Do complexo Rural aos Complexos Agroindustriais
Resenha Crítica Produzida para a Disciplina de Agronegócio conceitos e Aplicações (2021)
O artigo retrata o processo de especialização e racionalização da agricultura brasileira. A desestruturação do antigo modelo de agricultura e o desenvolvimento dos complexos agroindustriais. Surgem novas técnicas de produção, especialização e divisão do trabalho, ou seja, é o próprio processo de inclusão da agricultura à lógica capitalista de produção.
É abordado um recorte temporal de 1850 até 1985. Destacando as nuances e os jogos de interesses dos diferentes períodos e suas consequências.
No século XIX a economia brasileira era agrária e exportadora, a mão de obra da agricultura era escrava. O fim da escravidão influenciou a derrubada da monarquia e contratações de mão de obra não escrava. A chegada de imigrantes no país diversifica a cultura e também começa uma breve diversificação da agricultura.
Com a primeira guerra mundial e posterior crise de 1929 o Brasil passa a ter dificuldades de importar bens de consumo e até mesmo alimentos o que força um movimento de pré-industrialidade no país e obriga a agricultura fornecer matéria-prima diversificada. A lógica agrário-exportadora começa a ser lentamente transformada.
Um processo de modernização mais acentuado começa após a segunda guerra mundial. Somente na década de 60 há um plano de desenvolvimento para a agricultura que teria papel estratégico no processo de industrialização do Brasil. A agricultura deveria produzir insumos e alimentos baratos que suportariam o projeto de industrialização do país e ainda comprar insumos e máquinas da indústria. A iniciativa privada não teria interesse em desenvolver um projeto dessa magnitude, assim o estado brasileiro assume essa responsabilidade e a modernização da agricultura acontece nas dimensões:
Técnica: Corresponde a introdução de insumos e máquinas agrícolas no processo produtivo;
Conceitual: Representado pela racionalização da produção, integração da agricultura à indústria e especialização.
A fazenda agora passa a integrar a dinâmica indústria-agricultura-agroindústria e o capital financeiro passa a organizar os mercados rurais e a agricultura. Acontece a conglomeração empresarial, integração de capitais e a terra torna-se um ativo de capital, muitas vezes especulativo. Pequenos grupos são muito beneficiados por linhas de crédito e incentivos do governo o que contribuiu para a formação de latifúndios e para o êxodo rural.
O modelo intervencionista estatal sofre esgotamento que se reflete no descontrole dos gastos públicos e no aumento da inflação. As politicas públicas passam a ser ainda mais excludentes e direcionadas a pequenos grupos de interesses. O processo inflacionário empobrece a população o que se soma ao êxodo rural acentuando e causa graves problemas de desigualdade social nas cidades e no campo. O que gera forte movimentos sociais e demandas sociais.
Devido a pressão econômica e ao esgotamento do modelo desenvolvimentista e as pressões sociais os interesses convergem novamente para a formulação da constituição de 1988. Manteve-se o pensamento neoliberal caracterizado pela redução da intervenção estatal na economia, redução do estado e desenvolvimento de acordo com os interesses do mercado.
O processo de industrialização do Brasil foi muito tardio, a agricultura foi bastante rudimentar até a história recente servindo muito pouco à interesses nacionalistas. O processo de modernização da agricultura foi desastroso do ponto de vista social beneficiando interesses de uma pequena elite.
A leitura dessa obra é recomendadíssima para a compreensão da profunda transformação conceitual da agricultura que começa integrar o complexo agroindustrial.
O autor José Francisco Graziano da Silva escreveu diversas obras a respeito da questão agrária no Brasil. Foi ministro (2003 - 2004) no mandato do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – FAO (2012 – 2019).
Diego Durante Mühl, acadêmico do Mestrado em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
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