O Tempo
O ser humano é o único animal que tem o dom da
consciência, por dádiva divina ou por graça do destino, disso ao certo não
sabemos; Mas, é esse “Dom” o responsável pela nossa sabedoria, é o que sabemos,
é do que falamos, é a cultura, é o que vivemos; É também por causa disso que
sabemos que o hoje é hoje, e não é ontem, e nem amanhã; Mas, quem sabe também
sofre, e saber que o amanhã vira hoje e que o hoje vira amanhã nem sempre é uma
experiência agradável; Saber que o nosso precioso tempo se esvai como que entre
nossas mãos pode ser terrivelmente angustiante; E quanto a isso nada podemos
fazer o relógio não volta, e se volta às transformações não se desfazem; “O tempo não para” (Cazuza), o que fazer
com o pouco tempo que ainda nos resta, como aproveita-lo; Carpe Diem, aproveitar o dia, é isso que buscamos.
O tempo: somos nós, os humanos os únicos seres a
medi-lo, contá-lo; Ele está presente em tudo, e ele passa, e quando olhamos pra
trás sempre pensamos como poderíamos tê-lo aproveitado.
“Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Devia ter arriscado mais [...]
Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
[...]
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
[...]
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor..." (Epitáfio, Titãs).
“Epitáfio” da
banda brasileira Titãns; Epitáfio são frases escritas sobre túmulos,
mausoléus
para homenagear pessoas ali sepultadas.
A musica
apresenta uma análise da vida de uma pessoa comum, que olha para o passado e vê
que perdeu muito de seu precioso tempo e agora esta impossibilitada diante da
situação; Além da beleza da musica ainda observamos a genialidade da letra, que
tende a apresentar um ponto de vista para que a partir deste o ouvinte indague
sobre o tempo perdido.
Talvez
não perdesse tanto tempo se soubesse o que fazer, se assim fosse poderia estar
extraindo de cada dia o máximo, diz o poema: “Colhe todos os botões de rosa antes que o dia acabe (...)”; É o que
a musica tenta passar quando diz para amar mais, chorar mais, arriscar mais;
Assim precisaríamos de experiência para saber o que fazer e não perder o
precioso tempo.
Algumas
vezes pensamos o que faríamos quando mais jovens com a experiência e o conhecimento
de um adulto; O conto, “A Segunda Vida” de Machado de Assis, relata a narrativa
de um homem que diz estar vivendo sua segunda vida. Ele afirma ter morrido em
março de 1860, aos sessenta e oito anos, e renascido em janeiro do ano
seguinte:
“Comecei a andar tarde, por medo de
cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar,
trepar nas árvores, saltar paredões, trocar murros, coisas tão úteis, nada
disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza, tive uma infância
aborrecida, e a escola não o foi menos.” ( A segunda Vida,
Machado de Assis)
Partindo desse trecho nos deparamos com a
possibilidade de à sabedoria passada trazer: medo, receio de fazer pequenas
coisas necessárias para crescer, para exercitar o corpo e o bom humor, para rir
até dos tombos e quedas, e o mais importante, para aprender (ou no caso,
reaprender) a levantar.
Agora parece que aproveitar o
tempo não está diretamente relacionado com a posse da experiência; Contrário à obra de Assis, “O curioso caso de Benjamin Button” baseado
em um conto homônimo lançado em 1921 pelo escritor F. Scott Fitzgerald; Filme dirigido por David Fincher
e escrito por Eric Roth;
Conta a história de um homem, Benjamin, que em 1918 nasce com a aparência
envelhecida e por isso seu pai o abandona; Benjamin é criado num lar
assistencial de idosos e, enquanto pequeno, todos pensavam que ele iria acabar
por morrer rapidamente; Durante a sua infância conhece Daisy, o grande amor da
sua vida; Apesar de ninguém acreditar na sua sobrevivência, ele vai ficando
mais novo ao longo dos anos, vendo os outros ao seu redor envelhecerem.
Chama a atenção no filme, no inicio, um relojoeiro
cego, constrói um relógio para uma grande estação, porem seus ponteiros giram
ao contrario, quando questionado o porquê disso, ele explica:
“Eu fiz dessa forma,
pra que talvez os rapazes que nos perdemos na guerra, se levantem e voltem pra casa, voltem e
encontrem trabalho, e tenham filhos, vivam uma vida plena e longa, talvez meu
próprio filho volte pra casa...” (O curioso caso de Benjamin Button).
Isso nos lembra de quanto queremos mudar o passado,
livrar-nos de um dor, de uma perda.
Nascer na velhice e morrer na juventude; É como o
relógio que anda para traz, embora o tempo do relógio esteja voltando, as
transformações não param de acontecer e não acompanham o relógio.
Ainda buscamos aproveitar todo o nosso tempo, mas
não podemos viver a experiência de Benjamin
Button e já que estamos sempre envolvidos com o nosso trabalho ou com
outras atividades não pararmos pensar no que faríamos se não fizéssemos o que a
sociedade nos ensina a fazer.
A contemporaneidade nos exige desenvolver diversas
funções sociais que consomem nosso precioso tempo; Quando queremos pensar nisso
inevitavelmente nos remetemos a Theodor Adorno e sua obra: Indústria
cultural e sociedade.
Quando fala de tempo livre em sua obra Adorno
questiona a delimitação imposta pelos meios de produção e levanta uma hipótese;
Em suma, ele questiona os meios que a sociedade cria para tirar proveito e
explorar nosso tempo; E assim, o tempo livre já é limitado, pois quando temos o ócio (como diziam os Gregos da Grécia
Antiga) não estamos livres, estamos aprisionados aquilo que a sociedade e
os meios de produção nos ensinam.
O Carpe
Diem é algo difícil de
compreender, afinal não sabemos qual é a melhor forma de aproveitar o dia,
porém é algo simples de viver, basta sabedoria, que não é sabedoria racional;
Aproveitar o dia é algo que está diretamente relacionado a uma perspectiva, a
um ponto de vista otimista diante da vida; “Aprende
que o tempo não é algo que possa voltar [...] Por isso, plante seu jardim e
decore sua alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores” (Willian
Shakespeare).
Amazing Man !!!
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