O Absurdo da Competitividade
Artigo de opinião Produzido para a Disciplina de Agronegócio conceitos e Aplicações (2021)
O Absurdo da Competitividade
O que é a competitividade? Por aí, ouvimos falar que a indústria não está competitiva. E concordamos que não podemos manter uma atividade que tenha um alto custo, e não apenas custo econômico, mas social, ambiental. Porém, a competitividade pode se mostrar algoz.
Como exemplo pode-se citar a cadeia tritícola brasileira que não possuí vantagens comparativas e competitivas em relação a cadeia de trigo argentino, que produz com custo operacional menor e isenção em alguns insumos, assim o Brasil torna-se importador de um dos mais populares alimentos consumidos (BRUM; MÜLLER, 2008; JESUS JUNIOR; RODRIGUES; MORAES, 2011).
Alguns defendem que é melhor se especializar em atividades que sejam mais promissoras de acordo com a "vocação" de cada cidade, região ou país. A competitividade pode ser vista como eficiência, ou seja, é a capacidade da empresa converter insumos em produtos com o máximo de rendimento (FERRAZ; KUPFER; HAGUENAUER, 1995). A competitividade é fator importante para a sobrevivência de uma empresa no mercado.
A consequência desse fenômeno é uma constante busca por eficiência redução de custos ou investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologia e novos produtos (FARINA, 2000). A princípio esse fenômeno é ótimo para os consumidores e cria um processo de inovação nas empresas, redução de custos, melhora em eficiência, melhor uso de recursos e assim menor impacto ambiental, etc.
Mas, o lado obscuro da competitividade se apresenta de diversas formas em todos os setores. Se a competitividade obriga o pequeno agricultor familiar a mudar seus hábitos culturais, deixar sua propriedade, isso é positivo ou negativo?
Mas, antes de tudo isso, devemos voltar e compreender o “espírito” do capitalismo, ou seja, uma espécie de ideias e hábitos que favorecem uma procura racional individualista de ganho econômico (WEBER, 2007).
Weber (1864 - 1920) descobriu que a maioria dos "homens de negócios" eram de países com cultura religiosa protestante. A cultura por intermédio da religião vai aos poucos consolidando a ideia de livre iniciativa, propriedade privada e competição. Weber usou frases de Benjamim Franklin para caricaturar a relação entre trabalho e dignidade: “Cedo na cama, cedo no batente. Faz o homem saudável, próspero e inteligente.” ou “A preguiça anda tão devagar, que a pobreza facilmente a alcança.” A cultura religiosa muitas vezes afirma que a vocação do homem é desempenhar suas obrigações no mundo. Assim a religião justifica o estilo de vida de produção, como algo aceitável e conformado como cumprimento do dever individual.
Mas, a competitividade atual já não está mais baseada na produção. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman (2008) ainda não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade movida a crédito e consumo. A competitividade elimina, excluí do jogo o mais fraco. Ainda no raciocínio do sociólogo o mercado altera fronteiras culturais e a própria cultura se torna como um balcão de mercadoria e a vida das pessoas está sobre esse balcão.
Nesse raciocínio entra em cena o conceito de obsolescência. Uma empresa para ser mais competitiva reduz custos de produção, custos na matéria prima. Outras empresas como podemos ver em todos os lados usa o marketing com a estratégia de criar a necessidade de consumo, trocamos o celular sem necessidade, temos nossas casas cheias de produtos que mal usamos.
Nesse ponto a competitividade torna a empresa eficiente, mas o resultado final holístico é ruim. É como queimar toda nossa reserva de combustível fóssil, esperando a escassez aumentar os preços, mesmo sabendo que nos próximos 10 milhões de anos essa reserva não será renovada.
Talvez as gerações futuras olhando para nossa sociedade com maior distanciamento pensarão que fomos idiotas. Competimos uns com os outros quando cooperar seria mais inteligente, gastamos nossas vidas, gastamos recursos importantes com coisas sem sentido, sem saber direito o que estávamos fazendo.
Referencias
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008
BRUM, A. L.; MÜLLER, P. K. A realidade da cadeia do trigo no Brasil: o elo produtores/cooperativas. Revista de Economia e Sociologia Rural, [s. l.], v. 46, n. 1, p. 145–169, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-20032008000100007
FARINA, E. M. M. Q. Organização industrial no agribusiness. Economia e gestão dos negócios agroalimentares : indústria de alimentos, indústria de insumos, produção agropecuária, distribuição, [s. l.], 2000. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/001094051. Acesso em: 27 out. 2020.
FERRAZ, J.; KUPFER, D.; HAGUENAUER, L. MADE IN BRAZIL: DESAFIOS COMPETITIVOS PARA A INDÚSTRIA. [S. l.: s. n.], 1995.
JESUS JUNIOR, C. de; RODRIGUES, L. S.; MORAES, V. E. G. de. Panorama das importações de trigo no Brasil. [s. l.], 2011. Disponível em: http://web.bndes.gov.br/bib/jspui/handle/1408/1602. Acesso em: 20 ago. 2020.
WEBER, M. A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia Das Letras 2007
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