Quem sou eu?
Desenvolvendo a questão: Quem sou
eu?
Desde épocas
remotas o ser humano tem desenvolvido perspectivas diversas em torno da questão
quem sou eu. O questionamento que faz do interrogador o próprio centro da
questão não anda sozinho, vem na verdade acompanhado de mais duas questões que parecem
caracterizar as vertentes básicas de toda a problemática da Antropologia Filosófica,
O que é o homem? E, quem é o homem? E em meio a estas
questões surge ainda outra: Mas afinal, porque o homem questiona a respeito do
“seu próprio eu”?
No decorrer
deste breve trabalho serão desenvolvidas tais questões, obviamente com uma
série de restrições devido às limitações de compreensão, pesquisa, tempo e etc.
Mas, o tema será desenvolvido levando em conta alguns aspectos importantes e
que parecem estar no amago da questão “Quem
sou eu”, considerando o homem na
sua relação Eu-Mundo-Outro e à falta de unidade nas concepções de homem em
nossa cultura ocidental.
O ser humano,
desde onde se tem conhecimento, de alguma forma, indagou em busca de sua
“identidade”, mas a questão ainda não foi, digamos assim, satisfatoriamente
respondida. “O ser humano é um paradoxo e
uma maravilha sempre em devir e jamais concluída” (HOMO PATIENS et DOLENS;
Dr. P. Pivatto), esta frase justifica por que no decorrer da história o homem
teve tantas respostas diversificadas para a questão “Quem sou eu” . Não podemos dar uma resposta definitiva, pois nosso
“objeto de estudo” é sem duvida, “não mais o mesmo”, pois esta em constante
“devir”.
O homem
continua questionando sobre sua “identidade”. Max Scheler, tido como o sistematizador da disciplina Antropologia
Filosófica, fala em uma crise que seria parcialmente devida aos multiplos
discursos acerca do homem, poderiamos arriscar disser que esta é uma
consequencia do iluminismo, onde o homem é considerado o centro e com isso e
devido também a outros fatores consideravelmente significantes, chegamos a um
estágio onde não temos mais uma “direção” ou um sentido propriamente pré
estabelecido o que acentua a nessecidade da questão “Quem sou eu” e desta forma explica por que o homem questiona
a respeito do “seu próprio eu”.
A Antropologia Filosófica entra em jogo para tentar responder a
questão acerca da problemática humana a nível essencial, ela tenta reunir o
“Eu-Mundo-Outro” já que seu interesse central é estudar o homem e estudar tudo
o mais em relação a ele, pois parece que não seria possível dar uma resposta à
questão “O que é o homem” e nem mesmo
a “quem é o homem” sem considerar o
homem em sua totalidade o que necessariamente implica considerar as relações
que o homem tem tanto com os outros quanto com o mundo. Martim Buber desenvolve
em seu livro “EU e TU” justamente esta temática da relação; O “eu” só existe
devido à existência de um “tu” de forma que a totalidade do homem pode ser
considerada nesta relação, que segundo ele pode ser uma relação considerada “de
existências”. Desta forma o homem que procura responder a questão “quem sou eu” não pode partir da
consideração a partir apenas do “eu mesmo”, pois o que caracteriza o homem é a
sua relação essencial com todo o ser e com as coisas e pessoas.
“Quem sou eu”? Homo sapiens,
homo faber, homo patiens, homo
loquax, homo ludens, homo socialis, homo economicus, homo religiosus, homo
cyberneticus, homo symbioticus; Estas são algumas das “faces” do
homem que podemos conhecer através da ciência. São também algumas das
consideradas pela Antropologia Filosófica, juntamente com outras
características do homem, de âmbito metafisico, por exemplo, a relação com o
absoluto, para assim tentar tomar a problemática do homem em sua totalidade. O
mundo contemporâneo apresenta “EUs” possíveis, estes que parecem divergir entre
si, resultado disto é um sentimento de inconsistência. O
homem questiona a respeito de seu próprio eu porque busca conferir sentido a
sua existência. “Quem sou eu”? Uma
existência, e não só, que busca conhecer-se a si própria, “sou aquele que quer
saber quem sou”. Uma existência que se relaciona com outras existências, com
objetos, com o ser e com aquilo que ainda podemos não saber. O homem é tão
insignificante, tão singular e tão desconhecido de si que chega a ser o mais
nobre que somos capazes de conhecer.
II Mortalidade
ou imortalidade da alma?
Questão de
crucial significância da vida humana, a mortalidade ou imortalidade da alma
anda de mãos dadas com a realidade do ser humano desde os tempos antigos. E
hoje ainda existe divergência em torno desta questão.
O problema é
de uma amplitude muito vasta. Para iniciarmos o assunto é mister clarear o
conceito de alma: Alma é um termo que deriva do latim anima, este refere-se ao
princípio que dá movimento ao que é vivo. Mas, o uso do termo pode ter
significado variável segundo o contexto e a intenção daquele que faz o uso.
Sócrates no
dialogo platônico sobre a alma, Fedro, afirma: "Cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo movido de dentro é
animado, pois que o movimento é a natureza da alma" (Fedon 245 e).
Desta forma Sócrates afirma que a alma é imortal porque move a si mesma.
"Toda a alma é imortal,
porque aquilo que se move a si mesmo é imortal. O que move uma coisa e é por
outra movido, anula-se uma vez terminado o movimento. Somente o que a si mesmo
se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se e é para as demais
coisas que se movem, fonte do início do movimento. O início é algo que não se
formou, sendo evidente que tudo que se forma, forma-se de um princípio. Este
principio de nada proveio, pois, que se proviesse de uma outra coisa, não seria
princípio. Sendo o principio coisa que não se formou, deve ser também,
evidentemente coisa que não pode ser destruída. Se o princípio pudesse
desaparecer, nem ele mesmo poderia nascer de uma outra coisa, nem dele outra
coisa, porque necessariamente tudo brota do princípio. Concluindo, pois, o
princípio do movimento é o que a si mesmo se move. Não pode desaparecer nem
formar-se, do contrário o universo, todas as gerações parariam e nunca mais
poderiam ser movidos”. (Fedro, 245).
Além disso, a
alma é simples de tal forma que a imortalidade pode ser decorrente de sua
simplicidade. No dialogo o mal é considerado a causa que deteriora e
possivelmente a única causa que poderia deteriorar a alma, de forma “que cada coisa é destruída pelo mal e pelo
princípio de corrupção que traz em si, de sorte que, se o mal não força para
destruí-la, nada mais há que o possa fazer, porque o bem não pode produzir este
efeito, nem tão pouco o que não é nem bem nem mal[...].Logo, é evidente que o
que não pode perecer, nem por seu próprio mal, nem pelo mal alheio, deve necessariamente
existir sempre; e que, se existe sempre, é imortal" (República, 608 e
ss.)
Porém, se
considerarmos os escritos clássicos podemos perceber uma compreensão diferenciada
sobre a questão da mortalidade da alma; Já com Aristóteles, primeiro filosofo
que sistematizou a questão da alma, em seu livro Tratado da alma ele faz
algumas observações interessantes como: “Talvez
seja necessário distinguir primeiro a que gênero a alma pertence e no que
consiste, quer dizer, se é uma coisa particular, ou uma substância, ou se trata
de uma quantidade ou qualidade, ou
ainda se se trata de algo em potência ou em ato. Mais adiante Aristóteles
conclui que: “No caso da alma parece que
todas as suas afecções pertencem a ela em união com o corpo, tais como a raiva,
a timidez, o medo, a piedade, a esperança e até mesmo a alegria, o amor e o
ódio” ,ou seja, ”as afecções da alma
são evidentemente formas envolvendo matéria”. Portanto a alma não seria
capaz de durar separadamente da matéria já que sua expressão se dá apenas na
matéria.
A sociedade
apresenta boas evidencias para que acreditemos na mortalidade da alma, além
disso: Não tenho medo da morte; Estive
morto por bilhões e bilhões de anos antes de meu nascimento, e isso nunca me
causou qualquer inconveniência (Mark Twain). Se considerarmos que a alma é
imortal e também que é a causadora da animação, então ela não deveria ter um
começo e desta forma já existiria, pois do contrario não poderia ser imortal
devido ao fato de que, o que tem inicio está sujeito a transformações, e não é
um principio, e se está sujeito a transformações deixa de ser o que era, e
isto, não é mesmo que ocorre com a matéria? Parece que nos aproximamos do
primeiro materialista, para Demócrito a alma era material, formada por
partículas mínimas e indivisíveis (átomos).
Aparentemente
podemos concluir que a alma tem ligações com a matéria o que pode implicar que
ela não seja capaz de subsistir sem a mesma. A teoria platônica que sustenta a
imortalidade da alma parece ser contraditória, se a alma é imortal ela já
existia, então por que não nos lembramos de nada a respeito daquilo que nossa
alma “viveu” antes? Se ela sofreu uma transformação então ela é mutável em
consequência deixa de ser a mesma e nestes termos se iguala a matéria. Se ela
não for dotada de memória pode ocorrer de que ela seja eterna, mas neste caso
nós deixamos de ser com a separação alma-corpo, se assim for então nós não
“somos nós” antes da alma estar na matéria em conseqüência não seremos depois
que ocorrer a separação. Parece que no momento temos mais evidencia para
crermos na mortalidade da alma, ou pelo menos, na nossa mortalidade.
III O
processo de personalização.
O
processo de personalização é um tema da Antropologia filosófica, parece que ser
pessoa é algo puramente da essência humana, só o ser humano é pessoa. “Somos
pessoas” não temos duvida disso, mas como chegamos a tal “lugar”? Existe um
processo que forma pessoas?
O termo
pessoa deriva do latim persona, significa: mascara teatral, bem como o próprio
ator, a personagem e seu papel. Se tomarmos os escolásticos da idade média
veremos que pessoa é um individuo dotado de razão ou “substancia individual de natureza racional, existindo como um todo
indivisível”. Em termos jurídicos pessoa significa cidadão que possui uma existência
civil e direitos.
Poderíamos
descrever um suposto processo pelo qual o homem torna-se pessoa? Para o
personalismo de E. Mounier, a pessoa não é uma realidade definível e, portanto,
não pode ser aprendida pela ótica objetiva das ciências: A pessoa se apreende e
se conhece em seu ato, como movimento de personalização. A comunicação e sua experiência fundamental.
Parece que segundo E. Mounier o processo de personalização é uma constante, ou
seja, mesmo quando o ser humano é pessoa ainda continua se transformando
pessoa.
O
processo de personalização parece durar toda a vida do ser humano, sendo que
acontece enquanto o homem “usa a mascara”, ou seja, enquanto
busca outras realidades que aspira, movido por uma gama imensa e variada de
desejos e necessidades sensíveis, morais, racionais e espirituais que o
impulsionam na direção da sua plenitude.
Alguns
aspectos presentes no processo de personalização podem ser destacados, como por
exemplo: Aspectos psíquicos, autoestima, auto respeito; Aspectos sociais e
políticos, de onde derivam fenômenos como a linguagem, à escrita e a
transmissão de cultura e aspetos que dizem respeito a liberdade, esta que
possibilita capacidade de raciocínio, de julgamento, de discernimento e de
compreensão.
O
homem é livre e só por isso pode usar “a mascara” e ter um personagem a qual
representa. A personalização permeia a vida humana e é um processo continuo que
afirma a dinamicidade do ser humano. Por que usar a mascara de pessoa? Para de
esta forma assumir um papel, este papel é roteiro, e roteiro indica o que fazer
e para onde ir, e quem vai a algum lugar tem um sentido. Isto prova que o ser
humano é capaz de no processo de personalização conferir sentido para sua existência.
A beleza do ser humano é expressa pela pequenez do homem que mesmo pequeno
consegue imaginar-se grande, com isso acredita que é grande e mesmo não sendo e
só por crer que é faz coisas “espetaculares”.
Trabalho entregue para a disciplina de Antropologia filosófica na Faculdade de filosofia da PUCRS.
Diego Durante Mühl
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