Paciente e doloroso ser humano - Texto de P Pivato, estudado na disciplina de Antropologia Filosófica em 2011
HOMO PATIENS et DOLENS
P.
Pivatto
Introdução
A
condição humana consiste na sua limitação universal de ser, na estrutura
dialética ser/não-ser no próprio sentido do ser enquanto aqui e agora. Tal
limite pode apresentar-se sob três formas: individualização do ser (por ex. sua
historicidade); socialização do ser (por ex. sua sexualidade); fragilização do
ser (por ex. vulnerabilidade e mortalidade.
A condição humana revela um processo marcado por
contradições, lacerações, oposições e negações, ao lado das dimensões
positivas. A história do fazer-se humano se faz por caminhos conflituados que
perpassam as dimensões individual, interpessoal e macro-social. O ser humano é
um paradoxo e uma maravilha sempre em devir e jamais concluída, porém a
presença do negativo lhe parece inextirpável, nas três formas acima indicadas.
A dimensão negativa que lhe parece inextirpável e ressurge em formas
imprevisíveis, aparece genericamente sob as denominações de “mal” e sofrimento.
Em primeiro lugar, é preciso distinguir mal de males. O
termo plural designa, sobretudo, o cumulativo dos males como disfunções,
privações, sofrimentos em geral dos seres. Entre estes, é mister distinguir
ainda entre os males sofridos daqueles infligidos; estes últimos são fonte de
culpa. O mal, no singular, refere-se não só ao conjunto dos males, ou ao
conceito universal e abstrato, mas ao fato global de um sistema em que, ao lado
da presença do bem e do positivo, aparece também a do negativo. No nível da
consciência entrelaçam-se os espaços da atração ao bem e da repulsão do mal.
Precisamente, neste nível e neste confronto é que se torna dramático o problema
geral do sentido de tudo, o sentido geral do viver e de tudo quanto rodeia o
ser humano. O mistério do mal se conecta com a pergunta sobre o significado da
vida e do mundo.
Conviria, aqui, fazer uma análise descritivo-reflexiva
sobre as formas de mal e males que devastam nosso mundo e nosso tempo, tanto na
esfera do ser humano individual, como nas dimensões sociais, políticas e
econômicas, podendo-se perceber como um agravamento do mal. Neste sentido,
seria interessante ver o livro de Konrad Lorenz, O declínio do homem, no qual aparece a seguinte afirmação: “Há uma
degradação no processo da história de hoje, uma espécie de “evolução
demolidora”. Aparece nela, um lento “atrofiamento das qualidades, das
capacidades especificamente humanas”. E isto é sinal portador do “espectro apavorante
da desumanidade”. Pode-se ver também as obras de Lipovetski e Rojas, que
manifestam certo desencanto com o retrocesso ‘humano’ no estágio atual da
humanidade.
Heidegger, no livro Ser
e Tempo, ao analisar a angústia, mostra como o ser humano toca a esfera do
‘nada’, escapa-lhe a base em que sustentar-se. Na angústia, o ser humano faz
como que a experiência de ficar em suspenso, sem base de apoio. Sente-se
ameaçado por todos os lados, como estranho a tudo e a todos. O homem percebe-se
nu e só, no inexorável e indesviável caminhar para a impossibilidade da
possibilidade.
Compreender e
explicar o sofrimento?
Várias são as
tentativas de compreender e explicar o mal/sofrimento. Apresento apenas alguns
esboços, que podem ser aprofundados de acordo com os interesses pessoais.
Nas
narrações de caráter mítico, aparece geralmente uma visão complexa em que
caminham lado a lado admiração pela beleza e harmonia da natureza e do
universo, por um lado, e, por outro, o terrível e o horroroso diante de cataclismos,
pestes, secas, dilúvios, entre outros. O ser humano sente-se pequeno e incapaz
de fazer frente a tais poderes. Freqüentemente, isto vem associado com
interpretações e ritos que se entrelaçam com dimensões de ordem religiosa ou
para-religiosa.
No
pensamento de lastro literário e filosófico, na tradição de origem grega, o
destino humano aparece marcado pelo desejo de alcançar uma harmonia social
ajustada à harmonia de ordem cósmica que ele contemplava e admirava. Nos dramas
de Ésquilo ou de Sófocles aparecem, também, desencanto e tristeza pelo destino
humano. Ficam como desconcertados diante do flutuar da sorte, da brevidade da
vida e da rara presença da felicidade. Parmênides sustenta que ser e bem como
que se equivalem. E como o ser (e o bem) é, conseqüentemente o não-ser não é.
Assim, o mal é apenas aparência e vaidade. Para Sócrates, o mal é ignorância
que leva a praticar atos viciosos. O bem consiste na virtude que deriva da gnôsis ou conhecimento, condição
indispensável para operar o bem. Para Platão, o mal é o aspecto segundo do
múltiplo e do sensível. Faz parte da natureza humana pelo fato de o homem ter
um corpo que é túmulo da alma, portanto, receptáculo do mal. Para Aristóteles,
o mal não é uma coisa entre as coisas, mas a sua potencialidade está na matéria
como não-ser. Por sua vez, o mal moral vai contra o equilíbrio, enquanto
intemperança ou desmedida da alma. O neo-platonismo acentua a tese do mal como
privação do ser, o mal é me-ón(não-ser).
A essência do mal, neste caso, só pode ser o elemento material, cuja libertação
é possível mediante a ascese. A sumária indicação destas tentativas de
compreensão e explicação do problema do mal mostra que o mal é um enigma que
acompanha a caminhada humana ao longo de sua história e dos seus esforços para
compreendê-lo e dominá-lo, na tradição grega.
A
partir disso, há quem afirme que o enigma do mal consiste precisamente no fato
de não se conseguir compreendê-lo, muito menos dominá-lo. Por conseguinte, fica
situado na ordem do mistério que supera as possibilidades humanas.
Na
visão cristã, a revelação de que Deus é amor faz com que a criação seja vista
como obra de amor e obra boa, inclusive a matéria e o mundo. (cf. Rom 8,19) Graças ao monoteísmo, fica
eliminada pela raiz toda consideração de uma duplicidade de princípios (bem e
mal originários). O mal é visto no mistério insondável do homem enquanto
capacidade de liberdade e, nesta liberdade, de dizer não à vida e ao seu
Criador. O mal moral deriva do abuso do dom da liberdade. No entanto, Deus não
abandonou o homem a si mesmo, no desvario da liberdade. O mundo torna-se o
espaço e a história da salvação; contrariamente ao estoicismo e às místicas da
evasão, o pensamento cristão afirma que a salvação não se dá sem mundo,
acontece no mundo e com o mundo, como dom gratuito que, no entanto, faz apelo à
colaboração participativa. Seria interessante avançar, procurando conhecer e
compreender os pensamentos de Agostinho, de Tomás de Aquino, de Boaventura, de
Eckart e outros.
No
pensamento moderno e contemporâneo prevalece a interpretação de caráter
racionalista-ético. Tomemos o exemplo de Kant: na natureza humana há a
coexistência dos dois princípios: o bem e o mal. O ser humano, como ser
paradoxal, revela tendência para ambos: por um lado, tendência à fragilidade, à
obtusidade, à maldade inclinante ao mal; por outro, tendência à vitalidade, à
razoabilidade e à liberdade inclinante ao bem. “O homem tem consciência da lei
moral e, contudo, aceitou afastar-se, por vezes, de tal lei” (cf. A religião nos limites da simples razão).
Kant alia o bem à inclinação da inteligência, e o mal à da sensibilidade.
Aparece aí o efeito do seu racionalismo de caráter ético.
Scheler escreveu um belo texto: O sentido do sofrimento. Escreveu
igualmente sobre a dor, a morte e a
imortalidade. Não dispomos ainda destes textos em língua portuguesa. Busca
conferir um sentido ao sofrimento. Para tanto, distingue o dado do significado.
Existe a dor como um dado objetivo, e existe a dor carregada de significado.
Escreve: “Além da fatualidade cega há uma esfera do sentido e uma esfera da
liberdade, sobre as quais se fundam as doutrinas de salvação.” A suprema forma
de significado coincide com o viver o sofrimento como sacrifício. O sacrifício constitui o conceito mais
formal e mais geral ao qual se pode reconduzir qualquer sofrimento. O
sacrifício entra como alvo supremo de uma escala de valores, em nome do qual se
pode renunciar a valor de ordem inferior para alcançar um superior. Comporta a
renúncia de alguma coisa, por algo mais significativo Este ‘por algo mais’ pode
exprimir todo o amor de alguém, por exemplo, por uma pessoa ou por uma causa. O
amor é indispensável ao sacrifício, do contrário seria prisão e dor maior
ainda.
A
estrutura de ser que tende ao mais ser no processo de amor que envolve o
aspecto sacrifical, é chamada por Max Scheler “ontologia do sofrimento”.
Distingue-se, assim, “a dor da impotência” (a dor experimentada pela pobreza,
pela indigência, pelo envelhecimento) da “dor do crescimento” (por exemplo, a
da dor de parto”. No amor, se pode fazer a experiência paradoxal da alegria da
dor. “Vive-se no mesmo ato a felicidade de amar e a dor pela perda do bem
sacrificado no amor”. Por isso, o sentido da dor é o amor. Segundo Scheler,
este é o ponto discriminante entre a tendência oriental – sobretudo na versão
budista – e a ocidental. A oriental tende
a apagar a fonte do sofrimento que é constituída pelo desejo. A
ocidental, ao invés, tende canalizar o sofrimento e suas fontes para a dimensão
do amor. Historicamente, foi o cristianismo que, de maneira impressionante, com
a idéia sacrifical do próprio Deus em Cristo, o qual assumiu por e com amor o
sofrimento em livre substituição ao homem, conferiu novo sentido ao mal e ao
sofrimento. Ele, Cristo, chamou dor a dor, isto é, um mal para o ser, mas
mostrou também o espaço de purificação, libertação e maturação em função da
felicidade. Escreve Scheler: “Para o homem clássico, que permanece
fundamentalmente eudemonista [...] o mundo externo era sereno e alegre. E,
todavia, reservava-lhe um núcleo profundamente triste e obscuro”, marcado pelo
destino. Ao invés, “para o cristão, o mundo externo é sombrio, noturno e cheio
de sofrimentos. Mas o seu núcleo não é senão bem-aventurança e encanto”.
Gabriel
Marcel elabora uma distinção entre mistério e problema. O mistério diz respeito
à esfera do ser; o problema refere-se às dimensões do ter. O sofrimento, porque
é uma expressão do ser do homem, não pode ser reduzido a um problema; manifesta-se
como uma realidade “metaproblemática” em relação com o sentido da vida e da
história humana, realidade que nos atinge nuclearmente e que não conseguimos
compreender. O ser humano é um inexaurível concreto, é uma “Atlântida metafísica
inexplorável, por definição”. “O homem não é somente uma parte da natureza”,
mas é toda uma natureza à parte, por conseguinte, não é objeto de problema, mas
sujeito de mistério. Assim, o sofrimento é um mistério inexaurível deste
universo particular que é o ser humano. É verdade que a ciência biomédica
objetiva os fenômenos patológicos mensuráveis que emergem no nível do ter
verificável, com instrumentos adequados. Mas, não colhe o sofrimento, pois este
é dimensão insondável humana. Diante desta dimensão-mistério, duas atitudes são
possíveis: fechamento ou abertura. A atitude do fechamento realiza-se no espaço
do egocentrismo do sujeito, que acaba por obstruir a possibilidade de sentido e
leva ao não-sentido do sofrimento. A possibilidade ou não de sentido para o
sofrimento não é imposta nem ensinada, pode sim ser sugerida e apoiada como
busca pessoal intransferível que cria ou reconhece um sentido. A atitude de
abertura, aquela que procura, encontra ou reconhece um sentido para o
sofrimento, não é apenas interpretação subjetiva, mas é reconhecimento de um
sentido que se pode ler na relação do homem com o mistério do Absoluto.
Viktor
E. Frankl – sobrevivente em campo de concentração nazista - escreveu uma obra
notável sobre o sofrimento, com matizes do pensamento existencial, intitulada Homo patiens. Parte do princípio de que
o ser humano tem sede e se alimenta de sentido. Afirma que há não apenas “uma
luta pela existência [...], mas uma luta pelo sentido da existência”. A vida
oferece, em todas as suas dimensões, infindas possibilidades de sentido. Mais:
“o ser humano pode encontrar um sentido também no sofrimento”. Esta é a base da
reflexão sobre o Homo patiens ou patodicea. Sendo assim, o ser humano é
chamado a tornar-se aquilo que é, investindo o imenso capital dos valores que
dão sentido ao ser, viver, conviver e fazer. Além de sapiens e faber, o homem
também é patiens, isto é, capaz de
conferir sentido também ao sofrimento. Para tanto, é mister ir além,
transcendendo a dor em sua dadidade. Na mesma linha de Max Scheler, afirma: “Um
sofrimento dotado de sentido volta-se sempre para além dele mesmo e remete a
algo por cujo amor se sofre”. Não é possível viver sem dar um sentido maior à
vida. Como a vida está impregnada de sofrimento, não é possível que este não
tenha um sentido. Supera-se aqui a visão contida na máxima antiga: primum vivere, deinde philosophari.
Frankl, com base na sua experiência-limite de sofrimento vivida no Lager, sustenta a necessidade
prioritária do sentido, que se impõe à consciência, precisamente por ocasião de
situações paradoxais da existência. Formula uma nova máxima: primum philosophari, deinde mori. O
significado dado ao sofrimento confere dignidade ao sofredor, elevando-o
humanamente.
Mas, donde vem o mal?
Esta é uma
pergunta de caráter metafísico, pertence também à ontologia concreta, como foi
visto em Gabriel Marcel, pois a existência do mal é inegável e universalmente
atestada, parecendo inclusive inextirpável. É no nível da reflexão crítica
sistemática, na área da filosofia, que surgiram tentativas de explicação ao
problema do mal, com alguma argumentação e sentido plausíveis.
Que dizer da tese dualista?
Difícil aceitar a tese dualista – gnóstica ou maniqueia –
que põe o princípio do mal em luta permanente com o princípio do bem. Dois
absolutos – bem/mal – em luta permanente pela hegemonia. Ambos os absolutos
admitem a tese ontológica do ser; a luta se dá no ser. A admissão do mal
absoluto parece contraditória e absurda em si mesma, pelo fato de que o mal é
diminuição de ser para um ser que requer, ipso
fato, certo valor. Não coincide com o não-ser total – neste caso não
poderia haver o princípio do mal – mas se caracteriza como “ser-não” ou
“ser-menos”, comportando conseqüentemente certa limitação na ordem do ser e do
valor. Dito de outro modo, se houvesse o mal absoluto, este deveria coincidir
com a privação absoluta do ser; seria então o nada absoluto. Por outro lado, o
mal absoluto não pode existir, pois destruindo todo o bem destruiria a si
mesmo.
Viria o mal do princípio absoluto do bem?
Agostinho
faz a seguinte reflexão a respeito, no livro De diversis quaestionibus octoginta libris, 21; PL 40, 16), e nos leva a pensar: “De que
modo o não-ser poderia derivar Daquele que é o autor de todas as coisas, da
bondade do qual deriva o ser de tudo o que existe? Tudo o que vem a menos se
afasta do ser e tende ao não-ser. [...] Mas Aquele que não conhece o não-ser
não pode ser causa do vir a menos, isto é, da tendência ao não-ser. Ele é a
causa mesma do ser e causa somente do bem, e por isto é o bem supremo. Aquele
que é o autor de tudo o que existe não é o autor do mal: as coisas, com efeito,
enquanto existem, são boas”. Na base desta reflexão agostiniana está o axioma:
O ato criador é sempre produtor de um ser; e o ser, enquanto ser, é sempre bom.
O mal, enquanto limite e carência, não exige uma causalidade na ordem do ser,
mas só uma razão de não-ser.
Viria
o mal da criatura?
Enquanto
ser, toda criatura é um bem, por isso o mal não faz parte de sua essência. Mas,
a criatura pode ser vista na sua condição existencial histórica e contingente.
Nesta situação histórico-contingente, a criatura pode perceber-se como incapaz
de atingir o objetivo/fim para o qual existe. Enquanto contingente, a criatura
percebe o mal em si mesma, enquanto se desvia do fim a que aspira, porque não
colima os anseios, porque, qual semente que não desabrocha, se fragiliza e
estiola. O mal é comparado a uma fruta madura que azeda e começa a apodrecer. O
mal aparece aqui como ameaça ao ser e como possibilidade de derrota. É como uma
progressiva diminuição do nível de ser até a morte. Trata-se, portanto, da
dimensão metafísica da contingência, que comporta limitação e usura do ser. A
pergunta que procede é a seguinte: Pode a contingência ser tomada como um
absoluto e, por ser contingência, ser origem absoluta do mal?
Devem
ser distinguidos dois níveis no mal: males físicos e males morais. Os males
físicos fazem parte da ordem cósmica: terremotos, inundações, secas, entre
outros; dependem também da responsabilidade humana, como acidentes rodoviários
devidos ao excesso de bebida ou de velocidade, guerras fratricidas, etc. A
estrutura antropológica da corporeidade participa da ordem cósmica, fica
exposta às leis da natureza, onde aparece sua complexidade e fragilidade
existencial. Os males morais intervêm no terreno da liberdade moral, inegável
na dimensão antropológica psico-espiritual. Surge também o risco da angústia,
da náusea e da indiferença, precisamente porque o ser humano tende ao infinito
do ser, da verdade, da beleza e do bem. Mas, desenvolve sua existência cercado
por realidade contingente e marcada pela finitude. Além disto, vive-se
circunscrito no risco da ignorância, da confusão e do desvario. Com sede de
absoluto, de verdade, de beleza e de bem, toma o relativo como absoluto, o
contingente como necessário, o divertente como beleza e o prazeroso como bem.
Assim, fica sujeito a experiências de desilusão, fobias, recalques, depressão,
entre outras. Tem a capacidade de autodeterminação por sua liberdade e fazer
frente ao presente, ao passado, fazendo advir o futuro que deseja semear. A
liberdade torna possível tanto o mal como o bem. O mal, derivado do seio da
liberdade, sem a qual o mundo e a vida perderiam todo sentido, não é um ser em
si, não é dotado de autonomia. O conflito parece fazer parte intrínseca do
viver pessoal e, sobretudo, do conviver social; mas, o conflito, por si mesmo,
não é negativo; ao contrário, faz parte do existir como obra que requer
contínuo confrontar-se consigo, com os outros, donde pode emergir um agir
comunicativo ortopráxico valorativo. Contudo, o conflito pode degenerar em
violência e guerra, como a história atesta, fonte da maior parte dos males,
especialmente da necrofilia.
Mal e sofrimento como Desafio
O
mal é um desafio, a síntese de todos os possíveis desafios. É mister
recolhê-los e enfrentá-los. Sendo o desafio supremo, não se pode fazer de conta
como se não existisse ou desviar o rosto – que já seria uma postura.
Diante
do mal, pode-se tomar a postura do “divertissement”
descrito por Pascal. O termo deriva do verbo latino devertere, que significa: dirigir-se para outra direção, fugir do
problema. Trata-se do homem que se dirige a um sucedâneo, em vez de enfrentar,
conferir um sentido e dar razões de esperança. Assim foge de si mesmo, trai seu
próprio eu, trai os outros e prefere dispersar-se no carpe diem do poeta latino Horácio. Demite-se de sua
responsabilidade que chama a refletir e conferir sentido. Escolhe viver a
existência banalmente, satisfeito no imediatismo, contenta-se com a
mediocridade, sem o gosto do sal e da luz que a sabedoria e o sentido conferem
ao viver assumido e solidário.
Diante
do mal, outros preferem a resignação. Percebe-se
a dramaticidade da presença do mal e do sofrimento na vida em geral, e na vida
pessoal. Mas, procura enquadrar o mal no panorama de um determinismo fatalista,
que pode ir do quietismo ao providencialismo inerte, à identificação com todas
as expressões da natureza, como se o homem fosse uma simples emergência da
mesma e não uma existência única, chamado que foi a dar sentido à natureza.
Diante
do mal, pode surgir também a rebelião. Pode
tomar a forma de contestação metafísica, como a de Albert Camus. Existe a
recusa de tipo ético, como aquela de Miguel de Unamuno que, no entanto, incita
a uma busca constante de sentido em busca de imortalidade. Há também a atitude
quotidiana do grito de desespero, quando o corpo é transido pela presença de um
mal, especialmente se chega de improviso e se mostra sem esperança.
Diante
do mal, pode surgir uma atitude positiva e renovadora – libertação. O mal e o sofrimento podem servir de estímulo que
provocam a busca de um sentido global para a existência. Isto contribui para
passar da vida banal à vida autêntica, responsável diante dos desafios e
fazendo frutificar os próprios dons para si e para a comunidade humana. As
situações-limite têm o dom de apurar o discernimento, com qual se pode ver
melhor a hierarquização dos valores e confrontar-se com eles, distinguindo o
efêmero do imperecível, o vulgar do valioso, o egoístico do solidário, e assim
por diante. Além disso, provocam uma nova tomada de consciência a respeito da
precariedade e do transitório, da autosuficiência e do poder, abrindo novas
perspectivas de humanização de si, na humildade, na confiança e na
solidariedade. Berdiaef analisa a implosão da situação maldosa e a sua kata-strophé: “O mal considerado como
forte e sedutor é um mal invencível. Somente a consciência da sua absoluta
vanidade e do seu tédio pode enfrentá-lo e extirpá-lo desde a raiz. Todo mal
devora a si mesmo, põe a nu seu próprio vazio no seu próprio desenvolvimento
imanente”. De acordo com Scheler, o sentido último do ser está no amor. Um
sofrimento torna-se significativo quando é vivido por amor a uma pessoa ou a
uma grande causa. Ali se realiza uma transformação profunda que vai do sofrimento
ao amor e do amor ao sacrifício, que é um ato de tornar algo sagrado, isto é,
habitado por sentido. Assim, a dor e o sofrimento podem tornar-se libertadores,
sublimadores e indicadores de que o ser humano pode chegar a uma nova e mais
profunda sabedoria que ilumina o itinerário pessoal e social com um sentido
que, mesmo na dor e no sofrimento, ao abrir-se ao novo e transcender-se, se realiza
e plenifica, desde as margens frágeis e contingentes do ser até os horizontes
que transgridem os limites mensuráveis e perceptíveis e, contudo, abarcáveis
pelo desejo de infinito.
NB:
O presente texto apóia-se e inspira-se no livro de PALUMBIERI, S. L’uomo, questo paradosso. Roma:
Urbaniana University Press, 2000, e nos outros textos citados ao longo das
páginas.
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