A Injusta Formação dos Complexos Agroindustriais Brasileiros

Crítica Produzida para a Disciplina de Agronegócio conceitos e Aplicações (2021)


Como humanidade ainda não conseguimos estabelecer um mundo justo, disso ninguém duvida. Fazemos discursos de justiça, gritamos por direitos iguais, até temos empatia quando vemos na Tv uma história comovente sobre superação de limites ou ficamos indignados com a destruição da floresta amazônica e todo o sofrimento dos animais e a incalculável perda de biodiversidade.

Mas, se somos pessoas boas e estamos falando de justiça de onde vem tamanha desigualdade social que podemos ver? Acredito que a questão fundiária do Brasil é uma das maiores desigualdades desse país. Mas, como essa desigualdade aconteceu? Vale a pena conferir.

O processo de estruturação fundiária do Brasil é complexo e está relacionado na história recente com os conceitos de Agribusiness e Filière. (ZYLBERSZTAJN, [s. d.]) Esse conceitos representam em certo sentido a integração entre indústria e agricultura. O agricultor na cadeia produtiva é o único incapaz de precificar sua produção tendo seu lucro comprimido pelas indústrias oligopolizadas, a montante ou a jusante. Porém, essa integração representa também a aplicação de capitais integrados o que redirecionaria capitais e a possibilidade de lucro para o agricultor (SILVA, 1996).

É preciso salientar que o sucesso produtivo do agronegócio brasileiro não se refletiu em termos sociais. O Brasil tem antigos problemas que ainda não foram superados, apresenta um dos maiores índices de concentração fundiária do mundo, apesar de três décadas de reforma agrária, situação que causa impactos sociais e ambientais bastante negativos (ROBLES, 2018; WILKINSON; REYDON; DI SABBATO, 2012).

Segundo o censo agropecuário de 2017, 70% dos estabelecimentos rurais tem entre 1 e 50 ha (IBGE - CENSO AGRO 2017, [s. d.]). O número de grandes fazendas está aumentando significativamente, as fazendas de médio e grande porte respondem pela maior parcela da produção agrícola anual. A participação das da produção agrícola anual das grandes fazendas aumentou nas últimas décadas enquanto a participação das fazendas menores diminuiu, sendo muito possível que as forças econômicas favoreçam a consolidação e o aumento do número das grandes fazendas.

Um estudo publicado em 2020, realizado no Brasil, mostrou que a renda ainda é um dos principais fatores críticos para a sucessão familiar no campo (FOGUESATTO et al., 2020). O que podemos deduzir dessa situação? De fato, as pessoas migram em busca de melhores condições de vida, as pessoas saíram e saem do campo para as cidades em busca de melhores condições de vida.

Assim, a injusta formação dos complexos agroindustriais brasileiros, os altos índices de concentração fundiária do Brasil e o êxodo rural são em certa medida o resultado das pessoas buscando melhores condições de vida.

Agora a culpa está diluída, não é apenas dos oligopólios, nem somente do Estado ou dos governantes, mas é de toda a sociedade e a sociedade é em última instância o conjunto de decisões de cada um dos indivíduos.

A articulação dos complexos agroindustriais está relacionada com um conjunto de interesses composto por agentes públicos e privados muitas vezes norteados pela dimensão política. O complexo se define de acordo com seu contexto, portanto agricultores, firmas, comerciantes e forças intelectuais compõe o complexo. O complexo é uma aliança de interesses organizados, em função de um objetivo comum ou não, na perspectiva do mercado esse objetivo é o lucro, na perspectiva dos seres humanos, talvez seja apenas uma vida digna, mas quando interesses particulares superam interesses comuns, surgem as injustiças.








REFERENCIAS

FOGUESATTO, C. R. et al. Will I have a potential successor? Factors influencing family farming succession in Brazil. Land Use Policy, [S. l.], v. 97, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.landusepol.2020.104643

IBGE - Censo Agro 2017. . [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://censoagro2017.ibge.gov.br//. Acesso em: 28 set. 2020.

ROBLES, W. Revisiting Agrarian Reform in Brazil, 1985–2016. Journal of Developing Societies, [S. l.], v. 34, n. 1, p. 1–34, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0169796X17749658

SILVA, J. F. G. da. nova dinâmica da agricultura brasileira. [S. l.]: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, 1996. E-book. Disponível em: https://agris.fao.org/agris-search/search.do?recordID=US201300063066. Acesso em: 13 out. 2020.

WILKINSON, J.; REYDON, B.; DI SABBATO, A. Concentration and foreign ownership of land in Brazil in the context of global land grabbing. Canadian Journal of Development Studies/Revue canadienne d’études du développement, [S. l.], v. 33, n. 4, p. 417–438, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1080/02255189.2012.746651

ZYLBERSZTAJN, D. Conceitos gerais, evolução e apresentação do sistema agroindustrial. In. ZYLBERSZTAJN, Décio; NEVES, Marcos Fava (org.). Economia &, [S. l.], [s. d.].


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