reparação do mal, e como questão de fato, isto é, o dever aplicar a pena necessariamente.

 

6. A autoridade pública como dever ou função de manter a ordem e realizar o bem comum, para não ser ineficaz, deve possuir os recursos todos para alcançar sua finalidade. Para defender e promover o bem comum, como conjunto de condições que possibilitem a todos os cidadãos viverem uma vida verdadeiramente humana, o poder público, entre outros recursos, deve dispor de medidas preventivas e repressivas, contra os perturbadores do bem comum.

 

7. Existem na comunidade muitos perturbadores, errados, mas não culpados, pelo mal que praticam, visto não possuírem condições de responsabilidade por falta de educação ou por condições psicológicas anormais.

 

8. A pena de morte é a pena capital aplicada pela legítima autoridade pública a malfeitores, por crimes gravíssimos (hediondos) perpetrados e decididamente provados, por lei, como último recurso para salvar o bem comum.

Como questão de direito (poder aplicar) é legítima, como último recurso, posterior, portanto, à prisão perpétua, mutilação física, e alteração psicológica de personalidade.

Como questão de fato (dever hoje aplicar), parece possuir o aspecto de pura vingança, já que outros expedientes deveriam ser hoje propostos para salvaguardar o bem comum, sem o recurso à pena da morte.

 

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capítulo iv

 

violência E Fanatismo

 

1. A palavra "violência" (de "vis" = força) refere-se à situação de força, que se opõe à espontaneidade, á naturalidade, à liberdade moral. Violência é a mesma coisa que "força maior" que passa de um sujeito (violentador) a outro (violentado), produzindo uma distorção (violentação) do sujeito passivo.

A violência brota da presença da agressividade existente no ser humano. Possui um apoio biológico e é integrada na vida psíquica, condicionada pela estrutura social, que por sua vez a condiciona também.

 

2. No âmbito social humano a violência pode ser:

a) estrutural quando está inserida em e atua por estruturas sociais violentas (miséria, desemprego, abandono).

b) de resistência ou rebelião, quando organizada como oposição a situações julgadas injustas ou opressivas.

c) de resistência bélica, quando utilizada a partir de uma pretendida legitimidade sócio jurídica, entre Estados (nações, países...)

d) subversiva ou terrorista, quando a violência persegue o fim de "desestabilização", ou quando acompanha ações "anti-sociais".

e) a violência repressiva é própria da violência estrutural e, conforme o caso, pode ser legítima.

 

3. Existe a violência dos opressores ou detentores do poder, também chamada de violência institucionalizada. É externa quando refere-se mais às influências políticas, econômicas e ideológicas internacionais. É interna, quando diz respeito aos problemas de cada país.

 

4. A violência dos oprimidos é chamada também de "contra-violência". Pode ser de efêmeras revoltas populares, até grupos revolucionários. E pode ser violência de grupos e violência de massa.

a) Há grupos separatistas por motivos históricos, raciais, religiosos. Grupos revolucionários com ideologias para mudança de estruturas. Tradicionalistas visam defender as tradições. Os reformistas são menos revolucionários. Os conformistas querem reformas por meios legais. Violência do conformista.

b) violência de massa concreta (revoltas populares) e de massa latente (matam mais para saciar a fome).

 

5. Aspectos éticos:

a) Quais os limites de tolerância frente à violência?

b) Qual a resistência pela violência contra a opressão da “ordem estabelecida”, no sentido de autoridade legítima?

c) Qual o valor da “não violência ativa” contra a violência estrutural? Gandhi, Martin Luther King...

d) Como entender a “resistência passiva”, como não obediência às leis e com resistência armada?

 

O Fanatismo.

O termo fanatismo origina-se da palavra latina “fanum”, que significa templo (algo sagrado, que entusiasma, exalta, encanta)

Componentes do fanatismo, vividos pelo fanático:

a) crer-se na posse de toda a verdade;

b) viver esta posse de modo místico exaltado. Supor-se um enviado.

c) sentir-se com a missão de impor sua verdade a todos (fazer proselitismo).

Constata-se, no fanático, mais uma convicção irracional do que a busca da verdade. Há uma consciência descomedida da própria grandeza (chegando ao delírio). E ainda a intolerância como forma de relação interpessoal e intergrupal.

 

6. É próprio o fanatismo nos tipos de personalidade psicológica esquizóide e paranóide.

As defesas usadas pelo fanático para justificar-se:

a) desacreditar o outro como herege, excomungado, impatriota;

b) assumir o papel de salvador messiânico;

c) interpretar a história como um campo de guerra entre o bem e o mal

d) criar um sistema de idéias prevalentes, com perseveração.

 

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capítulo v

 

VERDADE E FIDELIDADE

 

1. O homem como ser social vive em comunidade, através de diversas formas de comunicação interpessoal. Sem comunicação é impossível a comunidade, a convivência e a sobrevivência humana.

Comunicar é fazer saber, tornar comum, transmitir, participar, entender-se, dialogar.

A comunidade humana entendida como unidade social de seus membros, de forma mais perfeita, somente é possível, se houver comunicação da verdade.

A veracidade, como atividade de comunicação da verdade, é o pilar sobre o qual assenta a comunidade humana.

 

2. A verdade possui três aspectos:

A verdade real são as coisas e os fatos como existem (que podem apresentar-se de várias formas, conforme o modo de encará-los).

A verdade lógica é o conhecimento (posse racional) da verdade real. É o que se conhece das coisas e dos fatos. É a transparência do ser revelada a transparência do intelecto.

A verdade moral é a manifestação por sinais (palavras, gestos) daquilo que se conhece, segundo maneira de conhecer.

 

3. O processo de comunicação da verdade consta de diversos elementos.

Em primeiro lugar está a fonte da comunicação, ou o locutor, que deve possuir a vontade de verdade, como atitude básica. O locutor possui seus padrões próprios de natureza cultural, moral, emocional...

Em seguida vem a mensagem, que é o conteúdo com sentido próprio;

O código de comunicação é feito através de sinais e símbolos.

O canal é o meio condutor da mensagem, com seu sentido (idéia);

O receptor, que recebe a mensagem, e que, por sua vez, podendo ser o destinatário e decodificador, terá também seus padrões próprios para a interpretação.

 

4. A mentira ou a falsidade moral é a manifestação por sinais, que não revela ou revela o contrário daquilo que se conhece, conforme se conhece.

A mentira é formal, quando há intenção de não dizer a verdade, sem que haja motivo para esta atitude.

A mentira material existe, quando não se diz a verdade, sem a intenção de mentir, ou porque não se conhece a verdade como é, ou porque há um motivo grave para calar a verdade.

 

5. A obrigação de dizer a verdade é de natureza moral (questão de honestidade) e não de natureza jurídica, a não ser que se tenha prometido ou jurado dizer a verdade. Dizer a verdade é uma obrigação e não, estritamente falando, um dever.

 

6. Quem ouve a mentira nem sempre é enganado, pois pode estar sabendo que o locutor está mentindo,

 

7. Deve-se dizer a verdade por três razões fundamentais: Para valorizar a faculdade de comunicação. Para possibilitar a vida em comunidade, necessária à sobrevivência humana. Pelo respeito que se deve à verdade ao outro, capaz de conhecê-la.

 

8. Há casos e circunstâncias em que se deve ocultar a verdade, para salvar um bem maior. Havendo motivos sérios e graves, deve-se sigilosamente guardar segredo natural ou prometido, para salvar o bem particular ou comum. Quem pergunta nesses casos, deveria supor que não poderia perguntar.

 

9. Na reserva, falar somente o necessário, e na discrição escolher as palavras com sentido exato, principalmente no que se escreve.

 

10. A fidelidade como cumprimento do que se assumiu, é outro pilar sobre o qual se assenta a convivência humana. Funda-se na crença que se tem no outro e pela qual se assumem compromissos. A fidelidade é a garantia de nossa retidão nas relações com o próximo.

capítulo vi

 

O DIREITO DE PROPRIEDADE

 

1. Documentos:

a) Bíblia: Gênesis 34, 10: “A terra estará ao vosso dispor; habitai e negociai nela e tende possessões”.

b) Declaração Universal dos Direitos Humanos, art. 17: “Todo homem tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. Ninguém será, arbitrariamente, privado de sua propriedade”.

c) Código Civil Brasileiro, art. 1196: “A lei assegura ao proprietário o direito de usar, gozar e dispor de seus bens e de reavê-los do poder de quem quer que injustamente os possua”.

 

2. Os bens em princípio, estão à disposição de todos os homens. Sua posse e disposição resultam de muitos fatores. Maior capacidade de trabalho, habilidade, esforço e circunstâncias outras no plano da justiça.

O ser humano tem consciência que o fruto do próprio trabalho lhe pertence. O repartir com os outros, e o possuír uma visão social dos bens, é fruto de educação social.

 

3. Possui o ser humano o instinto natural de apossar-se e possuir como próprias, coisas de ninguém e o fruto de seu trabalho. O uso do instinto de posse, leva-o à segurança da sobrevivência decente, pelo ter conveniente. A decência e a conveniência não resultam do instinto de possuir, mas da razão e da visão comunitária da posse e do uso dos bens.

 

4. Propomos neste capítulo o regime de propriedade particular limitada. O direito de propriedade particular é a faculdade moral de possuir, de forma racional, bens materiais, conforme as exigências sociais.

Sobre o direito de propriedade prevalece o direito à vida, por isso vale o princípio: “Em casos de extrema necessidade imediata e inculpável de vida, todos os bens são comuns (moralmente)”.

 

5. O direito de propriedade pode ser particular individual ou social e público, enquanto pertencerem os bens a um indivíduo, a uma sociedade particular ou ao poder público.

 

6. Fundamentos do direito de propriedade particular:

a) O ser humano possui inclinação natural à posse dos bens, para sua segurança pessoal, e personalização.

b) O uso da liberdade humana é possível, com responsabilidade, se o homem possuir alguns bens.

c) A posse ordenada dos bens também é garantia da ordem social. A posse desordenada, isto é, sem limites, a estatização de tudo e os bens comuns a todos (tudo de todos) não possibilitam a ordem social.

d) O estímulo à produção, sem forçar e sem permitir liberdade descontrolada, vem da propriedade particular.

e) Exigências do ser humano, que é previdente e providente, o fazem merecedor do fruto de seu trabalho. O exercício da responsabilidade pessoal, exigem a propriedade particular ordenada.

 

7. Posse ordenada significa posse limitada pelas exigências do bem comum ou do bem particular. A limitação natural também acontece ao apropriar-se de bens alheios em caso de extrema necessidade. A limitação positiva é feita pela legítima autoridade pública, segundo as exigências do bem comum, através de impostos, desapropriações, reformas agrárias, monopólios...

 

8. A posse, de bens supérfluos (além dos necessários) justifica-se quando possuírem função social, exigida pela natureza social do homem e do trabalho. Esta posição opõe-se ao individualismo e ao coletivismo.

 

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capítulo vii

 

O INDIVIDUALISMO LIBERAL

 

1. No século XVI tem origem o primeiro sistema econômico dos tempos modernos, o sistema mercantilista, segundo o qual o Estado deve procurar o bem-estar da Nação, que consiste em possuir muito ouro, muito dinheiro.

Para alcançar este objetivo, o Estado deve de todas as formas, com inúmeras leis, controlar toda a importação e exportação de valores. Criou uma absurda regulamentação para a indústria e o comércio. Abandonou-se a agricultura e fomentou-se o artesanato.

 

2. No século XVIII, começou uma reação contra as inúmeras prescrições do mercantilismo, tomando-se como fundamento os princípios filosóficos liberais de Rousseau e de Locke, segundo os quais, existe uma ordem natural que não deve ser contrariada por demasiadas leis. O ser humano é essencialmente bom e deve permanecer livre.

Tem início a primeira escola econômica, cujo chefe é o Doutor Quesnay, médico da corte do rei, contemporâneo dos enciclopedistas, Voltaire, Diderot e mais tarde Rousseau e Montesquieu. Quesnay faleceu em 1774. O sistema de Quesnay chamou-se “fisiocracia”, cujos princípios são:

a) Existem fenômenos econômicos que se processam livre e independentemente de qualquer coação exterior, segundo uma ordem imposta pela natureza e regida por leis naturais. Esta ordem é providencial e deve vigorar livremente. Liberdade para não trabalhar ou trabalhar e dispor do produto do seu trabalho.

b) A produção agrícola é aquela que permite a obtenção da riqueza gerada em maior volume, que a riqueza consumida. A natureza colabora diretamente com o homem e lhe dá um lucro em produto real.

c) A sociedade se compõe em três classes: - Uma produtiva, formada pelos agricultores. - Outra constituída pelos proprietários imobiliários (improdutivos); - E a classe estéril, dos que se dedicam ao comércio, à indústria, aos serviços domésticos e às profissões liberais.

 

3. O liberalismo econômico de Adam Smith, falecido em 1790:

a) Toma como problema econômico central o trabalho, ajudado pelo capital. A atividade produtiva do trabalho é a fonte de riqueza, contra a concepção metalista dos mercantilistas e a noção exageradamente agrária dos fisiocratas.

b) O liberalismo econômico, diz que o interesse individual coincide com o interesse geral, daí dever-se deixar plena liberdade de ação aos interesses privados.

c) O homem goza de liberdade natural, e por isso se relaciona com seu próximo através da benevolência e da simpatia. Liberdade para tanto.

d) O movente da atividade econômica é o lucro pessoal, que somado produz o bem comum.

e) Como condição de realização da vida econômica, exige-se plena liberdade de comércio, de trabalho, de concorrência, de contrato.

f) As relações de trabalho regem-se somente pela lei da oferta e da procura (sem condições estabelecidas por lei).

 

4. Este sistema trouxe muitas vantagens de natureza material: Grandes descobertas (fontes de energia), comunicações, medicina, acúmulo de grandes riquezas (capitais). Trouxe também um enorme prejuízo, isto é, a desvalorização do ser humano.

 

5. O fato histórico da filosofia e política liberal foi a Revolução Francesa de 1789, cujos princípios foram: liberdade igualdade e fraternidade.

Obs.: a) Socialização: distribuição dos bens através de instrumentos legais, b) Nacionalização: tornar nacional uma empresa estrangeira, c) Estatização: passar tudo ao poder do Estado, dono absoluto.

 

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capítulo viii

 

O SOCIALISMO COLETIVISTA

 

1. O Socialismo é a reação contra o individualismo liberal, que concentrou o poder econômico nas mãos de poucos. Volta-se para o homem como ser social. Os elementos gerais do sistema socialista são: a) Os homens são todos iguais, daí ser necessária a luta de classes para destruir a desigualdade, b) Abolir a propriedade particular dos meios de produção, c) Estabelecer uma nova organização política, dirigida democraticamente pelos trabalhadores, d) O trabalho é o único valor e seu produto deve pertencer ao Estado democrático dos trabalhadores, que saberão distribuí-lo.

 

2. A forma socialista coletivista de K. Marx é a mais apregoada (1883).

A) O materialismo dialético: a) “O mundo material percebido pelos sentidos, ao qual nos pertencemos, é a única realidade” (F. Engels, L. Feuerbach). b) A matéria é dinâmica (dialética), isto é, em contínua evolução (Hegel). O progresso da matéria faz-se por afirmações e negações da mesma realidade (tese, antítese e síntese). O produto mais    perfeito da evolução da matéria é o pensamento humano (a consciência).

B) O materialismo histórico (a dialética aplicada à História dos homens): a) Existe uma ordem natural e espontânea, que seria a melhor para a sociedade e por via da história se realiza por meio de evolução fatal (escravos, servos, proletários, frente a senhores e patrões), b) As transformações de ordem ideológica (concepções dos diversos aspectos da vida), c) A infra-estrutura econômica da sociedade, isto é, o modo de produzir determina a superestrutura, ou seja, o direito, a moral, a arte, a literatura, a religião. “As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas”, d) No passado o regime de propriedade e a maneira de produzir eram individuais. Hoje a maneira de produzir é coletiva e o regime de propriedade é particular, e) A evolução da infra-estrutura já se consumou, mas o reajustamento da superestrutura ainda não. A propriedade continua particular, mas deve ser coletivizada. f) A história indica que a produção acarretou sempre, em todas as épocas, a divisão da sociedade em dois grupos opostos: o dos meios de produção (detentores) e o grupo dos fornecedores da força de trabalho, g) Hoje os proletários se caracterizam - sem posse dos meios de produzir, pela consciência do papel histórico de poder suprimir os privilégios dos patrões. Para Marx, justifica-se a luta de classes, face à exploração a que está sujeito o operário e está garantido o pleno êxito da luta, segundo a previsão da evolução.

C) Concepção econômica do marxismo. Tese da Exploração: a) Aspecto econômico: O trabalho constitui o valor dos produtos = o valor é o trabalho cristalizado, b) Aspecto social: O valor do produzido deve pertencer a quem fornece o trabalho. Ao operário.

A mais-valia. No sistema capiltalista as trocas não se fazem em bases justas, porquanto o produto do trabalhador é vendido pelo empreendedor, por preço mais elevado. Não há troca justa. A mais-valia é a diferença entre o valor do produto e o preço fixado pelo empreendedor.

Em relação ao trabalho acontece a mesma coisa. O empregador contrata o valor de uso do trabalho do operário, isto é, as horas de trabalho diário, mas em troca (valor de troca) dá-lhe somente o sustento. Acontece que, em dado momento, o operário produz mais do que consome, e este mais é a mais-valia, que enriquece o empregador.

A concentração de capitais. A mais-valia aumenta a.riqueza de poucos e a miséria de muitos. Cria-se uma pirâmide, não sobre uma base, mas sobre o vértice, fácil de ser derrubada pelo proletariado organizado e consciente: “A burguesia engendra seus próprios coveiros”. Surgirá a sociedade coletivista, sem divisão de classes, e de trabalhadores iguais.

 

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capítlo ix

 

O VALOR DO TRABALHO HUMANO

 

1. Conceito de Trabalho

O trabalho é toda a atividade consciente e livre destinada a alcançar um fim útil. O trabalho é característica, que distingue o homem do animal. Tanto o trabalho manual como intelectual preenchem a vida do homem.

Existem diversos tipos de trabalho, mas a apreciação do trabalho está ligada ao trabalhador como pessoa, que é fim de toda atividade humana. Assim, o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho. Não somente para o sustento, mas para desenvolver a própria potencialidade, humanizando-se.

 

2. Sentido Objetivo do Trabalho

A máquina em muitas coisas substitui a atividade do homem, entretanto é sempre o homem que a coloca em ação e a dirige. Pelo trabalho o homem objetiva a sua vida, isto é, o objeto produzido é vida humana objetivada. O aspecto útil do objeto produzido, em grande parte procede do trabalho do homem. Presença da vida e do sangue do homem no produto.

A pessoa é fonte criadora do valor, objetivado no produto do trabalho. Pelo trabalho o homem aperfeiçoa a si e a natureza, fazendo a natureza objeto de cultura.

O produto, como vida objetivada pelo trabalho, pode ser trocado (comercializado) por outro valor humano correspondente. O dinheiro na troca deverá corresponder ao trabalho que objetivou o produto. O lucro é o preço da venda do produto menos os custos na produção.

 

3. Sentido Subjetivo do Trabalho

É como pessoa que o homem é sujeito do trabalho. E qualquer tipo de trabalho consciente e livre é humanizante para o homem. Assim, o trabalho procede da consciência e liberdade do homem e por isso possui dimensão moral.

Inserido na natureza, o homem se exterioriza no trabalho sobre a natureza, cuja transformação transforma e humaniza o homem. No trabalho o homem encontra-se e descobre-se a si mesmo em suas qualidades e limites. A natureza trabalhada torna-se uma extensão da pessoa, e reflete a própria pessoa. O trabalho é diálogo com a natureza, onde natureza e pessoa se desvelam e enriquecem.

 

4. Trabalho e propriedade

O trabalho tem primazia sobre a propriedade e sobre os meios de produção, que devem ser colocados a serviço do homem. A propriedade para ser legítima deve ser possuidora de trabalho humano.

O trabalho possui valor como efeito da ação consciente da pessoa. Vale o produto do trabalho. O dinheiro é o valor do fruto do trabalho. Contem vida humana e faz viver o homem. O salário é o preço do valor da capacidade de trabalho do trabalhador. Quais os critérios que estabelecem o salário justo? Quais os direitos e deveres do homem em relação ao trabalho? Possui o trabalho função social?

 

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capítulo x

 

O DIREITO AO TRABALHO E À JUSTA REMUNERAÇÃO

 

1. “Declaração Universal dos Direitos Humanos” art. 23: “Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha do emprego... tem direito à igual remuneração por igual trabalho. Todo homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim com à sua família, uma exigência compatível com a dignidade humana...”

No sistema econômico capitalista privado ou estatal, há divisão entre os proprietários do capital e os trabalhadores. O trabalho é a atividade humana, que adapta a realidade para servir ao homem. Por conta própria, trabalha quem é dono de sua propriedade e por conta alheia, por tarefas (empreitadas) ou por horas de trabalho para, quem não possui propriedade.

Para o trabalho por conta alheia, é necessário o contrato de trabalho, que consiste num acordo livre, entre pessoas capazes de assumir compromissos e realizá-los.

No contrato de trabalho empenha-se a pessoa do trabalhador, como se fosse para trabalhar por conta própria (com suas capacidades) e por isso merece o resultado de tudo o que produz por seu trabalho. Se o trabalhador empenha sua pessoa, como ser racional, merece o respeito a todos os seus direitos.

A remuneração do trabalho, é a retribuição que o trabalhador merece pelo trabalho prestado, que deve ser: a) certa, não duvidosa; b) determinada, isto é, fixa; c) imediata: após as tarefas, no fim do mês ou da semana.

A remuneração chama-se de salário, que pode ser considerado quanto a sua quantidade e quanto seu destino. Em razão de sua quantidade o salário será máximo, quando sendo maior, não corresponderia ao trabalho prestado e não poderia manter a empresa. Mínimo é considerado o mínimo necessário para o sustento do trabalhador e de sua família. Corresponde à valorização mínima do trabalho. Pode acontecer, que o mínimo estabelecido por lei, seja menor que o mínimo necessário real para o sustento do trabalhador. Em razão do destinatário (a quem se destina), o salário pode ser individual ou familiar.

O salário familiar será absoluto, quando se destinar ao sustento de uma família, conforme o número de filhos. Note-se que o salário mínimo, poderá ser considerado familiar absoluto.

Os critérios a considerar na determinação do salário justo são a) necessidade do trabalhador e de sua família; b) eficiência real do trabalhador; c) emprego global da mão de obra; d) situação da economia nacional e internacional; e) as necessidades legítimas da empresa.

O aspecto econômico do salário, se refere ao que o trabalhador produz e merece. O aspecto social considera o salário como retribuição que deve servir ao trabalhador e à sua família, para o bem social.

As vantagens do sistema salarial são: a) para o trabalhador ser o salário certo, determinado e imediato, sem sofrer os riscos da empresa; b) para o empregador, ter a posse e a direção da empresa e o lucro da produção.

As desvantagens: a) para o trabalhador a falta de estímulo, insegurança, demasiada dependência; b) para o empregador: os riscos da empresa, e os ônus sociais.

O contrato de trabalho é legítimo, pois o trabalho, mesmo realizado em propriedade alheia, é algo de honesto, quando são respeitados os direitos humanos e se atribui a remuneração justa pelo trabalho. Além do mais, há tantas pessoas que não possuem nem poderão possuir condições de trabalhar por conta própria.

 

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capítulo xi

 

REALIDADEs relacionadas ao TRABALHo

e a participação do trabalhador nos bens da empresa

 

1. O trabalhador normal, com capacidade suficiente para o trabalho e desejoso de viver uma vida digna e honesta, merece o salário familiar absoluto, tanto por força da justiça comutativa, quanto pela justiça social. (Constituição Brasileira, art. 7, 8, 11 e 12).

a) Pela justiça comutativa (tanto produziu, tanto deve receber), pois seja a pessoa casada ou solteira, homem ou mulher, que trabalhem nas mesmas condições, merecem o resultado do seu trabalho, que em condições normais, naturalmente se supõe, possa sustentar uma família de tipo médio.

b) Pela justiça social, pois esta justiça exige a colaboração de todos para o bem comum (Estado, empregadores e empregados). Quantos males sociais são provenientes de salários não familiares, que levam à doença, à miséria, à ignorância, ao crime... Se o trabalho é feito em comunidade deve servir para o bem-estar de toda a comunidade.

 

2. Ainda que legítimo, o sistema salarial presta-se a muitos e fáceis abusos. Daí a necessidade de superação, através de princípios e formas de reestruturação das empresas.

Estes princípios fundamentais são: a) a solidariedade que supera a divisão e a luta de classes, pela colaboração entre empregados e empregadores, b) a subsidiariedade, que consiste em ajudar e não em suprimir os que podem menos. Prestar subsídios às empresas menores, para evitar a proletarização coletiva.

As formas de superação dos abusos do sistema salarial são:

a) A participação nos lucros, além do salário fixo, conforme os resultados positivos da empresa.

b) A participação na gestão econômica e social da empresa, isto é, no governo da empresa pelos trabalhadores, junto aos representantes do capital e da direção.

c) A participação na propriedade dos meios de produção, pelo acionariado operário, e pela cooperativa de produção. Por esta participação, mais se justificaria a participação nos lucros e na gestão.

 

3. Os abonos familiares, principalmente para auxiliar famílias mais numerosas, com recursos provenientes da colaboração do Estado e das empresas.

 

4. A Previdência Social, como assistência em caso de doença, acidente, desemprego, invalidez, velhice, assegura o recurso para a sobrevivência digna do ser humano. Para a existência deste recurso, empregado, empregador e Estado devem colaborar.

 

5. Os sindicatos são associações que agrupam empregados ou empregadores, com a finalidade da defesa e representação dos interesses profissionais. Os sindicatos regionais ou nacionais podem ser classistas, se houver separação entre empregados e empregadores da mesma profissão, por exemplo, bancários e banqueiros. A politização partidária dos sindicatos, desvia-os do seu verdadeiro fim, dividindo os profissionais, conforme a participação em partidos políticos diferentes. A unidade livre dos sindicatos pode levar ao totalitarismo.

 

6. A greve, consiste na paralização coletiva ou parcial do trabalho, com a finalidade de obter melhores condições de trabalho ou a reparação de injustiças cometidas contra profissionais. É pressão lícita, como último recurso, e é pressão contra os patrões, o poder do Estado e o público (povo). É legítima quando se tratar da defesa de direitos injustamente violados e haja esperança de êxito. Sirva para o bem profissional (comum) e não só de grupos; liderada por pessoas capazes e bem intencionadas e não cause mais prejuízos que os necessários.

 

7. A empresa é uma estrutura básica dentro do sistema econômico. É uma estrutura humana onde se desenvolvem relações humanas. É uma estrutura profissional onde nascem e se orientam diversas profissões. Daí ser a empresa uma organização dos fatores produtivos (atividade empresarial, trabalho e capital...), com a finalidade de produzir bens e serviços para satisfazer as necessidades humanas. A empresa pode ser individual ou autônoma, quando uma só pessoa dirige, recolhe as vantagens e suporta os inconvenientes. Coletiva: composta por mais pessoas responsáveis por todos os bens. Cooperativa: se for uma sociedade onde produtores autônomos põem em comum seus capitais e trabalho. Pública: quando o Estado assume os riscos e vantagens. A mista é particular e pública.

As rendas da empresa, resultam dos fatores de produção: trabalho, capital, empresa e empresário.

O salário é a remuneração pelo trabalho prestado. É certo, determinado (fixo) e imediato (após as tarefas).

O lucro do empresário, é o que sobra do preço da venda, depois de pago o preço de custo e da produção. Concorre para o progresso da economia nacional.

O juro é a remuneração em dinheiro pelo uso do dinheiro alheio. É a renda que recebe aquele que oferece emprestado seu dinheiro para ser investido e produzir.

O aluguel é a remuneração ou renda paga pelo uso de coisa útil alheia.

Os sistemas de participação do trabalhador nos bens da empresa podem dar-se de três modos: Participação nos lucros (e não nas perdas) além do salário. Estimula o trabalhador a cooperar com o empregador; estimula o incremento da produção; destaca interesses comuns dos trabalhadores e empregadores; realiza a justiça social, com maior união na empresa.

Participação na gestão econômica e social da empresa, isto é, participação no governo da empresa junto com os representantes do capital e da direção.

Participação na propriedade dos meios de produção, através do acionariado operário (mediante títulos e ações) e da cooperativa de produção (sem as figuras de patrão e operário).

 

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capítulo xii

 

ECONOMIA E MORAL

 

A economia é a ciência das leis que regem a produção, a circulação adequada e o consumo da riqueza. A riqueza são os bens ou as coisas úteis suscetíveis de permuta. Servem para satisfazer as necessidades humanas. O útil da economia é de caráter social. A economia move-se na ordem dos meios, ao passo que a moral busca a realização do fim do homem, como ser consciente e livre, que age com responsabilidade na atividade econômica.

A relação da moral com a economia: acontece;

Na produção. O trabalho deve ser feito com responsabilidade, exercendo o trabalhador suas possibilidades humanas. O capital, que torna o trabalho produtivo, deve ser administrado com prudência para que possa produzir bens de forma racional.

Na distribuição dos bens produzidos, deve prevalecer a justiça, para que cada um receba a parte que lhe compete: investidor, empregador e trabalhador.

Na circulação (comércio, mercado) deve haver a confiança mútua, e boa fé. Respeito à palavra dada, ao compromisso assumido. Evitar a especulação desonesta...

No consumo que regula a produção, o consumidor deve tomar consciência de suas reais necessidades e agir com liberdade em satisfazê-las. O produto nocivo não consumido, não será produzido. Regula-se a produção conforme forem regulados os desejos e as tendências do consumidor.

No aspecto moral, o princípio regulador da economia é a necessidade de trabalhar, empenhando o trabalhador suas disposições humanas e o consumidor servir-se dos bens com moderação, segundo suas reais necessidades.

A economia eleva o nível de bem estar, oferecendo mais recursos para o desenvolvimento do ser humano. Os bens materiais servirão para a educação, a saúde e todo o progresso humano material e espiritual. O excesso de bens, bem administrado, somente pode trazer benefícios. A economia assim oferece à moral oportunidade de exercício honesto.

A vida virtuosa de alguém favorece os fins da economia.

A moral exige a liberdade do ser humano em seu trabalho. Sendo livre, o homem não se sente escravo na atividade que exerce..

Como ser social, o homem possui responsabilidade social (moral), o que favorece também a economia. E a propriedade particular, como necessidade moral natural, também favorece a economia.

 

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capítulo xiii

 

MUTILAÇÃO E LEGÍTIMA DEFESA

 

1. Mutilar é ofender a integridade corporal ou a saúde física ou psíquica de alguém. Consiste pois, na supressão de membro ou órgão ou na suspensão de função orgânica ou psíquica.

O “Código Penal Brasileiro” em diversos parágrafos do artigo 129, prevê várias penas para os praticantes de lesões corporais e outras.

Como no caso do suicídio, as mutilações podem ser diretas, portanto não permitidas e indiretas permitidas e até necessárias para o bem particular e comum.

São mutilações: as anestesias, as transfusões de sangue, os transplantes, as conseqüências do uso de anticoncepcionais, as alienações conseqüentes ao uso de drogas e álcool, etc...

Outros atentados à vida e à saúde podem configurar culpa moral em quem os pratica. São os provocados por acidentes de trânsito, de trabalho, desportos perigosos, torturas com mutilações, uso indiscriminado de medicamentos etc.

 

2. A legítima defesa contra o agressor injusto é tratada em diversos documentos oficiais.

A “Declaração Universal dos Direitos Humanos” diz no artigo 1: “Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.

Sendo os homens todos iguais em direitos, ninguém pode, sem motivo, agredir a vida alheia. A vida é fim e é igual para todos.

O “Código Penal Brasileiro”, no artigo 25 define a legítima defesa com os seguintes termos: “Entende-se por legítima defesa quem, usando moderadamente os meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”.

A agressão deve ser injusta (ataque, assalto, sequestro), e atual, ou quase atual (ameaçadora). Pode ser também simplesmente material, isto é, própria de quem age inconscientemente por estar embriagado ou mentalmente transtornado.

A legítima defesa pode ser usada para defender a vida ou a integridade própria ou alheia, e bens de apreciável valor.

A intenção na legítima defesa é de salvar a própria vida. À mutilação ou morte do agressor injusto será o último recurso a ser usado.

A situação jurídica do agressor injusto, é a de perder o direito ao bem que está agredindo ou de certa forma comparável.

O Código Penal recomenda o uso de moderação na legítima defesa, quando, no parágrafo único do artigo supracitado, diz: "O agente que excede culposamente os limites da legítima defesa, responde pelo fato, se este é punível como crime culposo". Logo, deve haver proporção entre agressão e defesa, o poder ou dever defender-se.

Duas razões principais justificam o uso da força até a morte do agressor injusto. Em primeiro lugar, sendo a vida o maior bem, deve-se dela cuidar com prudência. Em segundo lugar, os direitos de cada ser humano, são invioláveis e podem ser defendidos pela força. Ora, o maior valor do homem é a vida.

A fraternidade para com os outros supõe antes a justiça e o respeito.

 

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capítulo xiv

 

TRANSMISSÃO DA VIDA E OPÇÕES ÉTICAS

 

A ciência nunca pode prescindir dos valores morais. A ciência sem consciência moral desordena a vida humana.

A vida do homem não é apenas biológica, física e a transmissão da vida não é puramente técnica, mas é humana. Envolve responsabilidade moral. Envolve amor humano e não somente ciência.

O ser humano não pode ser objeto de manipulação, desde sua concepção. A originalidade da pessoa humana importa na originalidade da transmissão da vida. O homem consciente e livre tem o direito de nascer de forma humana, com auxilio da ciência.

O crescimento normal do homem exige o acompanhamento permanente da figura materna e paterna, desde o nascimento. Compensações e substituições em casos excepcionais são necessárias.

A intervenções na procriação humana podem ser:

A inseminação artificial, que é a introdução do sêmen masculino no organismo feminino para realizar a fecundação de forma técnica, sem relação sexual ou com ajuda após relação sexual. Caso de solteira que deseja ter filhos sem relação sexual, ou casada com sêmen do próprio marido ou de outro homem (heteróloga).

A fecundação artificial ou fecundação “in vitro” (em proveta), acontece quando o desenvolvimento da célula germinativa se dá fora do ventre materno, em seu primeiro estágio. Fecundação artificial heteróloga com sêmen de outro homem, que o marido e homóloga com sêmen do marido.

O ato conjugal é unitivo e procriador. Leva ao amor e indica a vocação do homem à paternidade responsável humana. A procriação é união biológica e psicológica.

A manipulação de embriões humanos (em proveta) e sua destruição contradiz a dignidade humana. Igualmente a intervenção no patrimônio genético, para produzir seres humanos selecionados leva o ser humano a perder sua dignidade e identidade. A “clonagem” também (combinação células) pode gerar monstros.

A legislação não pode interferir na geração humana digna. Gerar para lucro, para a guerra, etc, por lei, é imoral.

 

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capítulo xv

 

O Matrimonio e O VALOR DA FAMÍLIA HOJE

 

A “Declaração Universal dos Direitos Humanos” art. XVI diz: “Os homens e as mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento... O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes...”

O Código Civil Brasileiro, art. 1511 “A habilitação para o casamento far-se-á perante o oficial do registro civil...”

A sociedade consiste na união moral e estável de diversas pessoas, que moralmente unidas, colaboram para alcançar um fim comum. As sociedades naturais, resultam de disposições e necessidades naturais do homem, como o matrimônio e a família.

 

1. A sociedade conjugal ou matrimonial resulta da inclinação natural e universal de união humana (física, emocional...) com pessoa de outro sexo. Estas disposições levam à sociedade conjugal, não como necessidade absoluta, mas de complementação e ajuda.

O matrimónio é a legítima união conjugal entre o homem e a mulher, resultante de contrato (consentimento) livre e pleno.

É união conjugal (de cônjuges, esposos) para viverem unidos no amor, trabalho, decisões, geração e educação dos filhos.

É união legal como solenidade jurídica estabelecida por lei no Código Civil Brasileiro, artigo 1514.

É união legítima, isto é, não impedida natural ou legalmente por, idade, consanguinidade, vínculo... Código Civil Brasileiro, artigos 1517 -1521.

O matrimónio, como união, significa comunidade (com unidade); Vida comum humana de compreensão pelo amor, que é aceitação e ajuda.

As finalidades do matrimônio, segundo as disposições de união humana, são:

a) Individual, isto é, a realização do casal, de suas necessidades e disposições naturais, em relação à pessoa do outro sexo, no plano emocional, físico, social...

b) Específica, que é o bem da espécie humana e que consiste na geração e conveniente educação do ser humano. Os filhos são algo do pai e da mãe numa realidade nova. São a unidade dos esposos projetada fora de si mesmos. São a expressão generosa e social de seu amor não egoísta e individualista.

As propriedades do matrimônio, isto é, como deve ser o matrimônio para que comumente (não sempre) e de forma conveniente (não necessária) alcance sua finalidade:

a) A unidade ou monogamia oposta à poligamia, quer em forma de poliandria (diversos homens com uma mulher), quer em forma de poliginia (diversas mulheres com um homem).

b) A indissolubilidade, isto é, a permanência de vínculo e da convivência.

Estas duas propriedades são consideradas comumente. como as mais convenientes para ser alcançada a realização da vida matrimonial. O divórcio é uma exceção, por razões graves à ordem comum, no plano natural. (“Código Civil Brasileiro”, art. 1571 e 1579).

 

2. A família é a comunidade constituída de pais e filhos. Nela influem fatores de natureza sócio-econômica, política, cultural, histórica... É uma instituição, que por natureza se opõe ao individualismo egoísta, que esquece a generosidade, e a massificação, que faz o homem perder sua individualidade.

Do vigor e dos valores cultivados na família, depende em grande parte, o bem-estar social. Ordinariamente (com exceções), os pais na família, são as pessoas mais indicadas e interessadas para formação do homem. A família, é anterior ao Estado e dela, em grande parte, depende o Estado. A evolução psicológica do ser humano, sem a estabilidade familiar, se torna difícil. A presença paterna e materna na família é de suma importância para o ser humano em desenvolvimento. O amor na família é de afeição, e amizade.

 

3. A família é o conjunto natural de pessoas ligadas por laços de parentesco (cônjuges, filhos, tios, primos e afins próximos). Em sentido mais estrito, a família consta de pais e filhos vinculados pelo matrimonio legitimo.

Por seu caráter natural, a família é a mais antiga e importante forma de coletividade. Célula da sociedade e escola de crescimento humano individual e social. Transmite valores, idéias e sentimentos, se for aberta às mudanças dos tempos.

A família tem primazia sobre a sociedade e o Estado. É instituição natural, sem depender da legislação do Estado, quanto à sua natureza e valor. Na família moderna o pátrio poder é exercido pelo pai e pela mãe.

 

4. Os valores essenciais da família são: A união de amor, como entendimento e ajuda consciente e livre entre seus membros, conforme suas disposições de natureza e direitos. União personalista e fecunda, enquanto formadora de pessoas (pais e filhos). Na família a pessoa forma sua identidade. É a família uma comunidade englobante de sentimento e compreensão, criadora do modo de pensar e agir do individuo para a vida. União comunitária, enquanto cria corresponsabilidade em todos os seus membros. A convivência familiar cria o companheirismo, a ajuda, sem fechar-se para a sociedade. Impõe-se ao individualismo egoísta e à massificação, que fazem o homem perder sua individualidade. É difícil hoje a família intervir na sociedade, pois os meios de comunicação que penetram no lar, muitas vezes não se harmonização com os valores familiares.

Elementos ideais para a família são: O inter-relacionamento do casal baseado na paridade em todos os níveis de responsabilidade. O ambiente familiar comunitário , onde pais e filhos se sentem comprometidos; Abertura para o mundo com novos valores.

 

5. Dificuldade que a família pode enfrentar. Excesso de trabalho fora de casa sem diálogo. Educação deficiente por várias razões. Moradia inadequada; saúde e educação ineficientes, meios de comunicação prejudiciais; mentalidade utilitarista dos pais, infidelidades generalizadas, separações facilitadas...

 

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capítulo xvi

 

DIREITOS E DEVERES NA EDUCAÇÃO

 

A “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, art. 26: “Todo homem tem direito à instrução. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos do homem e pelas liberdades fundamentais... Os pais tem prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos”.

O Código Civil Brasileiro art. 1565-1566: “São deveres de ambos os cônjuges... o sustento, a guarda e a educação dos filhos”.

Educar é desenvolver ordenadamente as potencialidades do ser humano. Sua inteligência, sentimentos, Mas de modo particular a consciência da responsabilidade e o bom senso ou o equilíbrio no agir.

Para os pais, a educação dos filhos é um dever natural, enquanto faz parte da geração humana completa. A geração física é o ponto de partida da geração humana. A geração completa envolve a educação - Para os filhos, a educação é um direito natural, enquanto ela significa o desenvolvimento natural, normal do ser humano.

Na ordem natural, o direito direto e imediato de educar os filhos compete aos pais, enquanto a eles os filhos estão direta e imediatamente ligados e deles em primeiro lugar, dependem. Ordinariamente são os pais as pessoas que possuem condições de dedicação, interesse e luta para educar os filhos.

Existem, entretanto, circunstâncias que afetam a possibilidade para os pais poderem educar de forma adequada. Caberá então a instituições particulares ou estatais esta indispensável tarefa para o ser humano.

As escolas são instituições que acompanham e ajudam os pais na educação. A escola não é simplesmente o lugar onde se instrui, isto é, somente se transmitem conhecimentos. Deve a escola desenvolver integralmente o ser humano, nas várias fases etárias da vida.

A escola única supõe o monopólio do ensino, isto é, o regime escolar dominado exclusivamente pelo Estado. É comum em sistemas estatais totalitários.

O monopólio parcial do ensino é direito do Estado, enquanto significa reservar-se o poder de ministrar disciplinas especiais para funções estatais, como Academias Militares...

O monopólio total do ensino, entretanto, contraria os direitos dos pais e de pessoas particulares, capazes de ministrar educação, que favoreça o bem comum, que o Estado pretende alcançar.

É tarefa do Estado o dever de auxiliar os pais e outros particulares na educação. Cabe-lhe complementar e suprir as limitações dos pais. Por força da justiça comutativa, o Estado deve auxiliar sem privilégios as escolas particulares e públicas, pois todas visam o bem comum.

O Estado deve exigir a necessária competência para o exercício de determinadas profissões, e para tanto, deve inspecionar e supervisionar o ensino.

Conforme as circunstâncias concretas do povo, o Estado pode exigir um determinado grau de conhecimento e cultura de seus cidadãos, necessários para o bem comum. Esta exigência não necessariamente será cumprida em escolas, mas supervisionada pelo poder publico, responsável pelo bem comum.

 

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capítulo xvii

 

ASPECTOS MORAIS DO FENÔMENO CULTURAL

 

1. Noções: Cultura é o estilo de vida de um povo. É o conjunto de valores que o animam e de contra valores que o debilitam. Resulta de relação do povo com o sagrado, com a natureza e com os outros (indivíduos e povos). Abrange o cultivo da natureza, as relações sociais e a interpretação da realidade (filosofia, direito, religião ...).

A Constituição Federal, art. 215 diz: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional e apoiará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.

Existe a cultura da classe dominante e a popular. A enculturação é o aprendizado da própria cultura. A aculturação é a passagem de uma cultura para outra. A transculturação é a passagem de certos valores da cultura dominante para outros. A inculturação é a passagem de valores de uma cultura para outra, com a finalidade de elevar esta cultura (a transmissão de verdades religiosas).

Principais características da cultura são: Quanto à origem, somente o homem é um ser cultural; b) Quanto à forma: é sensível (encarnada); dinâmica (evolui); múltipla (pluralidade); criativa (original humana); c) Quanto à finalidade pode transcender o âmbito material temporal.

Realização da cultura: a) Humanização, isto é ajuda a “fazer o homem”, b) A desnaturalização liberta o homem dos determinismos da natureza, c) Libertação é a tarefa que se torna cultura para o homem viver mais livre.

 

2. Pluralidade e unidade na cultura. A unidade da natureza humana, não impede os homens de realizarem diversas culturas, a) O evolucionismo cultural defende uma linha ascensional da cultura para a realização do homem. Entretanto, nem todos os povos passaram por um estágio sempre ascendente. b) Segundo o relativismo cultural, o homem é determinado de fora por sua situação cultural. De fato o homem é afetado pela cultura, mas também pode distanciar-se dela e criticá-la. O homem faz a cultura e esta faz o homem. A cultura é o encontro entre liberdade e determinismo. Entre originalidade e tradição. Entre passado e futuro.

Situação da cultura no mundo atual. Há riqueza e miséria; liberdade e opressão; tensões políticas, econômicas, raciais e ideológicas. A tecnologia automatizando cada vez mais a atividade humana. Desenvolvimento em termos de criações humanas pode despersonificar o ser humano.

A tarefa moral no campo da cultura consiste em poder fazer o homem orientar-se por sua consciência moral e não somente por sua habilidade técnica e científica. A cultura é um elemento essencial da vida humana e nela o que mais vale são os valores morais. Por isso deve estar subordinada ao homem, fazendo-o valer moralmente como ser humano.

 

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capítulo xviii

 

Aspectos morais da conservação do meio ambiente

 

A “Constituição Federal” artigo 225: “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado...” A ecologia trata do desenvolvimento das comunidades humanas em relação ao meio ambiente. (Ecologia é a ciência do habitat).

O equilíbrio e a harmonia da natureza estão sendo gravemente ameaçados. A vida moderna adquire uma feição cada vez mais ameaçadora. Motivos: Poluição, contaminação das águas, dos ares, da vegetação por tóxicos... Crescente aceleração demográfica. Solos desertos e improdutivos, dos países pobres. Problemas habitacionais, saúde, educação, miséria e criminalidade. Progresso fascinante e ameaçador da industrialização... A miséria e a fome que assustam. O desmatamento e a poluição sonora... etc.

Subsídios para um equacionamento. O problema ecológico está intimamente ligado à vida humana. Necessita de uma escala de valores para uma redescoberta do sentido profundo das coisas e sua relação com o homem. Libertar o homem das várias formas de opressão pelas quais oprime, e é oprimido. Libertação da atividade de dominação sobre as criaturas; e a dominação sobre os demais seres humanos.

Deve ser suscitada uma ética ecológica, que insista num conjunto de atividades a tomar e que confirmem a opção do homem pela vida e pelo respeito ao patrimônio comum, presente e futuro da humanidade.

A Declaração sobre o Meio-Humano (ONU – Estocolmo – 5 a 16 de junho 1973, propõe algumas reflexões).

O homem é obra e artífice do meio que o cerca. O que existe e o que é feito deve estar em função do bem-estar do homem. A questão fundamental é proteger e melhorar o meio humano. - O desenvolvimento deve ter presente a necessidade de salvaguardar e melhorar o meio em que vive.

Alguns princípios: O homem tem direito a um meio de qualidade que lhe permita levar a vida digna e gozar de bem-estar. É necessário preservar os recursos naturais da terra. Melhorar e restaurar a capacidade da terra de produzir. Cuidar para não esgotar os recursos não renováveis. Pôr fim à descarga de substâncias tóxicas ao ar livre. Tratar com maior eficácia os desastres naturais; Qualidade de vida consiste em saúde e educação, e relações humanas de colabaração.

Há interesses camuflados de impérios econômicos multinacionais. Indústrias de armamentos. Nacionalismos e hegemonismos absolutistas. Domínio da tecnologia sobre o humano. É necessária uma educação ecológica.

 

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capítulo xix

 

dimensão ética do comportamento sexual

 

A origem da palavra sexo procede do verbo latino “secare”, que é cortar, separar, e significa o biformismo somático e psíquico no homem e na mulher.

A sexualidade é um crescimento criativo para a integração. Tal crescimento estará garantido se a atividade sexual for autolibertadora, enriquecedora para o outro, sincera, fiel, responsável, voltada para a vida e alegre. A esta visão foram acrescentados outros valores fundamentais da sexualidade humana: A auto-realização em reciprocidade (coloca em primeiro plano a realização Eu-Tu). Fecundidade (fim social da sexualidade). Sentido transcendental (liberta a pessoa de sua finitude, solidão e aponta para a paz total, e bem estar).

Sensualidade é a irradiação da emoção sexual sobre o corpo todo.

Castidade não consiste em mera obediência do corpo ao espírito. Não é uma qualidade apenas espiritual, desencarnada. Castidade é a sensualidade integrada no nível de pessoa. A castidade representa plenitude da sexualidade, como o prazer de alimentar-se, equilibrar a vida. As ordenações ou instâncias da psicossexualidade:

A instância biológica indica a posse de características diferentes entre homem e mulher: Características morfológicas, cromossômicas e hormonais e de funções neurológicas cerebrais diferentes.

A instância psicológica apresenta o fenômeno psíquico que abrange o aspecto do sentido da sexualidade e forma expressiva da vivência humana. O comportamento sexual como conduta humana expressa-se como linguagem e celebração festiva do gozo sexual. É força construtiva do eu que deve ser integrada a partir do núcleo pessoal. Origina uma modulação dentro da unidade.do comportamento humano;

A instância dialógica é a sexualidade como linguagem do amor heterossexual. É voz que descobre o tu heterossexual, com o qual se realiza.

A instância sócio-cultural considera a sexualidade numa configuração cultural e social. O nível sócio-cultural é um fenômeno integrante do fenômeno humano sexual. Nem todas as formas culturais são eticamente válidas. Compete à moral avaliar a dimensão sócio-cultural da sexualidade;

Partindo de uma instância existencial não se pode conceber uma existência humana sexualmente neutra, mas composta por dois gêneros: o masculino e o feminino, com estruturas e maneiras diferentes e complementares de viver a existência humana;

A orientação moral positiva da sexualidade deve conduzir o agir do ser humano a realizar uma integração harmoniosa e pacífica da própria sexualidade na totalidade da vida.

Há três correntes na proposta da ética sexual.

A Ética Sexual Tradicional: elaborada pela Teologia Moral. Seu fundamento é a lei natural concebida de modo estático (normas, inflexíveis e imutáveis) e fisicista. O valor essencial é a procriação, sendo que relações sexuais fora. do casamento, no qual a procriação não se justifica, são tidas como pecados sexuais.

Ética Hedonista-Utilitarista: vê o sexo como é artigo de consumo e de divertimento fácil. O único valor que conta é o prazer. A única restrição feita é que seja respeitada a liberdade do parceiro.

A Ética Sexual Personalista: é uma nova cosmovisão, na qual as ciências ocupam papel importante. Ao se formular um princípio ético deve-se levar em consideração o que as ciências dizem. Busca como norma universal, onde existe uma obrigação geral de crescer para a maturidade afetivo-sexual, em abertura e reciprocidade. O ato sexual, deve ser a expressão de uma entrega total, exclusiva e irrevogável nas intenções e ter um amparo social. A sua realização, encontra na situação conjugal condições ideais. É imoral toda quebra de fidelidade.

Dentro da visão personalista, existem.

a) Relações sexuais pré-cerimoniais. A coabitação regular entre parceiros, psicologicamente amadurecidos no seu relacionamento e seriamente comprometidos, que estão aguardando a oficialização cerimonial.

Relações sexuais pré-matrimoniais de namorados a caminho de um possível compromisso definitivo, que no seu estilo de comunicação, introduzem as relações sexuais, como elemento de aprendizagem e amadurecimento.

Deve-se ponderar sempre quais os objetivos e as situações pessoais concretas na prática das relações pré-matrimoniais e pré-cerimoniais. A liceidade moral das relações sexuais supõe o estado matrimonial.

 

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capítulo xx

 

AVALIAÇÃO ÉTICA DA MANIPULAÇÃO DO HOMEM

 

Manipulação (de “manu pellere” = impelir com a mão) significa “conduzir com a mão”, “ter o objeto na mão”. O significado aceitável da manipulação dá-se quando entendida como mudança da natureza em benefício da pessoa. Entretanto, quando viola ou suprime a liberdade e quando não desperta o senso crítico, a manipulação é violência (manu pleo = encho com a mão).

Formas de manipulação: a) Em razão do sujeito manipulador: Individual ou institucionalizada; b) do sujeito manipulado: pessoal, social ou ambiental; c) do modo como se realiza: mediata ou imediata, consciente ou inconsciente, vulgar ou científica; d) dos efeitos que produz: inócua, prejudicial ou perfectiva; e) do fim que se propõe: somática, psicológica, social, cultural; f) da moralidade: legítima (justificada) ou imoral.

Os tipos concretos de manipulação: a) manipulação da biosfera na qual se vive; b) na cultura e na arte; c) através dos meios de comunicação social; d) através da publicidade; e) manipulação social em suas várias fontes: econômica, política, ideológica; f) da racionalidade do agir humano; g) do plano religioso; h) nas pesquisas;

Nesta classificação descrita e concreta, a manipulação limita a liberdade e a capacidade crítica da consciência. Cria a unidimensionalidade.

Principais setores de manipulação:

A manipulação no campo do ensino e da educação. A educação é o mercado das ideologias. Construir cidadãos submissos, para uma sociedade tecnológica e consumista. Não humana.

A manipulação da opinião pública. A maior parte de nossos comportamentos humanos, das decisões políticas e econômicas, são condicionados pela formação da opinião pública. “Você não decide”.

A manipulação publicitária. Poderosos e ricos anunciantes pela publicidade criam necessidades de consumo, muitas vezes inúteis e prejudiciais.

A manipulação científica: Biológica (geração de vida). Física (características físicas). Psicológica (comportamentos).

O poder manipulador da autoridade. Apela á “ordem estabelecida e com ideologias”.

Aspectos morais da manipulação: a) a pessoa torna-se coisa e meio; b) a liberdade a criatividade e o discernimento são comprometidos ou tolhidos; c) há destruição da consciência crítica e a domesticação, que se opõem à liberdade.

 

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capítulo xxi

 

FUNDAMENTAÇÃO E CONTEÚDO DA ÉTICA POLÍTICA

 

O homem como ser social, na comunidade presta serviços e dirige serviços. Organiza o bem comum através de instituições que orientam a ação. Conforme às necessidades, cria estruturas com poder, em função do bem comum.

A política tem como objetivo a convivência social do homem em seu mais alto nível. É uma realidade estrutural da condição humana e é uma realidade histórica, existente em cada povo.

Pode ser entendida a política: a) Como ação conforme interesses, desejos de serviço, desejo de poder; b) Como instituição possuidora de orientação política. Assim, a política é a síntese dialética entre ação e instituição.

A política como ciência pode investigar ora o comportamento político (psicológica e moralmente), ora as estruturas políticas (sociologicamente).

A moral política deve ser descoberta nas ações dos políticos e, sobretudo nas estruturas políticas.

A referência da política ao mais alto nível da sociabilidade humana aparece: Enquanto todo comportamento e estruturas sociais representam de algum modo a convivência total do grupo. Enquanto os indivíduos procuram projetar sobre a sociedade um ideal humano. Enquanto luta-se pela posse de poder social em seu mais alto nível. Enquanto sistema organizado de poder em sua representação mais elevada.

Na relação entre ética e política há duas posições adotadas:

a) Integrismo ético. Ética e política são duas realidades radicalmente opostas e em caso de escolha, optar pela ética.

Realismo politico. Em caso de oposição entre moral e política, deve-se optar pela política. A síntese entre as duas opiniões é sempre dramática.

A mútua autonomia não impossibilita uma política “moralizada”, nem uma ética “politizada”, com a função de problematizar a política.

A política está enquadrada dentro do universo de valores que regem a vida humana, não podendo existir conflito objetivo entre valores éticos e autêntica vida política.

A comunidade política é necessária e a autoridade também para se alcançar o bem comum. É o bem comum que integra necessariamente a ética e a política.

Em “perspectiva integradora” a ética aceita as estruturas evoluídas da política democrática e para justificá-las, procura inserir nelas a dimensão ética. Submete-se à revisão para integrá-las. Isto significa moralizar a realidade em situações concretas.

A comunidade política, e nela a autoridade, somente alcançam o bem comum dentro dos limites da ordem moral. Da justiça, fidelidade, verdade, lealdade. Fora da ordem moral ou contra esta os cidadãos tem o direito e o dever de resistir.

 

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capítulo xxii

 

O SENTIDO DO BEM COMUM

 

O ser humano de características individuais, pessoais e sociais, realiza sua existência em comunidade. Nesta comunidade busca um interesse comum, um bem comum e realiza sua plenitude em vinculação social, através da colaboração para o bem comum.

O bem comum não é auxílio sucessivo de bens e trabalhos reunidos em um fundo comum, nem a distribuição de bens. Consiste na responsabilidade dos indivíduos, mediante vinculação social de cumprirem as tarefas fundamentais traçadas pelos membros da sociedade para os fins existenciais da comunidade.

O bem comum consiste no conjunto de disposições (educacionais, econômicas, políticas...) criadas e praticadas pelos cidadãos, para que todos possam ter uma vida digna.

O bem comum é categoria ética, enquanto expressa a normatividade da realidade social. Exerce essa normatividade de duas formas:

Pela função teleológica enquanto é o fim ou a meta a ser alcançada pela comunidade. O fim orienta o procedimento.

Pela função verificadora enquanto é modelo que torna a normatividade ideal uma realidade histórica, através de realidades concretas. Na existência concreta do bem comum verifica-se a prática real do objetivo da sociedade.

O bem comum deve manter-se num ponto equidistante entre individualismo e o coletivismo. Assim, o bem comum não consiste no conjunto de bens particulares (individuais) e nem é um bem substantivado, separado dos indivíduos.

É o bem das pessoas enquanto estiverem abertas entre si na realização de um projeto unificador, que beneficie a todos. Deve chegar ao ponto de ser pessoal e realidade de projeto social, tendo como ponto de convergência a comunidade.

O bem comum abarca toda a atividade política e econômica do Estado e envolve as condições que permitam aos cidadãos desenvolverem sua perfeição. Consiste na defesa dos direitos e deveres do homem. Abarca todos os âmbitos da vida social: bens, fins e condições, dos quais todos podem participar.

O bem comum como categoria ética depende da opção global da sociedade. Esta opção condiciona o comportamento dos membros da sociedade. Assim, a noção de bem comum não pode ser enquadrada no totalitarismo e nem no liberalismo absoluto, mas numa opção de cunho humanista socializante.

Condições operativas do bem comum isto é, as características de operatividade são: O caráter pluralista de participação democrática; O caráter dinâmico, enquanto possui fim que empenha a todos. O caráter intencional e objetivo enquanto é obra de vontades conscientes (intenções) e realizadas por estruturas sociais, jurídicas, econômicas, políticas...; O caráter totalizante e individual, enquanto todos devem participar com respeito aos valores pessoais.

As funções básicas do bem comum são:

Remover os estorvos da natureza instintiva (individualista) que perturbam a ordem da convivência. Criar uma ordem de bem-setar social, que possibilite proporcionar aos membros da sociedade, uma existência humana digna.

 

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capítulo xxiii

 

JUSTIFICAÇÃO MORAL DA GREVE

 

A palavra “greve” vem do francês “gravé” e grevé", que significa cascalho, seixo existente no rio Sena, perto de uma praça em Paris, onde os trabalhadores se reuniam para discutir (no século XIX) problemas de trabalho e desemprego. Quando os trabalhadores resolviam suspender o trabalho, reuniam-se na Praça de Grève.

Greve é paralização, isto é, suspensão parcial ou total do trabalho de uma ou mais empresas, com o objetivo de obter melhores condições de trabalho, salário e vida. O direito de greve é assegurado pela Constituição Brasileira, no Artigo 9º. Pode surgir a greve espontaneamente, sem organização ou organizada, de acordo com um plano.

Pela cessação de trabalhos e serviços, a greve repercute no meio empresarial, nos dirigentes políticos e na própria comunidade. Na greve existe: ruptura da normalidade de produção, que deve ser feita democraticamente pelos trabalhadores; e o prejuízo, com pressão sobre o dono do capital; e proposta de restabelecimento da normalidade, quando atendidas as reivindicações feitas.

Tipos de greve. A greve de reivindicação para a conquista de um ou vários direitos; de solidariedade com quem padece injustiças, na própria categoria de trabalho ou outro e até de outro país; de protesto contra demissão de colega: política, ligada a fato político e não à categoria; ofensiva, que quer por exemplo, mudança de condições de trabalho... Existe ainda a greve de fome pelos mais variados motivos. Ao contrário da greve, existe o "lock-out", que é a paralização decorrente de iniciativa de uma empresa ou várias. Das direções das empresas.

A greve é uso de violência menor que a violência da revolução, para sanar injustiças, sem outro caminho de solução.

O parágrafo 1º do artigo 9 da Constituição diz: “A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade”. Atividades essenciais: são as que afetam setores importantes da comunidade, cuja suspensão acarretaria consequências muito graves para a comunidade, como transportes, produção de energia, atendimento aos hospitais...

Condições de legitimidade moral da greve: a) Causa justa, à qual respondem os diversos tipos de greve acima propostos. A causa deve ser clara ou esclarecida a todos os interessados e não desviada. Que não haja outro modo de solução, para resolver o conflito a não ser pela greve. Que haja uma previsível esperança de êxito no presente. Que haja certa proporção entre os bens que se esperam e os males que se temem. Não causar maior prejuízo que o necessário, (excluir vinganças). Que seja encabeçada por pessoas capazes e interessadas no objetivo da greve. Que respeite a liberdade dos que não desejam participar da greve, ainda que esclarecidos.

 

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capítulo xxiv

 

LEGITIMIDADE MORAL DA REVOLUÇÃO

 

Pode-se dizer que a revolução visa criar uma mudança nas instituições politicas de uma Nação, através de atividades radicais (às vezes violentas).

A revolução está ligada à idéia de transformação, modificação e não de evolução ou de reforma.

Entretanto, nem toda transformação, necessariamente é revolução (com violência). Uma modificação somente é revolucionária se possuir certo grau de profundidade e se efetivar em um breve período de tempo. Uma mudança revolucionária, mesmo sendo rápida, implica no uso de violência; Não é evolução.

As crises violentas da vida pública podem ser resolvidas de diversas maneiras, como o “Golpe de Estado”, “Jacquérie” e a “Revolução”.

No “Golpe de Estado” a tomada do poder vem do alto. Os protagonistas são as elites. Os objetivos e as ideologias variam em cada caso.

Na “Jacquérie” os protagonistas são as massas insatisfeitas (por carestias, epidemias, desastres naturais, guerras prolongadas); Os objetivos geralmente, são de eliminação de abusos e restauração de velhos usos. Não existe uma ideologia alternativa. É típica de sociedades tradicionais onde não se buscam mudanças estruturais, mas conjunturais.

Na “Revolução” a tomada de poder é feita pelas massas e dirigida por uma elite ideologicamente consciente; O objetivo é a transformação do sistema político e a institucionalização de novos valores, com uma contra-ideologia racional.

Para detectar uma situação pré-revolucionária e colher as suas causas verdadeiras é necessária uma prévia compreensão do mecanismo fisiológico que regula as funções vitais do corpo social. Na sociedade podemos distinguir três níveis analíticos:

A estrutura objetiva, isto é, o conjunto das relações econômicas que caracterizam uma determinada sociedade (base existencial)

A ordem institucional, isto é, o conjunto de normas coerentes que disciplinam as relações entre os cidadãos

A mentalidade, isto é, as crenças, os valores, os mitos interiorizados pelos indivíduos durante o processo de socialização.

A tudo isso pode-se ainda acrescentar a "utopia", ou o projeto coletivo.

Quando a realidade destes níveis que regulam as funções do corpo social para a realização de seu projeto (bem comum) são seriamente obstaculizados pela ilegitimidade do poder, pelo abuso do poder, pela omissão do poder (autoridade), pode-se estar frente à necessidade de mudança social através da revolução. A revolução importa em mobilização social, ruptura ideológica e consciência das elites dirigentes revolucionárias.

Justifica-se a revolução: Quando houver impossibilidade de solução por via pacífica tentada. Causa justa com culpabilidade moral dos responsáveis pelas injustiças. Decisão tomada por quem possui capacidade de direção para uma transformação; Reta e humanitária intenção de encontrar justas soluções.

Há razões que parecem não justificar a revolução

Pensa-se ser impossível chegar a extremos tais sociais de se exigir a violência.

As mudanças violentas geram transformações que serão sempre mantidas também pela violência. Buscar entre as funções erradas numa instituição, as que funcionam bem e fortalece-las.

 

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capítulo xxv

 

SOCIEDADE E AUTORIDADE CIVIL

 

A sociedade civil é a comunidade composta pelos indivíduos humanos, estavelmente vinculados entre si, para a realização de um fim comum. É necessário formar a sociedade civil, pertencer a ela, sujeitar-se ao poder? O Estado é a sociedade politicamente organizada, isto é, com disposições que regulam educação, comercio, finanças internacionais, etc.

A finalidade do Estado é a realização do bem comum para todos os cidadãos e é criado e governado pela vontade livre dos cidadãos.

Como Nação, a sociedade civil é uma realidade sociológica, composta de idioma, tradições, costumes e aspirações comuns. Apresenta unidade de raça e alimenta a solidariedade entre seus membros, levando à comunhão de ideias e de ideais, além do apego à terra natal... A Nação é uma realidade de ordem natural e histórica.

A Nação oferece elementos para a constituição do Estado. Mas podem existir Estados constituídos por várias nacionalidades.

Como Pátria, a sociedade civil encerra a idéia de terra natal, de lar onde se nasceu e nasceram os antepassados. É a terra de cada um, engrandecida pelo trabalho, que oferece os meios para sustentar a vida.

A sociedade civil é resultado de uma inclinação natural do homem.

Para Thomaz Hobbes o homem em estado de natureza era anti-social: “O homem é o lobo do homem”. A sociedade civil é uma instituição forçada.

J. J. Rosseau afirma que o homem é por natureza social, mas a inteligência e a linguagem desenvolvidas facilitaram a convivência social. Sem perder sua liberdade, o homem se associa livremente.

Para B. Spinoza a sociedade é fruto do domínio do mais forte sobre o mais fraco.

A teoria mais comum afirma que o homem é por natureza um ser social, isto é, possui inclinação natural a associar-se.

A forma concreta de realização da sociedade é proposta por várias teorias.

A teoria patriarcal afirma ser a sociedade resultância de um grupo de famílias comandadas por um patriarca.

para a teoria patrimonial, a sociedade originou-se de um poderoso senhor de terras (poder econômico) que dominou os súditos

Pela teoria da forma, a sociedade é consequência da vitória de um conquistador que criou poder sobre os outros

Parece, deva se afirmar, que a inclinação para a vida social é uma das mais profundas do ser humano e consiste num instinto natural racional de relação para com os outros.

Por esta inclinação universal, espontânea, forte e constante à vida social, o homem sente-se moralmente necessitado a formar a sociedade para sobreviver e progredir. Da necessidade de convivência resultam direitos e deveres naturais.

A realização concreta primordial, conseqüente à inclinação para a união e para a necessidade de sobrevivência, resulta do consentimento tácito ou expresso dos cidadãos, direto ou indireto, simultâneo ou sucessivo. Deste consentimento livre, nasce a união moral e estável dos cidadãos que colaboram para um fim comum, de forma organizada.

A autoridade é necessária à sociedade natural, e é considerada mais como dever ou função a ser exercida, do que domínio sobre os outros. Ela transcende o poder do cidadão, enquanto representa formalmente, numa pessoa ou num grupo de pessoas, os cidadãos, que radicalmente possuem o poder. A autoridade pode obrigar moralmente os cidadãos em consciência, enquanto naturalmente necessária para a realização do bem comum, que também a limita. O poder de obrigar em consciência resulta naturalmente dos cidadãos, necessitados de uma autoridade que os governe.

O Estado como forma histórica de organização política, pode ser definido como “uma comunidade de ordem vinculante, realizada através de normas jurídicas bem definidas e garantidas por um poder organizado, cujo objetivo é estabelecer as condições para a realização universal dos fins da vida humana”.

A finalidade do Estado, como comunidade organizada, é o bem comum que consiste num conjunto de condições de vida social pelas as quais os indivíduos, as famílias e as associações podem conseguir com maior plenitude e facilidade sua própria perfeição.

O bem comum somente pode ser alcançado na comunidade através da autoridade, que coordena e faz convergir para esse fim os esforços das pessoas e dos diversos grupos. A autoridade deve orientar a comunidade não de forma despótica, mas agindo principalmente como força moral, que se baseia na liberdade e no sentido de responsabilidade de cada um.

A autoridade como direito de deliberar, decidir e mandar, funda-se na natureza social humana, voltada para a realização da comunidade política comum. Assim, o fundamento da autoridade é o ser humano, necessitado da convivência organizada para alcançar a própria perfeição.

A autoridade pública transcende os direitos dos cidadãos em particular.

Por causa do bem comum que deve alcançar, a autoridade obriga os cidadãos moralmente em consciência e não só juridicamente.

Por isso ao exercício legítimo da autoridade corresponde a obediência obrigatória dos cidadãos.

Os limites do exercício da autoridade são estabelecidos pelas exigências de realização do bem comum.

O sujeito natural (radical) e primário da autoridade são todos os cidadãos, enquanto se unem moral e estavelmente para alcançar o bem comum por meio de mútua cooperação;

A função da autoridade é de coordenar e fazer convergir para o bem comum os esforços dos cidadãos. Disto se deduz que a autoridade é mais função, serviço do que domínio e direito. O direito da autoridade se fundamenta e é proporcional ao dever para com o bem comum.

A forma de governar: As primeiras manifestações concretas de governo democrático surgiram na Grécia, com Heráclito, Solon, Sócrates... Os Romanos, Lucrécio, Cícero, Séneca... foram os primeiros comentadores e teóricos da democracia.

O povo governava-se a si mesmo nas praças, através de assembléias. Surgiu assim a forma democrática de governo. Este sistema era possível graças ao pequeno tamanho das cidades-estado.

No mundo moderno mantem-se o princípio da soberania popular (“o poder emana do povo”), mas sob a forma indireta ou representativa.

A democracia é uma forma de governo no qual as classes populares tem sua representação e influência. Governo democrático é apenas um conceito legal, porque, geralmente não é um governo da população em sua totalidade, mas em sua maioria e mesmo assim nem sempre absoluta.

Na democracia como sistema de organização política geral dos interesses coletivos, compete à maioria do povo, segundo regras e normas jurídicas a participação efetiva na formação do governo

Manifesta-se no reconhecimento e garantia dos direitos fundamentais de igualdade e participação do cidadão na sociedade. Democracia é mais que mera forma de governo

O valor moral da democracia se dá na medida em que se pratica a valorização das opiniões, assegurando os direitos e também os deveres de todos. Tem o seu verdadeiro valor moral quando está de acordo em defender o ser humano como um todo, principalmente através do diálogo.

Fala-se em quatro categorias de igualdade: a) A igualdade jurídica: Todos os cidadãos são iguais perante a lei, sem discriminação por motivo de raça, cor, religião... b) Igualdade de sufrágio: todos tem direito a voto como valor unitário; c) Igualdade econômica: Todos tem o direito de viver uma vida digna, e ter um padrão mínimo de vida; d) Igualdade de oportunidades: emprego, cultura, funções públicas.

O exercício da liberdade na democracia consiste em pensar, crer, viver... dentro de um contexto determinado de convivência social, e pela obediência às leis legítimas que ordenam o bem comum.

Na democracia deve existir o equilíbrio entre o exercício da autoridade e o respeito à liberdade, para evitar o autoritarismo e a anarquia.


capítulo xxvi

 

ASPECTOS MORAIS DA AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS

 

O direito de autodeterminação de que gozam os povos significa, que a população de uma determinada região pode decidir por si mesma se quer constituir um Estado próprio, ou pertencer a outro Estado. E que nenhum Estado tem o direito de intromissão nos assuntos de outro.

A origem e a constituição de um Estado dependem da vontade do povo.

A independência, entretanto, deve ser concedida e aprovada em determinadas circunstâncias e sob determinadas condições. Para ser Estado independente, os grupos nacionais devem possuir os suficientes elementos econômicos, sociais, culturais e políticos, que lhes permitam subsistir. A independência política criada não deve causar graves prejuizos nem ao novo Estado e nem ao de origem.

Todos os Estados estão obrigados a proteger as minorais que existem e sua unidade nacional e garantir-lhes vida própria dentro dos limites do bem comum. As minorias (nacionais, raciais, religiosas) devem também cumprir as leis justas do Estado.

A autodeterminação como não intervenção, significa que um Estado não deve se intrometer nos assuntos de outro Estado. Nenhuma autoridade humana é absoluta, portanto, não pode fazer tudo o que quer. Existe uma solidariedade natural entre todos os povos e Estados. A desordem e o abuso de poder dentro de um Estado podem chegar a extremos insuportáveis. Existem direitos dos indivíduos e das comunidades de caráter natural e toda a humanidade deve colaborar para que não sejam violados

Na falta de uma organização internacional eficiente, parece lícito e até obrigatório que um ou vários Estados intervenham nos assuntos particulares de outro Estado nos seguintes casos:

Quando um Estado tem de defender os seus direitos ou os de seus cidadãos (súditos), pública e dolosamente violados.

Quando um Estado não pode defender-se por seus próprios meios de um agressor injusto ou do ataque iminente de outro país.

Quando se destrói a ordem ou se mina a obediência às leis e às autoridades, por causa de intrigas de outro Estado (Movimentos secretos revolucionários, pagos por potências estrangeiras).

Quando se violam os direitos dos quais depende bem-estar de toda a humanidade (comércio de drogas, tráfico de escravos, deportações forçadas...)

Quando um Estado é incapaz de restabelecer a paz e a ordem em seu território, a ponto de correr o perigo de ser destruído se não receber auxílio.

Um Estado não deve intervir quando se expõe ao perigo de se arruinar a si próprio ou quando a intervenção venha a custar enormes sacrifícios.

Os meios de intervenção podem ser os seguintes: queixas, reclamações, corte de relações diplomáticas, bloqueio econômico, apelação para um tribunal superior etc.


capítulo xxvii

 

GUERRA E PAZ

 

1. Chama-se guerra à situação em que vários Estados soberanos se combatem mutuamente, utilizando na luta grande contingente militar e armas mortíferas. É sempre dirigida contra um inimigo externo, contra uma injustiça externa demonstrada.

Depois da II Guerra Mundial a guerra: adquiriu matiz ideológico com armas utilizadas na luta, por valores espirituais, ideológicos e movimentos.

Apesar da guerra não ter sentido numa sociedade internacional organizada com perfeição, pode ser lícita e justa: Quando um Estado sofre uma injustiça e não possui outro meio de reparação a não ser o uso da guerra, neste caso o Estado pode obrigar os cidadãos a prestar o serviço militar e depois lutar na guerra por uma causa justa.

Para ser empreendida a guerra justa, deve obedecer a alguns requisitos: a) Declarada pela autoridade competente, por uma causa justa e um fim justo. Após todas as tentativas pacificas, com meios e fins racionais.

Atualmente a guerra caracteriza-se  ser total. “Total” significa, que nada escapa à guerra. Destruição total devido aos meios empregados. Devastações, destruições materiais, culturais. Mortes de homens em massa, com ameaça de converter-se numa guerra mundial.

Destas características da guerra total a guerra já não pode ser considerada como instrumento adequado de política. A decisão sobre a guerra não pode ser assunto privado de um Estado em particular. A única humanização possível da guerra atual consiste em abolí-la totalmente.

 

2. A paz não é mera ausência de guerra, nem equilíbrio de forças entre adversários. Ela existe quando os povos em suas diferenças e peculiaridades se respeitam mutuamente, sabendo-se responsáveis por um fim superior que é o bem comum da humanidade, eliminando as tensões sem combater os outros. A paz entre os povos deve ser em primeiro lugar, sincera e justa, construida sobre os direitos das pessoas e das comunidades.

Deve ser estável e perene a partir do sentido da responsabilidade e a defesa das legitimas liberdades.

 

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capítulo xxviii

 

a ordem internacional

 

1. Os direitos e os deveres que regem as relações entre os indivíduos de diversas nações ou entre as próprias nações, constitui a ordem jurídica internacional.

Antes de qualquer fato positivo, existem entre os indivíduos de diferentes Nações e entre as próprias Nações, direitos e deveres naturais, que devem ser cultivados.

Quando os direitos e os deveres forem estabelecidos por acordos (fatos positivos) entre os indivíduos de diversas Nações ou entre as próprias Nações, através de seus governos, cria-se o direito internacional positivo que será particular, se for entre os indivíduos, e público, se for entre as nações, por seus governantes.

É próprio do direito internacional natural particular (privado), respeitar a vida, as propriedades... dos cidadãos e das sociedades particulares de outros países. O direito internacional positivo público, procede de acordos feitos de qualquer natureza entre as Nações.

 

2. A aproximação cada vez maior entre os povos, sua interdependência econômica, cultural e politica cria a necessidade de colaboração e defesa. A facilidade dos meios de comunicação e outras razões, parecem necessitar de uma organização internacional perfeita. Esta organização teria:

a) Como causa formal a união estável de todas as Nações, constituindo estas a causa material da sociedade internacional.

b) Como causa final resultaria a prosperidade de cada nação em seus diversos setores de vida e atividades, complementando o bem nacional.

c) Uma verdadeira autoridade supra-nacional, respeitada a soberania de cada Nação. Esta autoridade deveria governar com plena independência, e possuindo o direito para solver conflitos entre as Nações e servir de recurso aos apelos das necessidades de cada Nação.

 

3. Auto-determinação dos povos.

Em primeiro lugar significa a independência de um Estado que possui condições suficientes de natureza política, econômico-social, e cultural para ser soberano.

Em segundo lugar, a auto-determinação, quer dizer, não-intervenção de um Estado nos assuntos de outros Estados independentes. Qualquer Estado soberano, tem direito a possuir um sistema de governo próprio, e um território etc, independentemente do número de seus cidadãos, de suas riquezas, etc.

Admite-se que um Estado possa intervir em outro, para prevenir-se contra ameaças, ou quando um governo solicita a ajuda de outro governo para defender-se contra uma agressão injusta, ou movimentos secretos revolucionários. Deve-se, entretanto ver os interesses em jogo em cada caso.

Nestas circunstâncias a revolução consistiria no uso da força passiva ou ativa, como último recurso para resistir a um governo ilegítimo. É ilegítimo o governo que se apossou do poder ilegitimamente, ou que abusa do poder contra os interesses do bem comum de forma clara e ostensiva. Observe-se que somente o mau comportamento pessoal do governante não torna ilegítimo o poder.


REFERÊNCIAS

 

Ética Aplicada

 

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SOUZA, R. T.; OLIVEIRA, N. F. (Org.). Bioética, Biotecnologia, Biopolítica. Fenomenologia hoje. Vol. III. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.

 

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VILELA, O. A Pessoa Humana no Mistério do Mundo. Petropólis: Vozes, 1970.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

viver

 

 

NOÇÕES DE PSICOLOGIA DO ANORMAL

 


INTRODUÇÃO

 

A constituição ontológica da pessoa humana é singular, distinta dos demais entes finitos. Esta distinção é manifesta no modo racional de conhecer e na liberdade de poder escolher.

A característica consequente ao conhecimento e à liberdade no agir, é a responsabilidade. Por ela axiologicamente a pessoa se classifica no plano mais elevado dos valores que é o valor moral.

O plano ideal do ser humano é sua realização moral pela prática dos valores morais.

Esta prática supõe condições de normalidade para poder conhecer e livremente escolher.

Não poucas são as circunstâncias de várias naturezas que interferem como impedimentos no exercício da responsabilidade moral, principalmente as de natureza psicológica.

A proposta de alguns elementos de psicopatologia servirá de auxílio para poder entender melhor o grau de responsabilidade moral no comportamento humano.

Partindo de alguns elementos que podem indicar a condição de normalidade psicológica, seguiremos expondo alguns transtornos que afetam o conhecimento e a liberdade, impedindo o exercício da responsabilidade.


CAPÍTULO I

 

SINAIS DE NORMALIDADE E CAUSAS DE TRANSTORNOS.

 

1. Existem algumas características que indicam o procedimento psicológico normal da pessoa, a saber; Sensação de bem-estar (sentir-se geralmente bem); Capacidade para experimentar reações emocionais com flexibilidade. Boas relações interpessoais com colegas, familiares, sem impactuar, agredir, defender-se sempre. Contribuir para que o ambiente freqüentado seja de colaboração. Aceitação de si. Autocontrole no comportamento, sem irrupções violentas. Sentir-se habitualmente livre de medos e ansiedades. Saber transferir prazeres. Crescimento e domínio das capacidades adquiridas sem retrocesso. Adaptação social, profissional e sexual sem grandes desvios; Percepção não distorcida da realidade.

 

2. Causas de transtornos.

a) Fatores orgânicos:

 

Estrutura corporal e desenvolvimento anormal (microcefalia); Alteração genética (como a síndrome de Down). Perturbação do metabolismo de lipídeos, glicídios. Disfunção físico-química do organismo (epilepsia). Traumatismos e tumores cerebrais. Perturbações vasculares (arteriosclerose); Agentes tóxicos (envenenamentos. das glândulas endócrinas (tiratoxicose, mixedema), de elementos externos (mercúrio). Drogas, álcool). Infecções (contaminações) por bactérias, vírus, bacilos (sífilis, tifo). Exaustão (insónia, esforço físico) e desidratação. Febres altas por causas diversas e perdas de sangue. Deficiências de nutrição (falta de proteínas, vitaminas). Perturbações congênitas por fatores na gestação (radiação, tóxicos, exercícios físicos). E anóxia no parto.

 

b) Fatores sócio-culturais:

 

Ambiente familiar, escolar, cultural, moral, político, profissional.

 

c) Fatores Psíquicos:

 

Evolução psico-afetiva deficiente (fases evolutivas). Emoções fortes (perdas significativas). Conflitos emocionais persistentes, originados de aspirações irrealistas (ter, poder), desejos inaceitáveis. Transtorno de identidade de gênero e fratricídio. Escolhas impossíveis; (duas coisas ao mesmo tempo). Conflitos ideológicos (eu-mundo) Falta de sentido na vida e falta de esperança.

 

********

 

 

 

 

CAPÍTULO II

 

PERSONALIDADE E MATURIDADE PSICOLÓGICA

 

1. A personalidade psicológica é a resultante psicofísica da interação de fatores: constitucionais (herdados ou congênitos), evolutivos (evolução neuro-psicológica etária, fases); ambientais (sociológicos: cultura, família, política), e manifestada através do comportamento, cujas características são peculiares a cada pessoa.

 

2. Os fatores constitucionais são elementos próprios à estrutura de cada sujeito: A constituição física do corpo (leptossômico, pícnico, atlético). A hereditariedade (gens específicos que podem influir no agir). Anomalias cromossômicas congênitas (síndrome de Down, Turner). Fator e de versão (introversão e extroversão). Fator da capacidade intelectual e erros no metabolismo...

 

3. Fatores evolutivos, são os elementos presentes nas diversas fases de evolução da vida. O desenvolvimento psico-físico do ser humano passa por diversas etapas e em cada uma delas há necessidades a serem devidamente satisfeitas. Conforme o nível de satisfação ou insatisfação, resultarão características de comportamento.

 

4. Fatores ambientais são os fatos sociológicos, situacionais, vividos pelo sujeito e que podem desenvolver características de comportamento: como espetáculos, companhias, leituras, educação...

 

5. A interação destes diversos fatores produz características peculiares de comportamento em cada pessoa. Este comportamento característico expressa a personalidade psicológica de cada um.

 

Os traços de caráter são características duradouras do comportamento e podem se referir: ao temperamento: social, melancólico, fleumático; às habilidades (aptidões) e interesses (gostos); aos valores (estéticos, noéticos) e relações sociais (alegre).

 

6. Maturidade é a condição adulta das necessidades (dinamismos em busca de respostas satisfatórias) intelectuais, emocionais e sociais da pessoa. A maturidade supõe um certo nível de conhecimentos adquiridos, equilíbrio e estabilidade emocional (prazer-dor) e comportamento socializado conforme a idade e a condição da pessoa.

Deve se observar, que a maturidade se conforma aos modelos e expectativas dos adultos e corresponde também à idade do indivíduo observado. Há pessoas com traços e características de normalidade e podem não ser maduras, por não terem desenvolvido suas características.

As necessidades fundamentais que devem ser adequadamente respondidas para que resulte um comportamento equilibrado da pessoa, são as de segurança e de afeto. Segurança existe quando a pessoa manifesta confiança em si, aceitação de si, certa auto-suficiência, emancipação equilibrada, não padece de medos permanentes. A necessidade de afeto é respondida, quando a pessoa se sente bem aceita, apreciada, compreendida.

 

7. As características da maturidade humana:

Sentir-se comprometido com uma causa. Ter convicção. Ter relações de afeto com outros e manter amizade estável. Saber manter-se em equilíbrio nas emoções fortes. Perceber e manifestar a realidade sem deformações. Habilidades para resolver problemas com calma, indo às causas. Auto-compreensão e reconhecimento das próprias capacidades e limites. Poder de concentração nas tarefas a realizar.

Ter certo humor na vida e evitar o rigorismo com os outros. Saber renunciar aos valores incompatíveis com os já escolhidos. Situar-se num grupo sem sentir suas normas como um contínuo atentado contra a própria personalidade. Compreender o sentido da vida e ter um objetivo a alcançar. Possuir uma estrutura democrática de caráter e ter respeito por qualquer ser humano. Ser simples e espontâneo no trato com os outros. Ter certa capacidade criadora, isto é, saber imprimir um estilo pessoal de vida no que faz.

 

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CAPÍTULO III

 

FUNÇÕES EXECUTIVAS DA PERSONALIDADE

E SEUS TRANSTORNOS

 

A personalidade psicológica, como comportamento característico de cada um, põe-se em ação através de diversas disposições operativas, chamadas de funções da personalidade (do EGO). Seu exercício manifesta a situação própria da personalidade. São as seguintes as funções, com as suas disfunções:

 

1. A atenção é a reação consciente e seletiva por meio da qual se examina o mundo externo, para dele extrair dados úteis. A atenção pode ser espontânea ou reflexa e dirigir-se ao mundo externo ou a representações interiores do mundo externo. Sendo muito vigilante, pode impedir a concentração e pode ser modificada por estímulos externos.

 

Patologia. As perturbações da atenção podem ser causadas por fatores traumáticos, tóxicos ou afetivos.

a) aprosexia (prosexo = atendo) é a distração que consiste na incapacidade de concentração, ainda que seja por pouco tempo.

b) paraprosexia é a atenção dirigida a um só objeto por profunda concentração. É própria do sábio.

c) disprosexia é a lentidão e debilidade de atenção.

d) hiperprosexia atender a várias impressões, sem fixar-se num objeto determinado.

 

2. A sensopercepção é a capacidade de um organismo vivo tomar conhecimento de objetos ou de situações externas ou internas, por meio dos sentidos. A percepção não se identifica com a sensação, pois a percepção implica em reconhecer um objeto e às vezes exige a integração de muitas sensações. Por exemplo, perceber uma laranja, vendo a cor e a forma. Pode-se também dizer que a percepção é o ato de conhecer objetos, imagens e pensamentos por meio de experiências sensitivas ou de recordações.

 

Patologia: De várias maneiras pode ser alterada a sensopercepção:

a) Alteração quanto à intensidade de abolição da sensopercepção:

Hiperpercepção (hiperestesia) aumenta a intensidade da percepção: Sons mais fortes, cores mais vivas; Hiperacousia (ouvir demais); Hiperosmia (excitação anormal do olfato).

A anestesia é a abolição das percepções. Amaurose (cegueira); anacusia (surdez); ageusia (sem gosto); atactia (anastesia táctil); analgesia (abolição das percepções dolorosas).

 

b) Alteração da síntese perceptiva:

A ilusão é a percepção deformada de um objeto real e presente. Julgar ouvir vozes no ruído do vento. Ver figuras nas pinturas de parede. São ilusões a macro e a micropsia, isto é, os objetos aparecem como maiores ou menores do que são. A sinestesia faz perceber os estímulos visuais como sons (auditivos) e vice-versa. Acontece no uso do LSD. Alteração da representação (na percepção):

A alucinação é a percepção da realidade sem a existência do objeto. Na alucinação a imagem representativa ou fantástica adquire todos os elementos que caracterizam a imagem perceptiva, faltando porém o estímulo exterior, isto é, o objeto que lhe daria origem. Existe somente em casos de graves alterações das funções mentais.

Conforme a modalidade sensorial, as alucinações podem

ser:

Auditivas = ouvir ruídos, sons, vozes (esquizofrênicos). Visuais = ver objetos elementares ou inexistentes de tamanho natural ou minúsculos (liliputianos), gigantescos, como nos delírios tóxicos; extracampinas, vistos fora do campo visual; autoscópicas, onde o enfermo percebe sua imagem corporal como se estivesse diante de si (infecções, intoxicações); oníricas, descritas como semelhantes a sonhos (sem lógica...).

Olfativas e gustativas de cheiros e gostos. Tateis, cócegas, formigamentos, sensação de frio, umidade (nas intoxicações).

Cenestésicas, modificação de posição, forma e tamanho de órgãos internos, (ver os olhos projetados fora das órbitas). Alucinações genitais de orgasmo, de violação direta...

Cinestésicas ou motoras, percepção de movimento de partes do corpo. Sentir-se erguido, em algum membro do corpo.

 

3. A memória é a propriedade que a inteligência tem de fazer sobreviver experiências cognoscitivas. Pode ser imediata, recente e remota.

 

Patologia. As amnésias são perturbações da memoria que se estendem a um período de tempo delimitado, do qual nada ou quase nada pode ser evocado ou ainda a acontecimentos nitidamente menos delimitados no tempo.

A amnésia pode ser: Anterógrada, de fixação: não retém as experiências. Retrógrada, de evocação: não evoca acontecimentos vividos. Anteroretrógrada: não fixa, nem evoca. Lacunar: não pode evocar determinados períodos, outros recorda.

A hipermnésia é o aumento do número e da clareza da reproduções mnênicas: guarda trechos de cor. (afecções febris).

A hipomnésia é a diminuição das reproduções, nos psiconeuróticos. Esquecimento.

A dimnésia não recordar certas circunstâncias de determinados períodos da vida.

As paramnésias são falsificações do ato mnésico, misturando o passado com o presente, o real e o imaginário:

Ilusão mnêmica é o acréscimo de elementos falsos ao núcleo da imagem mnênica. Na mitomania = mania de mentir.

Fabulação é o relato de coisas fantásticas, que na realidade nunca existiram (alcoólicos).

Ecmnésia é a recordação de determinada etapa da vida, à qual o paciente se transporta e vive de novo. (histeria).

Fenômeno do já visto ("dejá vu"), impressão de ter vivenciado antes o que vê pela primeira vez (fadiga, epilepsia). Há também o "jamais visto" ("jamais vu") de acontecido.

 

4. A consciência é a parte do aparelho psíquico que possibilita o conhecimento próprio e do ambiente, o entendimento e a reflexão.

 

a) Patologia. Existem obscurecimentos da consciência:

A obnubilação da consciência é a falta de clareza mental, com lentidão da compreensão, dificuldade de percepção e da elaboração das impressões sensoriais. Produz recordações obscuras, associações escassas, processos psíquicos lentos. O paciente fica indiferente, apático.

Amência ou confusão mental é um grau mais forte de obnubilação e caracteriza-se por turvação mais ou menos acentuada da consciência, acompanhada de fenômenos de excitação psicomotora.

Estupor é a abolição das manifestações exteriores da atividade psíquica. Reação somente a estímulos muito intensos. É próprio dos melancólicos e catatônicos.

O (a) coma é abolição completa da consciência. O coma leve possui características de obnubilação e o coma profundo é geralmente acompanhado de respiração ruidosa. Em traumas cerebrais, diabetes, epilepsia.

 

b)Estreitamento da consciência:

Estados crepusculares caracterizam-se por um estreitamento transitório da consciência, com a conservação de uma atividade mais ou menos coordenada. São acompanhados de falsa compreensão da situação. O indivíduo move-se por minutos e até dias em um círculo de idéias, que parece separado de seu círculo normal. Diz-se que acontece com os pensadores...

Onirismo é caracterizado pela predominância extraordinária das representações imaginadas, sobre as perturbações sensoriais, que são acentuadamente deformadas e amplificadas.

 

c) Alterações da consciência do eu:

Êxtase é o estado mental transitório, no qual o indivíduo perde todo o contato com o mundo sensível e experimenta um profundo sentimento de beatitude, por encontrar-se absorvido na contemplação mística.

Transitivismo consiste no enfermo sentir-se transformado em outra pessoa. Acontece na esquizofrenia paranoide.

Possessão é a alteração da consciência do eu, caracterizada pelo fato de o indivíduo sentir-se possuído por entidades sobrenaturais, especialmente por espíritos ou pelo demônio.

 

5. A orientação é o processo pelo qual o indivíduo capta seu ambiente e mentalmente se situa em relação a ele. Conhece sua situação em relação ao tempo, ao espaço e suas circunstâncias e entende sua relação com outros indivíduos.

 

Patologia.

Desorientação apática, dá-se com o paciente lúcido em relação ao mundo exterior, mas existe falta de interesse, inibição psíquica ou insuficiente energia psíquica para a elaboração das percepções e do raciocínio.

Desorientação amnésica caracteriza-se pela incapacidade que o paciente demonstra para fixar os acontecimentos e consequentemente para orientar-se no tempo, no espaço e em suas relações com as pessoas do ambiente.

Desorientação amencial é observada no "delirium tremens", onde se verificam alucinações e transtornos da compreensão, que dificultam a orientação.

Desorientação delirante é a que se encontra ao lado da orientação normal em relação ao tempo e ao espaço, mas o doente acredita que se encontra numa prisão ou no inferno.

Despersonalização caracteriza-se por sentimento de estranheza inexplicável, inicialmente relacionado ao meio exterior e se estende à própria personalidade.

 

6. O pensamento é a união de uma idéia a outra através da imaginação, da concepção, da inferência e de outros processos e a formação de novas idéias, através destes processos. O raciocínio formado de juízos (o pensar) é um modo especial de ligação entre conceitos, de seqüência de juízos, de encadeamento lógico de conhecimentos, derivando sempre uns dos outros.

O raciocínio humano é uma cadeia infinita de representações, conceitos e juízos. A fonte de todo este processo é a experiência sensorial.

 

Patologia.

a) Na formação do pensamento. O pensamento lógico pode ser substituído pelo pensamento mágico (autístico) se for dirigido pelas necessidades afetivas do paciente, que pensa mediante símbolos, analogias, vinculações acidentais. Neste pensamento predominam as tendências individuais, os desejos e os temores. Acontece nas esquizofrenias (casar com princesa).

O pensamento mágico pode ser acompanhado do lógico também.

 

b) Transtornos do curso do pensamento:

Fuga de idéias, caracterizada por uma variação incessante do tema e uma incapacidade de levar o raciocínio a uma conclusão, às vezes acompanhada de irresistível tendência a falar. As associações podem ser feitas por assonância (letra, triste, tecer). Dá-se na depressão.

Inibição do Pensamento caracteriza-se pela diminuição do número de representações evocáveis na unidade do tempo e pela lentidão do curso do pensamento; não responde nem a pequenas perguntas.

Prolixidade, caracteriza-se por não distinguir o essencial do secundário. Perde-se numa série de pormenores desnecessários, dando ao raciocínio um aspecto arrastado e difícil. Se for retomado, após interrupção, repete as mesmas coisas. Em transtorno mental senil.

Perseveração caracteriza-se pela repetição automática e freqüente de representações, que são introduzidas como material supérfluo, nos casos em que existe um déficit na evolução de novos elementos ideológicos.

Bloqueio (interceptação, privação) caracteriza-se pela sensação repentina da expressão e progresso do pensamento. Na esquizofrenia.

Desagregação (incoerência), caracteriza-se pela confusão, contraditoriedade e ilogicidade do pensamento. Manifesta-se em franca discordância com a realidade objetiva.

Pensamento oligofrênico caracteriza-se pela deficiente capacidade de abstração. Os conceitos são pobres, os juízos restritos e o raciocínio é muito elementar. É o retardo mental

Vagueidade, fala de generalidades sem tocar no assunto.

O pensamento obsessivo lança-se persistentemente na consciência e não pode ser afastado pelo esforço da vontade. Tem o conteúdo de sacrilégio, crime, enfermidade grave. É próprio de neuróticos obsessivos, histéricos e de personalidades psicopáticas.

 

c) Distúrbios do conteúdo do pensamento:

Idéias prevalentes (supervalorizadas) são idéias que em virtude de sua tonalidade afetiva, predominam sobre todos os demais pensamentos e se conservam por longo tempo ou indefinidamente. São idéias sobre religião, política, filosofia... que determinam um círculo de crenças, com base nas quais, são julgados os diversos acontecimentos isolados, que na vida se apresentam e que dificilmente podem ser modificados.

Os delírios são idéias ou conjunto de idéias (ou juízos) falsas, que se desenvolvem em conseqüência de condições patológicas preexistentes e que não se corrigem por meios racionais. Há falta de consciência do transtorno. São sistematizados, quando os dados do conhecimento são elaborados do ponto de vista do delirante.

Dá-se a ocorrência delirante a partir de vivências emocionais, por alterações do estado de ânimo, de idéias prevalentes, embora deva existir no paciente uma predisposição ao delírio. O conteúdo da ocorrência delirante se refere a convicções de vocação religiosa, de projeção política, de capacidade especial, de perseguição, de ciúmes e de ser amado. Temas do delírio: De referência (interpreta atos e palavras de outros como referentes a si); De perseguição e de grandeza; De influência = sentir-se controlado, observado, influído; De ciúmes (sentir-se traído pela pessoa amada); Místico (com missão religiosa de salvação); De negação (negação da existência ou da realidade de seus órgãos); Erótico (crê infundadamente ser amado por outrem - pessoa de prestígio); De reformador (de mudar a realidade ambiental); De transformação cósmica (diz perceber uma grande mudança na ordem do mundo).

As fobias são medos excessivos de algum objeto ou situação particular, sem fundamento suficiente.

 

7. A linguagem é o conjunto de sinais convencionais que o homem utiliza para expressar seus pensamentos. Pode ser falada, escrita e mímica.

 

Patologia.

a) Alterações por causas orgânicas:

Disartria é a dificuldade de articular palavras, resultante de paralisia ou ataxia dos músculos da articulação.

Dislalia é a dificuldade de pronunciar certas letras (consoantes, lambadismo, rotacismo).

Afasia é a perda da memória dos sinais, por meio dos quais o homem troca idéias. Ex.: “Dá-me um copo de”... Pode ser causada por desordem vascular, tumor, traumatismos cerebrais.

Disfasia, qualquer perturbação da fala.

Disfonia é a desordem na emissão das palavras por perturbações do aparelho fonador.

 

b) Alterações por perturbações afetivas.

Logorréia (taquilalia) é a arte de falar muito sem dizer coisa alguma. Conversa trivial, acelerada por aumento de associações em demência senil e embriaguês alcoólica...

Ecolalia é a repetição como um eco, das últimas palavras que chegam ao ouvido do paciente. "Qual é seu nome?" "... seu nome".

Estereotipia verbal é a repetição automática de uma palavra, sílaba ou som, que se intercala entre as frases, sem nenhuma finalidade: "Eu penso, eu quero", "eu penso e quero". Em esquizofrênicos e autistas.

Mussitação é a expressão da linguagem em voz muito baixa. É um murmúrio com um movimento automático dos lábios.

 

8. A inteligência é a capacidade para pensar, analisar e entender situações da vida, resolver problemas e ter criatividade.

 

Patologia. A oligofrenia (retardo mental) é o funcionamento da inteligência abaixo da média e surge no período de desenvolvimento, interferindo na realização do comportamento adaptativo.

Leve: Ql = 70-85, habilidades escolares até 6ª e 7ª séries.

Moderada: Ql = 50-70, com treinamento pode adquirir certas habilidades sociais e profissionais.

Grave: Ql = 25-50, pode aprender a comunicar-se.

Profunda: Ql = 0-20, pode manifestar algum desenvolvimento motor.

 

9. A afetividade é a capacidade de experimentar sentimentos e emoções. Compreende o estado de ânimo (humor), os sentimentos, as emoções e as paixões.

O estado de ânimo é a tonalidade afetiva fundamental que acompanha os processos intelectuais (percepções, representações...) em determinado momento e que varia de acordo com as circunstâncias.

Os sentimentos são estados afetivos do "eu", provocados por representações, por estímulos procedentes do mundo exterior ou por alterações provindas no interior do organismo. Os sentimentos podem ser: a) vitais, como bem-estar e mal-estar, saúde e enfermidade, e pertencem ao organismo como totalidade, b) sensoriais, próximos à corporalidade e localizados em determinada parte do corpo, tais como o prazer e dor. c) psíquicos, ligados ao "eu", são os intencionais de alegria e tristeza, d) espirituais, relativos ao núcleo da personalidade, como desespero, remorsos, paz, serenidade.

As emoções são estados afetivos intensos e complexos, provenientes de uma reação ao mesmo tempo psíquica e orgânica, do indivíduo inteiro contra certas excitações internas ou externas.

A paixão é a emoção em permanência (Ribot).

O estado de ânimo influi consideravelmente na direção de nossa conduta e no curso do pensamento.

 

Patologia.

a) A hipertimia é um estado de ânimo morbidamente elevado, como na euforia e no júbilo (alegria com autoconfiança). Na exaltação há intenso júbilo, com atitude de grandeza. No êxtase há identificação com imensa força cósmica, acompanhada com idéias de religiosidade (esquizofrenia, histeria).

b) A hipotimia ou depressão patológica, caracteriza-se essencialmente por uma tristeza profunda e emotivada, que se acompanha de lentidão e inibição de todos os processos psíquicos. Perde-se o interesse pela vida. As idéias são tristes. Perturbações digestivas. Nas neuroses a depressão resulta de situações incompreensíveis e de experiências desagradáveis. Decepções, perdas.

c) Na dissociação ídeo-afetiva, os pensamentos são acompanhados das mais variadas emoções. A labilidade afetiva apresenta constante e rápida variação do estado afetivo: chora e ri sem motivo suficiente. Na rigidez afetiva existe o embotamento emocional em forma de indiferença ou apatia. A irritabilidade patológica é uma predisposição especial ao desgosto, à ira e ao furor. O sintoma principal na personalidade explosiva é a irritabilidade patológica.

d) A angústia é um sentimento torturante e sem aparente objeto. É um estado exaltado de tensão interior, acompanhado por um sentimento desinquietante de apreensão e temor. É uma sensação subjetiva, que aparece quando desaparece a esperança, pelo vazio da vida. O angustiado sente-se comprimido. Na angústia os processos do conhecimento que precedem, são freqüentemente muito vagos e indiferenciados.

e) A ansiedade é a sensação de sentir-se ameaçado por algo que causa medo. Há sensação de perigo iminente, pelo qual a segurança sente-se ameaçada. O pânico é uma ansiedade intensa.

f) A ambivalência afetiva consiste em experimentar sentimentos opostos (ódio-amor), simultaneamente e em relação ao mesmo objeto.

g) As fobias são temores patológicos, que escapam à razão e resistem a qualquer espécie de objeção.

 

10. A ação (atividade voluntária) é o ato praticado com previsão e consciência de finalidade. O ato voluntário possui três fases: deliberação intelectual; decisão ou resolução de executar ou inibir o ato; execução, conseqüência lógica da decisão. O ato voluntário nem sempre é acompanhado do mesmo grau de consciência e finalidade. NB. A conação é o desejo ou a urgência da personalidade de expressar-se; contém elementos instintivos e volitivos, por exemplo, como nos casos de tiques.

 

Patologia.

a) O estado de agitação é caracterizado pela multiplicidade de movimentos: fala, gesticula, grita, dança, corre, rasga, destrói (na psicose bipolar). O estado de agitação faz parte do estado de excitação na fase maníaca da psicose. O estado de excitação não é caótico, pois os movimentos são realizados com determinado objetivo e representam a expressão de uma necessidade de atividade.

b) A debilidade da vontade (abulia) é caracterizada por afrouxamento e insuficiência volitiva, especialmente na passagem do pensamento à ação. É observada em todos os estados de depressão e inibição.

c) O negativismo é uma tendência permanente e instintiva a reagir contra toda solicitação do mundo exterior, qualquer que seja sua natureza.

d) A sugestionabilidade volitiva é a tendência geral, permanente e instintiva a adotar qualquer solicitação vinda do exterior, seja qual for sua natureza. Formas de repetição automática: - ecopraxia, repetição de ato por imitação; ecocinesia, repetição automática dos movimentos executados diante do paciente; catalepsia ou flexibilidade cerea, é a capacidade de conservar posições impostas.

e) As estereotipias resultam da necessidade de repetir uma atividade começada, da mesma maneira, por um período indefinido: - há estereotipia de atitude, o paciente conserva por um espaço longo de tempo a mesma posição; - Na estereotipia de movimento o doente executa de maneira constante e uniforme, um dado movimento, durante meses e até anos. O maneirismo é uma modalidade especial de estereotipia e consiste numa alteração dos movimentos expressivos: as expressões mímicas, a entonação da voz e os gestos se tornam afetados e extravagantes (caretas...).

f) A compulsidade é a necessidade premente e irresistível de executar um ato aparentemente irracional de maneira repetida. Está ligado a idéias obsessivas.

g) Os tiques são movimentos reflexos, de defesa ou de expressão, que acabam por degenerar em atos automáticos. Diz W. Stekel que o tique é a expressão motora de um conflito psíquico. Originalmente o tique é lógico e pleno de sentido, mas posteriormente, pode representar um impulso reprimido, um ato reprimido por representações mentais. Os tiques têm um caráter mórbido, porque se repetem sem razão e a vontade não consegue dominá-los. Aparecem em neuróticos e em personalidades psicopáticas.

 

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CAPÍTULO IV

 

A ANATOMIA ESTRUTURAL DA PERSONALIDADE

 

1. O ser humano é dotado de energia psíquica que se expressa através de necessidades físicas e psíquicas. Necessidades são dinamismos (forças, insatisfações) ordenados a mover o homem a buscar o que lhe é conveniente, satisfatório. As necessidades despertam o interesse pelas coisas, movem o indivíduo à ação, criam um comportamento característico e quando satisfeitas, ajustam o sujeito ao meio (dão segurança). As necessidades aparecem na medida em que o indivíduo se desenvolve nos diversos aspectos da vida (neurológica, psicológica, social) e conforme os estímulos que recebe.

 

2. O instinto é uma necessidade de natureza mais biológica. É um impulso que existe em todas as idades e busca satisfação direta (gratificação) no objeto que lhe corresponde. O princípio que o orienta, é buscar o prazer e evitar a dor. Por si o instinto ou as necessidades instintivas estimuladas, procuram satisfação imediata, para reduzir a tensão psíquica, sem considerar a situação real. Não possui o sentido do tempo e nem da lógica. O instinto não se torna adulto.

 

3. A razão consciente (ego consciente) é a parte executiva do ser racional. Tem consciência das circunstâncias. Possui função mediadora entre o instinto e o mundo exterior. A capacidade de julgar objetivamente, própria da razão, cresce com a pessoa e suas experiências. Funciona segundo o princípio da realidade, isto é, a realidade objetiva (não o prazer, nem um ideal). É o critério de julgamento e ação, aprovando o prazer e a busca de um ideal nos limites racionais objetivos.

 

4. A consciência moral (superego consciente) é a parte consciente da consciência moral, que nos faz julgar objetivamente a culpa conforme a violação da lei, e dos valores. A consciência moral forma-se pelo conhecimento dos valores, aprendidos ao longo da vida e pelo conhecimento das circunstâncias em que tais valores devem ser praticados. A prática dos valores da consciência moral, pode entrar em conflito com os impulsos das necessidades inconscientes do instinto.

Muitas normas (valores, deveres) vivenciados no passado também da primeira infância (fase oral), podem estar hoje esquecidas, mas inconscientemente ainda podem controlar nosso comportamento. Sua violação pode criar um sentimento de culpa. Este sentimento procede da oposição feita aos que nos criaram os valores, as normas, que são os pais, os mestres, as exigências públicas da autoridade. Na consciência também estão representados os ideais que o indivíduo busca atingir. É o ideal do ego. O superego freudiano é incorporado pela criança em sua própria personalidade, como os princípios morais básicos e os ideais de seus pais, das tradições da cultura e de outras figuras de autoridade.

 

5. Ligação do indivíduo com o ambiente. As circunstâncias em que o ser humano vive, influem na determinação de suas características pessoais.

a) Pela introjeção (incorporação automática). O indivíduo absorve as atitudes emocionais, os desejos, os objetivos e ideais de pessoas e de grupos. Incorpora valores, idéias...

b) Pelo processo de identificação são assumidos atributos e objetivos de outra ou de muitas pessoas, pelas quais se sente afeição. Identificar-se é ser como o outro pela imitação.

c) A simbolização, é o artifício pelo qual uma coisa representa outra. A enfermeira pode ser considerada como a mãe pelo paciente.

 

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capítulo v

 

OS CONFLITOS PSÍQUICOS e mecanismos de defesa

 

1. Durante o desenvolvimento de sua personalidade, o indivíduo
adquire diversas habilidades psíquicas, como já vimos, pelas quais tenta adequar-se à realidade. São as funções de ego.

O ego é pois definido, como aquele grupo de processos mentais, cuja função é perceber e reconhecer as variadas forças que influenciam o organismo, tanto do ambiente interno quanto do externo, sintetizando-as e integrando-as e executar as funções e atividades necessárias para manter um estado de adaptação interna e externa.

As forças conscientes do ego, que procuram o equilíbrio e as inconscientes do instinto e do dever inconsciente, às vezes, podem buscar fins incompatíveis, donde se originam conflitos.

 

2. Conflito é o dilema no qual o indivíduo é impulsionado por forças psíquicas incompatíveis e irreconciliáveis e por impulsos e necessidades da personalidade (instinto, ego, superego), que competem entre si.

Quando a harmonização pelo ego não for alcançada, surge a angústia como sentimento difuso de apreensão e tensão interior, persistente e intensa. Para proteger o indivíduo da angústia, na história da personalidade de cada indivíduo, formam-se diversos mecanismos de defesa, às vezes patológicos. Caso não se consiga satisfazer às tendências inconscientes instintuais, "normalmente" haverá comportamentos explicáveis pela repressão aos instintos.

Reprimir é o subterfúgio inconscientemente elaborado com a finalidade de conciliar os dois vetores (instinto-ego), que mantém o conflito irredutível. Note-se que o neurótico, pelos mecanismos inconscientes de defesa, pela repressão e pelos sintomas neuróticos, consegue manter contato geral com o mundo externo, mas sofre dos entraves que experimenta em seu relacionamento, ou faz sofrer os outros.

A repressão das forças instintivas, que não se efetua em formas socialmente apropriáveis, dá origem a sintomas neuróticos. Estes sintomas são padrões de conduta de contornos relativamente definidos e experimentados pelo indivíduo como indesejáveis. São as fobias, as obsessões, as conversões neuróticas, das quais o indivíduo conscientemente deseja libertar-se.

Diz-se, que o sintoma é o termo de conciliação entre o que a pessoa deseja e o que reprova (ideal e instinto). Todo sintoma esconde um sentido. É o relato inequívoco do conflito, que o homem tem medo de assumir. O sintoma neurótico é refratário ao raciocínio. Há uma distância entre o que a pessoa sabe e o que sente. O ciumento, por exemplo, dirá: “Acredito em minha mulher como uma santa”, o que não ajuda sua desconfiança, pois continuará desconfiando.

Dos conflitos psíquicos surgem os mecanismos de defesa, certos traços de caráter e sintomas neuróticos. Exemplo de defesa por repressão: Um menino enfiou um dedo num buraco do dique para deter o mar. Não podia tirá-lo com medo do ímpeto da água e foi forçado a se conservar numa vigília dolorosa (repressão).

 

3. Mecanismos de defesa.

Para proteger o ego nos conflitos ameaçado em sua integridade, são usados os mecanismos de defesa. São necessários para aliviar a angústia, manter os sentimentos de adequação e valor pessoal. São reações normais de ajustamento.

Embora necessários, os mecanismos de defesa podem ter certos inconvenientes. Incluem elevado grau de engano e de deformação da realidade, pois geralmente não enfrentam realisticamente o problema do ajustamento. Assim o indivíduo que continuamente racionaliza seus erros, não se beneficia com eles.

Como os mecanismos de defesa atuam em níveis relativamente inconscientes, não estão sujeitos a verificações e avaliações conscientes e normais. Podem incluir fundamentalmente ataque, afastamento e conciliação. Pode o indivíduo, por exemplo, defender-se através de uma ofensa, condenando outros por erros, que na realidade são seus.

Vejamos alguns exemplos de mecanismos de defesa:

Na negação procura-se ignorar ou negar a realidade desagradável, para proteger-se de tensões. Com isto pode-se não perceber muitas coisas para um ajustamento eficiente.

Pela repressão excluem-se da consciência pensamentos ou desejos dolorosos ou perigosos ao indivíduo.

A identificação é um amoldamento inconsciente de um indivíduo, segundo o modelo de outro e o objetivo é satisfazer desejos. Pode haver identificação agressiva.

A formação reativa consiste no desenvolvimento de atitudes conscientes e padrões de comportamento, exatamente opostos aos nossos desejos perigosos. Disfarça traços de caráter opostos.

A compensação é uma defesa contra os sentimentos de inferioridade, que decorrem de fraquezas e defeitos pessoais reais ou imaginários. É a tentativa de compensar de alguma forma um defeito ou de desviar a atenção dele.

No deslocamento existe a passagem da emoção ou fantasia, de uma pessoa ou objeto a que originalmente se dirigem, para outra pessoa ou objeto. O caso do bode expiatório.

A racionalização é a tentativa de provar, que nosso comportamento é racional e justificável e por isso merecedor de aprovação.

Pela projeção transferimos a outros nossos impulsos, pensamentos e desejos inaceitáveis, por exemplo, nas idéias de referência.

Na simbolização, uma idéia ou objeto são empregados para representar outra idéia ou objeto.

 

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capítulo vi

 

TIPOS DE PERSONALIDADE

 

A pessoa que em sua fase evolutiva passou pelas diversas etapas de forma satisfatória, desenvolverá aquelas características de normalidade, que já vimos, e que constitui a personalidade dita normal. Se existiram conflitos sérios, nas diferentes fases evolutivas foram usados certos mecanismos de defesa, que poderão ter produzido determinados traços de caráter e que irão caracterizar diversos tipos de personalidade, como veremos agora.

 

1. Personalidade esquizóide. a) O conflito, para a evolução deste tipo de personalidade, estaria situado na fase oral, na relação de dar e receber afeto. O dado e recebido foi pouco e daí buscado como necessário e temido como perigoso, b) As defesas usadas foram a repressão do afeto temido e a agressão (a busca) do afeto necessário, c) Os traços de caráter resultantes são: fraco relacionamento social, desconfiança, raivas temperamentais, ataque de cólera, susceptibilidade, autismo (relação com objetos inanimados, obsessivo quanto à ordem, gestos, e estereotipias) e narcisista, d) Tratamento (trato): Fornecer-lhe um grupo com o qual possa se relacionar com facilidade, e dar-lhe tarefas de seu gosto (artes).

 

2. Personalidade paranóide (desconfiado, reinvidicador).

a) O conflito é também da fase oral, onde pouco afeto recebeu e pouco dará. Como recebeu pouco, teme que lhe tirem o pouco que tem (perseguição) e o pouco deve aparecer como muito (grandeza).

b) As defesas usadas foram a negação e formação de reação, isto é, não admite defeitos em si, e a projeção, isto é, nos outros estão os defeitos que não pode admitir em si.

c) Os traços de caráter resultantes: desconfiado, inseguro de si mesmo, suspeita das intenções dos outros, considera-se solitário, acha-se o centro do universo, lidera causas em função de si, considera os outros irresponsáveis e indignos de confiança, teme ser atacado como injusto, julga-se não amado. No primeiro encontro pode manifestar-se encantador.

d) Tratamento: procurar ser tolerante com ele e dizer-lhe a verdade com toda exatidão, sem diminuí-lo e nem criticar sua auto estima. Fazer-lhe ver outras alternativas para sua vida.

 

3. Personalidade psicopática (anti-social).

a) O conflito é também da fase oral na relação do dar e receber afeto. Recebeu afeto com carga de culpa, isto é, foi-lhe dado como se não merecesse. Isto pode acontecer na ambivalência dos pais em relação ao dar afeto. Um dá, e o outro não, daí o sentir-se culpado por achar que não merece. Superego fonte que o culpa.

b) As defesas usadas foram a agressividade por sentir-se cheio de culpa e a formação reativa, agir sempre como se não tivesse culpa. É o chamado credor da humanidade. Se castigado se vinga e se premiado, acha sempre que foi pouco e pede mais.

c) Traços de caráter: Desde pequeno não obedece, rouba, espanca, falsifica. É desleal, ignora os códigos éticos e sociais; atua sempre conforme os próprios desejos. Não tolera culpa e frustração que não sente. De grande atração social. Narcisista.

d) Tratamento: Tentar despertar-lhe culpa e fazê-lo entender que os problemas são seus. Ajudá-lo com um grupo organizado.

 

4. Personalidade ciclotímica (bipolaridade do humor)

a) O conflito é também da fase oral por perda do amor e sentir-se culpado de não possuir amor. Necessitar do amor, e tê-lo perdido com culpa introjetada produz depressão. Acontece a situação maníaca de alegria, na tentativa de expulsão da culpa introjetada que pune.

b) As defesas usadas: - na situação depressiva é a idealização para aumentar na fantasia o pouco que sente ter; - na situação eufórica é a negação, negando que não tenha ou que possa não ter.

c) Os traços de caráter: - depressivos: insuficiência pessoal, tristeza, pouca confiança em si, irado, pouca concentração e ação. - eufóricos: muito afeto, pouca inibição, pouca lógica e autocrítica, movimentado, projetista, sedutor, ativo.

d) Tratamento: Apoiar os valores que possui e mostrar que não tem culpa. Orientar bem a defesa e dar apoio familiar.

 

5. Personalidade obsessivo-compulsiva.

a) O conflito é da fase anal, onde pais muito autoritários lhe impuseram a idéia de ordem. Educação rígida de limpeza, dever, organização, acima do afeto. A idéia prevalece sobre o sentimento.

b) As defesas para fazer prevalecer a idéia sobre o afeto foram: -a dissociação, pelo isolamento da parte emocional; - a negação de pensamentos, desejos e afetos intoleráveis.

c) Os traços de caráter: escravo de pormenores no estudo, trabalho e ralações sociais; meticuloso, persistente e inflexível. Parcimonioso, disciplinado (é de boa moral); dedicado a minúcias, (tudo pode ser traços ou sintomas).

d) Tratamento: Levar a que evite o temor de agressão (dos pais), que outros podem significar para ele (os que lhe cobram). Relaxar a preocupação de querer ser por demais perfeito.

 

6. Personalidade histriônica (histérica)

a) O conflito é da fase fálica, onde impediu-se a identificação psico-sexual, gerando o sentimento de castração psicológica, isto é, o sentimento de não poder relacionar-se normalmente com a pessoa do sexo oposto, por não possuir o próprio psicologicamente definido. Resta a tentativa de poder relacionar-se e por isso desafia o sexo oposto (desafia a si mesmo). O édipo é reprimido e não resolvido (incesto).

b) As defesas usadas são: - a conversão que usa o deslocamento, a negação e a simbolização, com a inibição de algumas funções motoras e sensitivas. A paralisia e o defeito sensorial negam o conflito e reprimem o afeto; - a dissociação (com desmaios e transes) elimina a parte da personalidade que é fonte de inquietude emocional. Alguns aspectos da personalidade separam-se da consciência normal.

c) Os traços de caráter: instabilidade emocional, dramatização, busca de atenção, agocentrismo, desafio ao sexo oposto e insatisfação com o próprio sexo: Cólera contra todos, conceito próprio de castração, insatisfeita com a relação sexual. O histérico homem (Don Juan) é conquistador de mulheres: corteja, comove, raramente casa. Seduz as mulheres que às vê como desafio à sua masculinidade.

d) Tratamento: Não perseguir e menosprezar a pessoa que sofre com sua situação, ainda que seja agressiva e encenadora em seu comportamento. Encaminhar à psicoterapia de interpretação (insight).

 

7. Outros tipos de personalidade:

a) Oligofrênica com um comportamento característico, conforme o grau de oligofrenia. As causas podem ser diversas: genética, cultural, endócrina, tóxica, metabólica, infecciosa, traumática... É o retardo mental.

b) Hipocondríaca: (fantasia doenças) As causas podem aparecer na infância, por exemplo, criança doente que possui regalias, fantasia doença para permanecer com as regalias. Pessoa idosa que foi muito autoritária durante a vida, exerce a autoridade queixando-se de doenças.

c) O sádico e o masoquista parecem possuir sua origem na fase de punição a si e aos outros, como certa vingança.

 

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capítulo vii

 

AS NEUROSES e sua classificação

 

1. A civilização moderna não está livre de tensões e de traumas, que põem à prova a pessoa mais ajustada do mundo. Mas todo o indivíduo aprende a defender-se contra o sentimento de ansiedade e angústia e a manter sua integridade contra a ameaça externa. Os mecanismos usados, como vimos, podem acarretar graves problemas, quando se enfrentar com a angústia ou temores muito intensos ou prolongados. Os conflitos não resolvidos e a tendência para depender dos mecanismos de defesa, como forma de combater a angústia, são fatores que predispõem de um modo decisivo, o desenvolvimento da neurose.

A neurose é o resultado da luta do indivíduo pela segurança e estabilidade. Caracteriza-se por atitudes deformadas com relação ao eu e aos outros, visão irrealista do mundo, que produzem angústia, frustração e infelicidade. A tensão (excitação) do neurótico resulta da tentativa de ajustamento.

a) A personalidade neurótica possui uma constelação de traços de personalidade que a predispõem à angústia e ansiedade, por causa da insegurança que sente. São características da personalidade neurótica:

Ansiedade, pois o neurótico vive num mundo de ameaças; rigidez e comportamento defensivo, para impedir ameaças e ansiedade; hipersensibilidade e relatividade às tensões da vida; incapacidade para  formar  relações interpessoais estáveis e satisfatórias.

b) A neurose de sintoma é um estado reativo em que o indivíduo contrai sintomas neuróticos manifestos e de certa gravidade (fobias, angústia, obsessões, histerias) que interferem em seu funcionamento. O colapso neurótico, somente ocorre numa personalidade já neurótica e é produto de um longo processo de desenvolvimento.

O comportamento do neurótico não é interativo, pois usa de defesas que aliviam, mas não o integram no ambiente. As defesas buscam diminuir a tensão interior experimentada, como angústia ou culpabilidade, evitando reconhecê-la e mantendo-a fora do campo da consciência. A sublimação, chamada de mecanismo de caráter normal, desvia a energia psíquica de sua finalidade, orientando-a para um sistema de valores ideais. Neste caso, a descarga de energia pulsional muda de fim.

c) Outros sintomas neuróticos:

Somáticos: fadiga, indigestão, micção freqüente, contrações musculares, suor, taquicardia, cefaléia, dispnéia, enurese, tartamudez, tiques, chupar dedo, roer unhas, enroscar o cabelo.

Da atividade sexual: masturbação preferida à atividade sexual normal, abstinência sistemática, impotência neurótica, resultante de temores...

Contra os sintomas neuróticos, os mecanismos inconscientes formam uma espécie de proteção ilusória.

d) Tipo de caracteres neuróticos de “eu neurótico.”

O caráter narcisista possui uma conduta de afirmação impulsiva; busca êxito e prestígio de qualquer forma; sente a impossibilidade de tolerar fracassos. Disposição própria do paranóico.

O caráter oral possui o desejo de satisfação imediata, mas também disposição à passividade e dependência. Forte avidez. Acontece desenvolver toxicomania, histeria, depressão.

O caráter anal de educação relaxada dá um comportamento de sujeira, desordem e irresponsabilidade: Se a educação foi rigorosa, dá o meticuloso, rigidamente ordenado, parcimonioso. Acontece no neurótico obsessivo.

O caráter sado-masoquista é com freqüência ambivalente. Pode ser cruel, formalista, exigente e durão mas também pode buscar o fracasso, a submissão e aviltamento.

O caráter genital, opõe-se aos precedentes, pela estabilidade e equilíbrio do eu, e pela capacidade da equilibrar os sentimentos. Pode ser considerado como não neurótico.

 

2. Classificação das Neuroses.

 

A Neurose de angústia (livre, flutuante). Manifesta-se esta neurose pela angústia permanente, acentuada por episódios de angústia aguda.

 

1. As causas podem ser:

a) Ameaça à posição ou a objetivos a alcançar; b) ameaça a que apareçam desejos perigosos, como homossexuais; c) decisões que provocam angústia, sobre profissão, sexo, matrimônio; d) reativação de traumas anteriores por conflitos atuais; e) sentimento de culpa e medo de castigo, por faltas reais ou imaginárias. Curioso é observar que o neurótico angustiado pode mostrar menos angústia em situação que apresenta perigo real.

 

2. Há crises de angústia com sintomas:

a) somáticos: respiratórios = dispnéia: dificuldade de respirar; cardiovasculares = aumento de pressão; digestivos = náuseas, vômitos; neuromusculares = tremores, fibrilizações; sensitivos sensoriais e cutâneos = prurido, suores, zumbido nos ouvidos, visão nublada.

b) sintomas psíquicos: visão negativa da vida que o obsessiona; inquietude, apreensão, dúvida, desalento, medo do passado (lamentações) e do futuro (ameaças, maus pressentimentos). Desordem, isto é, desorganização da capacidade de ordenar suas perspectivas. Irritabilidade, instabilidade, pesadelos...

 

3. A constituição ansiosa (angustiada) da personalidade deste tipo de neurose, aparece já na infância, manifestada na tendência à inquietação e pedido contínuo de proteção aos pais, mestres. É queixoso contínuo. Assume o matrimônio e a profissão para ter apoio.

 

4. A angústia pode evoluir em maiores complicações:

a) Em neurose fóbica, deslocando a angústia num objeto determinado (agorafobia, claustrofobia).

b) Em sintomas hipocondríacos (descarga de tensão num órgão) e em perturbações mais graves: câncer, leucemia.

c) Em distúrbios psicossomáticos: úlcera, asma.

 

Neurose fóbica.

 

1. A fobia é um medo específico intenso (mecanismo de defesa), cujo estímulo é projetado para o exterior afim de diminuir a angústia. É medo persistente e irracional de um objeto ou situação, que não oferece perigo real para o indivíduo. Ordinariamente o indivíduo apercebe-se da irracionalidade, mas, apesar disso, sente-se compelido a evitar o objeto, a fim de impedir que a angústia (ansiedade) o domine.

A ansiedade decorrente de uma situação, por exemplo do desejo de suicídio (objetos pontiagudos). A repressão e o deslocamento são os mecanismos de defesa no desenvolvimento das neuroses fóbicas.

Alguns sintomas das neuroses fóbicas podem ser também dores de cabeça, nas costas, tonturas, sentimentos de inferioridade, obsessividade de contrair doenças.

 

2. Os temas fóbicos: agorafobia é o medo de espaços abertos, pode fundar-se no medo de separação; acrofobia é o medo de altura = de perder posição; patofobia é o medo de doença (contrair sífilis) = de relações homossexuais.

A fobia também pode decorrer de fatos traumatizantes ocorridos no passado. Neste caso, para ajudar o paciente, deve-se-lhe dar confiança, fazendo com que o objeto temido seja associado a um fato agradável e não perigoso.

 

Neurose histriônica (histérica).

 

1. Diz-se que a histeria é uma neurose "edípica" e sua angústia seria sexual (culpabilidade), que constituiria a força inconsciente, contra a qual o histérico se defende por meio da conversão e da dissociação. A situação "edípica" original (incesto) estaria reprimida (não resolvida) e ressurgiria no presente como conflito, desviado ou manejado pelo mecanismo de conversão.

A histrionismo é uma neurose caracterizada principalmente pela expressão somática (conversão) forte das idéias, das imagens e dos afetos inconscientes.

Os sintomas conversivos podem ser: cegueira, perda de tato e de sensibilidade à dor em várias partes do corpo. Pode haver paralisias de braços, lado direito ou esquerdo do corpo. Afanias (fala em sussurros) e até mutismo, ainda que possa tossir bem.

Estes sintomas substituem inconscientemente o conflito, de modo que o paciente se torne incapaz de enxergar qualquer relação entre os seus sintomas e a situação de tensão. Os sintomas o protegem.

Além disto, os sintomas podem lhe oferecer um ganho secundário, por exemplo, de maiores atenções e compaixão dos outros.

 

2. O histriônico (histérico) é muito sugestionável e dramático, com grande capacidade de simular sintomas de doença real. Pode haver reação coletiva de conversão histérica.

Note-se também, que a conversão histriônica pode aparecer depois da doença física real, para ganho secundário (vantagens).

No histérico aparece a inconsistência de sua personalidade, pois o ego não conseguiu sua identificação (édipo reprimido). Há repressão amnésica dos acontecimentos reais, substituindo o princípio da realidade pelo do prazer e da fantasia. Há mitomania, falsificando suas relações com os outros. Não pode ver as coisas como são. Alterações sexuais com excesso ou inibição sexual.

 

3. Nas reações histriônicas dissociativas dão-se amnésias, fugas, personalidade múltipla e sonambulismo.

Na amnésia neurótica o paciente pode esquecer seu nome, idade, nem reconhecer os pais, mas seus hábitos podem continuar intactos, como escrever, falar... Tipo de conversão por esquecimento do desagradável.

Na reação de fuga há afastamento de casa, por dias, semanas, e de repente se acha em lugar estranho, sem saber.

Na personalidade múltipla o paciente manifesta dois ou mais sintomas completos de personalidade, com processos emocionais e de pensamento bem completos e distintos. Quando passa para outra não se dá conta do que ocorreu na anterior. Acontece porque não deseja que apareça a parte culpada do conflito.

No sonambulismo as idéias afastadas da consciência tem força para determinar o comportamento do paciente, somente durante o sono.

O paciente durante a noite levanta, realiza algum ato depois volta para a cama e de manhã não recorda nada.

Anda de olhos abertos, evita obstáculos, ouve quando falam e obedece ordens. Pode se ferir ao andar. Acordá-lo, pode causar-lhe surpresa e não mal.

O sonambulismo é uma fuga simbólica de uma situação tensa. É um ato que em si mesmo descarrega e inibe a tensão.

 

4. Ao histriônico pode acontecer também o chamado ataque histriônico, que começa com dores, palpitações, transtornos visuais, perda de conhecimento e queda não brutal.

Segue a parada respiratória, convulsões, caretas, agitação generalizada e depois completa calma. Por fim volta à consciência.

É diferente do ataque epilético, como veremos.

 

5. Sabe-se que para tratamento, é difícil melhorar a personalidade histérica. Entretanto deve-se-lhe oferecer um tratamento normal. Psicoterapia e psicanálise para aliviar os sintomas conversivos.

 

Neurose obsessivo-compulsiva.

 

1. Esta neurose é própria de indivíduos, cujo comportamento é estritamente governado por uma consciência, que continuamente os instiga a fazer a coisa certa.

Seus elevados padrões de integridade, são, freqüentemente um resultado direto de terem sido criados num ambiente austero e de muitas exigências de perfeição. A rigidez de consciência faz com que seja difícil aceitar pensamentos ou impulsos "maldosos", por exemplo, agressivos, sexuais, de desordens... Por isso a defesa é desfazer com desejos, impulsos e pensamentos opostos, neutralizando os que poderiam alimentar e que geram grande angústia.

 

2. Poder-se-ia dizer que esta neurose se caracteriza pelo aspecto forçado (compulsivo) das idéias, da conduta e dos sentimentos, que se impõem ao sujeito e que o levam a uma luta contínua, sem que, ele próprio deixe de considerar como irrisório este parasitismo, que o força continuamente.

 

3. Os sintomas da neurose obsessivo-compulsiva são:

a) Idéias obsessivas: No campo da consciência há pensamentos não desejados, insistentes, repetidos, repudiados como molestos e odiosos. Podem possuir os mais variados conteúdos (suicidar-se, envenenar, blasfemar...). São suscitados como defesa contra a angústia.

b) Atos compulsivos: O paciente sente-se compelido a realizar algum ato, que lhe parece absurdo e estranho. Parece que a compulsão ativa alivia a obsessão da idéia.

c) Os ritos obsessivo-compulsivos, provêm do pensamento mágico do neurótico, que apresenta procedimentos mágicos, ritos misteriosos para aliviar a si mesmo, mistificando-se.

A ritualização da vida é o ponto final da disposição obsessiva.

 

4. A situação obsessivo-compulsiva se vale do mecanismo de formação de reação, para contrariar diretamente os pensamentos e impulsos perigosos. O pensar continuamente em alguma coisa (mesmo ruim) e fazer alguma coisa (mesmo inútil), defende pensamentos e impulsos perigosos para o paciente.

Este paciente possui contínuo sentimento de culpa e temor de castigo, e seu padrão rígido de comportamento, impede que algo funcione erradamente.

 

Neurastenia (reação asténica, estresse).

 

1.Este tipo, digamos, de neurose, se caracteriza por fadiga crônica, física e mental e por um conjunto de dores.

O stress é o equilíbrio perturbado do paciente entre suas necessidades de fazer e a possibilidade de satisfazer estas necessidades pelo trabalho. (Astenia é a debilidade e fraqueza orgânica).

 

2. Os sintomas do neurasténico são: Queixa de fadiga que tomou contra, falta de concentração, pouca energia para atividades, dorme mal e gasta tempo em sono. Tonturas, dor de cabeça, mal-estar vago. Preocupação hipocondríaca.

 

3. A neurastenia é uma reação à fadiga psicológica. É provocada por frustração prolongada, desânimo e desesperança, o que conduz a um esgotamento real das reservas do corpo.

As causas desta situação são psicológicas, mas o paciente não aceita. Sua apatia e aparência doentia tornam suas relações sociais difíceis.

Os sintomas permitem-lhe fugir da necessidade de enfrentar seus problemas (imaturidade, dependência, insegurança).

 

Reação neurótica depressiva. Transtorno distímico.

 

1. Todos possuímos depressões diante de perdas e fracassos, mas o indivíduo neurótico depressivo reage a estas situações dolorosas de tensão, com excessiva tristeza e abatimento.

O neurótico depressivo (distímico) possui uma disposição de personalidade a sentimentos de culpa, por consciência muito rígida. Pode resultar de hostilidade a pessoas queridas e que não pode reprimir. Aumenta o sentimento, caso a pessoa venha a morrer, pois sentir-se-á culpado da morte.

Os sintomas podem ser usados para aliviar o sentimento de culpa e para conseguir apoio e compreensão dos outros.

 

2. Os sintomas são os seguintes: aparência de abatimento, tristeza e desinteresse, elevado nível de angústia com atividades e autoconfiança reduzidas; pouca concentração, dificuldade para adormecer e dormir. Queixas somáticas e sentimentos de tensão e inquietação. Sente-se sozinho, com a capacidade de ver somente o lado negativo da vida.

 

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capítulo VIII

 

AS PSICOSES e esquizofrenias

 

Psicose.

1. A psicose é um grave distúrbio do comportamento, caracterizado pela deteriorização global da personalidade e perda de contato com a realidade.

As reações psicóticas estão divididas em dois grupos principais:

a) as funcionais, são distúrbios de origem psicogênica, isto é, de evolução psíquica, como as reações afetivas, (psicose bipolar), reações paranóides, esquizofrenias.

b) as orgânicas, são distúrbios resultantes de mau funcionamento do cérebro, causado pela idade (arteriosclerose), por traumas cerebrais, intoxicações, tumores e outras causas.

 

2. Os sintomas comuns (primários) são:

a) Transtorno do pensamento (da associação lógica), que mostra uma ideação ilógica e caótica.

b) Transtorno do afeto (incongruência afetiva) manifestado por respostas emocionais inadequadas ao pensamento.

c) Perda de sentido da realidade (autismo, ideação subjetiva) que se manifesta através de idéias que vêm de fantasias e sonhos.

d) Intensa ambivalência, como sentimentos contrários a atitudes.

e) Outros sintomas: idéias de referência, negativismo, ecolalia e ecopraxia, despersonalização (sentir-se dividido em si) estereotipias, apatia geral, ilusões em relação a representações.

f) Os sintomas mais freqüentes encontrados nos psicóticos são: os delírios (do pensamento) e as alucinações (da sensopercepção)

Os delírios mais comuns são de pecado e culpa (cometeu faltas imperdoáveis), hipocondríacos, niilistas (de que nada existe), perseguição, referência, influência (inimigos com aparelhos influem sobre ele), de grandeza. Muitos delírios decorrem de mecanismos de defesa do ego. Podem ser tolos e ilógicos.

As alucinações são percepções de vários tipos de objetos estranhos, sem estímulos sensoriais. As mais comuns são as auditivas e as visuais. O desejo proposto em pensamento e mecanismos de defesa podem levar a alucinações e delírios.

 

ESQUIZOFRENIAS.

A esquizofrenia (Bleuler = divisão da personalidade, da mente) é um distúrbio psicótico que se compõe de um certo número de reações, definidas por diferentes manifestações sintomáticas, nos tipos catatônico, simples...

 

1. Esquizofrenia simples: Sentindo-se o paciente internamente desintegrado, a defesa será não reagir a nada, deixar o barco correr, não colaborar. A vida não tem sentido.

Deste situação, resulta: redução de interesse nas relações humanas e com o mundo exterior; empobrecimento da personalidade (fala pouco, negligencia a higiene); apatia e indiferença (não se interessa pelo sexo oposto), não assume responsabilidades; não houve conselhos, pedidos e estímulos de pessoas.

A incidência dá-se entre vadios, prostitutas, viciados.

 

2. Esquizofrenia hebefrênica (hebe = juventude, vigor). Para fugir às tensões fortes, o paciente regride a um nível tolo e infantil de comportamento e fecha-se num mundo pessoal de fantasia. O riso típico e a tolice servem para aliviar-lhe o sentimento de tensão, na convicção de que é impossível qualquer solução ativa de suas dificuldades.

A vida passada (pré-mórbida) do paciente é cheia de esquisitices, excesso de cuidados com coisas insignificantes. Tem preocupação com problemas religiosos e filosóficos. Muito preocupado com as conseqüências terríveis da masturbação e das menores infrações das convenções sociais. É fechado e preocupado em suas fantasias.

Usa o mecanismo da regressão.

Os sintomas: Riso tolo e infantil, linguagem incoerente e de bebê. Possui alucinações auditivas (ouve vozes). Delírios de conteúdo sexual, religioso, hipocondríaco e de perseguição. Maneirismos, caretas, ausência de pudor e de sentimento de vergonha.

 

3. Esquizofrenia catatônica.

Na história do paciente catatônico encontra-se o afastamento gradual em relação à realidade e certo grau de apatia afetiva. As reações catatônicas apresentam oscilação entre a excitação e a letargia (estupor, negativismo).

a) Na excitação (agressão) o paciente parece estar sob grande pressão de atividade. Fala, grita, anda depressa de um lado para outro; apresenta publicamente atividades sexuais (masturbação); mutila-se, agride os outros. Muda muito rapidamente, e por isso é perigoso. A defesa contra desintegração interior é a agressão.

b) Na letargia o paciente fica imóvel, em postura esteriotipada. Não liga; não tem animação. É sugestionável e obedece a ordens: flexibilidade cérea (estátua de cera). Teima em mudar de posição. Não atende ao controle das fezes e urina. Não tem expressão facial...

Pode ter vivas alucinações e delírios.

A defesa é o negativismo (negação).

 

4. Esquizofrenia paranóide.

Na história deste paciente existe a desconfiança e dificuldades nas relações interpessoais, ressentimento, hostilidade em excesso, belicosidade. O núcleo é constituído por delírios de perseguição. Joga fora a perseguição interna (projeção do conflito desintegrador) e sente-se perseguido externamente. Queixa-se de colegas e parentes de que é observado, perseguido, envenenado.

A atenção que recebe pode convencê-lo de que possui qualidades notáveis. Daí seus delírios de grandeza, que encobrem sua desagregação, sua diminuição interna.

Seus delírios são acompanhados de alucinações muito vivas, auditivas e visuais, com ações caóticas imprevisíveis e até perigosas. Como resposta à voz que ouviu, pode quebrar, agredir. São geralmente reações agudas e não crônicas.

Existem ainda outros tipos de esquizofrenias, como a tipo infantil, tipo residual, esquizo-afetiva, pseudo-neurótica...

 

5. Causas da esguizofrenia (etiologia). Pensa-se não haver um fator etiológico isolado, mas a interação de fatores biológicos, psicológicos e sociológicos.

a) Hereditariedade biológica: É possível que genes mutantes (que mudam dos ascendentes para os descendentes) em determinadas condições ambientais, possam predispor o indivíduo a psicoses, já que existem famílias com incidência elevada de esquizofrênicos.

Os genes levariam a deficiências estruturais cerebrais ou à deformação de sistemas bioquímicos, que influiriam no funcionamento cerebral. Com estas indisposições, os estados de tensão levariam o indivíduo a desenvolver casos psicóticos.

b) Fatores psicológicos: Um destes fatores seria o padrão psicopatogênico familiar pela relação entre pai, mãe e filhos. Mãe (pai) prepotente, fria e agressiva, criaria filhos com facilitação à esquizofrenia. Outro fator, seriam contínuas e fortes pressões, frustrações e conflitos, que colocariam o indivíduo sob tensão excessiva e levariam à exagero as defesas do ego.

c) Fatores sócio-culturais. Pesquisas demonstraram que existe uma alta correlação entre esquizofrenia e o "status" de classe social. Há mais esquizofrênicos em grupos de classe inferior, em comparação com os de nível sócio-econômico mais elevado. Estes dados são geralmente explicativos pelos fenômenos de isolamento social ou de instabilidade social.

Constatou-se que há poucos esquizofrênicos em sociedades primitivas e mais nas de cultura.

 

6. Prognóstico em relação às psicoses. As psicoses orgânicas possuem prognóstico menos favorável que as funcionais. Ex.: psicose senil.

Das psicoses funcionais, as esquizofrênicas são mais resistentes a tratamento, que as reações bipolares (afetivas).

A personalidade pré-psicótica, que gozava de certa estabilidade, será de mais fácil recuperação.

 

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capítulo Ix

 

TRANSTORNOS BIPOLARES

(Maníaco e Depressivo)

 

1. Padrão de mania. O paciente maníaco tenta fugir de sua angústia por atividade contínua, com grande prazer aparente, mas na verdade com pouca satisfação. Em situação de elação, manifesta: alegria em excesso, carência de inibição e autocrítica; humor sarcástico, auto engrandecimento, envolto em muitos projetos e bem planejados. O apetite pode ser voraz. Em situação de mania delirante, pode ter verbalização incoerente, constante atividade, a ponto de chegar a esgotamento. Idéias delirantes e alucinatórias e ser perigoso.

 

2. Padrão de depressão. Em vez de fugir da tensão que sofre, o depressivo acusa-se por suas dificuldades e sente-se pessoa irremediavelmente inadequada. Suas frustrações e fracassos fazem com que se volte para dentro de si mesmo.

O deprimido volta a seu passado com microscópio, para achar todos os defeitos. Caracteriza-se o deprimido por desalento, abatimento, desespero de morte; atividade física retardada; falta de apetite, fadiga matutina; perda do instinto sexual. Pode se suicidar.

 

3. Dinâmica da psicose maníaco-depressiva: Os maníacos depressivos vêm de lares marcados por preocupação com aprovação social, busca de prestígio, atmosfera de inveja e competição.

a) Os doentes maníacos, antes da doença, são indivíduos ambiciosos, expansivos, enérgicos, sociáveis, com freqüentes triunfos. Muito preocupados com o que os outros podem pensar deles.

b) Os depressivos, antes da doença, são indivíduos obsessivos, angustiados, dados a auto-acusações, com desenvolvimento rígido da consciência moral, predispostos a sentimentos de culpa.

Estes padrões emocionais provavelmente reduziriam a angústia da ameaça de severos castigos, por mau comportamento e tenderiam a persistir como padrões de respostas desajustadas e aprendidas.

Uma situação de tensão precipitaria o colapso maníaco-depressivo. Tensões precipitantes típicas seriam: morte de pessoa amada; fracasso numa relação interpessoal; grave decepção ou derrota no trabalho.

 

4. Tipos de psicose maníaco-depressiva:

a) Recorrente: maníaca e normal ou depressiva e normal.

b) Alternante: maníaco - normal - depressivo - normal - maníaco...

c) Circular: contínua passagem de uma situação a outra.

 

5. O tratamento, além de psicoterapia, antidepressivos e eletroconvulsoterapia (ECT), apoiar os valores do paciente e ver quais os membros da família que lhe podem ser mais úteis.

 

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Capítulo x

 

REAÇÃO PSICÓTICA INVOLUTIVA

 

1. Este tipo de reação é semelhante à depressão agitada da psicose maníaco depressiva. Pode caracterizar-se: a) em forma de depressão ou b) centralizar-se em idéias paranóicas.

Acontece na fase involutiva geral de declínio corporal e intelectual. Para as mulheres dos 40 aos 55 anos e para os homens dos 50 aos 65.

 

2. Os sintomas são de inquietação e demasiada preocupação com assuntos pouco importantes. Insónia.

Sentir-se condenado por erros passados imperdoáveis, com pouca esperança no futuro. Estes sentimentos são geralmente acompanhados por atividade motora como andar, chorar, contorcer as mãos, puxar os cabelos, morder os lábios.

Tem delírios hipocondríacos e niilistas. Parece viver no mundo das sombras e que seus familiares estão mortos.

Entretanto, os processos do pensamento não estão retardados e sua orientação é boa. Entende que precisa de ajuda.

 

3. A dinâmica envolve dois fatores:

a) Fator biológico, nas mulheres em menopausa, com os seguintes sintomas: tonturas, dores de cabeça, irritabilidade, insónia e pouca concentração, por redução da produção de hormônios dos ovários.

b) Fatores psicológicos resultam da situação involutiva da vida, com o declínio geral, como se disse, da força física e intelectual, com a impossibilidade de trabalhar, gerar, dirigir... Com isto a pessoa sente-se psicologicamente imprestável e inútil.

Nos compulsivos, com consciência moral rígida, que se torna mais rígida, os interesses sociais tornam-se reduzidos e há rigidez nos hábitos de vida.

A morte ou doença de pessoas queridas, a pobreza e as perspectivas do pouco que ainda pode alcançar, podem precipitar a reação involutiva.

Entretanto, esta reação pode também acontecer com quem teve uma vida normal como os outros.

 

4. Na forma paranóide, a involução se desenvolve através da desconfiança, de ciúmes e de projeção nos outros da culpa por suas dificuldades.

 

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capítulo xi

 

REAÇÕES PARANÓIDES

 

Nas reações paranóides, deve-se distinguir a paranóia dos estados paranóides.

 

1. A paranóia é um sistema de delírio complexo, lógico, sistematizado, com lento desenvolvimento, centralizado fundamentalmente em delírios de grandeza e perseguição.

a) Na perseguição, o paciente sente-se isolado, prejudicado, vítima de conspiração no emprego e em casa com os familiares. É insensível à argumentação lógica e a outras razões evidentes.

b) Na grandeza tem idéias exaltadas de missões messiânicas, reformas políticas e sociais e invenções notáveis.

c) Os paranóicos consideram-se sempre certos e condenam os outros. Criam invenções e inventam que querem roubar suas invenções.

d) Além do sistema de delírio, o paranóico pode parecer perfeitamente normal na conversa, na vida emocional e comportamento. A aparência normal e o modo lógico, podem fazê-lo muito convincente.

Não são perigosos, mas pode haver o perigo de quererem decidir as coisas com as próprias mãos.

 

2. Nos estados paranóides os delírios são menos sistematizados, sem os aspectos lógicos e sistemáticos. As alucinações são mais comuns.

Há perturbação do pensamento, sem a grave desorganização da personalidade e a perda de contato com a realidade, que caracteriza a esquizofrenia paranóide. Podem permanecer na comunidade, ainda que sejam potencialmente perigosos.

 

3. Na dinâmica psicológica podemos observar o seguinte:

a) Verifica-se nestas reações paranoides um desenvolvimento deficiente da personalidade: família autoritária, dominadora, repressiva e crítica, considerada superior às outras. Daí não se aceitar o fracasso e a inferioridade e querer superá-los pela grandeza.

b) Há desajustamento sexual proveniente de padrões morais muito rígidos, com atitude pudica em relação a todo comportamento imoral. A projeção de culpa existe, porque o indivíduo não pode suportar a autodesvalorização e justifica suas ações pela projeção dos seus desejos imorais nos outros.

 

4. O tratamento da paranóia possui prognóstico pouco favorável, a não ser que seja feito cedo.

 

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CAPÍTULO XII

 

PSICOSES DOS VELHOS

(SENIS)

 

Até agora consideramos as reações psicóticas funcionais, isto é, de origem psicogênica e agora veremos as orgânicas, provenientes de distúrbios fundamentalmente físicos.

 

1. Hoje a ciência médica prolonga a vida, mas os velhos podem ser abandonados, mesmo que se encontrem nos melhores lares geriátricos. O envelhecimento biológico e psicológico, conforme os fatos da vida, pode ser retardado ou acelerado, como o envelhecimento sociológico, pela mudança de posição na família e na sociedade.

Quem continua intelectualmente ativo, pode continuar a viver até idade avançada, sem perder suas funções intelectuais.

 

2. Existem mudanças normais que acompanham o envelhecimento, como: declínio da força e da acuidade perceptual; menor reserva de energia; menor capacidade para enfrentar tensões de conflitos; maior susceptibilidade a doenças. O sistema vascular e nervoso parece ser o primeiro a sofrer o processo de envelhecimento. Reduz a memória para acontecimentos recentes e redução da capacidade de aprender e solucionar problemas.

 

3. A psicose (demência) senil possui um aparecimento gradual e depende muito do tipo de personalidade pré-mórbida do paciente.

a) Muitos são os sintomas gerais, como: limitação dos interesses sociais, preocupação com a alimentação e a digestão; insónia e inquietude noturna; desconfiança; desleixo da higiene; rir e chorar sem motivo correspondente; estados de angústia e agitação; tentativa de seduzir crianças; dificuldade de auto identificação e desorientação espaço-temporal.

b) Tipos de psicose senil:

- a degeneração simples caracteriza-se pela complicação das mudanças normais acima descritas.

- a de reação paranóide apresenta delírios de perseguição, de erotismo, de grandeza e alucinações.

- a de tipo presbiofrênico (de fraqueza senil) manifesta redução da memória, fala complexa e confusa, inventa; atividade e agitação contínua sem objetivo.

- a de tipo delirante e confuso tem grande obscurecimento mental e o paciente fica inquieto; não reconhece e está desorientado.

- de tipos deprimidos e desorientados com depressão, agitação e delírios hipocondríacos e niilistas; delírios de pobreza e de abandono; de grandes pecados; afasta-se totalmente do meio social.

A resultante de arterioclerose cerebral. É de patologia vascular, por endurecimento das artérias e acúmulo de material gorduroso e calcificado, que fecham o canal arterial, tornando a circulação lenta e até impedida. Pode haver trombose por coágulo, embolia por fragmento de material endurecido, e pequeno derrame, caso se rompam os vasos sangüíneos, (isquemia é a supressão da circulação sangüínea por embolia ou trombose...).

As perturbações conseqüentes à arteriosclerose dependem da lesão causada ao cérebro e ao tipo de personalidade pré-mórbida do paciente. Há sintomas repentinos, como obscurecimento da consciência, desorientação, instabilidade emocional, degeneração crescente da personalidade, e incoerência.

Se a doença for gradual, os sintomas são queixas de fraqueza, fadiga, tontura, dor de cabeça, deficiência de memória, lágrimas, pouca eficiência no trabalho, instabilidade emocional, redução da capacidade intelectual, desconfianças.

 

4. Dinâmica da psicose da velhice:

a) Os fatores biológicos envolveriam, primeiro fatores genéticos, que produziriam um rápido envelhecimento fisiológico. A tensão psicológica poderia associar-se a uma dieta de muita gordura, o que facilitaria a precipitação da situação psicótica.

Deve-se notar que não há correlação entre dano cerebral e sintomas psicóticos. Um pequeno dano pode produzir fortes sintomas e vice-versa.

b) Fatores psicológicos

É muito importante verificar o tipo de personalidade psicológica pré-psicótica. Vulneráveis à velhice são: a obsessão, a rigidez, a teimosia, a desconfiança, a desadaptação social.

A pessoa mais idosa enfrenta insegurança e temores muito reais, que não a atormentavam em períodos mais sadios da vida. Estas tensões especiais da velhice influem no aparecimento de sintomas psicóticos senis.

c) Fatores sociais.

Pouca valorização da parte dos outros, pelo que fez no passado. Tratado como pessoa indesejável. Não aceitarem mais a sua opinião. Tudo isso faz sentir-se nada.

Isolamento e solidão por perdas de parentes e contemporâneos. Os filhos mudam de casa por casamento. Isola-se do mundo por não poder mais andar.

Aposentadoria e renda familiar reduzida com perda de status e a consciência dos outros, de que não pode render mais nada. Vê sua utilidade ter chegado ao fim.

 

5. Tratamento.

a) A hospitalização e o asilo, somente em último caso, quando não houver absolutamente recursos em casa. Os tranqüilizantes são valiosos para controlar fortes perturbações emocionais. Terapia de apoio. Trabalho com outras pessoas da mesma idade ou não, para se valorizar. Ter um "hobby" com que se ocupar.

 

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CAPÍTULO XIII

 

PSICOSE LIGADA AO PARTO

 

1. Esta psicose se apresenta com reações esquizofrênicas e depressivas em pessoas com personalidade pré-mórbida predisposta e sob tensão. Pode manifestar-se pela ausência de interesse pelo bebê ou temer que seja ferido. Pode haver tentativa de suicídio e infanticídio.

Prevalecem as reações depressivas sobre as maníacas. Às vezes os delírios são precipitados por hemorragia, exaustão ou toxemia (intoxicação do sangue). Nesta situação, pode haver obscurecimento da consciência e estados de alucinação.

Calcula-se que 1 em cada 400 casos de gravidez ocorram reações psicóticas: 10% a 15% ocorrem durante a gravidez; 60% durante o primeiro mês depois do parto e os outros nos oito meses seguintes. É interessante notar, que poucas destas reações ocorrem durante as primeiras 48 horas após o parto.

 

2. A melancolia do parto não é psicose. É também chamada de "síndrome de depressão", quando a mãe volta para casa com o bebê. Manifesta-se por choro, apatia, fadiga, que podem tornar-se depressão profunda com letargia e retardamento psicomotor, auto-acusação de pecado, indignidade e inutilidade.

Nos dois casos, de psicose e melancolia, constata-se uma personalidade muito vulnerável da paciente.

 

3. A dinâmica procede de elementos:

a) orgânicos: reorganização do metabolismo, dor no parto e possíveis infecções, lacerações hemorragias, lactação.

b) tensões psicológicas em relação à gravidez e ao parto; preocupação com a normalidade do filho, com as atitudes negativas do pai, sentimentos de culpa por sentir que não gosta do bebê, segundo os padrões esperados pela sociedade.

Ainda acentuar-se-iam os seguintes fatores que desencadeariam psicoses puerperais: imaturidade da paciente, casamento instável, ausência do desejo de ter filhos, responsabilidade financeira, doença física da mãe e do bebê, situação desfavorável no lar após o parto.

O acontecimento num parto, não necessariamente se repetirá em outro parto. Prevenir com um ambiente sadio o acontecimento do parto. O prognóstico geralmente é favorável, com recuperação de 90%.

 

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CAPÍTULO XIV

 

A EPILEPSIA

 

1. A epilepsia é uma perturbação do sistema nervoso, caracterizada por perturbações no ritmo de descargas elétricas do cérebro. Está ligada a episódios repentinos e repetidos de obscuridade ou perda da consciência.

Foi já chamada de doença sagrada, pois acreditava-se que proviesse de uma visitação divina. Foram epiléticos: Júlio Cesar, Maomé, Napoleão, Van Goog...

Pode atingir qualquer indivíduo, em qualquer idade, em todas as raças. Mais comum em crianças de menos de 12 anos. A inteligência é normal.

 

2. O grande mal, acontece a 60% dos epiléticos e é precedido da AURA, que é tontura, mal-estar no abdômen, um odor desagradável ou outro sintoma sensorial, motor ou psíquico. A aura dura apenas alguns momentos e não permite ao paciente se preparar para o ataque.

Sintomas: perda de consciência, atividade muscular convulsiva; a respiração se interrompe; os músculos rígidos e os maxilares cerrados; os braços estendidos, pernas abertas e inclinação para frente.

Pode gritar ou gemer. A face pode ficar escura e pode morder a língua e ter o descontrole dos esfíncteres. Com a volta do ar aos pulmões, os movimentos de rígidos (tônicos) tornam-se espasmódicos (clônicos). Espasmos musculares com a cabeça, arrastando-se no chão; os braços se esticam repentinamente; cria-se espuma na boca.

Alguns pacientes voltam rapidamente à normalidade, outros não, caindo em sono profundo. Podem ocorrer vários ataques por dia, mas geralmente não causam dano físico ou intelectual.

O perigo no ataque pode ser o de morder a língua, cortar-se, queimar-se, arranhar-se, cair de escada...

Raramente os epiléticos apresentam progressiva degeneração ou reações psicóticas ligadas à sua doença. A psicopatologia resulta da reação do paciente ao seu sofrimento e não de algo intrínseco à epilepsia.

Poucas crianças com epilepsia sofrem de paralisia cerebral, retardo mental ou de outros defeitos estruturais.

 

3. O pequeno mal apresenta redução e não perda completa da consciência. O paciente pára sua atividade, olha fixamente para a frente ou para o chão e poucos segundos depois, retorna à sua atividade.

Se estiver segurando algo, poderá deixá-lo cair. Nos chamados ataques acinéticos, há um colapso muscular repentino, desde balanço da cabeça até queda. Nos ataques mioclônicos há contrações involuntárias dos braços e de outras partes do corpo. Pode ou não haver leve interrupção da consciência. Podem ocorrer várias vezes ao dia. Na meninice e na adolescência e raramente após os 20 anos e mais em meninas que em meninos.

No pequeno mal raramente há aura e raramente o pequeno mal se transforma em grande mal.

 

4. A dinâmica procede de fatores:

a) Biológicos: a descarga excessiva ou deficiente de neurônios pode estar ligada a defeitos estruturais e metabólicos.

A patologia cerebral pode resultar de infecção, febre, deformação, tumores, perturbações vasculares, doenças degenerativas ou lesões cerebrais, que podem ocorrer antes, durante ou depois do nascimento. Os ataques associados a tais lesões no cérebro, são denominados de epilepsia sintomática. Sendo as causas desconhecidas a epilepsia é idiopática.

Estímulos sensoriais, intelectuais e emocionais são capazes de provocar ataques em indivíduos predispostos. Pode também haver predisposição genética à epilepsia.

b) Psicológicos: Parece não existir uma personalidade epiléptica, no sentido de que a epilepsia cause um desajustamento na personalidade e nem consta, de que certos tipos de personalidade sejam mais susceptíveis a ataques epilépticos.

Admite-se que as frustrações e os conflitos psicológicos possam precipitar ataques em pessoas organicamente predispostas. As convulsões epilépticas podem ser um mecanismo de redução de tensão emocional.

Crianças e jovens epilépticos podem ficar constrangidos em situações sociais, com dificuldades para arranjar emprego e casamento.

 

5. Tratamento. Está sendo usada a cirurgia. Tratamento com remédios. Proporcionar um regime bem ordenado de vida, sem muita fadiga e bom ambiente psicológico. O prognóstico é positivo, exceto em casos de tumores (neoplasias).

 

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CAPÍTULO XV

 

PERTURBAÇÕES CAUSADAS POR INFECÇÕES

(contaminações)

 

1. A sífilis cerebral é causada pela espiroqueta sífilis (bactéria sífilis), que introduzida no tecido cerebral, causa perturbação mental. Geralmente passa de uma pessoa para outra nas relações sexuais, em beijos ou contatos, com lesões ou feridas sifilíticas abertas.

Além de perturbações físicas, há uma degeneração da personalidade, com três tipos de sintomas:

a) Características maníacas de euforia, supervalorização de si (delírios de grandeza), projetos gigantescos.

b) Características depressivas de desânimo, depressão, conforme a progressão da queda orgânica. Podem acontecer delírios hipocondríacos bizarros, como não possuir cérebro, intestinos parados, estar morto. Angústia e agitação.

c) Características de simples demência com apatia, amnésia, degeneração da personalidade com delírios e alucinações.

 

2. Meningite, causada por bactérias que atacam as meninges, que recobrem o córtex cerebral. Das meninges a infecção passa para o tecido cerebral subjacente.

Durante a fase aguda, atingindo o sistema nervoso central, pode haver coma, delírio, instabilidade emocional, convulsões e perturbações da motricidade.

Pode precipitar neurose ou psicose em indivíduo predisposto. O dano no cérebro pode restringir a capacidade mental.

 

3. Encefalite epidêmica causada por inflamação do tecido cerebral, provocada por um vírus filtrável, provoca mudanças degenerativas difusas, que levam a perturbações da personalidade. Doença do sono.

Produz febre, tonturas, letargia, insónia. No fim pode haver delírios, alucinações e desorientação.

 

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CAPÍTULO XVI

 

PERTURBAÇÕES POR INTOXICAÇÃO

(envenenamento)

 

1. A psicose tóxica mais comum é a manifestada por delírios tóxicos, que acompanham doenças infecciosas, como difteria (membranas na garganta), pneumonia e febre tifoide, uremia (infeção resultante de insuficiência renal) e anemia perniciosa.

O delírio começa com inquietação inicial e muita sensibilidade ao ruído e à luz. Sonhos aterrorizantes. A consciência aos poucos se obscurece. Com os delírios misturam-se também alucinações e ilusões. Medo e preocupação.

O excesso de uso de certos medicamentos, pode provocar delírios tóxicos, como o brometo.

 

2. O envenenamento por chumbo, mercúrio, manganês engolidos ou por fumaça, podem provocar reações tóxicas como angústia, alucinação, tremores, convulsões e delírios. O monóxido de carbono, proveniente de combustão, pode prejudicar as células nervosas cerebrais com delírio e coma. Este monóxido provem da combustão de petróleo e carvão.

 

3. Doenças febris podem causar delírios e também por perda de sangue, após cirurgias e tensões psicológicas.

 

4. O delírio de exaustão em casos de extremo esforço físico, por se terem perdido em desertos e florestas e também por prolongada privação de sono. Há obscurecimento da consciência, temores, ilusões e alucinações. Conforme os casos, pode ouvir grupos de socorro, ver lagos e mesas cheias de alimentos.

 

5. Sem haver o aspecto de intoxicação, as deficiências de nutrição podem causar sérias perturbações psíquicas. A falta de vitamina B pode produzir a pelagra (lesões na pele) com angústia, delírios, alucinações e confusão. A falta de sais minerais, de cálcio... pode dificultar o metabolismo normal do cérebro. Alimentação deficiente produz lentidão no processo do pensamento, menor atenção e concentração, irritabilidade e apatia. Falta de alimentação e infeções podem produzir reações psicóticas.

A desidratação por falta de água, queimaduras, podem produzir delírios, letargia e inconsciência.

 

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CAPÍTULO XVII

 

TUMORES E LESÕES CEREBRAIS

 

1. O crescimento do tecido cerebral causado por um tumor, pode destruir o tecido ou fazer pressão no cérebro, interferindo em seu funcionamento normal. Os sintomas iniciais são: dores de cabeça contínuas, vômitos, confusão da memória. Aumentando o tumor, haverá perturbação da consciência, desorientação no tempo e no lugar, perdas sensomotoras, alucinações, apatías e redução das funções intelectuais. Comumente o tratamento é por cirurgia.

 

2. As lesões cerebrais podem ser causadas por quedas, pancadas, acidentes automobilísticos, balas.

a) A concussão cerebral decorre de leve ferimento que perturba a circulação e outras funções, provocando ligeiro obscurecimento e perda passageira da consciência. Voltando a si, o paciente pode mostrar-se um pouco confuso e desorientado. É raro ocorrer neste caso distúrbios psicológicos graves. Acontece com jogadores de futebol.

b) A contusão cerebral dá-se, quando o cérebro por violência, balança no crânio, acusando machucadura real. Pode ocorrer inconsciência por diversos dias, com possíveis delírios. Recobrando a consciência, sentirá dores de cabeça, sensibilidade forte ao ruído e à luz, tonturas.

Estes sintomas podem durar algum tempo.

c) A dilaceração cerebral é a ruptura real do tecido cerebral, em casos de fratura do crânio, como ferimento à bala. Produz-se inconsciência, delírios e alterações motoras, fala incessante e desordenada. A gravidade e a duração dos sintomas, evidentemente, vai depender da extensão do ferimento e do tipo de personalidade pré-mórbida do paciente.

 

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CAPÍTULO XVIII

 

PERTURBAÇÕES ENDÓCRINAS

 

As substâncias das glândulas endócrinas, são os hormônios, essenciais para desenvolvimento físico e psicológico da pessoa.

1. Disfunção da tireóide. A tireóide regula o metabolismo do corpo. Metabolismo é o conjunto de fenômenos químicos e físico-químicos, mediante os quais se faz a assimilação e desassimilação das substâncias necessárias à vida.

O hormônio de tiróide chama-se tiroxina.

a) A secreção excessiva da tiroxina produz o hipertireoidismo ou tirotoxicose, que acelera o metabolismo do corpo, leva a perda de peso e tremores, insónia, excitabilidade emocional. Cerca de 20% dos pacientes manifestam reações psicóticas com grande angústia, ilusões, alucinações passageiras e até delírios. Deve-se também levar em conta a personalidade do paciente. O hipertireoidismo produz também o bócio.

O tratamento é feito com terapia de iodo radioativo e nas reações psicóticas, usar-se a psicoterapia.

b) A deficiência de tiroxina no período adulto é o hipotireoidismo, ligado à deficiência de iodo e provoca o mixedema. O metabolismo torna-se mais lento. Há engorda e deficiência de memória para acontecimentos recentes. O mixedema também precipita a perturbação mental em potencial. Gera angústia, irritabilidade. Em alguns casos, chega-se a delírio real.

O cretinismo resulta de deficiência da tireóide na infância, com desenvolvimento físico e mental insuficientes e feições grosseiras.

 

2. Disfunção da supra-renal. Em emoções intensas, a medula da supra-renal secreta hormônios denominados de adrenalina e noroadrenalina.

a) A secreção insuficiente da supra-renal provoca a doença de Addison, cujos sintomas são: falta de vigor, fadiga, diminuição das funções sexuais, dores de cabeça, irritabilidade, lentidão e falta de ambição. Perturbações mentais mais graves estão ligadas à personalidade sexual, sem o correspondente crescimento mental.

Por tumores, o crescimento anormal do cortex da suprarenal, pode induzir a excessiva secreção de cortisona, resultando na síndrome de Cushing: fraqueza muscular, impulso sexual reduzido, mudanças na cor da pele, crescimento de pelo no corpo.

Pode acontecer que desapareçam as disfunções da suprarenal, sem que desapareçam as perturbações psiquiátricas, daí a necessidade de psicoterapia.

 

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CAPÍTULO XIX

 

OLIGOFRENIA ou retardo mental

 

Quando falamos da função da inteligência, mencionamos a oligofrenia.

 

1. As causas do retardo mental são diversas:

a) Fatores sócio-culturais indicam que o ambiente de nivel intelectual e emocional baixo, retarda a criança.

b) Fatores genéticos cromossômicos apresentam genes que (mudam de ascendentes a descendentes) alteram ou impedem reações bioquímicas essenciais para o funcionamento normal do cérebro. c) Perturbações bioquímicas (metabólicas). São 25 ligadas ao retardo mental. Ex.: galactossemia = não metabolisa a galactose.

d) Infecções na rubéola e na encefalite epidêmica.

e) Agentes tóxicos: chumbo durante o desenvolvimento do feto ou logo após o nascimento. O soro antitetânico pode causar lesão cerebral.

f) Traumas ou agentes físicos. Na anóxia do parto ou outros traumas no momento do parto que podem causar lesão cerebral.

g) Efeitos de radiação na mãe, no ovário ou nos órgãos sexuais, que conduziria a descendentes defeituosos.

h) Outras causas: tumores cerebrais, que fazem pressão; baixo peso ao nascer, facilita; estrutura cerebral anormal (macro ou microcefalia).

 

2. Tipos clínicos de retardamento mental.

a) Retardo mental cultural-familiar, sem patologia cerebral, pode dar-se entre irmãos. É causado por pais inadequados, situação cultural, econômica e educacional inferior. Tratamento inadequado durante a gravidez e após o nascimento. Falta de estímulo intelectual.

b) A síndrome de Down, (1966), ou trissomia 21.

Estatisticamente, constata-se que em cada 500 crianças há uma síndrome de Down. Suas características são: - olhos amendoados, lábios finos e secos, língua com fissuras profundas. Dentes pequenos e deformados, nariz achatado, cabelo ralo, fino e liso; desajeitado na coordenação motora.

Suscetíveis a doenças gastrointestinais e circulatórias. Sua vida é reduzida. Aprendem comportamento social aceitável e habilidades manuais rotineiras. São afetuosos e relativamente dóceis.

 

3. A alteração aparece no óvulo, logo após a fecundação.

A incidência desta síndrome é maior em mães de idade superior a 35 anos. Não há tratamento eficiente e nem medidas preventivas foram achadas.

c) O cretinismo resulta de perturbação da tireóide, que não se desenvolve adequadamente ou passa por degeneração ou ferimento e daí o bebê carece de suficiente secreção hormonal.

Desta insuficiência, resulta lesão cerebral no período pré-natal e perinatal. Onde houver insuficiente existência de iodo no solo e nos alimentos, aparece o cretinismo.

A deficiência da tireóide pode estar também ligada a doenças infecciosas, como sarampo, coqueluche e difteria.

As características do cretino são: corpo atarracado como de anão, pernas curvas e inclinação da espinha; cabeça grande e cabelo abundante e áspero; pálpebras grossas, que lhe dão aparência de sonolência; nariz largo; orelhas grandes, incapacidade de amadurecimento sexual.

O retardo mental pode ser grave ou moderado. Com tratamento precoce (antes do 18 anos de vida), pode haver resultados notáveis.

d) A microcefalia caracteriza-se pela cabeça pequena do paciente (42 cm em vez de 55 cm geralmente), que impossibilita o desenvolvimento normal do cérebro.

As características são: os microcéfalos são baixos, mas de musculatura e órgãos sexuais relativamente normais. Pouco desenvolvimento da linguagem e limitação extrema da capacidade mental.

Crê-se que resulta de infeções intra-uterinas e irradiação da mãe nos primeiros meses de gravidez. Não há tratamento médico eficiente.

e) A macrocefalia ou hidrocefalia (cabeça de água) resulta de quantidade anormal de fluido cérebro-espinhal dentro do crânio, que provoca lesões no tecido cerebral e alargamento do crânio.

Pode aparecer por ocasião do nascimento ou se desenvolve na infância, com crescimento gradual do tamanho da parte superior da cabeça, com a face normal e o crânio saliente.

Ocorre lesão cerebral, que leva à redução intelectual, a convulsões, redução ou perda da visão e audição.

Há tratamento cirúrgico.

f) A fenilcetonúria (FCU) = (ácido fenilperúvico = ácido acetônico) é causada por uma perturbação do metabolismo, onde não existe uma enzima (fermento solúvel) para decompor a fenillalanina, um aminoácido (substância que deriva de um ácido orgânico) encontrado em alimentos proteicos.

A fenillalanina se acumula no sangue e causa dano ao cérebro, o que se manifesta dos 6 aos 12 meses após o nascimento, com sintomas de vômito, odor peculiar, eczema infantil, ataques.

O retardamento mental pode ser moderado ou profundo. E pode causar falta de coordenação motora.

 

4. Retardo mental e comportamento.

a) O retardo ligado a outros fatores pode levar à delinqüência, por exemplo, se houver condições indesejáveis em casa. Fracasso na escola, dificuldade para encontrar emprego, ligações com grupos que deles se servem, exigências demasiadas a eles feitas na sociedade. Certas lesões cerebrais levam a um comportamento primitivo e hostil.

b) Retardo e doença mental. O retardado pode desenvolver psicose, pelas tensões que sofre por sua incapacidade de compreender e atender. Muitos sofrem pela consciência de suas limitações.

Curas rápidas das perturbações e recaídas são freqüentes. As lesões cerebrais em crianças podem produzir sintomas semelhantes aos esquizofrênicos: estereotipias, orientações deformadas de tempo e espaço, acessos agressivos. Às vezes é difícil fazer um diagnóstico diferencial.

 

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CAPÍTULO XX

 

AS PSICOPATIAS

(reações anti-sociais)

 

Os psicopatas não são classificados como retardados mentais, nem como neuróticos ou psicóticos.

Falta ao psicopata um desenvolvimento ético (moral) com capacidade para seguir formas aprovadas de comportamento. Aproveita pouco da experiência ou do castigo e não conserva lealdade a qualquer código, pessoa ou grupo.

 

1. O psicopata geralmente é inteligente. Não tem consideração com o passado ou com o futuro e é indiferente à felicidade dos outros. Imaturo, impulsivo e grande capacidade de racionalizar para si, seu comportamento.

Outras características: Egocêntrico, irresponsável e com baixa tolerância à frustração e mau julgamento. Busca padrões sexuais mais excitantes. Mente, com total indiferença pelos direitos dos outros.

Incapacidade de adiar prazeres. Vive o presente e não suporta o tédio. Não pára no emprego. Quer "ser o melhor", mas usa meios errados para isso.

Ausência de angústia e culpa. É agressivo e hostil. Habilidade para apresentar boa aparência e maneiras que desarmam os outros. Tendência para a ascensão social.

Relações sociais deficientes. Incapaz de identificar-se com os outros. Não tem amigos íntimos. Incapaz de retribuir amor.

Hostilidade à autoridade constituída, seja civil, educacional, policial. Não é delinqüente profissional por cálculo.

Irritante e um peso para a família. Promete mudar, mas raramente o faz. Às vezes, este tipo de comportamento é encontrado em neuróticos e psicóticos.

 

2. A dinâmica da psicopatia. Influem na determinação da psicopatia, fatores de integração na família de classe média ou alta, por mãe que concede tudo e pai que conseguiu muito êxito. Oposição no modo de viver e de atitudes do pai e da mãe: um muito rigoroso e outro muito liberal. Modo falso de viver dos pais em casa e fora de casa, imitado pelos filhos; Falta de vida emocionai e bons sentimentos em casa.

Às vezes parece que o psicopata possui sentimento de culpa, que é aliviado pelo castigo a seu comportamento anti-social. Mas isso não vai modificar seu comportamento.

O prognóstico em seu tratamento é desfavorável, porque não possui nenhum desejo de mudar.

 

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CAPÍTULO XXI

 

A DELINQUÊNCIA JUVENIL

 

A delinqüência juvenil é o comportamento de rapazes e moças com menos de 18 anos, que a sociedade não aceita e que geralmente é considerado merecedor de advertência, castigo ou medida corretiva.

 

1. A incidência (ocorrência).

Há o delinqüente orgânico (1%), com patologia cerebral, que pode reduzir o controle da agressividade.

O delinqüente mentalmente retardado (5%), que pela baixa inteligência pode não saber o que faz.

O delinqüente psicótico (3%) em surto psicótico, consequente, por exemplo, a uma frustração.

O delinqüente neurótico (10% a 15%), por compulsão a roubar, a praticar incêndios. Esta situação pode estar relacionada à repressão sexual, resultante de formação rígida, que se explicita em agressividade.

O delinqüente sociopático, que constitui a maioria, cuja situação e causas vimos acima.

O delinqüente da sub-cultura desajustada, que forma um sub­grupo, não aceitando o grupo e praticando o crime. No sub-grupo, pode conseguir a aceitação e aprovação que o grupo não lhe dá.

 

2. Relações patogênicas com a família.

- Pai que não serve de modelo ao filho. Lares desfeitos; ausência dos pais, que não dão tempo aos filhos.

- Domínio da mãe pela ausência do pai, cria revolta no filho, por não sentir-se identificado com o pai.

Rejeição do pai, por ser tirano e castigador. Pais psicopáticos.

 

3. A sub-cultura delinqüente é a condição externa ao lar, que tende a delinqüência:

- Os chamados "rejeitados sociais", que não possuem condições para ir à escola, e são dificultados e impedidos de encontrar emprego aceitável na sociedade.

- As vítimas do progresso social de todas as classes, se reúnem para viver em promiscuidade, delinqüência, sem padrão social.

- O bando delinqüente, que surge nas áreas de pobreza, que lhes dá frustração e os estimula a atividades hostis.

 

4. Conhecimentos precipitantes: São impulsos momentâneos e fatos traumatizantes, como: perda do amor, insucesso nos exames, morte dos pais; descoberta de ser filho ilegítimo; violência vista na TV, internet e motivação do delinqüente, por exemplo, roubar um carro para conseguir posição e aprovação dos colegas.

 

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CAPÍTULO XXII

 

TRANSTORNOS PSICOFISIOLÓGICOS

 

1. O transtorno psicofisiológico (psicossomático) é uma disfunção orgânica, produzida ou agravada por transtornos emocionais. No histrionismo já vimos as conversões neuróticas resultantes de conflito emocional.

O órgão com a parte da sintomatologia é a expressão simbólica do conflito emocional.

No transtorno psicofisiológico, há envolvimento da situação emocional com os órgãos e as vísceras, havendo sintomas fisiológicos, como nos casos de úlcera péptica, asma... A ansiedade não se alivia e em casos graves pode haver perigo de vida pela úlcera...

Na conversão histérica, como solução simbólica do conflito, a ansiedade não se alivia e não há perigo de vida.

 

2. Algumas observações para melhor se entender os transtornos psicofisiológicos.

Em cada transtorno há possibilidade de combinação de fatores genéticos, constitucionais, ambientais, emocionais. Deve-se por isso fazer a história clínica de cada paciente. A ansiedade e a depressão estão entre as causas desencadeantes mais freqüentes do mal-estar somático.

Deve-se observar sempre, qual a necessidade e o significado da enfermidade para o paciente. Ele pode necessitar da enfermidade, mas em seu lugar procure-se dar-lhe uma vida social mais rica, maior interesse profissional...

Em geral fazer uma psicoterapia de apoio, dando-lhe metas a atingir a longo alcance e tentar ajustar o paciente à realidade.

- Fazer tratamento médico, com medicação adequada...

 

3. Transtornos psicofisiológicos mais importantes.

a) A úlcera péptica geralmente resulta de secreção excessiva de sucos digestivos do estômago, que contém ácidos e corroem a película do estômago e do duodeno, deixando uma ferida semelhante a uma cratera. A tensão emocional, a preocupação, a cólera reprimida, mais que o alimento e a bebida, estimulam a secreção de tais ácidos.

O paciente de úlcera é resumido, no executivo durão, de instintos rígidos, que não reconhece seus desejos de dependência e por isso cai num conflito inconsciente, com enfermidade resultante. A negação da dependência pode estar associada a um temor inconsciente de homossexualidade e submissão ligada a ela.

Diz-se que o ulceroso é uma personalidade oral. Desejoso de dinheiro, de afeto, recompensa, satisfação e êxito em geral. A dor da úlcera é aliviada pelo alimento e intensificada pela fome.

Fatores orgânicos podem interferir na úlcera, como dano encefálico e padecimentos vasculares. Pode ser também conseqüência de enfermidade pancreática. Os alcoólatras são mais propensos à úlcera. Também certos medicamentos podem produzir úlcera, como os corticóides...

b) Asma bronquial. Geralmente os asmáticos possuem uma história deficiente nas relações mãe-filho. Os ataques parecem por ameaça de perda ou separação da mãe.

Causas orgânicas, podem ser infeções pulmonares repetidas, reações alérgicas, tumor, obstrução por corpo estranho.

Fatores que precipitam a asma podem ser: exposição ao frio e umidade, fadiga e enfraquecimento.

Nos ataques, observar bem a personalidade do paciente, se os ataques forem provocados por fatores emocionais ou por ganho secundário. Tentar psicoterapia.

c) Colite ulcerativa (infeção do intestino grosso com diarréia). É causada por tensão e esforço emocional. Está associada a coação emocional. Há fragilidade do ego do paciente. O tratamento deve ser suave e de apoio emocional. Em caso de cirurgia, preparar psicologicamente o paciente para que não caia em depressão.

d) Hipertensão é a pressão sangüínea elevada, que pode possuir base psicológica fundamental. A ira excessiva controlada pode causar hipertensão, também causada por enfermidades suprarenais, arterioclerose e enfermidades ligadas ao sistema nervoso central.

e) Artrite reumatóide. A tensão crônica e as contrações musculares originam alteração na circulação e mudanças articulares.

A personalidade do reumatóide geralmente é extrovertida, hiperativa, jovial e excessivamente ambiciosa. As causas da artrite podem ser orgânicas, como transtornos metabólicos, infeções, psoríase

O paciente deve manifestar ao terapeuta seus ressentimentos e amarguras reprimidas, por causa do superego rígido e disposições obsessivas.

f) A enxaqueca é um distúrbio caracterizado por dores de cabeça graves e recorrentes, precedidas muitas vezes por sintomas de alteração circulatória no cérebro e associada a acessos de vômitos.

Os sintomas são: desfocamento da visão, pontos e linhas diante dos olhos, afetando somente a metade do campo visual.

A enxaqueca é própria de pessoas meticulosas, obsessivas, perfeccionistas, rígidas, inteligentes, como intenso desenvolvimento da consciência moral.

As dores se relacionam com tensão emocional, por problemas financeiros e sociais, por relações interpessoais frustradas.

g) Angina pectoris, distúrbio arterial que ocorre no músculo
cardíaco. Pode ser causada por distúrbio emocional.

h) A obesidade resultante do comer excessivo, responde a uma necessidade de amor, segurança, prazer, sexo. Pode acontecer em sujeitos infantis, incapazes de obter gratificação e subsistência de uma forma mais madura.

A obesidade pode servir de meio (fuga) para escapar à responsabilidade, à maturidade, à interação social...

i) A anorexia nervosa é a perda parcial ou total do apetite, que pode resultar de dieta extremamente rígida. Encontra-se em pessoas obsessivas, histéricas e até clinicamente psicóticas. Centram suas vidas num enfoque irracional, para com a alimentação.

j) A bulimia nervosa, dá-se no comer compulsivo (e induzir vômitos). Depressão.

 

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CAPÍTULO XXIII

 

MORAL E USO DE ENTORPECENTES

(DROGAS)

 

1. Os psicotrópicos (tóxicos que envenenam e entorpecentes que produzem sensação de torpor) são drogas que atuam sobre o sistema nervoso central, atingindo os processos psicológicos, nervosos e mentais. Comprometem os neurotransmissores cerebrais (dopamina, serotonina)

Em relação à droga existe: a) o uso inapropriado, quando a droga não é bem receitada pelo médico; b). abuso, quando empregada com outras finalidades que a receitada; c) o hábito, quando existe a dependência à droga, mas sua ausência não produz a “síndrome de abstinência” (inquietude, ansiedade, lacrimação, sono sem descanso, pupilas dilatadas, anorexia, insónia, náusea, vômitos, perda de peso, diarréia...); d) a adição que é o vício (toxicomania). É a dependência com os “sintomas de falta”; e) Na dependência psicológica existe a compulsão a tomar a droga; f) Na dependência física a suspensão produz síndrome específica de sintomas físicos; g) Tolerância existe quando há a necessidade de aumentar a dose para produzir efeito; h) Tolerância cruzada, quando uma droga exige o aumento da dose de uma outra droga.

 

2. Tipos de drogas

Os opiáceos (do ópio): morfina, heroína, metadona produzem tolerância e dependência física em duas semanas, com síndrome de abstinência na suspensão. Seu uso produz sedação (alívio) e sensação de prazer interno e bem-estar.

Os opiáceos são analgésicos, como a morfina, a heroína, a metadona. Com exceção da metadona, todos os opiáceos produzem tolerância e podem produzir dependência física em duas semanas de uso continuado, se depois se suspender bruscamente.

Seu uso produz sedação (alívio) e sensação de prazer interno de bem-estar. É a elevação. A dependência à heroína começa com o cheirá-la, injetá-la sob a pele e endovenosamente. Os sintomas de abstinência são: inquietude, ansiedade, lacrimação, sono sem descanso, pupilas dilatadas, anorexia, acessos de frio e calor, contrações musculares dolorosas, insónia, temperatura elevada, náusea, vômito, diarréia, perda de peso, orgasmo espontâneo sem prazer, convulsões tipo grande mal também.

Os barbitúricos são drogas sedativas para dormir. Produzem relaxamento, euforia, confusão, depressão. Dependência física e tolerância cruzada.

As anfetaminas são usadas para aliviar a depressão, diminuir o apetite, combater a sonolência e a fadiga. Na adição produz desequilíbrio emocional, hostilidade, defeitos no raciocínio e da memória, delírios e alucinações...

Dependência à maconha pode ser psicológica. O uso produz sonolência, sentimento interno de bem-estar, hilaridade, fala rápida. Transtorna a memória e o raciocínio. Conduta impulsiva. Distorção da percepção de tempo e espaço. Alucinações e delírios.

A cocaína produz excitação eufórica, experiências alucinantes e a sensação de destreza física e mental aumentadas. Na dependência psicológica e física produz idéias delirantes de perseguição, ansiedade e alucinações visuais, disposição anti-social, náuseas, perda de apetite, coma e até a morte.

 

3. Dependência a drogas sedativas (para dormir).

Estas drogas são os barbitúricos, sob forma de pílulas para dormir. São de ação rápida, média ou prolongada. Seu uso se observa em neuróticos crônicos e mais em mulheres...

Alguns tranqüilizantes não barbitúricos, produzem os mesmos efeitos que os barbitúricos, e são: Noludar, Placidyl, Valmid, Equanil, etc.

Os barbitúricos produzem relaxamento e euforia; diminuição da agilidade mental, fragmentação da memória, depressão respiratória, choque com pupilas dilatadas e até morte.

Podem causar dependência física e tolerância cruzada. A tolerância é difícil de manejar. O uso crônico inclina o sujeito a acidentes e dificuldades na vida social.

A suspensão brusca dos barbitúricos em indivíduos dependentes, fisicamente produz uma síndrome dentro de 24 horas, com redução de uma semana: Debilidade, inquietude, tremor, ansiedade, insónia, pressão sangüínea elevada, convulsões e conduta psicótica: paranóia, alucinações, desequilíbrio emocional e intelectual.

 

4. Dependência à maconha (cannabis)

A maconha é uma planta que cresce facilmente em muitos climas. É o cânhamo ("cannabis") de cujas folhas e flores, faz-se o cigarro de maconha, (às vezes misturado com tabaco).

O desenvolvimento da dependência psicótica varia muito. Seus efeitos sobre o comportamento depende da quantidade, da preparação e do modo de consumi-la.

São efeitos: sonolência, sentimento interno de bem-estar, euforia e hilaridade, fala rápida e volúvel. Transtorna a memória e o raciocínio. Conduta impulsiva e respostas emocionais excêntricas. Distorção da percepção do tempo e do espaço. Redução do desejo sexual. Alucinações e delírios.

Tipos de consumidores: Os consumidores sociais, motivados pela curiosidade, sem se viciar. Os consumidores neuróticos tomam para aliviar a ansiedade e enfrentar conflitos emocionais. Os consumidores psicóticos não crônicos, tomam drogas como objeto para prevenir-se de ataque.

Perigos da maconha: Cria problemas de natureza social, já que é proibida. É intoxicante, podendo levar à morte. Em forma  crônica, prejudica o trabalho escolar e as relações familiares.

 

5. Dependência à droga tipo "anfetamina"

As anfetaminas são usadas para aliviar a depressão, diminuir o apetite, combater a sonolência e a fadiga. São registradas a Benzedrina, Dexedrina, Desoxyn, Preludin. A droga produz bem-estar, sensação de capacidade física e mental aumentadas e diminuição do apetite e do sono. É de fácil aquisição e leva à dependência. Toma-se via oral ou intravenosa.

Efeitos negativos: Depois de certo tempo a sensação de bem-estar diminui e começa a aparecer um desequilíbrio emocional e impulsividade hostil. Dificuldade de raciocínio e falhas de memória. Idéias delirantes de perseguição e alucinações visuais e auditivas.

Os efeitos físicos são o aumento de pulsações e da pressão sangüínea, tremores, cefaléias, anorexia, náuseas. A suspensão súbita resulta em letargia, sonolência, depressão e até suicídio.

 

6. Dependência à cocaína

A cocaína é feita das folhas de coca, uma planta dos Andes. Foi usada por nativos para aumentar a resistência e como anestésico tópico.

A cocaína é estimulante. Produz excitação eufórica (êxtase), experiências alucinantes e a sensação de destreza física e mental aumentadas.

Produz dependência psicológica e em parte física. Desenvolvem-se idéias delirantes de perseguição, ansiedade, alucinações visuais e disposição anti-social. Diarréia, náuseas, perda de apetite, insónia, coma e até a morte. É inalada e por uso intravenoso. Geralmente associada a outras drogas no uso. O Crack.

 

7. Dependência a drogas do tipo psicodélico

As drogas mais usadas deste grupo de alucinógenos, são:

O LSD (dietilamida do ácido lisérgico) é um derivado semi-sintético de um fungo (parasita do centeio).

A mescalina encontrada nos botões de certos cactus indígenas do México e do sul do Estado Unidos.

A psilocibina e a psilocina são isoladas do "cogumelo sagrado", que se encontra em várias partes do México.

As três drogas manifestam um elevado grau de tolerância cruzada. Não há evidência de dependência física e psicológica. São usados via oral.

Os efeitos psicológicos produzidos duram de 8 a 12 horas. Os efeitos são: Alucinações calidoscópicas (como desenhos variados produzidos por combinações de vidros) visuais de cores e formas vividas.

Há também alucinações auditivas e táteis, e distorções da percepção e das imagens corporais. O indivíduo fica preocupado com seus próprios pensamentos e percepções.

Os efeitos negativos são: Ansiedade extrema, que pode chegar ao pânico, com temores irresistíveis de perda de controle e de desintegração física e psicológica.

No período de abstinência (até 3 anos depois) há recorrência de alucinações, com elevada ansiedade e temor de perder o controle. Ao uso, pode seguir uma reação psicótica em indivíduos predispostos.

São freqüentes reações depressivas e paranóides e acentuam-se as tendências sociopáticas existentes no indivíduo.

A crença de possuir poderes sobre-humanos pode levar a acidentes, principalmente em personalidades histéricas e paranóides e com dificuldades psicológicas. Podem as drogas também produzir dano genético.

 

8. Causas do uso de drogas: a) Gerais: fugas de problemas e compromissos, curiosidade, pressão de grupos, desejo e inibições sociais, rebelião do adolescente, moda; b) Sociais: tédio na vida, hedonismo e divertimento (busca de prazer com os outros), colapso disciplinar, ambiente de miséria (favelas). Interesses comerciais de distribuidores, desequilíbrios econômicos; c) Familiares: família desunida, em conflito, falta de diálogo, vingança para com os pais; d) Tipo de personalidade com solidão, depressão, sociopatia, ociosidade, misticismo.

 

9. Soluções: a) Medidas preventivas: Esclarecimento, orientação aos pais. Educação adequada aos jovens, b) Tratamento especializado, c) Adequado uso da repressão do tráfico.

Legislação: Lei n° 6.368 de 21 de outubro de 1976: a) Todos devem colaborar com a prevenção e repressão do tráfico, b) Proibição do plantio; c) Tipo de crime e penas; Decreto n° 85.110 de 1980 que institui o sistema de prevenção, fiscalização e repressão de entorpecentes.

Aspectos morais: Pais e educadores omissos? Os plantadores? Os traficantes? Os consumidores?

 

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CAPÍTULO XXiV

 

O ALCOOLISMO

 

O alcoolismo é descrito como "uma perturbação crônica de comportamento, manifestada pela ingestão repetida de álcool que excede o uso social e dietético da comunidade e que interfere na saúde da pessoa que bebe e no seu funcionamento social e econômico".

 

1. Efeitos do consumo do álcool.

O álcool ingerido passa para a corrente sangüínea e daí para os tecidos. A ação imediata no sistema nervoso é depressora (de abatimento), com acompanhamento de disposições primitivas e muita autoconfiança.

O alívio das preocupações, da tensão e da timidez acontece às custas de perturbações da consciência, da orientação, do raciocínio e da autocrítica (desinibe, desembaraça).

Em certos indivíduos, há perda ou diminuição do humor, depressão e tentativa de suicídio. Aos poucos alteram-se os movimentos que passam a ser lentos e diminui o uso da inteligência, e da atenção.

 

2. Causas (etiologia) do alcoolismo.

a) Suspeita-se de fatores genéticos que influam no alcoolismo. Ou perturbações da natureza física, do metabolismo, por exemplo, que necessitam de álcool para o funcionamento do organismo. Há famílias de alcoólatras.

b) Privações na infância, como perda de um dos pais, associada a distúrbios neuróticos ou psicóticos.

c) Tipo da personalidade pré-mórbida: indisposição neurótica, sentimentos de inferioridade, inadequação social, depressivos constitucionais; obsessivos, tímidos, ansiosos, doença e incapacidade física.

d) Exigência social, no sentido de ser o álcool para o homem manifestação de virilidade. Para vencer a timidez e o constrangimento.

 

3. Classificação do alcoolismo (do alcoólatra):

a) Há o bebedor que depende do álcool para aliviar suas aflições emocionais; o desconforto físico e para enfrentar as cargas diárias da vida. Não é reconhecido como alcoólatra.

Este não perde o controle, mas aos poucos vai minando sua saúde. Prevenir com tratamento, para que não haja degeneração física ou mental.

b) Há o alcoólatra que consome vinho, mas não chega a grave intoxicação e é incapaz de parar de beber por um dia. Se pára, sobrevem o "delirium tremens". Há portanto dependência física e psicológica. Não é considerado alcoólatra e possui intoxicação leve.

c) Existe o alcoólatra "descontrolado" ou compulsivo, incapaz de parar de beber: Até não acabar a bebida ou o dinheiro ou perca a consciência. Pode haver períodos durante os quais não beba.

d) No caso do alcoólatra sintomático, o alcoolismo é  conseqüência de algum distúrbio neurológico, psíquico ou orgânico. A pessoa começa a beber para aliviar os sintomas de ansiedade, depressão, esquizofrenia.

e) O bebedor periódico possui surtos com fases de normalidade, durante as quais é capaz de beber socialmente ou inteiramente abster-se. É o bêbado de fim de semana.

f) O alcoólatra crônico (fase crônica) está no estágio final, para o qual concorrem todos os que bebem em excesso. Manifesta as seguintes alterações físicas e psicológicas: náuseas contínuas, subnutrição, que atinge o sistema nervoso; cirrose hepática; pode dar "delirium tremens" e alucinóse alcoólica (ouve vozes ameaçadoras e acusadoras).

 

4. Aspectos clínicos:

a) Na intoxicação aguda acontece: redução da eficiência psicológica, falta de controle muscular, atenção reduzida, lentidão no pensar; perda do auto-controle, hilaridade, sentimento de camaradagem ou tristeza, auto-compaixão com lágrimas, sensação de superioridade e força; os traços ocultos da personalidade podem se manifestar; ao voltar a si a pessoa não se lembra de como estava. No coma alcoólico a temperatura é sub-normal, a respiração é lenta e estertorosa, pulsação baixa.

b) No vício (adição) alcoólico, por beber em excesso, acontece:

- Poder conservar o consumo sob controle, mas satisfazer-se ocultamente, pois a bebida fá-lo agir melhor (diz ele), mas pode controlar o sentimento de culpa.

- Se o alcoolismo for doença, impor-lhe abstinência total, pois não é somente hábito, mas vício com compulsividade sem controle. Terá depressão irritável, alegria sem graça e sentimentalismo choroso.

- Desenvolverá delírio de ciúme com a mulher, caso esta não queira satisfazer seus desejos sexuais. Acusa a mulher de traição e por reação paranóide, pode assassinar a mulher.

Em todos os casos cuidar para que o alcoólatra se alimente bem.

- O “delirium tremens” dá-se no alcoólatra crônico ao suspender subitamente a bebida, com os seguintes sintomas: ataques de ansiedade ao deitar-se; Acorda com pesadelos, pânico e suor; Alucinações de formas humanas nas casas, pinturas, tapetes. Vê animais em toda a parte; Tremor nas mãos, cabeça e tronco. Desequilíbrio (pode cair). Distúrbios na fala, divagação, lábios secos, perturbações cárdio-vasculares.

No tratamento ver sempre a vida pregressa do paciente; ver suas necessidades. Terapia individual e de grupo (ver e ouvir os outros). Conforme a situação psicológica, fazer o tratamento sem drogas. Usar atividades substitutivas.

 

 

 

 

********

 

capítulo xxv

 

CONDUTA SEXUAL ANORMAL

 

O termo sexo, como substantivo, aparece somente no século XII e tem sua origem no verbo latino "secaré", que significa cortar, para significar cisão, divisão.

Conforme o mito do andrógino, ser que na mitologia era ao mesmo tempo homem e mulher, os deuses com medo de sua força, cortaram-no ao meio, separando o varão (aner) da mulher (giné).

A palavra sexualidade abrangendo tanto o somático como o psíquico surge no século XIX.

A sexualidade em sua constituição e funcionalidade biológica e posicológica é parte dos valores do ser humano.

As falhas na atividade sexual podem consistir, em primeiro lugar, na função puramente biológica da genitalidade, procurando individual e egoisticamente o prazer.

Por sua natureza, a sexualidade não pode ser enclausurada de forma egoísta e narcisista, mas sua função deve converter-se em relação pessoal, dentro de formas culturais e normas sociais estabelecidas para o aperfeiçoamento pessoal e a realização do bem comum.

No campo da moral, através da história, sempre foram estabelecidas normas e procedimentos em relação ao comportamento sexual para o respeito, a valorização das pessoas e a realização do bem comum.

Entendendo as pessoas no campo da intersubjetividade, a aceitação e a construção do outro, resultam em mútua integração. E isto acontece de modo especial no comportamento sexual, ordenado por um modelo moral.

Este modelo não deve absolutizar o que for contingente e culturalmente histórico, nem relativizar o que for necessário, universal e permanente. Assim através da dialética entre o permanente e o transitório se estabelecem critérios de ação.

Segundo o "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" (DSMTV) 4a edição, texto universalmente conhecido, da Associação Psiquiátrica Norte-americana, em intercâmbio com a Organização Mundial da Saúde, existem três classes de transtornos, relacionados à sexualidade.

A) Primeira classe denominada "Disfunções Sexuais", que são:

- Transtorno do desejo sexual (fase apetitiva);

- Transtorno da excitação sexual (não há estimulação);

- Transtorno da gratificação sexual (falta de orgasmo).

B) A segunda classe constitui as denominadas “parafilias” (para = desviado da norma e "filia" = atração) são os desvios dos meios normais para obter a excitação sexual. Constituem as fantasias, os desejos e as excitações sexuais recorrentes que podem ser associadas:

a) Objetos não humanos, como artigo de vestuário, etc...

b) Sofrimento ou humilhação próprio ou do parceiro, como o sadismo e o masoquismo;

c) E a crianças ou a outras pessoas, sem o seu consentimento, como a pedofilia, a gerontofilia, etc...

C) A terceira classe constitui o “Transtorno de Identidade de Gênero”, comumente chamado de homossexualismo.

Neste transtorno há identidade sexual fisiológica (órgãos, hormônios...) mas, a esta não corresponde a identidade psicológica. A atração psicológica é pelo mesmo sexo fisiológico.

 

a) Partindo da primeira classe de transtornos, que são as disfunções sexuais, não se trata da capacidade procriativa (esterilidade), mas da dificuldade de realização da atividade procriativa, quanto ao desejo, à excitação e ao prazer orgásmico.

Fatores combinados fisiológicos, psicológicos, neurológicos, endocrinológicos, circulatórios, etc... podem provocar tais distúrbios.

Medidas terapêuticas devem respeitar a autonomia da pessoa e o seu valor humano.

Existem terapias farmacológicas, instrumentos protéticos e eletroestimuladores que podem auxiliar.

Na terapia comportamental, dentro de uma concepção personalista não é justificável o procedimento de parceiros substitutos, para quem está vinculado por compromisso matrimonial.

O tratamento químico, que considera o paciente como se fosse um vegetal, e o bioquímico, como se fosse um animal, sem valorizar devidamente a pessoa, opõe-se aos valores morais.

A falta de desejo ou de excitação são no homem o transtorno erétil masculino (impotência masculina) e na mulher o transtorno orgásmico feminino (frigidez feminina).

Na área (classe) das disfunções sexuais, além da falta de desejo e excitação, pode acontecer a situação contrária de hiper-erotismo, que consiste na exaltação mórbida, tanto do desejo sexual quanto de prática sexual.

Comporta excessiva intensidade e compulsividade de desejos e práticas sexuais.

Este transtorno estaria mais ligado ao sistema endócrino da produção de hormônios sexuais de testosterona e progesterona, quanto à sua origem.

O desenvolvimento da satiríase no homem pode levar à prática de violência e delitos sexuais (estupros).

O caso de ninfomanía feminina também favorece a libertinagem sexual, em prostituição e permissividade de entregar-se em qualquer circunstância.

Em ordem à convivência social, existe a responsabilidade quanto à prevenção, à orientação e assistência devida.

Preconceitos e atitudes condenatórias não cabem como prioridade.

 

b) Passemos agora à segunda classe dos transtornos da sexualidade: as parafilias. Referem-se aos meios desviantes da norma para obter a excitação sexual. Consistem em fantasias e anseios sexuais, comportamentos recorrentes intensos e sexualmente excitantes, como pedofilia, fetichismo, zoofilia, etc...

Em alguns casos esses meios desviantes são necessários para a excitação erótica e sempre incluídos na atividade sexual.

Como podem não causar sofrimentos, em alguns casos geram culpa, vergonha, depressão.

Fantasias e comportamentos podem iniciar na adolescência e durar toda a vida.

Podem originar-se de transtornos de personalidade subjacente e causar um impulso sexual mal direcionado e também de problemas neuro-cerebrais e evolução psicológica desviada, substituindo o objeto natural por outro real, mais ou menos simbolizado.

A pornografia pode estimular o transtorno de parafilias.

Pode também acontecer que parafilias apareçam em pessoas ditas normais, como causas ou efeitos de conflitos e estresses.

Dentro desta classe de transtornos (as parafilias), fala-se às vezes de uma “nova sexologia”, fundamentada no ideal da eficiência, "igual ao direito ao prazer, onde normal é o que consegue produzir prazer".

Segundo esta concepção, é difícil estabelecer o que é patológico, se o normal é o que de qualquer forma produz prazer. Isso pode orientar o indivíduo à bissexualidade, isto é, potencialidade sexual masculina e feminina.

Entre as parafilias, classificam-se as seguintes:

Fetichismo: (de fetiche, feitiço = objeto ao qual são atribuídas propriedades mágicas) busca de satisfação sexual através de um fetiche relacionado ao sexo feminino (sapatos, pés, lingerie), tocar, cheirar, pode produzir orgasmo.

Transvestismo: (fetichismo transvéstico) vestir roupas femininas. É o travesti (homossexual); trajando vestes do outro sexo.

Transexualismo: é o desejo obsessionante de querer mudar de sexo (o homem sente, pensa e age como mulher). Pode ser confundido com travestis e não identificado de gênero (homossexual).

A pedofilia é a atração por crianças, e o molestador relaciona-se sexualmente com meninos ou meninas: tocar, masturbar-se, sexo oral, genital... Crianças com menos de 13 anos e o pedófilo maior de 16 anos. Observe-se que há pedofilia entre familiares.

Em caso de estresse, molestadores preferem parceiros crianças, em lugar de adultos.

Froterismo: (frotteur) transtorno que envolve o esfregar-se contra ou tocar em indivíduo não anuente (que não está de acordo), em meios de transportes, lojas... Contenta-se em acariciar a genitália ou os seios.

Voyeurismo é transtorno se for preferido à atividade sexual normal. Olhar pessoas que estão se despindo, ou despidas. Strip-tease. Ver filmes, revistas, de nús...

Exibicionismo é a exposição dos genitais a estranhos sem outra tentativa da atividade sexual adicional.

Masoquismo: ser humilhado, espancado, atado, autopunido.

Sadismo sexual é sofrimento psicológico ou físico causado à vitima. O paciente pode consentir ou não. Associado à psicopatia pode mutilar, assassinar.

Outras parafilias: necrofilia, zoofilia, gerontofilia, coprofilia (fezes), urofilia, clismafilia (enemas, clisteres), escatologia telefônica (telefonemas obscenos).

 

c) A terceira classe dos transtornos da sexualidade é atualmente denominada de transtorno de identidade de gênero (o homossexualismo).

Faz-se de início necessário uma distinção entre identificação sexual fisiológica e identidade de gênero psicológica.

A identificação sexual fisiológica é o conhecimento objetivo de pertencer ao sexo masculino ou feminino através dos órgãos genitais masculinos e femininos (hormônios, etc.).

A identidade de gênero psicológica é o sentimento subjetivo de ser homem ou mulher.

A maioria dos indivíduos - homens e mulheres - possui uma identidade de gênero consistente com a sua identificação sexual psicológica. Mas há exceções.

Um indivíduo pode possuir todas as características sexuais masculinas normais e manifestar de fato, sentir-se mulher.

No caso há transtorno de identidade de gênero.

O principal sintoma deste transtorno, quando descoberto, geralmente é de angústia persistente em relação à própria identidade sexual, principalmente a partir da adolescência.

Quando isso acontece na infância (sem angustia) as crianças podem insistir no desejo de pertencer ao sexo oposto ao físico, tanto meninos como meninas - rejeitando vestuário, brinquedos, comportamentos.

As meninas poderão acreditar que depois tornar-se homens e os meninos mulheres.

Quando já adolescentes ou adultos, há mais realismo ao perceber que sua identidade sexual fisiológica não mudará. Começam a sentir-se desconfortáveis.

Alguns indivíduos com transtorno de identidade de gênero vestem-se como membros do sexo oposto fisiológico e sentem-se assim melhor, mas não porque isto lhes proporcione gratificação sexual, como no fetichismo transvéstico.

Há os que desejam mudar suas características sexuais primárias e secundárias para as do sexo oposto (psicológico).

Entretanto a maioria dos que possuem transtorno de identidade de gênero, não sente que tenha uma escolha em relação a sua identidade sexual.

Os indivíduos com transtorno de identidade de gênero frequentemente combatem a identidade do sexo oposto, mas não são capazes de evitar ou negar sua identificação com o outro sexo (como em casos de asquizofrenia aceita).

Os padrões de comportamento dos indivíduos com transtorno de identidade de gênero são os do outro sexo fisiológico, principalmente quando crianças. Mas nem sempre quando forem adultos se comportarão assim, conforme o transtorno de gênero.

Grande parte de autores sobre o assunto, afirma que o transtorno de identidade de gênero possui sua origem na infância, onde faltam as figuras importantes e significativas do pai e da mãe (masculino e feminina).

Também influi a socialização inapropriada em grupos, onde predomina maior número de crianças do mesmo sexo.

Deve-se ainda atender a experiências feitas com mães, que durante o desenvolvimento fetal receberam altos níveis de hormônios masculinos ou femininos, e desenvolveram comportamentos nos filhos conforme os hormônios aplicados. Necessita-se ainda de pesquisa.

A partir de 1953 foram feitas cirurgias com meninos e posterior administração de hormônios correspondentes, e o resultado foi satisfatório.

Do que foi dito até agora, não se deve caracterizar ninguém como personalidade homossexual, mas com características de comportamento com transtorno de identidade de gênero.

A busca do grupo homogêneo com o transtorno de identidade de gênero, é resultado de certa repulsa feita pela sociedade. Da mesma forma certos grupos profissionais resultam deste fato.

Este transtorno é tido como uma desarmonia entre a identidade fisiológica de ser, e a identidade psicológica de gênero (comportar-se).

Os fatores predisponentes são menos de caráter biológico genético e endócrino e mais de condicionamentos psico-afetivos, de influência sócio-ambiental, nas fases de desenvolvimento e dos meios de comunicação.

Por isso se atendermos ao aspecto terapêutico, veremos que a melhor terapia é a preventiva: harmonia familiar educadora; socialização precoce em grupos, etc.

O sucesso da terapia, evidentemente, dependerá da natureza do transtorno em sua forma estrutural ou ocasional.

Para avaliação ética, lembrar sempre o valor objetivo e transcendente da pessoa humana, com sua dignidade e a grande responsabilidade subjetiva em outra pessoa.

Ninguém pode julgar até que ponto o indivíduo é culpado em sentido subjetivo ou se está "condicionado pela situação interna e pelos hábitos adquiridos".

É necessária a compreensão humana, da condição humana de cada um, sem relativizar os juízos éticos. Usar da prudência.

Note-se, que do elevado número destes transtornos, não se pode concluir que se trate de um fato natural e, portanto legítimo. O interesse e o empenho na correção do transtorno é a verdadeira orientação para o bem e possui seu valor moral.

Em todos os que sofrem de transtorno de identidade de gênero, com forte tendência, deve-se reconhecer neles aquela liberdade fundamental que confere dignidade especial à pessoa humana.

A prática da sexualidade em transtornados estruturais, com as consequências pessoais e sociais, ainda que não contenha responsabilidade pessoal, por si é intrinsecamente desordenada e não merece aprovação. Tais transtornos não devem ser objeto de expressões maldosas e ações violentas. Respeitar sempre a pessoa.


REFERÊNCIAS

 

Psicopatologia

 

AAVV. Psiquiatria para estudantes de medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

 

ALBUQUERQUE, J. A. GUILHON. Instituição e Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

 

BERGER, J. Personalidade Normal e Patológica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992

 

BERGERET, José. Psico-higiene e Psicologia Institucional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992

 

BUTCHER, James N. Psicologia do Anormal. São Paulo: Editora Cultrix, [s/d].

 

CID-10. Classsificação de Transtornos e de comportamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

 

COLEMAN, J.C. Psicologia do Anormal. São Paulo: Pioneira, 1973.

 

CORDIOLI, A.V. Psicoterapias: Abordagens Atuais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

 

DSM - IV. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

 

GUIRADO, Marlene. Psicologia Institucional. São Paulo: Editora EPU, 1987.

 

HOLMES, David S.Psicologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997

 

IONESCU, Serban. Quatorze Abordagens de Psicopatologia. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.

 

ITO, Lígia M. Terapia Cognitivo-Comportamental para transtornos psiquiátricos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

 

KAPLAN, H e SADOC. Compêndio de Psiquiatria Dinâmica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

 

KERNBERG, Otto. Transtornos Graves da Personalidade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995

 

PAIM, Isaias. Curso de Psicopatologia. São Paulo: Editora EPU, 1980.

 

 

SUMÁRIO

              introdução GERAL....................................................................................        2

 

 

ser

METAFÍSICA

 

I PARTE: O SER E SUAS PROPRIEDADES

              INTRODUÇÃO...................................................................................................        4

.............

I             A AFIRMAÇÃO DO SER..................................................................................        9

II........... A ESSÊNCIA DO SER......................................................................................      12

III.......... A UNIDADE DO SER........................................................................................      15

IV.......... a INTELIGIBILIDADE DO SER......................................................................      18

V........... A BONDADE DO SER......................................................................................      20

VI.......... O BELO ONTOLÓGICO...................................................................................      23

.............

II PARTE: A DIVISÃO DO ENTE

VII......... A ANALOGIA DO SER......................................................................................      25

VIII........ o DEVIR DO SER..............................................................................................      29

IX.......... CAUSA EFICIENTE DO SER.........................................................................      33

X........... A FINALIDADE DO SER..................................................................................      36

.............

III PARTE: ESTRUTURA DO ENTE FINITO

XI.......... ASPECTOS E PRINCÍPIOS DO ENTE.........................................................      40

XII......... A SUBSISTÊNCIA DO SER............................................................................      42

XIII........ A SINGULARIDADE DO SER.........................................................................      45

XIV....... o SER PESSOA................................................................................................      48

XV........ o SER ACIDENTAL..........................................................................................      51

XVI....... O SER RELAÇÂO.............................................................................................      54

XVII...... O SER SUBSISTENTE....................................................................................      56

              Referências.................................................................................................      62

 

 

AGIR

ÉTICA GERAL

 

              INTRODUÇÃO...................................................................................................      65

I             O Sujeito Humano E seu agir..............................................................      67

II........... os Valores....................................................................................................      70

III.......... Fato do valor moral..............................................................................      75

IV.......... Normas do valor moral.......................................................................      78

V........... A essência do valor moral.................................................................      82

vI.......... as leis...............................................................................................................      85

VII......... os direitos humanos...............................................................................      89

VIII........ A ordem moral subjetiva....................................................................      94

IX.......... o valor moral e a felicidade............................................................      99

              referências.................................................................................................    103

 

 

CUIDAR

ÉTICA APLICADA

 

              introdução...................................................................................................    105

I             DIREITO À VIDA E À INTEGRIDADE...........................................................    106

II........... ABORTO E EUTANÁSIA.................................................................................    107

III.......... A PENA DE MORTE.........................................................................................    108

iv.......... O SER HUMANO E Fanatismo...................................................................    110

v........... VERDADE E FIDELIDADE..............................................................................    111

vi.......... O DIREITO DE PROPRIEDADE.....................................................................    113

vii......... O INDIVIDUALISMO LIBERAL.......................................................................    114

viii........ O SOCIALISMO COLETIVISTA......................................................................    115

ix.......... o VALOR DO TRABALHO HUMANO...........................................................    117

x........... O DIREITO AO TRABALHO E À JUSTA REMUNERAÇÃO....................    118

xi           REALIDADEs relacionadas ao TRABALHoe a

              participação do trabalhador nos bens da empresa           119

xii......... ECONOMIA E MORAL......................................................................................    121

xiii........ MUTILAÇÃO E LEGÍTIMA DEFESA.............................................................    122

xiv....... TRANSMISSÃO DA VIDA E OPÇÕES ÉTICAS..........................................    123

xv........ O Matrimonio e O VALOR DA FAMÍLIA HOJE......................................    124

xvi....... DIREITOS E DEVERES NA EDUCAÇÃO....................................................    126

xvii...... ASPECTOS MORAIS DO FENÔMENO CULTURAL.................................    127

xviii..... Aspectos morais da conservação do meio ambiente            128

Xix....... dimensão ética do comportamento sexual............................    129

xx........ AVALIAÇÃO ÉTICA DA MANIPULAÇÃO DO HOMEM.............................    131

xxi....... FUNDAMENTAÇÃO E CONTEÚDO DA ÉTICA POLÍTICA.....................    132

xxii...... O SENTIDO DO BEM COMUM.......................................................................    133

xxiii..... JUSTIFICAÇÃO MORAL DA GREVE...........................................................    134

xxiv.... LEGITIMIDADE MORAL DA REVOLUÇÃO.................................................    135

xxv..... SOCIEDADE E AUTORIDADE CIVIL............................................................    136

xxvi.... ASPECTOS MORAIS DA AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS              139

xxvii... GUERRA E PAZ................................................................................................    140

xxviii.. a ordem internacional.........................................................................    140

              REFERÊNCIAS.................................................................................................    142

 

 

viver

NOÇÕES DE PSICOLOGIA DO ANORMAL

 

              INTRODUÇÃO...................................................................................................    145

I             SINAIS DE NORMALIDADE E CAUSAS DE TRANSTORNOS..............    146

II........... PERSONALIDADE E MATURIDADE PSICOLÓGICA...............................    147

III           FUNÇÕES EXECUTIVAS DA PERSONALIDADE E

              SEUS TRANSTORNOS...................................................................................    148

IV.......... A ANATOMIA ESTRUTURAL DA PERSONALIDADE..............................    156

v........... OS CONFLITOS PSÍQUICOS e mecanismos de defesa.................    157

vi.......... TIPOS DE PERSONALIDADE........................................................................    159

vii......... AS NEUROSES e sua classificação..................................................    161

VIII........ AS PSICOSES e esquizofrenias...........................................................    167

Ix.......... TRANSTORNOS BIPOLARES......................................................................    170

x........... REAÇÃO PSICÓTICA INVOLUTIVA.............................................................    171

xi.......... REAÇÕES PARANÓIDES...............................................................................    172

XII......... PSICOSES DOS VELHOS..............................................................................    173

XIII........ PSICOSE LIGADA AO PARTO.......................................................................    175

XIV....... A EPILEPSIA......................................................................................................    175

XV........ PERTURBAÇÕES CAUSADAS POR INFECÇÕES..................................    177

XVI....... PERTURBAÇÕES POR INTOXICAÇÃO.....................................................    178

XVII...... TUMORES E LESÕES CEREBRAIS............................................................    179

XVIII..... PERTURBAÇÕES ENDÓCRINAS................................................................    179

XIX....... OLIGOFRENIA ou retardo mental.....................................................    180

XX........ AS PSICOPATIAS.............................................................................................    182

XXI....... A DELINQUÊNCIA JUVENIL..........................................................................    183

XXII...... TRANSTORNOS PSICOFISIOLÓGICOS.....................................................    184

XXIII..... MORAL E USO DE ENTORPECENTES......................................................    187

XXIV.... O ALCOOLISMO................................................................................................    190

xxv..... CONDUTA SEXUAL ANORMAL...................................................................    192

              REFERÊNCIAS.................................................................................................    197

 

 

 

                                                                                   

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