Mortalidade ou imortalidade da alma?

 

Mortalidade ou imortalidade da alma?

 

Questão de crucial significância da vida humana, a mortalidade ou imortalidade da alma anda de mãos dadas com a realidade do ser humano desde os tempos antigos. E hoje ainda existe divergência em torno desta questão.

O problema é de uma amplitude muito vasta. Para iniciarmos o assunto é mister clarear o conceito de alma: Alma é um termo que deriva do latim anima, este refere-se ao princípio que dá movimento ao que é vivo. Mas, o uso do termo pode ter significado variável segundo o contexto e a intenção daquele que faz o uso.

Sócrates no dialogo platônico sobre a alma, Fedro, afirma: "Cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo movido de dentro é animado, pois que o movimento é a natureza da alma" (Fedon 245 e). Desta forma Sócrates afirma que a alma é imortal porque move a si mesma.

"Toda a alma é imortal, porque aquilo que se move a si mesmo é imortal. O que move uma coisa e é por outra movido, anula-se uma vez terminado o movimento. Somente o que a si mesmo se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se e é para as demais coisas que se movem, fonte do início do movimento. O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo que se forma, forma-se de um princípio. Este principio de nada proveio, pois, que se proviesse de uma outra coisa, não seria princípio. Sendo o principio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente coisa que não pode ser destruída. Se o princípio pudesse desaparecer, nem ele mesmo poderia nascer de uma outra coisa, nem dele outra coisa, porque necessariamente tudo brota do princípio. Concluindo, pois, o princípio do movimento é o que a si mesmo se move. Não pode desaparecer nem formar-se, do contrário o universo, todas as gerações parariam e nunca mais poderiam ser movidos”. (Fedro, 245).

Além disso, a alma é simples de tal forma que a imortalidade pode ser decorrente de sua simplicidade. No dialogo o mal é considerado a causa que deteriora e possivelmente a única causa que poderia deteriorar a alma, de forma “que cada coisa é destruída pelo mal e pelo princípio de corrupção que traz em si, de sorte que, se o mal não força para destruí-la, nada mais há que o possa fazer, porque o bem não pode produzir este efeito, nem tão pouco o que não é nem bem nem mal[...].Logo, é evidente que o que não pode perecer, nem por seu próprio mal, nem pelo mal alheio, deve necessariamente existir sempre; e que, se existe sempre, é imortal" (República, 608 e ss.)

Porém, se considerarmos os escritos clássicos podemos perceber uma compreensão diferenciada sobre a questão da mortalidade da alma; Já com Aristóteles, primeiro filosofo que sistematizou a questão da alma, em seu livro Tratado da alma ele faz algumas observações interessantes como: “Talvez seja necessário distinguir primeiro a que gênero a alma pertence e no que consiste, quer dizer, se é uma coisa particular, ou uma substância, ou se trata de uma quantidade ou qualidade, ou ainda se se trata de algo em potência ou em ato. Mais adiante Aristóteles conclui que: “No caso da alma parece que todas as suas afecções pertencem a ela em união com o corpo, tais como a raiva, a timidez, o medo, a piedade, a esperança e até mesmo a alegria, o amor e o ódio” ,ou seja, ”as afecções da alma são evidentemente formas envolvendo matéria”. Portanto a alma não seria capaz de durar separadamente da matéria já que sua expressão se dá apenas na matéria.

A sociedade apresenta boas evidencias para que acreditemos na mortalidade da alma, além disso: Não tenho medo da morte; Estive morto por bilhões e bilhões de anos antes de meu nascimento, e isso nunca me causou qualquer inconveniência (Mark Twain). Se considerarmos que a alma é imortal e também que é a causadora da animação, então ela não deveria ter um começo e desta forma já existiria, pois do contrario não poderia ser imortal devido ao fato de que, o que tem inicio está sujeito a transformações, e não é um principio, e se está sujeito a transformações deixa de ser o que era, e isto, não é mesmo que ocorre com a matéria? Parece que nos aproximamos do primeiro materialista, para Demócrito a alma era material, formada por partículas mínimas e indivisíveis (átomos).

Aparentemente podemos concluir que a alma tem ligações com a matéria o que pode implicar que ela não seja capaz de subsistir sem a mesma. A teoria platônica que sustenta a imortalidade da alma parece ser contraditória, se a alma é imortal ela já existia, então por que não nos lembramos de nada a respeito daquilo que nossa alma “viveu” antes? Se ela sofreu uma transformação então ela é mutável em consequência deixa de ser a mesma e nestes termos se iguala a matéria. Se ela não for dotada de memória pode ocorrer de que ela seja eterna, mas neste caso nós deixamos de ser com a separação alma-corpo, se assim for então nós não “somos nós” antes da alma estar na matéria em conseqüência não seremos depois que ocorrer a separação. Parece que no momento temos mais evidencia para crermos na mortalidade da alma, ou pelo menos, na nossa mortalidade.

 

Diego Durante Mühl

 

 

 

 

 

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