Introdução histórica à estética - texto trabalhado na disciplina de estética da Pucrs (2011)
Introdução histórica à estética
George Dickie
Universidade de
Illinois, Chicago
Os problemas que fazem parte da estética são vários
e parecem heterogéneos. Isto torna o estudo da bibliografia sobre a estética um
assunto que levanta perplexidades. Um dos principais objectivos da primeira
parte será delinear as vertentes históricas básicas ao longo das quais os
problemas da estética evoluíram desde a Grécia antiga até meados do século XX.
Tal esboço servirá para orientar o leitor e mostrar como vários problemas se
encontram histórica e logicamente interligados. Sem tal guia, os problemas da
estética parecem uma série de questões sem grande relação entre si.
As
questões que fazem parte do campo da estética desenvolveram-se a partir de
preocupações congénitas na história do pensamento: a teoria da beleza e a
teoria da arte. Estas duas preocupações filosóficas foram pela primeira vez
discutidas por Platão. Embora os filósofos tenham discordado acerca da teoria
da arte (em resumo, discordaram sobre o modo como se deve definir a arte),
continuaram até muito recentemente a debater a teoria da arte mais ou menos nos
mesmos termos em que Platão o fez. A teoria da beleza, contudo, sofreu uma
transformação drástica no século XVIII. Ao passo que os filósofos anteriores discutiram
apenas a natureza da beleza, os pensadores do século XVIII começaram a
interessar-se por conceitos adicionais: o sublime, o pitoresco, e por aí em
diante. Esta nova actividade pode ser entendida quer como uma divisão da beleza
nas suas partes constituintes quer como um modo de complementar a beleza com
conceitos adicionais.
Ao
mesmo tempo que a beleza sofria esta transformação, ocorria um desenvolvimento
relacionado com este — o conceito do gosto estava a ser trabalhado no
pensamento de filósofos como Shaftesbury, Hutcheson, Burke, Alison e Kant. Em
geral, estes filósofos procuravam desenvolver uma teoria do gosto que lhes
permitisse fazer uma análise adequada da experiênciada beleza, do sublime, do pitoresco e de outros
fenómenos relacionados, tal como ocorrem na natureza e na arte. A noção de desinteresse constitui
o centro destas análises e é o núcleo do conceito de gosto em tais filósofos.
Depois do século XVIII, a teorização sobre o gosto foi substituída pela
teorização sobre o estético. A palavra "beleza" passou então a ser
usada como sinónima de "ter valor estético" ou como um dos muitos
adjectivos estéticos ao mesmo nível de "sublime" e
"pitoresco", que são usados para descrever a arte e a natureza. Do
final do século XVIII a meados do século XX, as preocupações congénitas dos
estetas têm sido a teoria do estético e a teoria da arte.
Pode
parecer que a teoria do estético se tornou a preocupação dominante dos estetas
e que a teoria da arte e a questão das qualidades estéticas são simplesmente subsumidas
nessa teoria. O conceito de arte está seguramente relacionado em aspectos
importantes com o conceito do estético, mas o estético não pode absorver
completamente o conceito de arte.
As
discussões que faço da beleza, das teorias setecentistas da arte e da filosofia
da arte são, na sua maior parte, desenvolvidas examinando e esboçando as
teorias de figuras históricas. Isto permite ao leitor ter uma ideia sobre as
teorias da arte de, por exemplo, Platão, Aristóteles, Shaftesbury, Kant e, ao
mesmo tempo, ter noção de como os problemas e teorias da estética evoluíram ao
longo da história.
O
tema da estética do século XX será aqui apresentado e dividido em três áreas:
1) a filosofia do estético, que no século XIX substituiu a filosofia da beleza,
2) a filosofia da arte e 3) a filosofia da crítica ou a metacrítica. Esta
terceira vertente da estética foi produzida pelos desenvolvimentos na filosofia
e no pensamento dos críticos de arte (na sua maior parte críticos de
literatura) do século XX. A filosofia da crítica ou metacrítica é concebida
como uma actividade filosófica que analisa e clarifica os conceitos básicos que
os críticos da arte usam quando descrevem, interpretam ou avaliam obras de arte
em particular. O desenvolvimento na filosofia que conduziu à metacrítica na
estética foi a influência generalizada da filosofia analítica linguística, a
qual concebe a filosofia como uma actividade de segunda ordem, que toma como
seu objecto a linguagem de qualquer actividade de primeira ordem. O
desenvolvimento relevante na crítica da arte que conduziu à metacrítica foi a
ênfase renovada que críticos como I. A. Richards e a escola de críticos
conhecida como Nova Crítica1 deram
à importância de se fazer incidir a atenção crítica nas próprias obras em vez
de na biografia do artista e em coisas semelhantes. O surgimento da Nova
Crítica foi importante para o desenvolvimento da metacrítica porque os
conceitos usados pelos Novos Críticos na descrição, interpretação e avaliação
das obras de arte foram adoptados pelos metacríticos (os filósofos) como seu
objecto de estudo. Exemplos de conceitos que um crítico de arte poderia usar
são a representação ("A pintura é uma representação da ponte de
Londres"), a intenção do artista ("O poema é bom porque o poeta foi
bem sucedido ao cumprir a sua intenção") ou a forma ("Esta peça
musical tem a forma de sonata").
Os
representantes da teoria do estético no século XX são os filósofos que usam e
defendem uma noção a que chamam "a atitude estética". Tais filósofos
afirmam a existência de uma atitude estética identificável e que qualquer
objecto, artificial ou natural, relativamente ao qual uma pessoa adopte a
atitude estética pode tornar-se um objecto estético. Um objecto estético é o
foco ou a causa da experiência estética e portanto será também o objecto
apropriado da atenção, da apreciação e da crítica. Nada há na metacrítica, isto
é, na análise dos conceitos usados pela crítica, que esteja efectivamente em
contradição com a teoria da atitude estética. Na verdade, Jerome Stolnitz, que
tem sido um dos mais proeminentes teorizadores da atitude estética, concebe a
estética e apresenta-a no seu livro2 como
a junção da teoria da atitude estética com a metacrítica. Contudo, Monroe
Beardsley, que foi o defensor mais proeminente da metacrítica, desenvolveu toda
a sua teoria sem recorrer à noção de atitude estética.3 Outros
argumentaram explicitamente que a noção de atitude estética é indefensável.4 Examinarei
detalhadamente a teoria da atitude estética no Capítulo 3.
Como
foi mencionado, irei apresentar a estética do século XX dividindo-a em três
áreas: a filosofia do estético, a filosofia da arte e a filosofia da crítica. A
arte e os seus conceitos subsidiários, contudo, são conceitos que os críticos
usam e por essa razão pode pensar-se que são simplesmente conceitos da crítica
e que a filosofia da arte é subsumível na filosofia da crítica. Mas os
filósofos têm manifestado um interesse directo pelo
conceito de arte desde o tempo de Platão, muito antes de ter surgido a ideia da
filosofia da crítica. Se este argumento não for convincente, a independência da
filosofia da crítica e da filosofia da arte é demonstrada pelo facto de alguns
dos aspectos essenciais das obras de arte não serem coisas do tipo que a
crítica possa abordar. Este assunto será discutido em capítulos posteriores.
Recebi
uma grande ajuda na compreensão de todas as fases da história da estética a
partir da obra Aesthetics from Classical Greece to the Present, de
Monroe Beardsley.5 A
minha discussão do desenvolvimento da teoria estética na filosofia britânica do
século XVIII apoia-se substancialmente numa série de estudos incisivos de
Jerome Stolnitz: "On the Significance of Lord Shaftesbury in Mordern
Aesthetic Theory",6 "Beauty:
Some Stages in the History of an Idea",7 e
"On the Origins of "Aesthetic Disinterestedness"".8 A
obra The Beautiful, The Sublime, and the Picturesque in
Eighteenth-Century British Aesthetic Theory, de
W. J. Hipple9, ajudou-me em muitos aspectos. Nos anos que decorreram
desde a publicação da primeira versão deste livro, trabalhei de tempos a tempos
sobre as teorias setecentistas do gosto; esse trabalho acabou por resultar no
meu livro, The Century of Taste: The Philosophical Odyssey of
Taste in the Eighteenth Century.10
George Dickie
Notas
1. Ver I.A. Richards, Practical
Criticism (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1929), The Philosophy
of Rhetoric (Nova Iorque: Oxford University Press, 1965), Principles
of Literary Criticism (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1950), pp. 298fl.;
William Empson, Seven Types of Ambiguity (Nova Iorque:
Meridian Books, 1955): Cleanth Books, The Well Wrought Urn (Nova
Iorque: Harcourt Brace, 1947); e Rene Welleck e Austin Warren, The
Theory of Literature (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1949).
2. Jerome Stolniz, Aesthetics
and the Philosophy of Art Criticism (Boston: Houghton Mifflin, 1960).
3. Monroe Beardsley, Aesthetics:
Problems in the Philosophy of Criticism (Nova Iorque: Harcourt Brace,
1958).
4. Ver Joseph Margolis,
"Aesthetic Perception", The Journal of Aesthetics and Art
Criticism (1960), pp. 209-13, reimpresso in Margolis, The
Language of Art and Art Criticism (Detroit, Wayne State University
Press, 1965), pp. 23-33; e George Dickie, "The Myth of the Aesthetic
Attitude", American Philosophical Quarterly (1964), pp.
56-65, reimpresso in Joseph Hospers, org., Introductory Readings in
Aesthetics (Nova Iorque: Free Press, 1969), pp. 28-44.
5. Monroe Beardsley, Aesthetics
from Classical Greece to the Present (Nova Iorque: Macmillan, 1966).
6. Jerome Stolnitz, "On
the Significance of Lord Shaftesbury in Modern Aesthetics Theory", The
Philosophical Quarterly (1961), pp. 97.
7. Stolnitz, "Beauty:
Some Stages in the History of an Idea", Journal of the History of
Ideas (1961), pp. 185-204.
8. Stolnitz, "On the
Origins of "Aesthetic Desinterestedness"", The Journal
of Aesthetics and Art Criticism (1961), pp. 131-143.
9. Walter J. Hipple,
Jr., The Beautiful, the Sublime, and the Picturesque in
Eighteenth-Century British Aesthetic Theory (Carbondale: Southern
Illinois University Press, 1957).
10. George Dickie, The
Century of Taste: The Philosophical Odissey of Taste in the Eighteenth Century(Nova
Iorque: Oxford University Press, 1966). Ver também o meu "Taste and
Attitude: The Origin of the Aesthetic", Theoria (1973),
pp. 153-170; Capítulo 2 de Art and the Aesthetic, (Ithaca, N.Y.: Cornell
University Press, 1974), pp. 53-77; "Hume's Way: The Path Not Taken",
in The Reasons of Art (1985), (org.) Peter J. McCormick, (Ottowa: University of Ottowa
Press), pp. 309-314; e "Kant, Mothersill, and the Principles of
Taste", The Journal of Aesthetics and Art Criticism (1989),
pp. 375-376.
Tradução de Vítor
Guerreiro
Retirado de Introdução
à Estética, de George Dickie (Bizâncio, 2008)
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