Ficha de leitura do livro: Qué es el hombre? Autor: Martin Buber.

 O que é o homem?

Tentativas do nosso tempo.

 

I

A crise e sua expressão.

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Em nossa época o problema antropológico amadurece é reconhecido e trabalhado de forma independente pela filosofia.

Consideremos algumas causas que contribuem para o amadurecimento do problema:

De índole sociológica: As antigas formas de convivência humana são diluídas aos poucos. O contato entre tradições e culturas, que é proporcionado pela sociedade contemporânea, desfalece a identidade própria dos indivíduos em sua cultura criando inconsistência nos valores e criando no homem um vazio de sentido. O “pequeno homem” vê se inseguro, desamparado, dissolvido por dentro sem um remanso onde repousar.

Um segundo fator a ser apontado diz respeito à alienação do homem em relação às novas circunstancias. No impulso de domínio sobre o mundo o homem cria, desenvolve tecnologias, sistemas etc... Os feitos do homem são grandiosos a tal ponto que o homem perante os mesmos se sente pequeno, incapaz. A técnica faz com que o homem experimente o fracasso da alma humana; Estamos cientes de que as máquinas já não são mais apenas o prolongamento do braço do homem, desenvolvemos dependência. A economia parece não ser mais de controle racional; Crises parecem inevitáveis, como que se desprendessem também da vontade humana. Um terceiro destaque pode ser o campo politico; Basta tomarmos como exemplo a primeira guerra mundial onde dos dois lados das trincheiras homens traziam consigo a destruição de todos.

Os dez anos seguintes após a primeira grande guerra, não por acaso, deram-nos algumas das maiores obras de cunho antropológico; Um grande homem; Judio de formação alemã, que se desenvolveu neste ambiente hostil é Edmund Husserl.

O criador do método fenomenológico não se ocupou propriamente do problema antropológico. Mas em seu ultimo trabalho, o qual infelizmente não acabou ele trata da crise das ciências europeias e entre este trabalho temos três proposições dignas de serem trabalhadas na Antropologia Filosófica.

 A primeira diz que o maior fenômeno da humanidade é o conflito em busca da própria compreensão; Isto confirma a trajetória história pela qual chega a nos a pergunta antropológica “o que é o homem”.

A segunda proposição diz: “Se o homem se converte em problema metafísico, em problema filosófico específico é por que se questiona se põe em questão como ser racional”. O homem é integramente homem, porem na busca por se conhecer deve considerar-se inteiramente como ser racional e explorar de si até mesmo o que é irracional.

A terceira proposição diz: “a humanidade consiste essencialmente em um ser homem em entidades humanas vinculadas generativamente e socialmente”, ou seja, o homem não pode ser considerado isolado, pois é de sua essência estar vinculado.

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Antes de abordar a fenomenologia, para fins de melhor compreensão, abordaremos Kierkegaard, pois seu pensamento tem grande influencia sobre os fenomenólogos.

Meados do século XIX, isolado e solitário Kierkegaard compara a cristandade com sua experiência de fé. E assim surge uma critica; O pensamento não pode existir por si mesmo, existe, pois sempre a partir do homem que pensa e a fé também é enquadrada, por ele, nesta perspectiva, ou seja, a fé autentica existe apenas na existência do que acredita.

A fé é algo que está “encarnado” e submerge toda a vida e tudo o que faz o homem, sendo que sua essência se da no homem. Não significa que a fé é algo instituído pelo homem, pois existe uma relação ôntica que não afeta apenas o homem, mas também o objeto e como toda relação objetiva oferece dois lados dos quais conhecemos apenas um o do homem.

Com Kierkegaard pela primeira vez a metafisica aborda com consequências desconhecidas o concreto do homem vivo, isto se deve a consideração dada ao homem na sua relação com o absoluto. Esta relação é reciproca de pessoa a pessoa e o absoluto entra como pessoa nesta relação.

 

II

A doutrina de Heidegger.

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Heidegger trabalha a teoria da existência; Nesta teoria o homem é o único ente que possuí uma relação com seu próprio ser e apresenta certa compreensão deste mesmo. Assim o homem é estudado, não enquanto totalidade, mas é considerado apenas como a existência mesma em sua manifestação.

Não foi intenção de Heidegger escrever uma Antropologia Filosófica, porém o conteúdo por ele desenvolvido contribui muito para o problema da antropologia, já que tem o homem como objeto de analise, enquanto manifestação da existência.

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                Resta-nos agora saber se é possível usar um estudo direcionado para ontologia na antropologia filosófica considerando o homem em sua totalidade.

O homem em sua atitude constitui o próprio ser.  Heidegger trabalha a relação do homem com a morte; podemos limiar a morte ao ponto final? Com uma postura objetiva constataremos que com nossa origem já estamos morrendo, e que nossa vida só acontece devido à morte, já que a vida é justamente este constante conflito entre vida e morte.

O significado das categorias da vida, partindo de Heidegger, se dá na relação do individuo consigo mesmo. Heidegger nos da uma descrição parcial destas categorias e evidencia que o homem por algum motivo (curto circuito) passa a contemplar-se.

Enquanto se contempla o homem entra em um jogo cujas regras descobre enquanto joga.

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Heidegger parte do cotidiano.  Quando devemos e demoramos a pagar surge em nos um sentimento de culpa. A culpa existe por que alguém é culpado, mas de onde vem à culpa genuína? Segundo Heidegger a existência é culpável, por que não cumpre consigo mesma estancada no gênero humano; A consciência chama, chama por que nela fala a existência buscando a si própria. Isto ocorre por que a existência almeja ser uma em si, autêntica.

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O homem encontra-se em um mundo estranho e sozinho. Agostinho, Pascal e Kierkegaard descrevem um homem que em sua intimidade encontra a figura com a qual tem contato. Porém, a transição entre uma época e outra tem uma trajetória; O que parece acontecer é que agora o homem em sua intimidade não se compreende mais. Nietzsche retrata em sua frase: “Deus está morto”.

Heidegger qualifica a questão ontológica fundamental como a questão que trata da existência em sua relação com o ser próprio. Esta questão seria a questão emergente em relação à questão antropológica.

A teoria de Heidegger expõe muito bem a relações entre diferentes essências abstraídas da vida humana, mas não abarca o homem em sua totalidade, oferece preciosas indicações, mas não a questão antropológica.

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Na convivência o homem é capaz de experimentar o ilimitado e o incondicionado. É no caráter dialógico que a vida possui sentido absoluto, o homem em sua relação consigo não é capaz de repousar inteiramente consigo; O homem só se faz homem diante de outro homem, assim como o “eu” depende do “tu”. Heidegger trabalha com uma existência monológica, não considera a experiência do incondicionado na relação com o outro e nem mesmo em relação ao divino.

Para Heidegger o homem com existência autêntica é aquele que é ele mesmo, ou seja, que constrói o fim da própria vida, que só pode levar uma vida real consigo mesmo.

 

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Parece ser contraditório quando Heidegger afirma que o homem segundo sua existência é um ser no mundo. O homem não esta rodeado apenas por coisas, mas também de outros homens, estes também são existências e não coisas também são objetos da própria compreensão.

A relação de um homem com outro não é uma relação de existências, é uma relação onde um contribuí na fraqueza do outro, desta forma o homem rompe os limites de uma relação psíquica e pode chegar a uma relação ôntica.

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Kierkegaard diz que o homem para entrar em relação com Deus deve fazer-se singular. Heidegger desconhece tal tipo de abertura, para ele o homem se faz singular para ser “ele mesmo”, porém não pode perpassar os limites de sua existência.

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A existência para ser ela mesma tem seu “desabrochar” frente à união genuína com os demais e com o outro. Heidegger para ilustrar a resolução da pessoa com a generalidade anônima usa o termo “das MAM” (El se).

A existência do ser humano se dissipa no “Se”. A existência que se dissipa no “das MAM” leva diante de si o poder de ser ela mesma. 

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A existência sendo ela mesma propicia a possibilidade de criar “a grande relação”. É preciso reconhecer o verdadeiro Tu para reconhecer o verdadeiro Eu. Reconhecendo o Tu e a relação entre o Eu e o Tu percebemos uma relação com os outros, e ai também existe uma relação essencial onde são acolhidos aqueles que chegam ao fundo de seu próprio ser.

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O homem tem uma tripla relação esta se dá: Em sua elação com o mundo, em sua relação com os homens tanto individual como plural e com o mistério do ser.

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Além da tripla relação que é essencial no homem existe outra relação, à relação consigo mesmo. Porém está não é real, pois não possuí dualidade real. Por isso esta relação diferentemente das outras três não encontra sua perfeita transfiguração; Por exemplo: A transfiguração das coisas se da na arte, a dos homens no amor, a do mistério na vida religiosa.

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A questão o que é homem não pode ser abordada a partir apenas do “eu mesmo”, pois o que caracteriza o homem é a sua relação essencial com todo o ser e com as coisas e pessoas. Para compreender o homem devemos considera-lo capaz da tríplice relação e também capaz de elevar suas relações a nível existencial.

III

A doutrina de Scheler.

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Outra tentativa de explicar o homem foi a de Max Scheler que parte daquilo que distingue o homem de outros seres em conexão com o que tem em comum.

Scheler desenvolve não só uma antropologia, mas também uma metafisica, que por consequência, exerce certa influencia sobre sua antropologia.

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A metafisica de Scheler vem depois de um período de catolicismo e teísmo. Esta experiência levou Scheler a desenvolver a ideia de Deus, em sua metafisica, como ser que nasce através do homem, ou seja, o homem em sua existência é o ser que pode cobrar o absoluto como sua verdade.

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Segundo Scheler o fundamento do mundo tem dois atributos o espirito e o momento, estes tem entre si uma relação de potencial tensão, ou seja, o ser é limitado ao tempo e ao processo cósmico que tem lugar nele.

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Em observação Scheler conclui que divindade não é só o fundamento o mundo, mas dentro do mundo e através dele, com o homem passa a ser digna de ser chamada existência divina.

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Scheler em suas teses leva-nos a compreender que o espirito, em sua pura forma é desprovido de qualquer poder, esta impotência parece desta forma, unida as origens do ser. Porém se demostra contraditória esta tese.

O fundamento do mundo proporciona o impulso que faz o mundo e assim o espirito na história do mundo. Mas, com que força o fundamento do mundo propicia este impulso? A teoria de Scheler requer uma subpotência. Desta forma Scheler parece dizer que o espirito possui poder de por as forças em movimento.

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Scheler diz que sua tese impossibilita a criação do mundo do nada. Servindo se da bíblia ele afirma que o mistério é traduzido falsamente por uma teologia que faz uso de linguagem, de uma filosofia errada e de uma “gnose” que submete o alógico a lógica para falar do inicio do mundo.

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Do espirito do mundo ao nosso.

Scheler diz que o homem patenteia o espirito do ente “na unidade da pessoa que reconhece a si mesma”. Na transformação (devir) ela vai buscando a si até tornar se inteiramente ela mesa.

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Porem alguns, os filósofos, buscam realizar esta vontade do espirito mais do que outros;          Estes que buscam fazer a vontade do espirito, na concepção de Scheler, são os que se afastam dos impulsos. Porém podemos contestar esta afirmação de Scheler, ora não são aqueles que colocam o espirito acima dos impulsos os que desenvolvem melhor filosofia, mas aqueles que travam esta relação tanto entre impulso e espirito quanto entre espirito e espirito ou impulso e impulso.

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O espirito é próprio do homem, argumenta Scheler usando o exemplo da dor; O espirito pergunta pela dor, pela essência da dor e assim vê o mundo impregnado de dor, ou seja, o espirito não se limita apenas com a dor singular, mas dá-lhe novo caráter. Este que na participação da existência dos seres vivos descobre o sentido do próprio ser.

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Investiguemos agora o espirito onde ele é “acontecimento”. Para ilustrar, considere o exemplo de um camponês que durante toda a vida ocupa-se apenas com suas condições econômicas e com atividades puramente técnicas e praticas. Certo dia este camponês se vê ocioso, esta envelhecendo e já não tem o mesmo desempenho de outrora, não é mais o mesmo, analisa as coisas e volta a provar a contradição que reina no mundo; Por isso mais do que com palavras conhecidas pela tradição ele começa a expressar novas palavras, esta expressando suas ideias próprias diante do magnifiquíssimo da vida. Este é um caso onde o espirito se manifesta de acordo com as coisas e de acordo com os impulsos.

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Para Scheler entre o homo Faber e o animal há uma diferença apenas gradual, porem entre o homo Faber e o homem que vais além de si (o filosofo, o religioso) há uma diferença essencial. Tanto o homo Faber quanto o animal estão ligados ao orgânico da vida em contrapartida o “homem espiritual” desprende-se do orgânico da vida.

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O espirito como “acontecimento” não ocorre mediante a repressão ou sublimação dos impulsos.

Em uma comunidade o homem esta seguro quando entre os membros constituintes reina a confiança, não imposta, nem imaginada, mas genuína. Perdida a confiança inicia-se um processo de repressão e os desejos sufocados ecoam no cume da alma. Assim a separação entre espirito e impulso é também a separação entre homens.

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Para Scheler o espirito é pura potência, é o poder do homem para captar o mundo em imagem e conceito.

A diferença essencial entre o animal e o homem não é fruto da separação ou união através do impulso, na verdade é uma nova maneira distinta de inclinar-se diante das coisas e dos seres.

 

IV

Perspectivas.

 

Uma antropologia individualista não pode nos dar conhecimento da essência do homem.

O homem que quer encarar a problemática antropológica deve sobrepor-se a tensão da solidão e a chaga de sua problemática colocando-se a pensar a partir desta.

O individualismo e o coletivismo não trabalham o homem em sua totalidade. Em um caso o rosto humano está desfigurado e no outro oculto.

O encontro do homem consigo só é possível, e neste caso inevitável, quando individuo conhece o outro como a si mesmo. Esta experiência só é possível em uma relação autêntica, desta forma é excluído o individualismo e o coletivismo. O que singulariza o homem é a relação entre indivíduos onde a linguagem é seu signo e meio.

Na relação “entre” um e outro (relação autentica, sem formalidade, espontânea), A conta não tem fim, sempre fica algo onde as almas cessaram e o mundo não teve inicio, ai esta a essência. 

A realidade desta relação que transcende os dois, se fixa entre os dois, onde a situação dialógica é acessível apenas ontologicamente. Esta nova categoria marcara nossa época e as decisões de gerações futuras, esta é a alternativa que ajudará o gênero humano a produzir pessoas autênticas.

Na antropologia filosófica quando trabalhamos a relação entre Eu e Tu avançamos na compreensão da pessoa, na compressão da comunidade e também na compreensão do homem.

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE FILOSOFIA

 

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DIEGO DURANTE MÜHL

 

 

 

 

TRABALHO DE ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA II

 

 

 

 

 

Ficha de leitura do livro: Qué es el hombre?

Autor: Martin Buber.

 

 

 

 

Professor: Dr. Pergentino Stefano Pivatto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porto Alegre

2011

 

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