O Papel Social do Intelectual
O intelectual detém um saber e o exerce segundo princípios e valores essenciais ao ser humano. Enquanto busca a plenitude da vida humana o intelectual articula pensamentos relacionados a dignidade, liberdade e justiça. Assim, diante de algum poder que limite a plenitude da vida humana o intelectual se manifesta como resistência (COSTA, 2011).
Para ilustrar a resistência que os intelectuais exercem na sociedade tomamos como exemplo a obra da filósofa brasileira Marilena Chauí e do filósofo estadunidense John Rawls. Marilena de Souza Chauí é escritora, filósofa, especialista na obra de Baruch Espinoza e professora emérita de Filosofia Política e Estética da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. John Rawls foi um professor de filosofia política na Universidade de Harvard, autor de Uma Teoria da Justiça (1971).
Marilena Chauí pensou sobre a sociedade brasileira. Com outros poucos professores assumiu as atividades acadêmicas necessárias para a preservação do debate intelectual no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, demostrando resistência intelectual contra a ditadura militar do Brasil. Muitas das suas reflexões partem dos acontecimentos cotidianos como destacado na entrevista de Santiago e Silveira (2016):
Eu costumo dizer que o que mais me aflige na sociedade brasileira (para além das desigualdades e exclusões, a ausência de direitos, evidentemente) são duas coisas: o autoritarismo social, isto é, que todas as relações sociais assumam a forma da relação entre um superior que manda e um inferior que obedece; e a ausência de pensamento, isto é, a adesão completa ao que é veiculado e difundido pelos meios de comunicação.
Quando a filosofia se estabeleceu no Brasil o Filoneísmo foi marcante. Era importante haver lido a obra mais recente publicada, mas não se indagava se o leitor havia compreendido o que lera (JOÃO CRUZ COSTA, 2011). Assim, Marilena Chauí se dedicou ao ensino de filosofia e na elaboração de trabalhos como Introdução à história da filosofia estimulando as pessoas da sociedade brasileira a “pensar por conta própria”.
Para Marilena Chauí a conscientização da sociedade deve se iniciar com o professor que deve ser capaz de estimular os alunos a desenvolver o senso crítico. A prática pedagógica deve ser capaz de desenvolver a capacidade de criticar a ideologia dominante, a competição individual, o vencer a qualquer custo (SANTIAGO; SILVEIRA, 2016). Assim pela crítica aos costumes dominantes na sociedade atual, pelo pensamento crítico, pela quebra dos paradigmas estabelecidos é possível sair do estado atual, vencer inúmeras injustiças em direção a uma realização humana mais digna.
O estadunidense John Rawls em sua obra Uma Teoria da Justiça buscou estabelecer um conceito para a justiça equitativa. O filósofo desenvolve seu raciocínio de modo a estabelecer princípios imparciais. Assim o filósofo definiu os princípios de liberdade igual e igualdade democrática. O segundo princípio ainda se ramifica em dois componentes: O princípio da diferença e o princípio da oportunidade justa (FANTON, 2020).
O princípio da liberdade igual implica que a sociedade deve assegurar a liberdade máxima para cada indivíduo. Mas, essa liberdade individual deve ser compatível com a liberdade dos demais. Portanto é a concepção de direitos e deveres fundamentais (FANTON, 2020).
Já o princípio da igualdade democrática teria duas perspectivas. Pelo princípio da diferença as desigualdades sociais e econômicas devem ser ordenadas de maneira que os membros menos favorecidos da sociedade sejam beneficiados. Isso se daria pelo princípio da oportunidade justa, as pessoas deveriam ter cargos e posições em condições igualitárias e justas de oportunidades. Dessa maneira a justiça equitativa é o resultado da busca por um ideal capaz de neutralizar as contingências, circunstâncias sociais e biológicas (FANTON, 2020).
De fato não é uma tarefa fácil deixar de lado a competição que como seres humanos criamos uns contra os outros para abraçar o princípio de justiça equitativa. Não é uma tarefa fácil estabelecer a plenitude da vida humana, até porque não há uma definição para isso. Mas, no Brasil podemos tomar como exemplo o trabalho de Marilena Chaui. Uma mulher intelectual, entre poucas de nosso país, que em seu trabalho e obra busca desenvolver a consciência crítica capaz de promover a mudança, mesmo que lenta, em direção a dignidade, liberdade e justiça.
Referências
COSTA, E. G. de M. O papel dos intelectuais na América Latina. Caligrama: Revista de Estudos Românicos, [s. l.], v. 9, n. 0, p. 29–56, 2011.
FANTON, M. Rawls’s Point of View: A Systematic Reading of Justice as Fairness. Brazilian Political Science Review, [s. l.], v. 14, 2020. Disponível em: http://www.scielo.br/j/bpsr/a/x6QBwBZxYLFM6WGg6Trhrjy/?lang=en. Acesso em: 4 nov. 2021.
JOÃO CRUZ COSTA. Trans/Form/Ação, [s. l.], v. 34, p. 107–115, 2011.
SANTIAGO, H. S.; SILVEIRA, P. H. F. Percursos de Marilena Chaui: filosofia, política e educação. Educação e Pesquisa, [s. l.], v. 42, p. 259–277, 2016.
Protocolo: 2021110437981563DC26216A24
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