O Agro do Brasil é Mais Pop para o Brasileiro ou Para o Estrangeiro?
Crítica Produzida para a Disciplina de Agronegócio conceitos e Aplicações (2021)
Em meio a pandemia de corona vírus o agro está mais Pop do que nunca. Tirando uma onda no marketing do agronegócio vamos pensar sobre os mercados de alimentos e a segurança alimentar brasileira. A pandemia mostrou que o setor agrícola está descolado da economia brasileira e segue exportando e equilibrando a balança comercial.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) o PIB do agronegócio é um dos poucos que não está sofrendo retração, cresceu +1,2% no segundo trimestre de 2020 em relação ao mesmo período do ano passado. Além do agro, apenas o setor imobiliário (+1,4%), as atividades financeiras e de seguros (+3,6%) e as indústrias extrativas (+6,8%) seguem apresentando crescimento.
Porém, o PIB do Brasil no 2° trimestre de 2020 está sofrendo retração de 11,2%, em relação ao mesmo período do ano passado, o que se reflete fortemente no consumo das famílias brasileiras (CNA, 2020). O agronegócio segue exportando enquanto muitas famílias brasileiras não tem condições de consumir e precisam acessar o auxílio emergencial instituído pela lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020. A partir desse cenário o que podemos pensar?
O Brasil é um grande exportador de matéria-prima, mas a maioria dos brasileiros estão a margem da geração de valor e das cadeias do agro brasileiro. Isso fica obvio quando olhamos para o processo histórico do Brasil, sua industrialização tardia e sua dolorosa modernização da agricultura com capital e tecnologia estrangeiros, com um forte jogo de interesses particulares influenciando as politicas públicas (FAORO; COHN, 2012; NETO; MELO; MAIA, 2010).
Por outro lado, as exportações geram divisas, o que na prática possibilita a importação de diversos produtos industrializados, inclusive tecnologia, o que é muito bom para um país inserido em cadeias globais de valor. Vendemos matéria-prima e compramos produtos industrializados. Nesse caminho, o Brasil se especializa no agronegócio, sua vocação, exporta matéria-prima e importa produtos manufaturados.
Mas, e como ficam os grandes aglomerados urbanos que se geraram em grade parte pelo êxodo rural, processo decorrente da modernização excludente da agricultura e industrialização do Brasil? Se estamos se especializando em exportar matéria-prima para ser industrializada em outros países onde a população de nossas cidades vai trabalhar? Além disso, a produção do agronegócio brasileiro é exportada e balizada pelos preços internacionais. Se a população brasileira perde poder aquisitivo ela pode ter dificuldades para adquirir muitos alimentos produzidos no Brasil.
Portanto, a produção de alimentos no Brasil não é um risco para a soberania alimentar brasileira. Mas, a inclusão das pessoas nas cadeias de geração de valor deve ser avaliada cuidadosamente para sanar desequilíbrios na dinâmica econômica do Brasil. Ou, teremos um futuro paradoxo ao passado: Um campo rico e cidades miseráveis.
A pandemia, esperamos, é um fenômeno particular que deve ser sanado em algum tempo, mas a agricultura para exportação é tradição do Brasil. A desigualdade social e a dinâmica algoz de interesses particulares se sobrepondo a interesses comuns também são parte de nossa história. Duvida? Quer um exemplo disso? Observe as notícias sobre corrupção que são uma fiel demostração de interesses particulares se sobrepondo a interesses do bem comum. Mas, que nada, esse é o jeitinho brasileiro...
Por vezes, parece que o agro brasileiro é mais POP para o estrangeiro, que compra matéria-prima, mas tem uma manufatura organizada e agrega muito valor a sua produção. O estrangeiro que tem capital, financia o agro brasileiro e ganha juros. O estrangeiro que tem tecnologia e a vende para o Brasil. Enfim, essa é a dinâmica dos mercados de alimentos. Quem tem dinheiro? Come! Quem não tem?! Pega emprestado... Paga juros, trabalha, compra tecnologia e se sobrar alimentos ... Também come.
REFERENCIAS
BRASIL. LEI No 13.982, DE 2 DE ABRIL DE 2020. [s. l.], 2020. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/Lei/L13982.htm. Acesso em: 4 set. 2020.
CNA. PIB do Brasil apresenta forte retração por conta do coronavírus. [s. l.], 2020. Disponível em: https://www.cnabrasil.org.br/boletins/pib-do-brasil-apresenta-forte-retracao-por-conta-do-coronavirus-agropecuaria-e-destaque-e-ainda-apresenta-crescimento. Acesso em: 4 set. 2020.
FAORO, R.; COHN, G. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 5. ed ed. São Paulo: Ed. Globo, 2012. (Biblioteca Azul).E-book.
NETO, C. G. A. M.; MELO, L. M. de; MAIA, C. M. Políticas Públicas e Desenvolvimento Rural no Brasil. [S. l.]: PLAGEDER, 2010. E-book.
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